Narrativa em abismo: as histórias feitas de histórias

As narrativas em abismo são recursos muito populares, com os quais temos contato o tempo todo, nas mais variadas mídias. No entanto, são poucas as vezes em que de fato tomamos conhecimento de que esses abismos estão lá, nos envolvendo. Hoje nós vamos dissecar esse conceito, não só para que você saiba identificá-lo mas também para que possa usar essa poderosa ferramenta em suas próprias histórias.

Fonte: triciagosingtian.com - Reprodução

Fonte: triciagosingtian.com – Reprodução

O termo surgiu a partir do francês “mise en abyme, criado em 1893 pelo escritor André Gide, vencedor do Nobel de Literatura. Gide, na época, não falava especificamente de livros: a expressão fazia referência a qualquer “trabalho dentro de um trabalho”, qualquer mídia que trouxesse mídias de mesmo tipo aninhadas em sua estrutura.

A primeira aplicação deste conceito pode ser encontrada na heráldica, a arte de criação dos brasões. Veja que no exemplo abaixo, temos a repetição do padrão principal nos espaços interiores da peça. É a mesma sensação infinita de estar de pé entre dois espelhos, contemplando suas intermináveis reflexões.

Fonte: Wikipedia - Reprodução

Fonte: Wikipedia – Reprodução

Para quem não sabe (eu mesma só fiquei sabendo agora), antes de um brasão ser desenhado, ele primeiro é descrito em um documento em ordem e linguagem específica. Só então ele é traduzido para sua forma visual. Por isso, a heráldica dos brasões em abismo pode ser encarada como uma narrativa dentro de uma narrativa.

Porém, apesar do brasão ser um exemplo chave para compreender o que é uma narrativa em abismo, podemos encontrar esse recurso em praticamente qualquer tipo de mídia.

Nas artes plásticas, é comum encontrarmos pinturas que fazem referência ao próprio autor, ou que trazem outras obras escondidas entre suas pinceladas. Um quadro que mostra uma dama segurando seu próprio quadro favorito é um ótimo exemplo de uma narrativa aninhada.

 

Fonte: Pinterest - Reprodução

Fonte: Alex Alemany – Reprodução

No Cinema, temos um bom exemplo no clássico Pânico: no filme, temos a história de atores que também gravam um filme. Outro exemplo é Titanic, que coloca uma Rose velhinha para nos contar sua própria história. Ao longo do filme, as duas personas de Rose se intercalam, nos fazendo transitar entre as camadas narrativas. Mais recentemente, vimos a mesma coisa no belíssimo A Vida de Pi.

Nos videogames, temos os minigames e missões especiais escondidas dentro de um enredo maior, e no teatro, temos aclamadas peças que encenam outras peças, como Hamlet.

Antes de continuar, é importante dizer que existe certa discussão quanto à utilização dos termos. Alguns defendem que o termo narrativa em abismo deve ser aplicado apenas quando temos uma repetição específica (como a metáfora do espelho), onde o mesmo objeto se repete dentro de si. Já a narrativa aninhada faria sentido quando temos a mesma mídia se repetindo, porém com temáticas diferentes. Como achei muitas contradições nas minhas pesquisas, vou partir do ponto de que estamos falando aqui de qualquer tipo de repetição artística, ok?

Então chegamos, finalmente, à Literatura. Qual o sentido de utilizar histórias dentro de histórias e como o autor se beneficia disso?

A principal utilidade da narrativa em abismo é traçar paralelos com o enredo principal. Cada camada pode ser encarada como uma releitura, uma sátira ou um simbolismo do que o leitor acompanhará nos outros níveis. Elas adicionam novos sentidos na estrutura, e podem servir para deixar aquela “pulga atrás da orelha” do público, incutindo algumas ideias em nosso subconsciente.

Ou seja, quando Tolkien utiliza a tragédia de Beren e Luthien como um subtexto para o amor de Arwen e Aragorn, ele está adicionando camadas de simbolismo e significação ao relacionamento do casal. Mesmo que não tenham vivenciado aquilo, atribuímos aos personagens o mesmo sofrimento e  dramaticidade de Beren e Luthien. Quando afirma que Arwen é considerada uma reencarnação de Luthien, ele amarra para sempre as duas narrativas.

Fonte: kimberly80.deviantart.com - Reprodução

Luthien e Beren. Fonte: kimberly80.deviantart.com – Reprodução

Quando Uhtred, herói das Crônicas Saxônicas, acrescenta opiniões atuais às suas memórias do passado, os fatos apresentados mudam de forma: passamos a olhá-los de outra maneira.

“Era um nome britânico, claro, e na língua inglesa significava asno. E mais tarde sempre pensaria nele como o Asno. E haveria muitos mais tardes, já que, mesmo não sabendo, eu acabara de conhecer um homem que incomodaria minha vida como um piolho.”

Do mesmo jeito, o Conto dos Três Irmãos é peça chave para dar ao clímax de Harry Potter a profundidade necessária. Esta pequena história aninhada é responsável por amarrar Harry, Dumbledore e Voldemort numa trama muito mais complexa, bem debaixo do nosso nariz. O mesmo fez Brandon Sanderson em Mistborn, com os relatos do Herói das Eras intercalados a cada capítulo. Sem eles, teríamos uma menor compreensão sobre Vin e Kelsier, e também não conseguiríamos criar certa empatia com o Senhor Soberano, mesmo que este seja um antagonista.

O Conto dos Três Irmãos. Fonte: Arte conceitual do filme - Reprodução

O Conto dos Três Irmãos. Fonte: Arte conceitual do filme – Reprodução

E se até aqui demos apenas exemplos de abismos formados por dois níveis, é bom lembrar que as possibilidades são ilimitadas. Em Sandman temos diversas histórias aninhadas umas dentro das outras, além de vários outros paralelismos. No premiado filme A Origem, não só temos múltiplos níveis de enredo como também somos levados a refletir sobre os limites e interligações de cada um deles, numa análise da própria narrativa em abismo.

Agora que você já conhece o conceito, tente identificar o recurso nas histórias que você encontrar, tentando perceber qual a intenção do autor. Será que ele quer provar um ponto de vista? Ou deixar você no humor certo para julgar um determinado personagem? Ou ele satiriza a própria obra?

Esse é um ótimo exercício não só para conhecer melhor seus livros favoritos, mas também para aprender como aplicar essa poderosa ferramenta de um jeito bacana. Essas bonequinhas russas da narrativa em abismo são um tesouro precioso, pois revelam riquezas que vão muito além da superfície…

Fonte: @curiousmoth - Deviantart - Reprodução

Fonte: @curiousmoth – Deviantart – Reprodução

Para saber mais:

1 – The Mirror in the Text

2 – Narrative Structures: The Nested Narrative, Or Story Within A Story

#LendoSandman – Vidas Breves
#LendoSandman – Fim dos Mundos

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