O dia em que Neil Gaiman mudou mais um pouquinho da minha vida

O texto a seguir pode conter spoilers de: O Oceano no Fim do Caminho. Depois não diga que eu não te avisei…

Neil Gaiman é um daqueles caras que mais do que contar uma boa história, sabe como fazer você refletir sobre elas. De um jeito que muda sua percepção sobre o mundo, sobre si mesmo, para sempre. São poucos os autores que conseguem causar essa sensação. Uma emoção dolorida que atravessa o peito quando a gente vira a última página. Que deixa a gente com olhos vidrados e pensamento longe por dias a fio. São poucos, mesmo. Talvez apenas Pullman consiga igualar o sentimento que Gaiman desperta em mim com seus livros.

(Pullman, seu desgraçado, você me fez chorar em posição fetal por mais de uma hora!)

Fonte: journal.neilgaiman.com - Reprodução

Fonte: journal.neilgaiman.com – Reprodução

O Oceano no Fim do Caminho é um livro curtinho, daqueles pra ler num fôlego só. Já estava com ele na estante faz um tempinho,  e aproveitei uma sala de espera de consultório pra iniciá-lo. A noite já ia alta quando terminei, incapaz de largar o bendito do livro.

O Oceano no Fim do Caminho é o primeiro livro de Gaiman voltado ao público adulto desde a publicação de Anansi Boys, num hiato de quase dez anos. Fiquei sabendo também pelo Coruja em Teto de Zinco Quente que a história se passa no mesmo universo de Deuses Americanos, e que quem já leu este último vai se sentir familiarizado com alguns pontos e mitologias (infelizmente, não foi o meu caso).

A história acompanha o ponto de vista de um homem, na faixa dos seus 50 anos, que volta à casa onde passou sua infância. O homem segue pelas ruas que percorria ainda menino até encontrar a velha fazenda das Hempstock, onde, sentado à beira de um pequeno lago, vê suas memórias de 7 anos de idade rebrotarem.

O primeiro toque de mestre de Gaiman aparece em seu personagem principal. Em momento algum do livro é mencionado o nome do protagonista. Ele é apenas “o garoto”. Aliado à narrativa em primeira pessoa, o livro provoca um sentimento irresistível de empatia. Estamos muito próximos ao garoto, e como ele não possui uma identidade própria que delimite seu ser, o garoto é também um pouco de nós mesmos. É fácil se identificar, se apegar e sentir na pele. Para quem escreve, é um doce lembrete de que criar um personagem crível é algo bem além de simplesmente imaginar seu contexto, com nome, idade e cor de cabelo.

“Eu não era uma criança feliz, ainda que, de vez em quando, ficasse contente. Vivia nos livros mais que em qualquer outro lugar.”

O livro segue com um ritmo sombrio, melancólico (lembrei bastante de Coraline). A vida do garoto, tímido e introspectivo, possui seus momentos felizes, mas parece estar sempre embrulhada numa névoa de insegurança. Sabe aquela memória que a gente tem de algum momento da infância, que não é que seja ruim, mas nos causa um pouco de angústia? É mais ou menos isso.

O garoto tem família, tem casa, tem um quintalzão pra brincar. Mas cada pequeno detalhe de cotidiano é exposto de um modo incômodo. Fiquei particularmente encantada em como Neil Gaiman consegue nos deixar com sentimento de desconforto usando simplesmente uma pia. Uma pia! O que tem de assustador numa pia?

O Oceano no Fim do Caminho é uma aula sobre terror. Ou pelo menos, sobre como não precisamos de muito sangue e serras elétricas para fazer alguém arrepiar os pelinhos do braço. Na cena em que o garoto retira um pequeno verme do pé, cheguei a me contorcer na cadeira. Não é uma cena que envolve dor, gritos, emoção. É apenas uma descrição, o garoto nem mesmo está com medo. Mas a adição de elementos-chave causa todo o efeito.

Fonte: vam.ac.uk - Reprodução

Fonte: vam.ac.uk – Reprodução

Pinça, banheiro, pia, torneira, ralo. Palavras que evocam sensações. O frio, a umidade, o silêncio. Se estivermos num clima tenso, são palavras que puxam lembranças de experiências científicas e hospitalares. No clima certo, o banheiro se torna um lugar asqueroso, algo que lembra exatamente o oposto de higiene. E nesse mesmo clima, a aparente calma do garoto em enfiar uma pinça no pé para puxar um verme se transforma numa apatia quase psicótica. Pronto, você já está lá se contorcendo em agonia.

“Quando a água ficou escaldante, estiquei a perna e o braço direitos, mantendo a pressão na pinça e nos poucos centímetros de criatura que eu havia enrolado para fora do meu corpo. Então coloquei o pedaço preso com a pinça debaixo da torneira quente.” 

Não é a cena em si, mas o clima que determina o grau de terror. Note como em The Graveyard Book, um livro também de Gaiman cuja temática fala sobre assassinato, cemitérios e fantasmas, o clima é bem mais agradável, mais leve. Ou seja, não basta um serial killer pra fazer terror. Terror é como dar aquela sopradinha atrás da orelha de algum desavisado. E embora o terror de Gaiman não seja muito pesado, ele o faz com muita classe.

Em O Oceano no Fim do Caminho, temos poucas respostas para diferenciar o que é sonho e o que é realidade. Como lhe é característico, Gaiman costura a fantasia ao mundo real sem se preocupar com questionamentos. Um gato pode sair de debaixo da terra como uma batata e não tem porque ficar pensando nisso, oras. O livro segue em tom de sonho, embora esteja mais pra pesadelo.

Mas o que realmente me deixou com cara de panaca e olhar vidrado pelos próximos dias foi a naturalidade com que Gaiman descreve uma criança. Nosso protagonista é como poucos.

Fonte: mateiotedio.com.br - Reprodução

Fonte: mateiotedio.com.br – Reprodução

Ok, estamos carecas de ver personagens crianças, nenhuma novidade. Mas são crianças um pouco distantes de nós, já crescidos. Ou são bobinhas demais, ou tem um comportamento mais maduro que o normal (Harry Potter, por exemplo), ou simplesmente não são emocionalmente exploradas a fundo no enredo. Mas não Gaiman. O garoto de Gaiman tem uma forma de pensar, agir e perceber o mundo ao seu redor que é tão autêntica, tão verdadeira, que você realmente se pega relembrando de coisas da sua infância, de como funcionavam seus mecanismos de raciocínio quando você tinha apenas 7 anos. E isso emociona demais.

Por exemplo: ao ver o pai trair a esposa com a governanta, embora saiba que é errado, o garoto não consegue ainda perceber as implicações morais disto tudo. Claro, ele ainda não tem idade para processar traições, desejo sexual ou o matrimônio. Mas ele consegue perceber algo errado, aquela cena o marca de uma forma única, algo que o assombrará até a idade adulta. Gosto também como a mente das crianças focam em pequenos detalhes, em vez de apreender a cena inteira. Como o garoto presta atenção na mão do pai sobre a cintura da governanta. Já vi vários trabalhos sobre crianças que sofreram abusos e que, ao desenhar seu agressor, focam apenas em uma característica que lhes causa medo, como um boneco de mãos enormes, ou com um zíper de calça exageradamente detalhado. Gaiman consegue apreender essa percepção infantil sobre algo errado.

“Vi quando a mão livre do meu pai, a que não segurava minha irmã, desceu e parou, como quem não quer nada, numa atitude típica de dono, na curva do bumbum coberto pela saia mídi de Ursula Monkton.”

Outro ponto: ao longo do livro, com nossos olhos de adulto, podemos perceber como o garoto sofre traumas nas mãos de vários personagens, desde o atropelamento de seu gato, a omissão da mãe e a traição do pai. Porém, é na irmã que o garoto enxerga seu pior familiar. Ela é implicante, ri dele, só pensa em beleza e o obriga a dormir com a porta fechada. Os pais, em sua mente, continuam figuras de autoridade, heróis, pessoas com quem o garoto realmente se importa. E essa é uma percepção bem engraçada, de como as crianças pequenas muitas vezes não conseguem captar os danos causados a elas, embora o trauma permaneça lá, escondido. Pelo que podemos ler nas entrelinhas, o homem adulto que revisita a casa da infância possui várias paredes emocionais que o separam dos pais, mas não da irmã.

A própria forma como ele enxerga a verdadeira natureza de Úrsula Monkton e a trata como monstro, recebendo a reprovação do pai é um tapa na cara da sociedade. Quantas vezes uma criança inexplicavelmente não vai com a cara de alguém? Será que não vale a pena interpretar seu mundo de fantasias em busca de algo palpável para explicar a aversão? E quantos de nós não temos aquela lembrança esquisita da infância, do tipo “eu tinha medo da cadeira de balanço da minha avó” ou “odiava receber beijos do tio Fulano”? As fantasias infantis são distorções da realidade, mas algum elemento estava lá presente. A criança vê monstros que os adultos não tem mais a capacidade de enxergar.

(Não que isso signifique que a cadeira da vovó era algo terrível. Pode ser que a criança tivesse simplesmente presenciado uma briga enquanto alguém estava sentado lá e a imagem permaneceu no subconsciente. Mas na dúvida, é sempre bom ouvir as crianças. Elas podem não entender, mas elas percebem.)

Fonte: Pinterest - Reprodução

Fonte: Pinterest – Reprodução

Por outro lado, as Hempstock simbolizam tudo aquilo que há de bom numa família. Elas são aparentemente malucas, não seguem a estrutura da “família tradicional brasileira”, tem hábitos esquisitos e nem mesmo são desse mundo. Mas possuem amor, compreensão, passagem de conhecimento e ouvidos sempre disponíveis, não importa a idade. É onde o garoto mais se sente acolhido e seguro. Outra grande lição de Neil Gaiman.

“Eu me senti seguro. Era como se a essência do que é ser uma avó tivesse sido condensada naquele lugar, naquele momento.”

Num viés mais leve, gosto também como Gaiman insere outros elementos infantis com os quais podemos nos identificar. Os cálculos absurdos de dinheiro (quantas balas posso comprar?) e a felicidade de ler os livros dos pais, textos que com certeza uma criança de 7 anos só entende pela metade. Como leitora mirim que tentou ler O Conde de Monte Cristo junto dos gibis da Mônica, não pude deixar de sorrir. 

Pesquisando sobre o livro na internet, vi uma boa dose de comentários negativos, dizendo que a obra não tem pé nem cabeça e que a ação é muito bobinha. Especula-se se o livro é autobiográfico, se o garoto imaginou tudo, se as Hempstock realmente existiam. E claro que cada um tem o direito de ter sua própria percepção, mas sinceramente acho que a fantasia e a ação estão longe de ser o cerne deste livro. O Oceano no Fim do Caminho, é como o lago de Lettie Hempstock, é algo pra ler além das aparências, nas entrelinhas. Algo pequeno com uma profundidade escondida. Acho, inclusive, que foi a primeira vez que uma recomendação de verso de capa foi tão certeira:

“Uma fábula que nos lembra como nossa vida é ditada pelas experiências da infância. O que ganhamos com elas e o preço que pagamos” – Kirkus Reviews 

Gaiman provavelmente mudou a forma como eu vejo a infância, como eu vejo a saudade da infância. Escreveu um livro muito amargo e também muito doce. E também me provou com todas as letras que um oceano, oceano mesmo, pode muito bem caber em 200 páginas.

Fonte: GoodReads - Reprodução

Fonte: GoodReads – Reprodução

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