O livro enquanto experiência de leitura

Aqui no TBS, de vez em quando tem resenha, de vez em quando tem técnicas de escrita. Mas às vezes a gente também conversa e faz umas listinhas. Hoje é um desses dias.

Fonte: Claire Hummel – Tumblr – Reprodução

Toda vez que ouço falar na guerra entre livros físicos e ebooks (e, olha, eu escuto isso todo santo dia), me pego pensando sobre como essa competição é rasa. E besta. É rasa porque ela resume um livro somente à história que ele carrega. É besta porque a gente ignora realidades diferentes das nossas. Mas vamos desenvolver melhor esses argumentos contando uma historinha pessoal:

Ano passado comprei um Kindle (eu sei, eu merecia uma placa de fã número #1 da Amazon). Mas não foi uma decisão fácil. Eu, a amante ferrenha dos livros físicos, tive de admitir que os ebooks me trariam benefícios.

Como o blog estava crescendo, era preciso manter um ritmo constante de leituras. Isso significava adquirir inúmeros livros por ano e também carregá-los comigo para todo lugar o tempo todo. Só que eu não tinha condições financeiras ou mesmo logísticas para tanto (ainda mais que sou uma daquelas chatas perfeccionistas que não pode nem colocar um livro na bolsa porque tem medo de amassar as pontinhas da capa). Cansada de carregar livros por aí como se fossem bebês de colo, me rendi à tecnologia. Veio o tal do Kindle.

Ainda sou fã do formato físico, mas é preciso dizer que o Kindle adequou-se super bem às minhas necessidades. Ele preencheu um nicho, uma demanda que existia e que não podia ser atendida pelos meus amigos da estante. Acostumei fácil com a leitura no dispositivo e, se não tenho o cheirinho e o toque aveludado das páginas, ao menos posso andar por aí com mais conforto e menos despesa. Você perde aqui mas ganha ali.

Opa, então quer dizer que o digital equivale ao físico? Que os ebooks vão matar os livros? Que a Fernanda acha que é tudo a mesma coisa? Segurem seus post-its coloridos e suas coleções de marcadores porque nós vamos à guerra!

Fonte: Tumblr – Reprodução

Calma. Muita calma.

Ebooks e livros físicos só são comparáveis enquanto cápsulas, enquanto meios de transmissão de um conteúdo. Eles são mídias diferentes para te entregar uma história. A história, essa sim, é o miolo da coisa. Se estivermos pensando somente na história (um apanhado de palavras com o propósito de te tocar emocionalmente), então ebooks e livros são equivalentes. É tipo escolher um meio de transporte: se o seu objetivo é ir da sua casa até a Europa, todos eles te levarão ao mesmo lugar. Escolha o mais barato/rápido/que te dê menos medo e tá tudo certo.

Só que, assim como um meio de transporte, um livro não é só isso. Existe uma coisa chamada experiência de leitura que precisamos levar em consideração. Ir de navio para a Europa é completamente diferente de ir de avião, mesmo que você acabe chegando no mesmo resultado. E apesar de ser indiscutivelmente mais barato, não é todo mundo que topa rodar o mundo pedindo carona para desconhecidos. Embora tenhamos a mesma história, a experiência de leitura é completamente diferente num livro e num e-reader.

Fonte: Business Insider – Reprodução

Não fui só eu que notei isso, não sou um floquinho de neve especial. As editoras também decidiram apostar alto na experiência de leitura. É por isso que caixas temáticas, edições de colecionador e capa dura estão fazendo tanto sucesso: porque além de uma boa história, o livro físico precisa vender a sua experiência. Ebooks são mais baratos não só porque custam menos para a indústria, mas também porque apresentam uma experiência de leitura padrão e imutável.

Para quem tem, ainda, em pleno 2017, medo de que os ebooks representem o fim do livro em papel, vou usar exemplos das três editoras parceiras do blog (e de quebra fazer aquele jabá, porque né…):

– A Leya lançou o box com a primeira trilogia de Mistborn. Teve inclusive o cuidado de ajeitar as lombadas para que o selo da editora fosse o mesmo nos três livros. Você acha que a prioridade dela é vender ebooks?

– A DarkSide não trabalha com livros digitais, ao menos não por enquanto. Isso porque a editora não está interessada apenas em vender histórias, mas um pacote de experiência de leitura completo. É por isso que o design das capas é feito com tanto cuidado, é por isso que ela envia seus exemplares em plástico bolha preto. Você está adquirindo bem mais que uma história (é tipo ir ao cinema ao invés de assistir o filme em casa).

– A Arqueiro lançou recentemente o Quarteto Smithe-Smith, da Julia Quinn. Lançou os quatro livros de uma vez, com brindes, carta da autora e caixa de acabamento aveludado. Essa preocupação toda indica que o livro é a mesma coisa do ebook?

E na livraria nóis fica como? Fonte: Tumblr – Reprodução?

Esse fenômeno da “gourmetização do livro” já apareceu por aqui antes, num dos primeiros posts que escrevi para o blog. Na época, eu comentava como as editoras estavam apostando em edições luxuosas e recheadas de extras para garantir a venda dos físicos, atraindo principalmente os fandoms de grandes sagas.

Mas achei por bem repetir tudo isso, uma vez que a minha percepção mudou de lá pra cá… Não penso mais que o fenômeno da gourmetização englobe tudo o que está acontecendo. Ele é apenas uma das muitas estratégias que mostram que tanto ebooks quanto livros físicos estão trabalhando a pleno vapor.

Outra historinha pessoal:

Com o Kindle em mãos, passei a comprar livros físicos de forma diferente. Se antes eu comprava tudo o que gostaria de ler (miolo), agora eu compraria apenas o que eu queria ler com uma experiência diferenciada (miolo + cápsula). Livros que não seriam a mesma coisa em um e-reader. O resto, vai de ebook mesmo, a não ser em casos especiais: livros provenientes de parcerias ou presentes.

(Vale lembrar que isso não tem nada a ver com a qualidade da história, hein? Muitas das minhas obras favoritas dão excelentes ebooks e eu li Sandman inteiro na tela do computador.)

Fonte: Tumblr – Reprodução

Bem, com o novo método de compra, descobri que a experiência de leitura não termina no livro, e que ela não é apenas a leitura em si. A experiência começa desde a aquisição na loja e perdura para sempre.

Por exemplo, comprei um exemplar de O Aprendiz de Assassino porque a Robin Hobb me deixou muito impressionada com seu conto em Mulheres Perigosas. Acabei requisitando um autógrafo, e, ao recebê-lo, considerei ser uma pena não colocá-lo dentro de um livro solo da autora. A minha experiência de leitura começou com uma contracapa autografada, com a satisfação de mandar mais centavinhos de direitos autorais para a Robin. Acho tudo isso muito incrível porque é um exemplo pessoal de que a opinião de Neil Gaiman e Brandon Sanderson sobre a pirataria está no caminho certo: as pessoas gostam de apoiar os escritores, elas querem pagar pelos livros. Elas só recorrem à ilegalidade quando não possuem condições de comprar tudo o que desejam. E se elas não possuem condições…porque privá-las do acesso?

Fonte: Tumblr – Reprodução

(Mas isso é assunto para outro texto.)

Da mesma forma, comprei O Mundo de Gelo e Fogo. Acho que esse livro nem existe em formato digital, mas, mesmo se fosse o caso, eu nem consideraria a possibilidade de lê-lo no Kindle. Além de ser um livro de consulta, algo que vou espiar esporadicamente e sem ordem definida, a depender da demanda, eu o considero uma peça de decoração. Queria colocá-lo na mesinha da sala, para sempre lembrar de uma das minhas séries favoritas. Então a minha experiência de leitura passa pela criação da identidade do meu lar.

Descobri ainda outros dois livros que, sem brincadeira, não podem ser adaptados para ebooks. Simplesmente não podem, ao menos não com a tecnologia que temos hoje. São eles:

S. (J.J. Abrams e Doug Dorst):

Acho que S. surgiu como um desafio, porque ele é a própria experiência de leitura nascida e encarnada em um livro. Acho que os autores estavam mesmo querendo provar por A+B que um livro não pode ser resumido à história que contém. Num resumo rápido, S. é um livro dentro de um livro. No primeiro plano, contará a aventura de um explorador, transcrita de modo tradicional. Em segundo plano, contará a história de duas pessoas que estão lendo simultaneamente sobre a aventura deste mesmo explorador. São notas de rodapé escritas a mão, trechos destacados, guardanapos e fotos inseridas entre as páginas e mais um monte de coisas que te deixam maluco só de abrir o livro. É como encontrar um livro usado numa biblioteca e poder inferir a história que ele carrega. Até existe a versão ebook dele para venda, mas eu desaconselharia fortemente.

(Ainda não tive coragem de atacar S.: sinto que ele vai exigir muito da minha pessoa por questões de densidade. Por enquanto a gente só flerta lá da estante. Mas podem aguardar que vai ter resenha sim. Eventualmente.)

A Rosa e O Espinho (Theodora Goss):

Outro que ainda aguarda na fila de leitura, A Rosa e O Espinho também falará sobre dois leitores, só que agora teremos uma história de amor. O livro é impresso de forma sanfonada, o que significa que é possível ler tanto de um lado quanto do outro (fica mais fácil de entender com o vídeo). Cada lado conta a história do ponto de vista de um dos amantes: de um lado Evelyn, do outro Brendan. E você lê do jeito que quiser.

Aliás, tanto sobre S. quanto sobre A Rosa e O Espinho, tenho visto muitos comentários do tipo “qual a melhor maneira de ler” ou “qual o jeito certo de ler”. Gente, por favor, vamos parar com isso… Estes livros foram CRIADOS para fornecer experiências de leitura individuais. Então sabe esse jeito certo que você tá procurando? Ele não existe, tá bem? :)

Até agora, falei muito sobre porque não devemos comparar ebooks e livros quanto ao seu miolo. Falta a gente comentar sobre como é injusto comparar as suas necessidades com a de todos os outros leitores.

Tem gente que possui uma biblioteca e tem gente em cujo quarto mal cabe uma cama. Tem gente que só lê em casa e tem gente que não tem casa porque gosta de viver viajando pelo mundo. Tem gente com poder aquisitivo para comprar edições de luxo. Tem gente que só tem acesso aos best-sellers através de PDFs piratas. A sua realidade enquanto leitor é única, e a das outras pessoas também.

Fonte: @M0THart – DeviantArt – Reprodução

Então não seria bacana se tivéssemos mais e mais instrumentos para promover a leitura? Não seria bacana se o acesso ao livro pudesse ser feito em mais de uma maneira? Será que ao longo da vida as suas necessidades não podem mudar?

Vamos tentar não nos prender tanto a um lado da moeda: isso aqui não é uma guerra. Ninguém vê só televisão ou só cinema, você não precisa excluir o carro só porque comprou uma bicicleta. O Kindle veio para mim porque prezei por economia e portabilidade nesta fase da vida. E foi uma das melhores decisões que já tomei.

Entre um e outro, decidi ser híbrida. O mercado, as editoras e as próprias histórias já são. Por que com a gente seria diferente? Afinal de contas… é para tudo isso ser divertido, certo? Pegue a sua experiência de leitura e tire proveiro dela, faça o melhor que você puder. Você não está errado.

Porque Abominação não é nada do que você imagina (+SORTEIO)
Caçador em Fuga: um livrão do tamanho do seu bolso

Comentários:

Loading Facebook Comments ...