O marketing dos dinossauros

O texto a seguir pode conter spoilers de: Os Senhores dos Dinossauros. Depois não diga que eu não te avisei…

Terminei a leitura de Os Senhores dos Dinossauros, livro de Victor Milán publicado aqui no Brasil pela Darkside. E espero que estejam todos confortáveis, porque esse post vai ser um daqueles beeem longos (por isso não vou me estender com a sinopse, mas você pode dar uma olhada nessa resenha do Desbravando Livros para ter uma ideia).

Fonte: zenoagency.com - Reprodução

Fonte: zenoagency.com – Reprodução

Vocês não imaginam o tamanho da minha empolgação ao tomar conhecimento da existência desta obra. Fui uma criança que colecionava dinossauros de plástico com dedicação, decorando o nome das espécies e sua distribuição geográfica. Perdi as contas das vezes em que assisti Jurassic Park e Em Busca do Vale Encantado, pirando sempre que o Ranger azul convocava seu zord tricerátops. E é claro que eu sonhava em ler um épico contendo dinossauros, no melhor estilo cavalaria medieval. Se já tínhamos tantos dragões, porque não nossos conterrâneos pré-históricos? Então, sim, eu tinha grandes pretensões para o livro do Victor Milán. E a maioria delas infelizmente não foi correspondida.

Mas calma, antes de atirar pedras devo ressaltar que o autor é provavelmente o menor culpado pelo sentimento agridoce que experimentei ao longo da leitura de Os Senhores dos Dinossauros. O maior inimigo do livro é, sem sombra de dúvidas, o marketing.

A Darkside comprou os direitos da obra com bastante antecedência, atendendo ao pedido de centenas de fãs apaixonados pela ilustração de capa (maravilhosa, diga-se de passagem) que havia sido divulgada no exterior. A parcela de leitores de fantasia que cresceram assistindo os dinossauros de Spielberg é tão grande que bastou um desenho bacana de um cavaleiro de armadura completa montando um tiranossauro para que o hype surgisse e se alastrasse sem fazer força. A estreia recente de Jurassic World, um quase reboot da franquia que reafirmou os dinossauros como ícones da cultura pop, ajudou a criar um momento muito oportuno para o lançamento de uma trilogia como essa. Um investimento com garantia de lucro fácil.

"Alguém falou em dinossauros?" - Fonte: Buzzfeed - Reprodução

“Alguém falou em dinossauros?” – Fonte: Buzzfeed – Reprodução

Vendo a promissora galinha de ovos de ouro que tinha em mãos, a Darkside correu contra o tempo para que o lançamento do livro ocorresse aqui no Brasil quase simultaneamente ao restante do mundo. Apostou num marketing pesado através das redes sociais e ainda tascou uma declaração do George Martin na capa:

“A união entre Jurassic Park e Game of Thrones – George R.R. Martin”

É engraçado como Martin tem sido usado ultimamente como garoto propaganda (o que vinha acontecendo também com Neil Gaiman). Com uma legião de fãs inquietos na espera do próximo volume das Crônicas de Gelo e Fogo, bastou uma frase de George para que meio mundo de leitores começasse a considerar Os Senhores dos Dinossauros a grande promessa de 2015. Só que ninguém tinha realmente lido o livro.

E sim, eu estava lá entre eles. E sim, eu também caí nesse marketing.

É importante dizer que o livro não é ruim. Ele definitivamente tem seus problemas (e muitos), mas veja bem, Victor Milán não é nenhum iniciante. O escritor americano já lançou mais de 100 histórias e foi vencedor do Prometheus Award em 1986. Então, espera-se que o livro seja no mínimo classificado como “bonzinho”. Mas com o nível de expectativas lá no alto, a história acabou virando um desapontamento. Graças ao marketing, estávamos esperando um Game of Thrones com dinossauros, um enredo daqueles de perder o sono criando teorias e suposições. E isso é algo que Os Senhores dos Dinossauros não tem a menor pretensão de ser.

Mas o livro tem ilustrações lindas! Fonte: http://thebooksmugglers.com/ - Reprodução

Mas o livro tem ilustrações lindas! Fonte: http://thebooksmugglers.com/ – Reprodução

Além disso, a decisão de lançamento simultâneo pela Darkside, embora louvável, teve seu preço: a edição é repleta de erros gramaticais, pontuações trocadas e traduções inexatas, provavelmente fruto da pressa. E não digo nem aqueles detalhes mais bobinhos, de uma letrinha trocada, mas erros que comprometem a experiência do leitor. Em certos momentos, tive que parar para entender que personagem estava falando o que, e demorei um bom tempo para decidir se o furão de Montserrat era macho ou fêmea. Rob aparece como “Rod” em algumas passagens.

(Também fiquei com a impressão, e aí não sei dizer se a culpa é do próprio Milán ou da tradução, de que os parágrafos não possuem muita coesão. Eles não tem um ritmo, parecem retalhos colados e não uma sucessão. Funcionam bem individualmente, mas em conjunto não conseguem transmitir fluidez…)

Mas agora vamos tratar dos problemas da obra em si.

Em primeiro lugar, os nomes, geografia e línguas foram elementos que me incomodaram ao longo de toda a leitura. Poxa, criar um lugar chamado Nuevaropa e colocar reinos chamados Spaña, Francia e Anglaterra pode ser considerado criar um universo paralelo? Não seria melhor utilizar os nomes reais numa visão alternativa da Europa ou criar algo totalmente novo com uma nomenclatura derivada das mesmas raízes linguísticas, como fez Tolkien e Scott Lynch? Porque confesso que é muito esquisito ler sobre Ayaks, Pedro Luna, Rubbio e Nathalie e conseguir acreditar que os personagens fazem parte de um mesmo universo. Ainda mais num cenário medieval, onde globalização não é aspecto vigente.

Milán também não se incomoda de inserir vocábulos próprios sem a consideração de explicá-los  ao leitor, ou pelo menos, só explicará umas boas páginas lá na frente. Estou até agora tentando entender o que diabos é um voyvod: nunca sei se é o nome do cara, um título, uma posição no exército ou um apelido de infância. Se alguém souber informar, por favor me ilumine.

Essa falta de contextualização traz grandes problemas para o enredo. Os primeiros capítulos apresentam uma batalha calorosa, com o leitor bem no meio da ação. Um recurso utilizado para prender a audiência e fazê-la sentir sua primeira e promissora dose de adrenalina. No entanto, o tiro sai pela culatra. São tantas informações soltas que o leitor acaba mesmo é perdido. Não sabemos direito quem são os personagens, ou quem está lutando contra quem ou que reino fica aonde. Cada raça de dinossauro (que não são poucas) possui uns três nomes diferentes, e perdi as contas de quantas vezes tive que voltar páginas para diferenciar vexers de perseguidores e mórions ou para descobrir exatamente qual a diferença entre coritossauros e sacabuxas. A sensação é de estar lendo um prólogo que se estende por 100 páginas, onde finalmente começamos a ter uma ideia do que acabamos de ler. As cenas de ação ficam severamente comprometidas com tanta confusão.

(Soube que a edição original continha um mapa do continente que facilitava a leitura, mas que foi suprimido na versão em português…)

E quando finalmente nos situamos na linguagem, começa o caos das referências. A cultura de Nuevaropa é um x-tudo com batata frita de outras mitologias. Temos trigramas chineses, hierarquias feudais, pensamento filosófico e animais sagrados. Achei até a alegoria dos Oito Criadores bem próxima à fé nos Sete idealizada por Martin. Quando Karyl resolve ensinar camponeses a lutar contra um tirano enquanto lida com répteis gigantes, parecia até que eu estava assistindo um remake de Coração de Dragão.

Coração de Dragão. Fonte: cancioneirodeastreya.blogspot.com - Reprodução

Coração de Dragão. Fonte: cancioneirodeastreya.blogspot.com – Reprodução

Alguns personagens também apresentam problemas. Muitos não são desenvolvidos emocionalmente como deveriam, tornando-se rasos e tediosos. Montserrat se limita ao arquétipo da menininha moleca cômica que alivia a narrativa, Jaume é certinho demais e a verdadeira obsessão de voyvod Karyl em dizer que está morto a cada dois parágrafos chega a ser cansativa. Minha maior admiração fica mesmo com Rob.

No entanto, tive sérios problemas com a princesa Melodía. O que dizer dessa princesa que mal conheço e já detesto pakas?

Provavelmente, Melodía foi idealizada pelo autor como um símbolo de representatividade. Uma mulher independente e rebelada, que romperá com os costumes patriarcais da sociedade onde vive. Um pouco de girl power no meio das batalhas dominadas quase que totalmente por homens. Se não me engano, existe até uma passagem onde Melodía afirma não querer se tornar uma princesa fútil e sem importância, ou algo assim. O problema é que, se eu fosse descrever Melodía, diria que ela é precisamente uma princesa fútil e sem importância.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Eu lendo sobre Melodía. Fonte: Tumblr – Reprodução

Melodía não resolve nada sozinha, está sempre a espera de que Jaume faça tudo o que ela quer, é salva por terceiros, não sabe de nada que acontece no palácio, destrata os criados, é impulsiva, mimada e incapaz de utilizar sua posição e inteligência para por em prática seus ideais pacifistas. É uma menininha brincando de política, mas sem nunca sujar as mãos. Sua figura está sempre envolta em sensualidade (a princesa passa boa parte de seu tempo quase nua), e combinada ao falatório libidinoso de suas amigas, faz de Melodía mais um pedaço de carne a ser disputado pelos personagens do livro do que uma heróina propriamente dita. Sinto que a ideia de Victor Milán era trazer a igualdade de gêneros para a trama (assim como faz com maestria na questão da bissexualidade dos cavaleiros e da liberdade sexual de Jeanette), mas seu feminismo acaba afogado ao reduzir Melodía a uma simples princesa esperando no topo da torre por seu príncipe encantado. Nem mesmo após ser presa e agredida a personagem é capaz de mostrar amadurecimento.Torço para que ela tenha uma boa evolução ao longo dos próximos livros, e como o último volume tem o título provisório de The Dinosaur Princess, vou manter as esperanças.

E agora, em minha opinião, o maior problema de Os Senhores dos Dinossauros: os dinossauros.

Fonte: Giphy - Reprodução

Fonte: Giphy – Reprodução

É fato que Milán fez uma excelente pesquisa para escrever sua obra. As descrições físicas, espécies e proporções de peso/medida são perfeitas. Também gostei bastante do fato dos dinossauros possuírem penas. Mas ficaram faltando algumas coisinhas importantes.

Novamente, posso ter criado muitas expectativas em relação ao livro, mas eu esperava mesmo uma história focada nos lagartões. Não apenas em cenas de ação, mas no dia a dia de uma sociedade que aprendeu a conviver com répteis gigantes. E esperava detalhes incríveis sobre o comportamento e hábito de cada espécie.

Porém, se você substituir a palavra “dinossauro” por “cachorro”, “cavalo” ou “galinha”, a história continuaria a mesma, só um pouco menos sangrenta. Tirando minúsculos momentos em que acompanhamos a alossauro Shiraa, os dinossauros do livro não passam de animais objetificados. Eles não possuem personalidade própria. Até mesmo a Pequena Nell tem seu relacionamento com Rob reduzido à meras gracinhas que mostram como a criatura é dócil. Os dinossauros estão ali apenas como instrumentos de tração e combate dos seres humanos e não apresentam nenhum diferencial significativo. Sendo assim, não entendo qual a ideia de colocá-los no livro. Pra que usar se a relevância é tão pequena para a história?

O comportamento animal dos dinossauros também me decepcionou bastante. Tudo bem que não temos como bater o martelo e garantir como um dinossauro agiria em determinada situação. Mas sabemos que provavelmente seria algo parecido com o comportamento de seus parentes próximos, as aves. E posso garantir que aves não se portam dessa maneira.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

A representação que considero mais fiel ao comportamento aviário é a do bando de raptores comandados por Chris Pratt em Jurassic World. É exatamente assim que eles são, meio desconfiados, meio hiperativos, geniosos e birrentos. Basta observar um bando de maritacas. Até sua forma de demonstrar afeto é diferente. Então soa bastante estranho para mim ver um dinossauro carnívoro agindo como um cachorrinho parado ao lado do dono, a quem segue com a docilidade de um bichinho de estimação. Milán não conta como foi o processo de domesticação, ou que peculiaridades devem ser tomadas no trato de cada raça. Não explica como tiranossauros são treinados para atacar apenas quando ordenados e como controlam as brigas por dominância e território. É como se todos os dinossauros funcionassem da mesma forma, uma forma muito próxima à do cão e do cavalo. Os dinossauros de Milán estão lá apenas de corpo, mas carece-lhes a alma. Considero este o pior furo da obra.

Os raptores de Jurassic World. Fonte: nutfreenerd.wordpress.com - Reprodução

Os raptores de Jurassic World. Fonte: nutfreenerd.wordpress.com – Reprodução

Um outro detalhe incômodo: Em Nuevaropa, até onde pude entender, os dinossauros convivem com todos os animais a que estamos acostumados nos dias de hoje. São feitas referências a sapos, ovelhas, falcões, mariposas e lobos. E aí fico me perguntando de quem foi a brilhante ideia de usar dinossauros como animais utilitários. Não faz sentido pra mim alguém querer criar um réptil dentado e agressivo para colocar ovos se existe a possibilidade de comprar pacatas galinhas. E se um cavaleiro está disposto a treinar um hadrossauro, por que não existem elefantes e rinocerontes de guerra?

O ecossistema todo de Nuevaropa é algo bem improvável. O nicho ocupado pelos dinossauros inviabilizaria a existência de diversas criaturas modernas. Além disso, a evolução parece ter atacado apenas dinossauros e animais da atualidade. Cadê o pessoal do meio do caminho, como as preguiças gigantes, mamutes e tigres-dente-de-sabre? Não existe qualquer explicação razoável, ou mesmo mística, para essa mistureba toda de cadeia alimentar. Acho que o livro seria mais robusto se limitasse a fauna de Nuevaropa aos dinossauros e achasse um argumento para justificar a presença de humanos.

E eu sei, eu sei que estamos falando sobre fantasia. Uma terra mágica onde tudo é possível. Porém, mesmo dentro do gênero é preciso manter a coerência. Mágica sem explicação e mundos aleatórios funcionam bem em estilos como o de Lewis Caroll em Alice, ou a paródia absurda de Terry Pratchett. Já fantasias com pretensões realistas precisam ter um mínimo de realismo. É preciso existir uma justificativa, ou então tudo ficará parecendo um grande Deus ex machina. A capacidade de mesclar o fantástico com a realidade crua é um dos fatores que transformaram As Crônicas de Gelo e Fogo e a série Harry Potter nos sucessos que vemos hoje.   

Enfim, gostaria de ver dinossauros agindo como dinossauros em Os Senhores dos Dinossauros. Faz sentido, não?

Depois de desabafar tudo isso, me pergunto: O livro é ruim? Não. Vou continuar a ler a trilogia? Claro, adoro dinossauros. Além disso, a edição é realmente linda. Quem sabe agora, com uma visão mais despretensiosa sobre a narrativa de Victor Milán, a história de Nuevaropa acabe me conquistando.

Fonte: ArtStation - Felix Ortiz - Reprodução

Fonte: ArtStation – Felix Ortiz – Reprodução

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