O que aconteceu com Eragon?

O texto a seguir pode conter spoilers de: Eragon. Depois não diga que eu não te avisei…

Andei lendo Eragon, do Christopher Paolini, primeiro livro da série A Herança. Ok, sabemos que ele não é assim uma obra-prima da fantasia épica pra competir de igual para igual com Tolkien, Martin ou Pullman. É aquele livro pra relaxar num final de semana de preguiça no sofá, dar umas risadas e ser feliz porque você adora dragões (e quem não gosta?). E para esse propósito, a história serve bem.

No entanto, Eragon nunca alcançou o destaque que se esperava dele, o que sempre me intrigou.

Fonte: https://frankiecarroll.wordpress.com/2014/06/28/my-first-post-is-about-eragon/ - Reprodução

Fonte: https://frankiecarroll.wordpress.com/2014/06/28/my-first-post-is-about-eragon/ – Reprodução

Calma, calma. Sei que ele realmente vende bem e que seus fãs são numerosos. Mas não consigo enxergar o mesmo hype que tivemos com Game of Thrones ou até mesmo o que estamos vendo surgir com A Crônica do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss. A adaptação cinematográfica dispensa comentários: fracasso de crítica, nunca teve continuação.  Apesar do livro ser constantemente lembrado e já ser considerado um clássico da fantasia, permanece sempre confinado na seção “infanto-juvenil”. Um épico sem grande pretensão.

Mas porque cargas dágua um livro com batalhas épicas, romance, traição, espadas, dragões e cidades perdidas não conseguiu se tornar uma comoção mundial entre a comunidade nerd/geek? Não faz muito sentido: Eragon tem todos os ingredientes para o sucesso, mas não decolou.

Separei 6 motivos para tentar explicar o que diabos aconteceu com Eragon:

1) Mitologia descaracterizada

É raro alguém dizer isso como uma crítica, mas: Eragon tem coisas demais. Christopher inseriu dezenas de criaturas e referências que podemos encontrar em outras obras clássicas do gênero fantasia. Sua mitologia acaba se tornando completamente descaracterizada. Não existe aquele detalhe, aquele ponto em comum que nos faz pensar “olha só, isso aqui até parece algo saído de Eragon!”.

Por exemplo, no reino de Alagaësia, onde o enredo se desenrola, temos elfos, anões e humanos, três raças em constantes disputas e alianças. Os elfos chegaram pelo mar, possuem orelhas pontudas, adoram falar em seu próprio idioma, usam arcos e são extremamente sábios e poderosos. Os anões vivem em cidades suntuosas abaixo da terra, próximos às montanhas. Preferem usar machados e pesados capacetes de metal. Ah, também trançam as barbas. Os humanos, por sua vez, podem ser ambiciosos ou pacíficos, cair em tentação ou morrer pela honra. Onde será que eu já vi isso antes…ah, sim, é Tolkien.

Até mesmo os servos mais “baixa patente” do vilão Galbatorix, os Urgals, possuem as mesmas características dos orcs da Terra Média. E pra completar, eles ainda aparecem em uma versão melhorada, os Kulls. Mais altos, mais fortes e mais velozes, igualzinho aos Uruk-Hais. A geografia de Alagaësia também divide semelhanças com Tolkien.

Até mesmo seu trunfo principal, a participação de dragões na história, não é a coisa mais inovadora do mundo. A criatura já está tão consagrada na literatura que acaba por não pertencer a mitologia nenhuma. Dragões não podem ser considerados uma característica determinante para a identidade de livro nenhum.

E, para mim, a aparição de Solembum, o menino-gato, só serve para adicionar mais uma camada de confusão na mistureba mitológica. Não sei, acho que o personagem estaria melhor encaixado numa fantasia voltada para o lado de Alice no País das Maravilhas. Não consigo deixar de notar semelhanças com o Gato de Cheshire, com suas falas em forma de enigma.

Outro probleminha para Chistopher: o nome de sua heroína, Arya, tornou-se muito mais icônico na obra de George Martin, como a valente garota Stark. Em algum momento do livro é mencionada a história de um certo elfo Nuada. Por acaso, no segundo filme de Hellboy, o antagonista, que também é um elfo, chama-se Príncipe Nuada.

É Eragon, tá difícil de criar uma identidade aí…

Mapa de Alagaësia Fonte: http://inheritance.wikia.com/wiki/Alaga%C3%ABsia - Reprodução

Mapa de Alagaësia Fonte: http://inheritance.wikia.com/wiki/Alaga%C3%ABsia – Reprodução

2) Conclusões e recursos dramáticos

É uma coisa impressionante: se for acontecer uma reviravolta na história, Eragon vai desmaiar. Fato. Alguém arrume um neurologista pra esse rapaz, porque ele tá precisado.

Christopher parece ter dificuldade com o fechamento de capítulos, em fazer a transição entre uma cena e outra. Se estiverem em segurança, Eragon vai dormir. Se algo for mudar na história, temos um desmaio.

A própria condução da história segue um padrão. Eragon e Saphira viajam a duras penas até uma cidade. No caminho, conhecem pessoas e aprendem mais sobre intrigas políticas e sobre seus próprios limites como Cavaleiro e dragão. Chegando na cidade, revelações da trama, emboscadas ou uma nova pista. Saphira surge no último minuto para levar todo mundo embora em segurança. Eragon e Saphira resolvem viajar para uma cidade ainda mais distante.

Parece que tudo na imensidão de Alagaësia gira em torno da dupla.

Essa receita se repete ao longo do livro inteiro. Não é que fique monótono, achei até que o autor soube bem explorar os longos períodos de jornada. Mas perde um pouco do recurso dramático. A gente já sabe o que esperar quando vira a folha.

E falando em perder o recurso dramático, não consigo me sentir à vontade com a utilização da magia no livro. Enquanto as lutas corpo a corpo são bem descritas, algumas mágicas soam “anti-naturais”. Jatos de fogo que saem das mãos?

Veja bem, em Harry Potter temos varinhas, em Tolkien temos uma magia feita com o poder da mente, invocando seres sobrenaturais ou manipulando a natureza. Mas fogo saindo das mãos? Prefiro quando Eragon faz os ossos dos inimigos se quebrarem…

3) Saphira

Saphira é, ao lado de Eragon, personagem essencial para o desenvolvimento da história. No entanto, acho que sua personalidade e suas características animais não foram bem delimitadas. Saphira está sempre em cima do muro sobre ser ou não ser alguma coisa.

Ela não decide se quer ser animalesca ou humanizada: ao mesmo tempo em que estraçalha inimigos com os dentes, também se comporta como uma verdadeira dama. Sua inteligência e maneira de falar com Eragon (sempre tão contida e educada), se misturam aos arroubos de fúria e caçadas a animais selvagens. Ao mesmo tempo em que pode debater questões filosóficas e usar humor cortês, é montada como animal de carga. Não sei, mas acho que essa duplicidade afeta a naturalidade com que encaramos a personagem. Mesmo dragões humanizados, como Smaug, permanecem fiéis a seus instintos animais. Nossa devoção a eles vem em parte disso. Os vemos como feras majestosas, a fúria da natureza condensada em um animal dotado de inteligência.

Já quando Saphira joga a cabeça pra trás e ruge, algo me incomoda. É como se você estivesse conversando com uma mulher de voz doce sobre técnicas de guerra e do nada ela começasse a emitir barulhos estranhos a plenos pulmões.

"Engasgou?" Fonte: Tumblr - Reprodução

Engasgou, moça? Fonte: Tumblr – Reprodução

Ela não decide se quer ser imatura ou sábia: muitas vezes a pouca idade de Saphira é utilizada como mote para justificar as ações precipitadas dela e de seu Cavaleiro. Mas em outras cenas, vemos um dragão completamente maduro, sábio e capaz de aconselhar Eragon sobre assuntos muito além da compreensão do jovem. Afinal, ela é só uma adolescente descobrindo o mundo, assim como ele, ou sua origem mágica lhe confere sabedoria? E caso Saphira possua tanto conhecimento, como explicar o ciúme bobo e infantil que sente ao perceber o interesse de Eragon por Arya?

4) Estereótipos

Quando li a primeira descrição de Eragon, sua idade e atributos físicos, não pude deixar de olhar para a foto do autor na contracapa e sorrir. Sempre vejo o rapaz como o alter ego de Chistopher Paolini, aquilo que ele gostaria de ser num mundo perfeito. Vide o fato da personagem Angela ter sido inspirada por sua irmã.

Nada contra. Isso seria até legal, se essa visão romântico-medieval não fosse levada tão a sério por todo o livro. Os estereótipos são gritantes e bem previsíveis. Eragon, vivendo a chamada “Jornada do Herói”, onde comete erros com boas intenções, aprende e cresce com eles, alcançando a grandeza. Idem pra Saphira.

Arya, a princesa independente, nobre e inalcançável, dotada de beleza e sabedoria única (mas que precisa, mesmo assim, ser salva pelo mocinho). É impossível visualizá-la falando um palavrão ou tropeçando numa pedra solta. Ela é quase uma visão etérea da própria majestade. Seu romance com Eragon também é bastante idealizado. Antes mesmo de se falarem, Eragon já sente calafrios ao olhá-la e pressente que existe algo especial na garota élfica. Quando finalmente trocam palavras, o diálogo é curto e formal. Eragon se porta como um cavalheiro do Romantismo e Arya, como uma dama misteriosa, sempre com as respostas mais inteligentes na ponta da língua.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Brom, apesar de um personagem super bacana, também segue o estereótipo do mentor, que falhou em sua própria jornada e deseja se redimir treinando um pupilo que possa superar o mestre.

Pena ter que esperar meio livro para finalmente ver Murtagh, a pessoa mais próxima de quebrar os paradigmas…

5) “Blurring the Lines”

O tópico 5 é, no fim das contas, uma consequência do anterior. Estava lendo esses dias sobre a necessidade de personagens “blurring the lines” nos livros, algo como “mesclando as fronteiras”, numa tradução porca.

Trata-se da introdução de personagens que misturem os estereótipos, que enriqueçam a profundidade emocional da história. Heróis se tornam muito mais interessantes se possuírem algum lado obscuro, assim como vilões com intenções nobres (pelo menos em suas cabeças).

Eragon tem dificuldades em nos dar personagens assim. Além da presença dos estereótipos, as pessoas parecem pertencer cegamente a um deles.

Eragon é tão amarrado em seu manto de bondade que reprime Murtagh pelo assassinato de um bandido que pretendia vendê-los como escravos. Ele permite que os Urgals escapem (e falem sobre sua localização) porque não deseja matá-los. A princípio parece uma coisa que deixará seu personagem mais nobre, mas na verdade só o deixa mais raso e afasta o leitor, pois suas reações não parecem naturais.

E já sabemos o mantra: onde não há reações naturais, não há empatia. Vi diversos depoimentos no Skoob, inclusive, de usuários que torcem pelo infortúnio de Eragon, pois não suportam vê-lo ser tão perfeito e bom moço.

Christopher até parece que vai nos surpreender na cena em que o jovem Cavaleiro visualiza as memórias de um Espectro. Ele descobre que o terrível ser é, na verdade, apenas um produto de todo o sofrimento a que foi submetido. Mas logo depois o fato é esquecido, não há um diálogo ou questionamento por parte de Eragon sobre o assunto. O rapaz continua enxergando um mundo dividido entre bonzinhos e gente do mal.

Dentre os personagens importantes do livro, aquele que ainda apresenta um pouquinho de complexidade nessa área é Murtagh. Creio que ele poderia substituir Eragon com tranquilidade no papel de protagonista. Mas, pelo menos no primeiro livro, sua participação não é explorada tão a fundo.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Pretendo falar melhor sobre “blurring the lines” em outro post.

6) Um filme malvado

Esse aqui acho que é unanimidade entre todos os fãs: a adaptação de Eragon para os cinemas foi um atentado à obra. Roteiro cheio de alterações, momentos importantes deixados de lado, personalidade pouco aprofundada nos personagens. O filme inclusive resolveu simplesmente cortar fora toda a fase de crescimento de Saphira, que é essencial para que possamos entender a conexão mental e afetiva entre o jovem e seu dragão. Como criar empatia assim?

Tá, mas como ela cresceu? Fonte: Tumble - Reprodução

Tá, mas como ela cresceu? Fonte: Tumble – Reprodução

Quem só viu o filme, com certeza não se empolga muito para ler o livro.

Alguns culpam a imaturidade do autor pelas falhas do enredo. E realmente, o fato de que Christopher ainda era um adolescente de 15 anos quando escreveu Eragon é algo para ser levado em consideração. Por isso, acho que ele fez um bom trabalho (muito melhor do que eu faria com 15 anos). Também dizem que ele se torna mais maduro na condução dos outros livros da série, elevando o nível da escrita. Bora ver, né…

Apesar dos pesares, juro de pé junto que me diverti com o livro. Como disse lá no início, é uma leitura prazerosa pra quem gosta do gênero e está apenas preocupado em desfrutar de um mundo mágico. Tem mistério, tem luta, tem locais bacanas. E poxa, tem dragões!

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