O que aconteceu com Maze Runner?

O texto a seguir pode conter spoilers de: Trilogia Maze Runner. Depois não diga que eu não te avisei…

Sinto que esse será um longo post. Assim como foi também minha noite, tentando desesperadamente terminar o último livro da trilogia Maze Runner em busca de respostas para o eletrizante cenário montado para Thomas e seus companheiros.

Só que, como tão bem resumiu uma resenha que vi no Skoob, A Cura Mortal nada, nada, nada com mais vontade e depois morre na praia.

Não que James Dashner seja um escritor impecável nos dois primeiros volumes, Correr ou Morrer e Prova de Fogo. Eu jamais o indicaria como um autor exemplar. Alguns momentos de sua narrativa causam certo incômodo, como os diálogos infantis entre os Clareanos e cenas de “flerte” totalmente descabidas em momentos de perigo extremo, além de pecar no aprofundamento psicológico dos personagens. Porém, o enredo intrincado, o clima de mistério e as cenas de ação contadas sempre em ritmo frenético fazem com que a gente esqueça esses atos falhos. É daquelas histórias que a gente simplesmente precisa saber o que está por trás de tudo. Confesso que li os dois primeiros livros com um sorriso no rosto e mal conseguia me conter para ler o fim da trilogia.

Fonte: hdwallpapers.in - Reprodução

Fonte: hdwallpapers.in – Reprodução

Aí veio A Cura Mortal. Um livro que não só deixou várias questões em aberto como também desconstruiu boa parte dos livros anteriores. Engraçado que o li na mesma semana em que escrevi o post sobre Deus ex machina, onde um dos conselhos é “se não existe um meio coerente e realista para resolver os problemas de seus personagens, a melhor solução pode ser simplificar esses problemas”. E minha impressão foi justamente essa: James Dashner deu um passo maior que a perna e se perdeu dentro do próprio labirinto.

Enfim, como fã de Maze Runner (pelo menos do começo) e entusiasta dos enredos que amarram pontas soltas, eu simplesmente precisava compartilhar tudo aquilo que me incomodou em A Cura Mortal. Tentei condensar os fatos em alguns tópicos, mas era tanta coisa que acabei optando por uma lista mesmo…

Então, sem mais demora, peguem a pipoca que lá vamos nós.

(só pra garantir: você sabe que a lista a seguir está recheada de spoilers, certo?)

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

– Gally e o Braço Direito

O retorno de Gally à trama é tão sem propósito quanto o bilhete de Newt. O plot do Braço Direito poderia ter se desenvolvido tranquilamente sem ele. Além disso, Dashner não explora nenhuma emoção do garoto, limitando-se apenas a um relato breve sobre o que aconteceu com Gally após a morte de Chuck. A relação entre ele e Thomas se torna amistosa do dia para a noite. E olha que nem vou entrar no mérito de quão esquisito é, um cara escolado como Thomas, decidir de primeira ajudar um grupo rebelde que até então ninguém conhecia…

– A terceira fase

Uma das minhas grandes curiosidades consistia em saber o que havia acontecido com cada um dos Clareanos durante a terceira fase dos experimentos, aquela em que Thomas ficou preso no quarto branco. Somos levados a crer que cada um dos “indivíduos” passou por testes diferentes, para estimular padrões cerebrais distintos. Imaginei que fazia sentido o isolamento de Thomas, um rapaz sempre pronto à agir e com bastante liderança. Seria uma situação inteiramente nova para ele, ficar sozinho e neutralizado. Logo, seus amigos passariam por experiências semelhantes, tendo seus pontos fracos testados até quase a loucura. O próprio Thomas toca nesse ponto, apreensivo ao imaginar que tipo de provas foram impostas aos companheiros, aumentando ainda mais a expectativa do leitor.

Seria sem dúvida bem interessante…se chegasse a ser contado. Vamos ter que ficar só imaginando.

– Chanceler Paige

Ava Paige é a personagem mais enigmática de Maze Runner, corroendo minha curiosidade desde o epílogo do primeiro livro. Sua participação no destino da raça humana é imensa, seu poder dentro do CRUEL parece algo quase etéreo e ela definitivamente mantém alguns coelhos na cartola.

Então porque, deuses, ficamos sem saber absolutamente nada sobre ela? Sobre o que a motiva, seu passado, suas opiniões?

Desculpe, mas como nem mesmo uma descrição física satisfatória foi dada aos leitores, quando penso na Chanceler Paige e em sua onipresença por trás dos panos, só me vem à mente a imagem do Mestre dos Magos…

Fonte: megapipoca.com.br - Reprodução

Chanceler Paige Fonte: megapipoca.com.br – Reprodução

– Memórias

Quando o Homem-Rato anuncia que os Clareanos terão suas memórias restauradas, meu coração vibrou. Finalmente um pouco de respostas!

Já ver a recusa de Thomas, Newt e Minho em realizar o procedimento foi um balde de água fria. Não era isso que eles queriam desde o princípio? E todas aquelas conversas com Chuck sobre quem seriam suas mães, seus amigos?

Mas até aí tudo bem, concordo que é sempre benéfico duvidar das gentilezas do CRUEL. Eles poderiam receber memórias falsas ou algo até pior. Porém, ao contrário do Thomas inquisitivo e desesperado para encontrar a verdade que conhecemos nos dois primeiros livros, o protagonista de A Cura Mortal parece determinado a continuar no escuro e negar seu passado junto à equipe de criação do Labirinto. Diversas chances aparecem, como a conversa com Brenda na cafeteria, o encontro com Hans, a reunião com o grupo de Teresa. Thomas recusa todas. A cada virada de página, eu esperava, a qualquer momento, que o rapaz fosse mudar de opinião ou ser obrigado a reviver suas lembranças. Só que não.

Essa atitude me pareceu bem covarde e nem um pouco característica de Thomas. Considerado um jovem extremamente corajoso e leal, é estranho que o garoto não consiga encarar seu passado e conviver com a culpa de possíveis erros. Depois de tudo o que passou, Thomas escolhe tirar o corpo fora e renunciar às memórias de seus pais e do mundo onde vivia, informações preciosas que poderiam ajudar na busca de uma solução para os Clareanos.

Esta possivelmente é a decisão autoral que mais provoca lacunas na narrativa. Ficamos sem saber como ocorreu a Purgação, quem eram os Criadores originais, como Aris e Rachel se encaixam nas lembranças de Thomas e qual era de fato seu relacionamento com Teresa.

Além disso, a escolha de Thomas tira o sentido dos capítulos onde os sonhos vivenciados pelo garoto são apresentados ao público. De que adianta vermos fragmentos desconexos se eles jamais serão costurados em algo coerente? Se não farão diferença alguma para a história e para o personagem?

– Thomas, o centro do mundo

Em certo ponto do terceiro livro, ficamos com a impressão de que tudo o que importa no universo é o umbigo de Thomas. Apesar de estar vivendo um cenário apocalíptico onde a raça humana enfrenta a extinção, parece que o personagem está cego para a empatia. Todos os conflitos internos de Thomas se resumem a como ELE foi enganado, como ELE vai destruir tudo, como ELE se sente traído, como ELE quer deixar o passado para trás.

Claro que seria infantil de minha parte esperar que ele fosse um poço de altruísmo depois de tudo a que foi submetido. Mas o Thomas dos primeiros livros era descrito como um rapaz solidário, aquele que resgatou Alby e Minho do Labirinto. O personagem parece estar totalmente descaracterizado no terceiro volume, o que fica bastante evidenciado em sua relação com Teresa, em como o garoto parece incapaz de compreender os motivos que a levaram a agir de acordo com os planos do CRUEL.

Ah, e essa impressão não ocorre apenas dentro da mente de Thomas. O mundo de Dashner também parece conspirar para que o rapaz esteja sempre em foco. Thomas é o único a ter interações com o sexo oposto. Mesmo existindo todo um Grupo B de moças, Thomas é o único alvo de afeto. Quando até uma Crank insana se aproxima de Thomas e revela que gostaria de beijá-lo, tive de revirar os olhos. Nem mesmo Teresa conseguiu fazer uma amiga sequer entre as meninas do Grupo B. Aliás, coitado do Grupo B, totalmente inexpressivo ao longo do livro.

– Triângulo amoroso

Não simpatizo com a criação de um triângulo amoroso para a história desde o surgimento de Brenda (personagem que também não simpatizo). Mas tudo bem, esse é um arco dramático recorrente nas distopias young adult e é uma preferência pessoal do autor.

Fonte: btchflcks.com - Reprodução

Fonte: btchflcks.com – Reprodução

Mas não aceito a resolução criada por Dashner para o conflito. Tanto Teresa quanto Brenda mentiram para o garoto a mando do CRUEL. A diferença é que Teresa fez isso tentando protegê-lo, enquanto sua rival apenas cumpria as funções de um emprego. E no entanto, por algum motivo obscuro para os leitores, Thomas decide que jamais poderá perdoar Teresa, enquanto visualiza Brenda como uma pobre vítima do sistema, digna de sua simpatia e proteção.

A forma como o autor desconstrói o relacionamento de Thomas e Teresa, tão forte e significativo nos livros anteriores, é algo a se lamentar. Tudo culmina com a desnecessária morte da personagem, nas últimas folhas da obra. Não que a morte em si tenha me surpreendido, gosto de narrativas realistas e, considerando o universo de Maze Runner, perdas seriam inevitáveis. Mas o que choca é a impressão que fica de que a morte de Teresa ocorre simplesmente para que Thomas não precise decidir para qual das beldades entregará seu coração.

A morte de Teresa acontece rapidamente, sem nenhuma profundidade emocional ou diálogo construtivo. Ele nem mesmo diz que a perdoa. E, algumas horas após a perda de uma das pessoas mais importantes de sua já traumatizada vida, Thomas simplesmente segura a mão de Brenda e os dois se beijam. Numa cena que poderia ser resumida assim:

 “- Sinto muito pela Teresa.

– Ah, obrigado.

– Então tá bem.

Beijos. (???)” 

– CRUEL e seu amadorismo

Gostaria de entender como uma organização mundial que lida com a única chance de salvação da humanidade e possui orçamento ilimitado consegue ser tão incompetente.

Nos livros anteriores, o leitor segue constantemente amedrontado pelo poderio do CRUEL, que parece sempre estar um passo à frente. Até o que parece sair errado mostra-se, mais adiante, ser parte da estratégia dos cientistas. Nos sentimos mesmo num labirinto.  

Porém, no terceiro livro o CRUEL parece ser formado apenas por cientistas fanáticos e por seguranças tão bem treinados quanto aqueles do seriado do Zorro. Com erros grosseiros de segurança, movimentos atrapalhados das equipes táticas e armamentos modestos (considerando que estamos falando dos criadores dos Verdugos e daquelas gosmas metálicas comedoras de gente), passamos a acreditar que qualquer um poderia fugir do laboratório, bastando apenas um pouquinho de força de vontade.

Ora, estamos falando de cientistas renomados, preparando-se há anos para executar a terceira fase dos experimentos. Será que ninguém previu que os garotos, depois de viverem tantos perigos mortais, acabariam se tornando mini-combatentes sem nada a perder? Para enfrentá-los, eu esperava no mínimo que o CRUEL contratasse uma versão apocalíptica do Capitão Nascimento…

Outro ponto que me incomodou foi a explicação pé de chinelo sobre a importância dos padrões cerebrais para a cura do Fulgor. Em nenhum momento Janson e sua equipe mostram ter convicção sobre como o cérebro de Thomas poderá ajudá-los. Uma operação de anos de investimento parece reduzida à uma tentativa desesperada de dissecar o cérebro de um adolescente e ver se alguém tem algum insight.

Fonte: recaption.com - Reprodução

Fonte: recaption.com – Reprodução

Fora que Dashner nunca chega a nos explicar qual era o propósito de cada uma das provas no Labirinto e no Deserto, não explica que padrões procuravam ou o que exatamente precisavam incutir na mente dos garotos. Não sabemos como Teresa e Aris foram trocados de quarto, como os cadáveres dos guardas foram implantados (se é que eram reais), nem como as tatuagens foram feitas. Também fiquei na dúvida sobre qual grupo saiu primeiro do complexo do CRUEL, o de Thomas ou o de Teresa, e se isso já estaria planejado.

– O espaço verde e o dano psicológico

Eu poderia passar horas divagando sobre as inconsistências de Thomas e seus amigos serem levados junto à outros Imunes para uma linda área arborizada onde deverão recomeçar a humanidade. Uma  das que mais me incomoda é o porque do “plano B” não ter sido posto em ação muito antes.

Ora, uma floresta não cresce do nada, então é plausível que o espaço já existisse quando o CRUEL colocou os primeiros indivíduos no Labirinto, dois anos antes. Escolheram apenas os mais inteligentes, o que prova que haviam outros Imunes por aí, que não participavam do experimento. Então porque diabos não colocá-los desde o início lá no espaço verde e ajudá-los a construir uma nova civilização caso os planos de cura não fossem bem? Já teriam uma comunidade muito mais bem instalada. E o mais importante: sem os traumas e danos físicos e psicológicos que os Clareanos carregarão por toda a vida.

E é nesse ponto que quero chegar. Por tudo o que Thomas passou, o desfecho não me parece possível. Após tudo o que o garoto vivenciou, por todos os obstáculos e perdas, ele aceitaria simplesmente ver a humanidade se acabar num apocalipse zumbi enquanto leva uma vida plena e feliz com sua comunidade imune? No mínimo desconcertante.

Além de ser impossível enxergar Thomas sem a vontade de ajudar o máximo de pessoas (mesmo os Cranks), também me pergunto o que Dashner fez com os danos psicológicos dos personagens.

Comparando Maze Runner e Jogos Vorazes, vamos que Katniss ficou profundamente marcada por suas experiências nos Jogos, desenvolvendo paranóia, insônia e dificuldades em se relacionar. As feridas causadas em pessoas expostas a manipulações psicológicas e ameaças são profundas demais e quase sempre permanentes, embora possam ser contornadas. Thomas passou por coisas tão terríveis quanto Katniss, se não piores, e no entanto, ele e seu amigos parecem perfeitamente reestabelecidos em sua nova moradia, prontos para criar uma comunidade do zero. Acho que o enredo de Dashner sempre foi sombrio demais, danoso demais para conseguir me convencer da integridade dos personagens após o término de tudo.

No final, vemos que Thomas e os outros Imunes continuam cumprindo o papel designado pelo CRUEL: são ratinhos de laboratório, dando continuidade à uma experiência planejada, alheios aos que sofrem no resto do mundo…

Fonte: renegadoscast.com - Reprodução

Capas da trilogia. Fonte: renegadoscast.com – Reprodução

Vejo alguns relatos que afirmam que Ordem de Extermínio, uma espécie de prequel escrita por Dashner, consegue completar alguns dos buracos deixados por A Cura Mortal. Mas não acho que isso seja válido. A trilogia deveria ser auto-contida. Um livro extra poderia expandir esse universo, mas jamais deveria ser o responsável por sua completude.

É só pegar o exemplo de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Apesar da leitura conjunta das obras adicionar uma nova camada de compreensão e transformar a história em algo bem mais profundo, os livros funcionam muito bem sozinhos, apresentando começo, meio e final satisfatórios e bem amarrados.

Minha dica como fã de Maze Runner? Leia os dois primeiros livros e se abstenha do terceiro. Melhor ficar na curiosidade mas ter a esperança de um desfecho tão empolgante quanto a chegada de Thomas à Clareira.

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