Os dragões de Naomi Novik

O texto a seguir pode conter spoilers de: O Dragão de Sua Majestade. Depois não diga que eu não te avisei…

Resolvi aproveitar que ainda estamos no finalzinho de março para participar da iniciativa #LeiaMaisMulheres, que promove a busca por igualdade de gênero dentro do mercado literário. Vamos lá, gente, escritores e escritoras possuem as mesmas capacidades, seja lá qual o tipo de história que estejam escrevendo. E para o meu desafio, escolhi O Dragão de Sua Majestade, primeiro livro da série Temeraire, na Naomi Novik.

Fonte: DeviantArt - Reprodução

Fonte: DeviantArt – Reprodução

A decisão pela Naomi se deu por dois motivos:

Primeiro, porque além de amar fantasia, tenho pouco contato com releituras de fatos históricos, ainda mais sobre as batalhas napoleônicas (a maioria dos livros que leio são romances focados na aristocracia rural ou mercantil), e por isso eu estava ávida por experimentar um pouquinho desses cenários de navios e pólvora, militares e aviadores (inclusive, se alguém tiver recomendações de livros empolgantes sobre pirataria, sou toda ouvidos).

E segundo porque Naomi Novik é um ótimo exemplo de como mulheres são sim muito capazes de ingressar em qualquer carreira. A americana, nascida em 1973, formou-se em Literatura Inglesa na Brown University (isso depois de ter lido O Senhor dos Anéis aos seis anos de idade), emendando logo depois com um mestrado em Ciência da Computação pela Columbia. Novik participou do design e desenvolvimento de vários jogos para PC, incluindo Shadows of Undrentide, uma expansão de Neverwinter Nights que alcançou críticas pra lá de positivas.

Um belo dia, ao perceber que preferia a escrita aos videogames, Novik decide jogar tudo para o alto e se lançar na carreira de escritora. Sua série Temeraire recebeu o prêmio Compton Crook Award em 2007, mesmo ano em que Naomi Novik seria indicada ao Hugo Awards. Ela também assinou várias outras obras, entre romances e pequenas histórias, foi mãe em 2010 e ainda é membro emérito da OTW (Organization for Transformative Works), uma organização sem fins lucrativos que promove o avanço das “fan-medias”, conteúdos como fanfictions e fanvideos.

Então é isso, pessoal…vamos ler Naomi Novik porque ela é destruidora, tá bem?

Naomi Novik. Fonte: Flickr - Reprodução

Naomi Novik. Fonte: Flickr – Reprodução

A série Temeraire reconta como teria sido a guerra entre Inglaterra e França (comandada por Napoleão Bonaparte) partindo da premissa básica de que dragões não só existem como também são amansados e utilizados como veículos tripulados de batalha. Sério.

Sempre digo que alguns livros valem mais que muitas aulas de História, e este definitivamente é um deles. Apesar do componente fantástico, O Dragão de Sua Majestade traz ótimos dados históricos e uma visão política bem interessante sobre a Europa da época. Navios, datas, localizações, batalhas, estratégias de cerco e comandantes também tiveram suas informações preservadas. Tenho certeza de que, após a leitura, você lembrará para o resto da vida que o almirante Nelson atravessou a esquadra franco-espanhola com duas fileiras de navios durante a Batalha de Trafalgar.

O estilo de Novik é bem clássico, quase como estar lendo um Julio Verne moderno. Seu quase formalismo me fez sentir falta do lado visceral da batalha. Esta, por sinal, é minha única ressalva ao livro: senti falta do calor da batalha, do suor e sangue, do desespero cru. As cenas de ação perdem um pouco de força e tensão por causa do modo cavalheiresco com que Naomi as conta.

Mas vamos falar sobre a história em si.

O Dragão de Sua Majestade é um livro que cumpre mais um papel de introdução à série do que outra coisa. Ele é mais focado no “worldbuilding”, em nos fazer entender como os dragões se encaixam na sociedade da época, os costumes, rixas e vocabulários da vida militar. Porém, isso não o torna uma leitura arrastada ou monótona. Novik sabe alternar bem os momentos de aventura com as explicações e descrições das várias e várias raças de dragão.

Fonte: DeviantArt - Reprodução

Fonte: DeviantArt – Reprodução

O livro inicia nos apresentando a William Laurence, um orgulhoso capitão da Marinha inglesa que acaba de conquistar um navio inimigo.O que ele não suspeita é que dentro da embarcação capturada existe um ovo de dragão, só esperando para rachar.

No mundo de Naomi Novik, dragões amansados necessitam da presença constante de seu aviador, um humano designado em seu nascimento, com quem criará vínculo e respeito, a única forma de controlar o instinto destrutivo de uma criatura cujo peso é medido em toneladas.

Pego de surpresa, Laurence acaba vendo sua vida entrelaçar com a de Temeraire, o jovem e dragonete falante sobre o qual ninguém sabe muita coisa. Ele é obrigado a abandonar a Marinha, tornar-se aviador e partir com a criatura para um centro de treinamento.

“- Eu não tenho um nome.

Laurence tinha folheado os livros de Pollit o suficiente para saber como deveria responder. Ele perguntou, formalmente:

– Eu poderia lhe dar um?”

Essa mudança da água para o vinho da rotina de William e, principalmente, seu envolvimento com Temeraire é que tornam o livro tão fascinante, porque abrem possibilidades para uma série de reflexões.

Não consigo deixar de visualizar Temeraire como um pequeno monge budista, talvez até por sua origem oriental. Ele traz o espírito de uma criança, ainda pouco experiente e tendo muito o que aprender sobre o mundo dos homens, mas já com aquela aura de sabedoria e paz de espírito que emana naturalmente de sua espécie.

Laurence, por outro lado, é pragmático e completamente atado ao senso de dever e justiça. É um homem honrado, de coração maravilhoso, mas é possível vê-lo tolhendo seu proprio eu em nome da disciplina imposta aos militares.

Assim, os diálogos entre dragão e aviador são sempre interessantes, sempre acrescentam, por se tratarem de um embate cordial entre pontos de vista diferentes. Laurence muitas vezes acusa Temeraire de ser um revolucionário, um Jacobino, porque não entende as ideias de liberdade individual do dragão. Temeraire, por sua vez, considera Laurence quase um prisioneiro de um rei que, além de não conhecer, não faz nada de muito bom para ele. Com cada um defendendo um dos extremos e aprendendo um com o outro, a dupla acaba convergindo para um meio termo saudável, levando o leitor com eles.

Fonte: davidanthonydurham.com - Reprodução

Fonte: davidanthonydurham.com – Reprodução

Tem um diálogo muito bom, entre Laurence e o dragão Celeritas, justamente sobre essa linha tênue entre obediência e justiça, que é ótimo para perceber como a decisão certa nem sempre é tão óbvia ou tão preto no branco assim. Laurence questiona Celeritas sobre um outro dragão que anda sendo severamente negligenciado por seu humano. E apesar de concordar com o posicionamento do aviador, Celeritas ainda assim o impede de agir:

“Não posso permitir que você interfira. Consegue imaginar o que significaria se permitíssemos que os oficiais se metessem com as feras uns dos outros. Tenentes desesperados para se tornarem capitães mal poderiam resistir à tentação de seduzir qualquer dragão que não estivesse profundamente feliz, e teríamos o caos.”

E já que Novik decidiu por abordar dragões falantes (pessoalmente prefiro os mais instintivos e animalescos, forças da natureza como os de Game of Thrones), foi importantíssimo o uso deste primeiro volume da série para mostrar, detalhe por detalhe, como foi o processo de amadurecimento e criação de Temeraire. Criar um ser não-humano dentro de nossa sociedade do dia para a noite é altamente inverossímil, e é uma das coisas que mais me incomodou durante a leitura de Eragon (falamos disso aqui). Se Temeraire apresenta alguma habilidade especial ou humana, Naomi faz questão de nos explicar direitinho o porquê. E assim O Dragão de Sua Majestade foi ganhando pontos no meu coração.

Também é bacana ver a relação carinhosa entre humano e dragão. Primeiro, porque temos a questão da responsabilidade entre humano/animal, que a gente pode facilmente transportar para a realidade dos nossos bichinhos de estimação. Se eles pudessem falar, o que diriam de nossa conduta? Eles se sentem realmente companheiros ou apenas adereços, brinquedos em nossas vidas? Além disso, Temeraire é macho e intelectualmente equivalente a Laurence (e se formos falar de matemática, ainda mais esperto), o que nos faz enxergá-lo muito mais como homem do que como criatura. Assim, temos também uma convivência de amor fraternal e verdadeiro entre dois homens, algo muito bonito de acompanhar.

Fonte: pentapus.dreamwidth.org - Reprodução

Fonte: pentapus.dreamwidth.org – Reprodução

“- E eu gosto tanto de pérolas, Laurence – afirmou o dragão, esfregando o nariz no capitão, de gratidão. – É um presente muito bonito, mas não foi terrivelmente caro?

– Vale cada penny ver você bonito, disse Laurence, querendo dizer que valia cada penny vê-lo tão feliz.””

Escrevendo sobre um período e um ambiente estritamente masculino, Novik ainda inova com a inserção tanto de dragões fêmea como de capitãs mulheres no Corpo Aéreo (e ainda responsáveis pelas meninas dos olhos da Inglaterra, os dragões Longwings). Chega a ser divertido ver como Laurence, conservador até a raiz dos cabelos, vai perdendo um a um seus preconceitos conforme convive com Harcourt, Lilly, Emily Roland e, mais tarde, Jane Roland (uma personagem pra lá de segura de si, por sinal). Também gosto da forma como Edith, a ex-quase-noiva de William é tratada no texto. Ela não é idealizada, como uma mocinha frágil e submissa, mas também não é demonizada por suas ações de interesse pessoal. Edith é apenas alguém que resolveu tomar as próprias decisões, e o livro a respeita por isso. A reação do próprio Laurence é bastante adequada e razoável.

Além disso, Naomi faz um paralelo engraçado entre o sistema de dominância dos dragões e a própria hierarquia militar. Laurence está sempre buscando seu lugar entre os aviadores, medindo palavras e dando apenas a dose de incentivo necessária a seus subordinados, sabendo colocar o rabo entre as pernas quando necessário. Assim faz também Temeraire, em sua busca por dominação entre os dragões peso pesado. No final, uma sociedade tem lá suas semelhanças com uma alcatéia.

Fonte: Pinterest - Reprodução

Fonte: Pinterest – Reprodução

O Dragão de Sua Majestade faz uma ótima introdução ao mundo de Temeraire e Laurence, e além de uma leitura fácil, também deixa aquele gostinho por uma continuação. Aqui no Brasil a Galera Record já lançou os três primeiros volumes da série, de um total de nove livros (por favor, por favor, publiquem o resto com essas capas maravilhosas!). Existem rumores de que o diretor Peter Jackson, um fã da obra, estaria planejando uma adaptação cinematográfica, tendo adquirido os direitos de reprodução. Faço sinceros votos de que o projeto vá pra frente.

Dualidades além do bem e do mal
#LendoSandman: A Casa de Bonecas

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