Sobre as peculiaridades de Ransom Riggs (e um sorteio)

O texto a seguir pode conter spoilers de: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Depois não diga que eu não te avisei… (Veio pelo sorteio mas não quer  ouvir spoilers? É só pular para o final do texto ^^)

“Eu costumava sonhar em fugir da minha vida comum, mas minha vida nunca havia sido comum. Simplesmente não conseguira notar como ela era extraordinária.”

Fonte: aquiles-soir.deviantart.com - Reprodução

Fonte: aquiles-soir.deviantart.com – Reprodução

Quando comecei a ouvir rumores sobre o livro (lá pela época em que foi anunciada a adaptação pro cinema), fiquei um pouco com o pé atrás. Lá vem mais um livro sobre jovens com superpoderes. Lá vem mais um young adult de fantasia. Torci o nariz, esnobando mesmo.

Porém, as resenhas positivas não paravam de pipocar na minha frente e a Srta. Peregrine insistia em permanecer nas listas de mais vendidos. E aí saiu o trailer do filme e como toda pessoa que se sente de fora de alguma coisa,  resolvi dar uma chance pra história.

E ela me cativou. E eu me apaixonei. E de novo comprovei minha teoria de que as leituras aparecem no momento em que estamos precisando lê-las, porque O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares também se mostrou uma ótima reflexão para o Dia dos Pais.

Na história, acompanhamos o jovem Jacob Portman, neto de um recém falecido sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, Abraham Portman. A infância de Jacob sempre foi povoada pelas histórias fantásticas contadas pelo avô, sobre uma ilha mágica repleta de crianças “peculiares” e comandada com pulso firme por uma mulher capaz de se transformar em falcão.

Como toda criança, Jacob acredita piamente em cada uma das aventuras relatadas, e sonha em ser como o avô. Porém, com um pouco mais de idade, o garoto passa a questionar a veracidade das histórias, e Abraham é rebaixado do posto de herói da infância para uma incômoda e constrangedora decepção familiar.

Fonte: fandompost.com - Reprodução

Fonte: fandompost.com – Reprodução

Após a morte do avô em circunstâncias misteriosas, Jacob mergulha em uma profunda depressão, com crises de ansiedade e uma constante sensação de perigo. Seu terapeuta recomenda que o menino investigue o passado do avô, para que a experiência possa desmistificar as origens fantasiosas de seu antepassado. A partir daí, nossa história se desenrola de fato, num misto de fantasia, ficção científica e romance, tudo embolado e combinando.

“Agarramo-nos a nossos contos de fadas até que o preço por acreditar neles se torna alto demais.”

É muito bacana compreender a forma como Abraham escondeu sua vida sofrida através de metáforas. O avô repassa para o neto verdades doloridas em forma de lindas histórias. O que, pra todo mundo que escreve ou é fã de literatura, é quase uma homenagem. Lembrei na hora do discurso do Gaiman, sobre como autores são responsáveis por contar “boas mentiras”. Existem diversas formas de falar as mesmas verdades, e é tocante observar a sensibilidade de Abraham em lidar com elas.

Riggs sabe trabalhar muito bem as relações familiares, desde a vergonha de Jacob em mostrar o “avô maluco” para seu melhor amigo (e a vergonha por envergonhar-se dele) até a relação deteriorada entre pai e avô. Cada membro da família Portman possui seus próprios demônios, de um jeito tão real que é difícil não visualizá-los andando por aí, em carne e osso.

Dá uma pena enorme ver o modo como o pai de Jacob foi, compreensivelmente, afastado da vida do próprio pai. A gente compreende os motivos de Abraham, mas também sofre com suas decisões. O afastamento de seu filho e o favoritismo com o neto provocam boa parte das mágoas e conflitos de gerações que encontraremos no livro.

“Eu não soube o que responder. Como dizer para o próprio pai: Sinto muito por seu pai não tê-lo amado o suficiente? Resolvi dizer apenas boa noite e fui para a cama.”

E se por um lado eu acho legal que Jacob tenha descoberto em seu avô um homem honrado e corajoso, secretamente espero encontrar nos próximos livros algumas manchinhas de caráter no vovô Portman. Acho que seria imensamente enriquecedor para o garoto perceber que todas as pessoas possuem defeitos, até mesmo alguém tão incrível como Abe. Seria importante reconhecer as falhas do avô.

As crianças peculiares em si, são maravilhosas. Elas possuem aquele ar de Garotos Perdidos do Peter Pan, um espírito jovem incansável e inconsequente como uma manhã de verão. Mesmo rodeadas de perigos e privações, é divertido vê-las tão interessadas no futuro, tão dispostas a aceitar a presença de Jacob entre elas. Suas peculiaridades, embora comuns (vamos combinar, invisibilidade e manipulação do fogo não são lá grandes novidades), funcionam bem na narrativa por terem sido escolhidas a dedo: são aquele tipo de excentricidade que encontrávamos nos panfletos dos circos de horrores de beira de estrada. Adorei particularmente a ideia da menina com super força.

Confesso ter esperado um pouco mais de tons de cinza na Srta Peregrine. Fiquei aguardando descobrir a qualquer instante algum plano maléfico por parte dela, que acabou não vindo. No final das contas, acho que prefiro a abordagem de Riggs: a paranóia em manter as crianças a salvo já torna Alma Peregrine uma espécie de carcereira. Seu lado cinza é motivado por sua responsabilidade, o que deixa a problemática psicológica da personagem bastante sutil.

(Também imaginei que o Dr. Golan fosse um aliado de Abraham, alguém que garantiria que seu neto chegasse à verdade. Outro chute na trave, outra reviravolta do enredo.)

Fonte: foxmovies.com - Reprodução

Fonte: foxmovies.com – Reprodução

E olha, o tal do Ramson Riggs merece uma medalha olímpica pela elegância e sensatez com que conduz um tema tão delicado: o envolvimento de Jacob com Emma, a antiga namorada de seu avô. Era pra ser uma coisa pavorosa, uma coisa repulsiva (e em alguns momentos até é), mas conseguimos nos colocar no lugar daqueles jovens e compreender seus sentimentos. Ficou muito bem feita a forma como Emma se divide entre os dois integrantes da família Portman, assim como o eterno desconforto de Jacob por permanecer num papel de substituto. E cá entre nós, fiquei um pouco decepcionada com as mudanças que o filme parece estar trazendo para a Srta. Bloom.

“Ficamos parados daquele jeito na escuridão repentina, eu e aquela mulher adolescente idosa, a garota linda que amara meu avô quando ele tinha a minha idade.”

O ritmo da narrativa é lento, com bons espaços para introspecção e descrição dos lugares. Porém, essa lentidão não torna, de forma alguma, o livro cansativo. Riggs abusa do senso de humor de Jacob para nos fazer rir de suas lamentações, e suas ambientações são sempre ricas e interessantes. O livro acabou me lembrando a cadência encontrada em Golem e o Gênio e O Oceano no Fim do Caminho. Quem acompanha o TBS sabe que, vindo de mim, uma comparação dessa já vale por muitos elogios.

“Na minha opinião, ele era meu melhor amigo – o que é um modo menos patético de dizer que era meu único amigo.”

Fonte: foxmovies.com - Reprodução

Fonte: foxmovies.com – Reprodução

Ainda sobre a ambientação do livro, Riggs consegue fazer uma coisa que me agrada imensamente: tornar todos os lugares apresentados relevantes. Tudo o que é visto, da peixaria ao farol, do cairn ao naufrágio com peixinhos luminosos, tudo será retomado e servirá como pano de fundo para o avanço da história. Quando Emma leva Jacob ao navio afundado, a cena vai além de um mero artifício de romance: ela serve para construir em nossa cabeça o cenário que mais tarde será revisitado na perseguição ao acólito.

E se a mão de Riggs já não fosse talentosa o suficiente, ainda temos a cerejinha do bolo: as fotos antigas em preto e branco, intercaladas com a narrativa.

Sempre tive muito medo de fotos antigas. Alguma coisa naqueles rostos pálidos e esmaecidos, de olhos vidrados sem emoção sempre me deixaram desconfortável. Então, as imagens que ilustram o livro servem como um ótimo catalisador para o terror contido na narrativa. Elas casam perfeitamente com a história, deixam a atmosfera do texto muito mais sombria e fazem tudo parecer plausível e verdadeiro. Eu, pelo menos, virava as páginas com os olhos semi cerrados para não tomar sustos ao encará-las.

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Se você não tem medo disso, eu não sei de mais nada. Fonte: zimbio.com – Reprodução

O mais incrível, porém, foi o que descobri depois. Enquanto lia, achava que as fotos haviam sido produzidas exclusivamente para o livro: imagens criadas em estúdio com toneladas de manipulação digital por cima. E no entanto, AS FOTOS SÃO REAIS! Existe um apêndice ao fim do volume que indica a procedência de cada uma das imagens escabrosas, registros colecionados ao longo dos anos por pessoas apaixonadas por esse tipo de excentricidade. O que só serviu para me deixar ainda mais impressionada.

Essa forma de fazer terror, o “terror das pequenas coisas que não deveriam assustar mas assustam”, é uma técnica que admiro muito. É fácil aterrorizar pessoas com histórias sobre serial killers e aparições sobrenaturais, já estamos predispostos a isso. Mas é muito mais difícil (e elegante) conseguir assustá-las falando sobre musgo, sobre baús ou transformando uma peixaria no pior lugar da sua vida (falo um pouco mais sobre isso nesse texto aqui).

“E foi assim que alguém extremamente suscetível a pesadelos, terrores noturnos, arrepios, ataques de pânico e a ver coisas que na verdade não estão ali se convenceu a fazer uma última excursão à casa abandonada onde uma dúzia ou mais de crianças tinham encontrado seu derradeiro fim.”

Uma curiosidade engraçada é que enredos de fantasia nunca estiveram nas pretensões de Ransom Riggs. O autor inicialmente queria criar um livro gráfico, um compilado com as fotografias bizarras que conseguira juntar. Seu editor (Deus abençoe essa criatura) é que sugeriu criar uma história que conectasse cada uma das imagens, uma motivação a mais para prender o leitor. E foi assim que a Srta. Peregrine acabou batendo suas asas pela primeira vez.

Se eu pudesse pedir algo mais do livro, além da falha no caráter de Abe citada mais acima, eu gostaria que a natureza dos etéreos e acólitos fosse melhor explicada. Senti falta de um sistema de magia mais robusto, o que deve ser um possível efeito colateral de ler Mistborn com muito afinco. Não sei se aceitei bem o fato de que uma experiência maluca transformou pessoas em monstros comedores de carne assim sem mais nem menos. Eu gostaria de um porquê, de uma relação de causa e efeito que tornasse tudo óbvio. Porém, já que toda a narrativa está pautada no “acreditar em nossos contos de fada pessoais”, acho justo conceder uma licença artística à Riggs.

O Orfanato da Srta. Peregrine não é uma obra grandiosa, não é um épico fantástico de proporções apocalípticas (e nem tem a pretensão de ser). Ransom Riggs foca sua narrativa na magia do dia a dia, centrada no personagem e não no universo. É a fantasia intimista, uma ramificação quentinha e confortável que nos marca para sempre. As crianças peculiares não serão os heróis da sua vida, mas serão uma espécie de xodós, a quem você sempre voltará com nostalgia e carinho renovados.

Fonte: collider.com - Reprodução

Fonte: collider.com – Reprodução

Mas a gente quer saber é do SORTEIO!

Para celebrar esse tesourinho da humanidade recém descoberto, resolvi sortear entre os leitores do blog um exemplar novinho do livro! Para participar, basta completar as ações do formulário Rafflecopter abaixo.

Para quem não conhece o sistema do Rafflecopter, a coisa funciona mais ou menos como um sorteio de rifas. Cada ação vai te dar um número diferente de rifas para participar, e não é necessário fazer tudo o que está no formulário. Você decide. Porém, embora uma única rifa já garanta sua participação no sorteio, quanto mais delas você tiver, maiores as chances de ganhar.  ;)

O sorteio segue até o dia 31 de agosto. Entrarei em contato com o vencedor e enviarei o livro até o dia 7 de setembro (aí ainda dá tempo de ler antes da estreia no cinema). Caso não consiga entrar em contato com o ganhador, outro participante será selecionado.

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#LendoSandman – Entes Queridos
#LendoSandman – Despertar

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