Pequenas covardias literárias

O texto a seguir pode conter spoilers de: Jogos Vorazes, As Crônicas de Nárnia, Crepúsculo, O Hobbit. Depois não diga que eu não te avisei…

Já que o post anterior puxou o assunto, continuaremos divagando sobre as decisões autorais ao incluir a morte de personagens em suas obras.

Sabe, por mais triste que seja quando algum personagem que nos é querido passa dessa para uma melhor, imagino que, para os autores, a perda se torne duas vezes mais dolorosa. Afinal, a decisão é inteiramente deles. Como deuses de seus pequenos mundos, cada escritor se torna responsável pela sina de sua criação. E é preciso bastante coragem para guiar um enredo de forma convincente (até porque, no outro dia fãs histéricos vão lotar sua caixa de email de reclamações). Mas hoje não vamos falar sobre coragem. Vamos falar sobre “covardia autoral”. Por isso, nada de George Martin pra vocês, HA!

Ao inserir uma morte na trama, podemos nos deparar com dois problemas: a falta de coragem para se despedir do personagem e a falta de coragem para tornar algum outro personagem um assassino.

Ora, é claro que desejamos um final feliz para as histórias. Queríamos poder garantir uma vida plena e sossegada, de preferência em alguma praia paradisíaca, a todos os personagens que tocaram nosso coração. Mas, de alguma forma, o final perfeito nem sempre se encaixa na situação. Por mais que seja desejado, o final feliz pode soar extremamente falso e forçado dependendo do resto do enredo. Se você sai numa aventura mortal, é de se esperar que você não sairá ileso. E se sair, é bom ter uma explicação bem convincente para isso. Resolver todos os problemas, na maioria dos livros, tira sua veracidade. Impossível fazer um omelete sem quebrar alguns ovos.

Mas alguns autores simplesmente não conseguem. Não sei dizer se por muito amor ao personagem, pressão do público, fobia a sangue… Não sei e nem quero julgá-los. Mas, para o leitor, a sensação que fica é a de dar uma risadinha de canto de boca e dar uma pausa na leitura para dizer “covarde”.

Um exemplo disso é a Stephenie Meyer, autora da saga Crepúsculo. Todo o andamento dos livros (e dos filmes) nos leva a crer que uma guerra sangrenta entre vampiros do bem, vampiros do mal, lobisomens e o que mais vier vai acontecer a qualquer momento. Vai acontecer, inevitavelmente. Todo o clima do confronto está armado e você já se ajeitou na cadeira com o baldinho de pipoca pra esperar a primeira cabeça rolar. A batalha começa. As primeiras perdas. Você pode até ficar triste, mas por Deus, é a guerra! As cenas continuam avançando em meio a poças de sangue. Mais perdas e você começa a achar que aquilo tudo não vai acabar da melhor forma. E de repente, como num passe de mágica…era tudo mentira. Uma das vampiras possui o poder de vislumbrar acontecimentos do futuro. Então na verdade, tudo o que vimos era só uma visão do futuro que poderia acontecer se a guerra chegasse às vias de fato. O vilão percebe que ia se dar mal, então vamos dar as mãos, esquecer isso tudo, tomar uma caipirinha e seguir a vida. Todo mundo vivo e bem. Hahaha, peguei vocês.

Minha cara ao saber o final de Crepúslo. Tmblr - Reprodução

Minha cara ao saber o final de Crepúsculo. Tumblr – Reprodução

Só que não. Dá até pra chamar isso de plot twist, porque de fato foi um plot twist mesmo. Mas foi uma virada muito, mas muito covarde para a história. O embate máximo da obra, que chegara ao ponto de uma guerra iminente, foi resolvido por uma visão sem que ninguém precisasse nem cortar o dedinho numa folha de papel? Sério?

Não sei se a decisão da Meyer foi tomada por amor aos personagens ou por achar que seu público não lidaria bem com a perda. Provavelmente teve muito a ver com a afirmação feita por ela durante uma entrevista: “I don’t think my books are going to be really graphic or dark, because of who I am. There’s always going to be a lot of light in my stories (Eu não acho que meus livros serão muito violentos ou obscuros, por causa de quem eu sou. Sempre haverá muita luz em minhas histórias)”. Mas acho que Crepúsculo perdeu muito com essa opção. Ficou aquela sensação de aventura de mentirinha, e o livro se beneficiaria muito com um desfecho mais maduro e realista. Um tiro no pé.

Mas, apesar de não simpatizar com a obra, tenho obrigação de defender a autora dizendo que desfechos assim não são exclusivos de marinheiros de primeira viagem. Quase caí da cadeira ao ler o final de O Leão, A Feiticeira e O Guarda-Roupa, nas Crônicas de Nárnia.

Eu já havia lido C. S. Lewis antes e sabia que ele podia ser bem ácido (recomendo ler Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz). Então foi com surpresa considerável que vi, após o confronto entre as tropas de Aslam e da Feiticeira, a pequena Lucia restituir a vida a todos os que foram transformados em estátuas, incluindo aqueles que haviam sido transformados anos antes, além de ver Aslam curando todos os feridos. Quer dizer que uma menina tinha um frasquinho com gotinhas milagrosas dado pelo Papai Noel que salvou a vida de todo mundo que era bonzinho? E essa resolução foi feita em menos de uma página? Na adaptação pro cinema esse final ficou ainda mais esquisito.

Talvez Lewis estivesse preocupado que uma matança de animais fofinhos fosse demais para o público infantil, embora as histórias de Nárnia sejam bastante lidas por adultos, e quis garantir um final cálido e aconchegante para os pequenos. Porém, neste mesmo conto o autor descreve uma cena muito mais grotesca, onde Aslam é sacrificado na Mesa de Pedra, após ser amarrado até sua carne rasgar, pisado, batido e cuspido. Então acho que as crianças poderiam aguentar um pouquinho mais…

Claro que o poderoso leão volta à vida depois, mas aí temos um cenário completamente diferente. Aslam é um ser mágico, uma divindade dentro de Nárnia, o que torna seu retorno bem mais crível. Além disso, estamos acostumados com a ideia do sacrifício/ressurreição, principalmente entre autores católicos, e Gandalf não me deixaria mentir. É uma importante alegoria sobre como o caráter e as convicções podem ir além da carne e conferir poderes, conferir evolução ao personagem. Mas aquele final… O próprio O Hobbit foi originalmente direcionado ao público infantil e nem por isso Tolkien poupou algum dos melhores personagens. A morte de Thorin Escudo-de-Carvalho só não seria pior que a perda do próprio Bilbo.

Seguindo em frente, temos o curioso caso dos autores que não se importam em perder personagens, mas que não conseguem sujar as mãos de seus protagonistas.

Existe uma responsabilidade muito grande em tornar seu protagonista um assassino. Sabemos da importância de acrescentar defeitos à personalidade dos personagens, para torná-los mais humanos e interessantes. É fácil que um personagem seja descrito como teimoso, arrogante, pateta. Mas são defeitos “miúdos”, que podem ser perdoados pelo leitor à medida em que o herói ou heroína toma atitudes que comprovam seu caráter e sua alma essencialmente boa. Fulano tem defeitos, como todo mundo, mas conseguimos amá-lo. Quando trazemos o assassinato e outros pecados maiores para a personalidade do protagonista, estamos pisando em terreno instável. É difícil olhá-lo com a mesma admiração, é difícil esquecer essa mancha muito mais profunda. Por isso, o assassinato precisa ser cuidadosamente planejado.

Se você escreve sobre uma guerra entre povos vikings, por exemplo, tudo se torna mais fácil. Sabemos que na guerra é preciso fazer coisas horríveis para defender um ideal e a própria vida. Sabemos que vikings são conhecidos por terem uma conduta ética diferente da usual, e não os consideramos necessariamente maus por tirar a vida de um inimigo. Mas e se você estiver escrevendo um romance e for muito necessário para a trama que sua heroína mate alguém? E se a vida que precisa ser tirada pertencer a uma criancinha inocente?

Gosto muito de usar Suzanne Collins (Jogos Vorazes) como exemplo, porque eu acho realmente genial a maneira como ela contorna esse problema. Antes de adentrar a Arena, somos apresentados a uma Katniss Everdeen completamente fria e calculista quanto à sobrevivência de sua família. Sabemos que ela não é má, pelo contrário, mas entendemos que ela está disposta a fazer qualquer coisa para garantir o bem-estar da irmã e da mãe. Katniss não é o tipo de garota que hesita na hora de atirar uma flecha num animal. E não poderia ser mesmo, ou jamais se encaixaria no papel que a história pede.

Ao se despedir da irmã, Katniss promete que vai tentar voltar. Promete que vai tentar vencer. E isso significa que ela está mesmo considerando a possibilidade de matar crianças, ou como ela mesma diz “não é da minha natureza cair sem lutar”. É uma ideia que a atormenta e que vai destruí-la psicologicamente, mas é a única maneira de sobreviver. Podemos ver isso em seu diálogo com Peeta, na noite anterior aos Jogos. Enquanto Peeta filosofa sobre manter seu caráter ou viver com o peso do assassinato, Katniss se mostra bem mais prática. Eles deveriam tentar vencer.

Mas então, quando os Jogos começam, Suzanne Collins inicia a difícil tarefa de não permitir que nada macule sua heroína. E ela faz isso muito bem. Destacarei algumas passagens:

Katniss joga a colmeia de teleguiadas no chão, causando a morte de Glimmer. No entanto, foram as abelhas que a mataram, e a ideia veio da pequena Rue. Além disso, Glimmer fora retratada como uma pessoa detestável, e ninguém estava se importanto muito com a sua morte. Fora o fato de que essa seria a única chance de Katniss escapar, e portanto, legítima defesa.

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Tumblr – Reprodução

Katniss mata o garoto do Distrito 1 com uma flechada. Assassinato, sem dúvidas. Mas o garoto havia acabado de acertar uma lança em Rue no calor do momento, uma menininha fofa e inocente, que já era queridíssima pelos leitores. Me pergunto se alguém ficou triste pela morte dele… Katniss também precisava ter feito isso, ou o garoto a atacaria também. Legítima defesa.

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Quando só restam Peeta, Katniss, Cara de Raposa, Thresh e Cato vivos, a dupla do Distrito 12 decide que vai tentar vencer. Ou seja, vão tentar assassinar os outros, mesmo que o pensamento os perturbe. Convenientemente, Cara de Raposa (a personagem mais inocente e pacífica) dá um jeito de se matar sozinha, comendo frutas venenosas colhidas por Peeta. Muito conveniente de fato, mas perfeitamente possível. Ponto pra Collins. Depois, Thresh é morto, livrando-os do peso de matar outro inocente que estava ali contra a sua vontade. Só sobra Cato, nesse ponto já transformado em um vilão sanguinário. Mesmo assim, Katniss apenas dá uma flechada em sua mão (e pra salvar Peeta), derrubando-o para que os bestantes façam o serviço. É verdade que ela atira a flecha final, que o mata, mas o ato se torna mais piedoso do que assassino.

thehungergames.wikia.com - Reprodução

thehungergames.wikia.com – Reprodução

Assim, ela termina a competição tão heroica quanto começou. Collins se aproveita disso para dizer que a Capital detesta o fato de Katniss ser uma “mártir”, e que deseja desesperadamente que ela suje as mãos. Por isso, mesmo no segundo livro, mais denso e violento, temos novamente Katniss sendo protegida por seus amigos de fazer algo imoral, afinal, isso estragaria seu simbolismo na Revolução. Genial.

Dessa forma, a autora consegue manter seu tom romântico mesmo em meio a um livro distópico, sem estragar a credibilidade da história. Todas as ações de Katniss podem ser explicadas por algo maior, que as redime. E mesmo assim, continuamos acreditando que se a garota precisasse mesmo fazer algo asqueroso, ela faria sem nem piscar. Não sei se posso chamar isso propriamente de uma covardia, mas é bem sagaz e evita um monte de problemas.

Sabe quem também é mestra em desenvolver o lado cruel e violento de seus personagens sem necessariamente manchar seu caráter? J. K. Rowling. E me arrisco em dizer que ela é também uma das escritoras que mais sofre com a sina de seus rebentos. Mas isso é assunto pra outro post…

Por que meus personagens favoritos estão morrendo?
Nada se cria, tudo se copia

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