Pequenos Deuses e suas grandes genialidades

O texto a seguir pode conter spoilers de: Pequenos Deuses. Depois não diga que eu não te avisei…

“O medo é uma terra estranha. Nele, a obediência cresce como milho, em fileiras que facilitam a colheita. Mas, às vezes, nele crescem as batatas do desafio, que florescem no subsolo.”

Já fazia um tempo que eu desejava ler algo no universo Discworld, idealizado pelo falecido Terry Pratchett. Eis que numa dessas reviravoltas do destino, ganhei um exemplar de Pequenos Deuses em um sorteio. Comecei a ler logo em seguida, imaginando que renderia algumas risadas e um post bacana, talvez uma lista. Só não sabia que estava para encontrar um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Por isso, com sua licença, pretendo passar o resto do texto a seguir divagando sobre o quanto Pequenos Deuses é uma obra maravilhosa.

Capa da Bertrand e Pratchett numa maravilhosa risada. Foto por Brad Wakefield / SWNS.com - Reprodução

Capa da Bertrand e Pratchett numa autêntica risada. Foto por Brad Wakefield / SWNS.com – Reprodução

Breve resumo do livro: O Grande Deus Om, divindade suprema dos omnianos, precisa descer a patamares mortais para escolher um novo Profeta. Mas algo sai errado, e Om surge sob a forma de uma imponente…tartaruga caolha. Desolado, Om acaba conhecendo o noviço Brutha, um jovem muito bom em cultivar melões, mas não muito brilhante em ler, escrever ou raciocinar. No entanto, Brutha possui uma memória notável: ele não consegue esquecer absolutamente nada que tenha visto ou escutado durante toda sua vida. Quando o temido diácono Vorbis, chefe da Quisição, descobre a habilidade de Brutha, resolve arrastá-lo para uma poderosa intriga em terras distantes. Tanto o noviço quando o pequeno Om terão de enfrentar uma jornada para alcançar esclarecimento, liberdade e fé. Ou até, quem sabe, evitar uma guerra santa.

Pratchett tem uma maneira de ver as coisas que é exclusivamente dele. Os acontecimentos banais podem se mostrar coisas fascinantes, ou no mínimo irônicas, com os quais podemos aprender valiosas lições. A forma de humor do autor já fica clara na primeira página de Pequenos Deuses, com o seguinte trecho:

“A tartaruga é uma criatura que vive no solo. É impossível viver mais perto do solo sem estar debaixo dele. Seu horizonte fica a meros centímetros de distância. Ela atinge toda a velocidade necessária para caçar uma alface. Para sobreviver, enquanto o restante da evolução a ultrapassava, bastou não representar ameaça a ninguém e dar muito trabalho para ser comida.”

Mas o foco do livro não está na contemplação das pequenas maravilhas do dia a dia (embora esta seja uma parte importante). Pequenos Deuses, é, acima de tudo, uma obra sobre a liberdade e a compaixão inspiradas pelo conhecimento. Sobre como questionar as verdades impostas por “autoridades” pode nos tornar seres humanos melhores.

Para isso, Pratchett cria um sistema opressor extremo, onde os omnianos são baseados claramente na Igreja Católica Medieval dos tempos da Inquisição. Tanto que seu equivalente, a Quisição, é responsável por torturas e castigos diários, tudo em nome do expurgo do pecado e da glória de Om. Interessante que, ao longo do texto, vemos que todas as atrocidades cometidas pelo sistema são consideradas tão normais dentro da sociedade, que a Quisição é sustentada e praticada por pessoas “de bem”. Elas não conseguem questionar o que estão fazendo, apenas seguem ordens superiores e enxergam toda a situação como banal ou corriqueira. Num trecho do livro, Vorbis divaga sobre seus funcionários:

“…quase todos os excessos do mais louco dos psicopatas podem ser facilmente duplicados por um homem de família normal e gentil, que apenas vai trabalhar todos os dias e tem uma tarefa a fazer.” 

Assustador, não? E quantas vezes encontramos essa situação, por exemplo, em confrontos policiais?

Vorbis e Om. Fonte: http://kemar.blogs.3dvf.com/2010/11/06/les-petits-dieux-small-gods-de-sir-terry-pratchett/ - Reprodução

Vorbis e o Grande Om. Fonte: http://kemar.blogs.3dvf.com/2010/11/06/les-petits-dieux-small-gods-de-sir-terry-pratchett/ – Reprodução

Outro ponto de Pequenos Deuses, que agradaria imensamente a Philip Pullman, é a representação dos fiéis e do clero. A única pessoa que possui uma fé verdadeira é Brutha, uma conclusão a que Om chega rapidamente. Os omnianos de Pratchett crêem no sistema. A população e os servos do templo temem sofrer as punições da Quisição, enquanto o clero de mais alta hierarquia está envenenado pela própria posição de poder e pelo conforto. E Vorbis…bem, Vorbis está envenenado por seu próprio ego. A instituição, aos poucos, tomou o lugar do Deus. As pessoas não seguem mais os princípios em respeito ao Deus, e sim, em temor à Quisição.

“Um lugar para todos. E todos em seu lugar.”

Além das intrigas políticas, também vemos a luta diária dos servos de Om para seguir um regime que repreende até os mais básicos instintos humanos. Irmão Nhumrod, por exemplo, passa os dias “combatendo seus pensamentos impuros”, que costumavam estranhamente surgir após a contemplação dos melões e pepinos da horta… if you know what I mean.

Quanto ao papel da mulher, os omnianos seguem os moldes da Igreja Medieval. Elas possuem status social mais baixo que o dos homens, não podem ocupar cargos de chefia e são consideradas fontes de pecado.

“…as mulheres eram apenas toleradas no templo e tinham de ficar em silêncio absoluto e muito bem cobertas, em seu setor específico atrás do púlpito, para evitar que a visão da outra metade da raça humana fizesse com que os membros masculinos da congregação ouvissem vozes não tão distintas daquelas que atormentavam Irmão Nhumrod a cada hora de sono e de vigília.”

Gosto como Pratchett sutilmente deixa claro em várias passagens que as mulheres, o vinho, os espelhos e até os melões não são fontes de “pecado”. As mulheres precisam se cobrir para não tentar os padres, quando na verdade, o padre deveria se abster da tentação. E isso se você considerar o desejo carnal um pecado. Porque Om mesmo, não parece estar nem aí…

E é claro que, como na vida real, existem os fiscais. Pessoas que se consideram os pilares da moral e da corretude. Tanto Vorbis quanto a avó de Brutha, uma carola fervorosa, não hesitam em apontar o dedo em julgamento. Brutha conta que, em sua infância, recebia uma surra da avó todas as manhãs, já que ele provavelmente cometeria algum pecado durante o dia. O engraçado é que, também como na vida real, os fiscais dificilmente notam seus próprios defeitos, por vezes muito mais hediondos do que os daqueles que são fiscalizados.

“Há uma tendência em enxergar mais escorregadelas do que no campeonato nacional de tobogã, em declarar que a heresia deve ser arrancada pela raiz – e também pelos braços, pernas e línguas – e que é hora de um novo começo.”

Quem não conhece alguém assim, né mesmo? Fonte: globo.com - Reprodução

Pela moral e os bons costumes de Ilhéus. Fonte: globo.com – Reprodução

A própria figura de Brutha é criada de uma maneira magistral. O noviço representa todos nós, sob a influência de um ou mais sistemas controladores: não precisamos necessariamente estar falando de religião. Brutha nasceu sob o manto de uma instituição que dita o comportamento humano de acordo com seus preceitos e age com extrema intolerância. Brutha nunca foi incentivado a pensar ou tirar suas próprias conclusões. A Igreja de Om  escraviza a massa pela ignorância e pelo medo, um recurso bem comum ao longo da História.

“…um momento de reflexão era o maior de todos os pecados. Pessoas autorizadas a ficar sozinhas por muito tempo podiam mergulhar em contemplação solitária. Era bem sabido que isso atrofiava o crescimento. Por exemplo, poderia levar a ter seus pés decepados.”

Mas isso só até o momento em que Brutha começa a interagir com Om. Ora, qual melhor maneira de ter excelentes reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais se não conversando diretamente com o seu Deus?

Em Discworld, existem milhares e milhares de deuses, de todos os tamanhos. O maior desejo de um pequeno deus é conseguir atrair a atenção de um fiel, e assim ganhar importância. Um deus só pode existir através da crença. Quanto mais pessoas seguem o deus, mais poderoso este se torna, e se ninguém mais acredita, o deus simplesmente deixa de existir. Essa eterna gangorra faz com que a preocupação dos deuses esteja muito mais voltada para o marketing pessoal e para castigos do que para o bem estar de seus seguidores.

“Deuses não gostam de pessoas que não trabalham muito. Pessoas que não estão ocupadas o tempo todo podem começar a pensar.”

Assim que Brutha percebe que Om precisa muito mais dele do que o contrário, a centelha do desafio surge em sua mente. Brutha está refletindo sobre verdades impostas a ele, que provavelmente não eram tão verdadeiras assim. Ressalto os diálogos onde Om revela que as escrituras dos Profetas, consideradas leis pelos omnianos, foram fruto ou da imaginação do próprio Profeta ou de um grande mal entendido.

“- Quem lhe disse que eu era onipotente?

– Você.

– Não, eu não disse.

– Bom, ele disse que você disse.”

Até porque, no início da jornada, Om é um deus típico. Orgulhoso, mimado, cabeça dura, sem um pingo de ética. Porque se importar com os mortais quando se tem poderes, certo? Mas, ao enfrentar as adversidades no caminho (principalmente no deserto), Om se coloca em um lugar de vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que eleva Brutha à condição de seu igual.

É a viagem (adoro isso) que modifica a mente de ambos. Om passa a enxergar verdadeiramente os seres humanos, tem um primeiro contato com sentimentos como compaixão e tolerância. Entende que fiéis não são peões no tabuleiro do jogo divino. Quanto à Brutha, conquista sua liberdade ao agir de acordo com a justiça e com seu caráter, e não por medo de uma possível retaliação.

Acho extremamente simbólico o fato do despertar completo de Brutha ter se dado após a memorização de todos os pergaminhos filosóficos da cidade de Efebo. É o conhecimento (informações aprendidas + experiências vividas) que liberta o povo, que nos torna mais gentis por nos dar a capacidade de enxergar com os olhos do outro.

“…acho que tem a ver com a maneira como as pessoas devem se comportar. Acho…que se deve fazer algo por ser a coisa certa. Não porque os deuses disseram.”

Om abre espaço para que Brutha reflita. Brutha, para que Om se humanize.

Fonte: tutturuinen.tumblr.com/ - Reprodução

Fonte: tutturuinen.tumblr.com/ – Reprodução

Abro uma observação aqui para a sensibilidade do autor na criação do caráter de Brutha. Pratchett consegue fazer com que a moral e a humanidade do jovem seja quase imaculada, e no entanto não ficamos com aquela sensação de prepotência. Brutha não se sente melhor do que os outros, ele apenas alcançou um patamar de liberdade onde precisa ser justo para viver em paz consigo mesmo. Se não me falha a memória, há uma passagem onde Om incentiva o noviço a realizar uma má ação, alegando que, por estarem no meio do deserto, ninguém saberia. Ao que Brutha apenas responde “eu saberia”.

(Essa é pra você, que espia o objetivo do coleguinha no WAR só porque ele foi ao banheiro.)

E se você imagina que eu destrinchei todas as grandes genialidades de Pratchett neste post, posso garantir: isso não é nem metade do que você encontra em Pequenos Deuses. Não cheguei nem a comentar sobre outros personagens riquíssimos e sobre outros questionamentos feitos pelo autor. Adoro a questão dos escravos de Efebo, da importância da incerteza, da morte e da prepotência humana em relação ao restante dos animais. Sir Terry Pratchett, o senhor me deu um livro pra lembrar pro resto da vida.

De Chelonian Mobile! – A Tartaruga se Move!

Fonte: Giphy - Reprodução

Fonte: Giphy – Reprodução

* Nota: Tecnicamente, Om possui a forma de um jabuti. Ele caminha em terra firme e não faz a mínima ideia de como nadar. Apesar de Pratchett ter feito essa distinção no livro, a tradução brasileira resolveu tratar Om como uma tartaruga, talvez para criar um melhor paralelo com a grande tartaruga que carrega Discworld nas costas…

Sobre o uso de pseudônimos
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