Por que meus personagens favoritos estão morrendo?

O texto a seguir pode conter spoilers de: Game of Thrones, Jogos Vorazes. Depois não diga que eu não te avisei…

Se você acompanha as principais sagas literárias da atualidade, deve possuir uma caixinha de lenços de papel na cabeceira da cama. Afinal, eles estão se tornando cada vez mais necessários: é só virar a página e provavelmente mais algum Stark morreu. Você sente saudades daquela época em que podia se sentir seguro lendo seu livro favorito, pois não importava se o protagonista estava atravessando a rua ou escalando o monte Everest: ele era um protagonista e jamais deveria morrer.

A fama de George Martin como um grande carrasco de seus leitores até que é bem merecida. Já aconteceram 284 mortes somente nos cinco primeiros volumes da saga e mais de 5000 mortes no seriado.

Tumblr - Reprodução

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E a sensação que temos é de que cada vez mais autores estão se juntando ao “Clubinho Martin de Escritores Sanguinários”. Harry Potter, Jogos Vorazes, O Senhor dos Anéis e até mesmo o fofíssimo Marley & Eu, todos eles partiram nossos corações em pedaços. E o mais interessante é que são justamente títulos como esses que ocupam as primeiras posições na lista dos mais vendidos.
Tomando o Sr. Martin como exemplo, sempre que ocorre uma morte na trama, basta abrir o Facebook e escutar enxurradas de comentários revoltados do tipo:

“Poxa, mas ele era o meu favorito! Ele sempre mata os meus favoritos.”

“Mas ela ainda tinha tanto potencial para desenvolver. Eu queria que ela continuasse na história.”

“Mas ele morreu tão injustamente! Como é que fizeram uma coisa dessas com ele?”

Até quando estamos falando de um personagem odiado pelo senso comum, a revolta continua. A morte de Joffrey, envenenado durante o Casamento Roxo, foi uma das mais controversas. Se antes bradávamos para que fizessem picadinho do chatíssimo rei, agora continuamos reclamando sobre como “ele deveria ter sofrido muito mais”, que “morrendo desse jeito, nem percebeu o quanto foi ruim” e até mesmo, pasme, “eu ainda tinha esperanças de que ele iria se redimir…”.

A verdade é que nunca estivemos tão incomodados com a morte de indivíduos imaginários quanto hoje. A perda de um personagem, mesmo dentre os mais secundários, deixou de ser um infortúnio no desenvolvimento do enredo e passou a ser uma tragédia, uma dolorida lembrança que nos acompanha pelo resto da história. Nunca estivemos tão próximos, tão íntimos dos personagens.
E para entender esse fenômeno, temos que responder a duas perguntas:

1 – Por que tantos personagens estão morrendo?

Na verdade, os personagens estão morrendo como sempre estiveram, desde que a literatura surgiu nesse mundo. As histórias da mitologia nórdica e grega estão recheadas de gente morta, fruto de traições, assassinatos ou do simples acaso. O primeiro gênero da dramaturgia foi a tragédia. Shakespeare era mestre em dar cabo de seus personagens, estou até hoje tentando digerir a sina de Ofélia em Hamlet. Isso sem falar em Romeu e Julieta. Os contos de fadas são escabrosos em suas versões originais. Na literatura nacional, mais uma penca de velórios. Quem lembra da cachorrinha Baleia? Descanse em paz, Baleia…

Se a morte sempre foi tema recorrente nos livros, porque estamos com essa sensação esquisita de que agora “os bons vão mais cedo”?

A meu ver, o que realmente mudou foi a maneira com que a perda é apresentada para sua audiência. Principalmente na literatura fantástica, onde crianças e adolescentes são consumidores ávidos, a morte era tratada como um acontecimento necessário para o andamento da história ou resolução de problemas. Personagens morreriam salvando outros, morreriam porque foram maus ou morreriam como pano de fundo para o crescimento do caráter de personagens principais (vide tantas histórias de órfãos na prateleira dos livros infantis).

Mas somente agora “a vida como ela é” está sendo introduzida na literatura fantástica. Estamos unindo a magia à vida real, e apresentando essa mistura a leitores cada vez mais jovens. E coisas ruins acontecem na vida real, com qualquer pessoa. A morte não precisa mais de um pretexto, de um significado para acontecer. Em Game of Thrones, pessoas podem morrer simplesmente pelo azar de estar no lugar errado e na hora errada, mesmo que deixem um monte de assuntos pendentes para trás. Suponha que você esteja lendo um livro sobre um menino que precisa descer uma escada para achar um tesouro. O menino poderia até morrer no final, ou o tesouro poderia ser amaldiçoado e o menino seria infeliz pra sempre, mas pelo menos tínhamos a certeza de que ele chegaria até o tesouro, porque se não a história não faria sentido, não é mesmo? Agora, a jornada se torna mais interessante que o desfecho, e o acaso começa a agir. O menino pode tropeçar na escada e morrer ao bater a cabeça. No meio da escada o menino pode simplesmente achar tudo aquilo uma bobagem e voltar pra casa. Uma tsunami pode varrer o menino, a escada e o tesouro pra longe. Não há mais locais seguros, não há mais zona de conforto para o leitor. Por isso, as mortes nos chocam mais, por sua fatalidade, por serem aleatórias. E George Martin é um mestre nesse jogo, como ele mesmo explica:

http://www.buzzfeed.com/ryanhatesthis/24-reasons-why-george-rr-martin-is-the-biggest-troll-in-lite#.sxmrJQVAG

“Nós tomos vemos esses filmes onde o herói está em perigo, cercado por 20 pessoas”BuzzFeed – Reprodução

http://www.buzzfeed.com/ryanhatesthis/24-reasons-why-george-rr-martin-is-the-biggest-troll-in-lite#.sxmrJQVAG

“Mas você sabe que ele vai se safar porque ele é o herói”BuzzFeed – Reprodução

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“Eu quero que meus leitores e expectadores sintam medo quando meus personagens estão em perigo”BuzzFeed – Reprodução

E sabe porque ele quer que você tema pela vida do herói? Porque isso causa empatia. Porque isso faz você querer cuidar dos personagens e sofrer com eles diante do inesperado. Porque isso os torna humanos.

Se o herói não tem certeza de que vai conseguir, se ele sofreu injustiças e viu pessoas morrendo em vão, a complexidade emocional dele se torna muito mais ampla, e você se identifica bem mais.
Assim, podemos concluir que o número de mortes não muda muito. A maneira como as mortes acontecem é que está diferente, principalmente para o público jovem. E também a nossa maneira de reagir diante delas está mudando. O que nos leva a nossa próxima pergunta.

2- Porque você sofre por cada um deles?

Dizem que George Martin vai matar todos os seus personagens favoritos. O que é uma grande verdade, já que todo personagem da série tem potencial para ser o favorito. Se você juntar dez fãs, eles vão apontar dez personagens diferentes. Você provavelmente tem pelo menos três queridinhos e simpatiza com mais uns cinco. Então é claro que a morte de um deles vai doer, afinal, você choraria por todos. Esse é o grande segredo.

Os autores estão percebendo uma coisa que gente como o Tolkien já tinha sacado faz é tempo. Não existe um herói específico, uma pessoa não pode ser a responsável por tudo de bom que acontece, assim como outra não pode ser a responsável por tudo de ruim. Basta ver a quantidade de histórias surgindo com a narrativa sob vários pontos de vista, onde podemos mergulhar sob a ótica de personagens diversos (mas isso é assunto pra outro post). Entendemos suas motivações, torcemos por eles, perdoamos seus atos e colocamos todos eles em nosso coração. Todo mundo tem defeitos e virtudes, toma decisões no calor do momento e se arrepende das coisas que fez. No último livro de Jogos Vorazes temos um grande exemplo de como algo ruim pode ser causado por gente de bom coração.

Já vimos vários vilões morrendo. Capangas do vilão então, perdi as contas. Mas ninguém se incomoda muito, não é? Eles eram apenas gente ruim. Nas grandes batalhas entre exércitos do bem e do mal, sabemos que vários bravos guerreiros morreram lutando, mas eles eram só números. Só que agora conhecemos seus nomes, sabemos de suas histórias e entendemos seus medos. Os protagonistas não são mais os únicos responsáveis pela trama. Muitos eventos importantes são motivados por personagens secundários, e nosso foco se expande. O próprio conceito de protagonista está mudando com o fim das narrativas lineares. Entendemos que uma pequena ação de gentileza pode ser decisiva e mover montanhas lá no futuro. E entendemos que todos são humanos e por isso, preciosos.

Existe até um site com as lápides imaginárias de todos os personagens que morreram em Game Of Thrones. Basta clicar em uma lápide e uma flor aparece para homenagear o finado. Apesar dos protagonistas possuírem um número maior de flores, dá pra notar que ninguém é esquecido. Ou, como diz o próprio site “Bons ou maus, todos tocaram nossas vidas de alguma maneira”.
Por isso que pranteamos cada morte, mas no outro dia já estamos lá na fila pra comprar outro livro ou assistir outro episódio. Nos apaixonamos por histórias de ficção feitas de gente em carne e osso. E como acontece de gente de carne e osso acabar morrendo, é melhor ir se conformando antes de começar o próximo livro…

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Pequenas covardias literárias

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