Por que vale a pena ler Fronteiras do Universo

O texto a seguir pode conter spoilers de: Fronteiras do Universo. Depois não diga que eu não te avisei…

Discutir o trabalho de Philip Pullman é uma ótima maneira de levantar polêmicas. Basta mencionar algum de seus livros para ver muita gente torcer o nariz. E é bem verdade que o autor não faz a mínima questão de mudar sua terrível fama, tecendo comentários bastante ácidos sobre colegas de profissão (em especial contra C. S. Lewis).

No entanto, apesar de reconhecer o talento de Pullman como um ótimo causador da discórdia, acho que sua obra vem sendo julgada de maneira injusta pela maioria dos leitores, e não recebe a devida atenção. Em especial sua trilogia, Fronteiras do Universo, composta pelos títulos A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar.

Fonte: Skoob - Reprodução

Fonte: Skoob – Reprodução

O enredo se baseia na história de Lyra Belacqua e seu dimon Pantalaimon (uma parte consciente de sua alma que a acompanha e assume a forma de vários animais), numa jornada através de lugares fantásticos em busca do significado de uma substância conhecida como Pó. Sua busca a levará a questionar a autoridade de uma Igreja totalitária e a confrontar o próprio Deus.

Conheço várias pessoas que não se sentem atraídas a ler Fronteiras do Universo, geralmente por um destes três motivos: ou acha que é uma história infantil, ou acha que é uma apologia ao ateísmo, ou acha que o livro deve ser fraquinho porque sua adaptação nos cinemas foi fraquinha.

Errado, errado e errado.

Não só o universo de Pullman é fascinante por si só (uma ótima introdução ao steampunk) como também é repleto de significados e questionamentos importantíssimos, sutilmente costurados à narrativa. Fronteiras do Universo é uma daquelas obras que todos deveriam ler pelo menos uma vez na vida. Destaquei alguns pontos interessantes que fazem a leitura valer muito a pena.

1 – História infantil uma ova

Fronteiras do Universo pode parecer uma história para crianças. Pode até servir como uma história para crianças. Mas não é, nem nunca vai ser, uma obra infantil.

Do mesmo modo que O Hobbit e As Crônicas de Nárnia, Pullman nos apresenta uma daquelas aventuras que podem ser lidas a qualquer idade, que são capazes de cativar qualquer faixa etária, mas que no entanto só podem ser compreendidas em sua totalidade por um público mais maduro. Você já deve ter sentido a sensação de reler um livro da infância e perceber uma nova camada de significado em cada palavra, antes submersa muito abaixo do que sua percepção de criança poderia alcançar.

Como tão bem colocado por Lewis, “uma história infantil que é apreciada somente por crianças é uma história infantil ruim”.

2 – Feminismo e igualdade

Em A Bússola de Ouro, Pullman nos traz uma protagonista mulher. Esse talvez seja o primeiro sinal de suas inclinações feministas. Lyra é uma garota comum, embora sua história e circunstâncias sejam incomuns. Ela não é terrivelmente bonita, rica ou possui algum superpoder. Ela é apenas uma garotinha forte, muito esperta, curiosa e com uma imensa capacidade de liderança.

A partir do segundo livro, A Faca Sutil, surge Will, um garoto que fará as vezes de um segundo protagonista. Em nenhum momento existe uma comparação entre Lyra e Will. Eles sempre estarão em pé de igualdade, e enxergarão um ao outro como um semelhante, como um parceiro. Lyra não é uma garotinha indefesa, Will não é um príncipe salvador. Eles são um garoto e uma garota, diferentes em suas fraquezas, mas sempre igualmente capazes. Acho de uma maestria ímpar o modo como Pullman é capaz de mantê-los sempre em equilíbrio.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Outro ponto interessante é a representação das feiticeiras, retratadas como mulheres muito sábias, poderosas e independentes. Inclusive sexualmente. Feiticeiras são livres para possuírem amantes, casar, ter filhos ou simplesmente se abster da vida amorosa. Vivem de acordo com suas próprias regras, fugindo de qualquer padrão social relativo ao posicionamento da mulher. Ao mesmo tempo, sua espécie é considerada, de modo geral, benevolente, mas algumas feiticeiras passam a apoiar o lado opressor, buscam vingança e invejam. São, eu diria, bastante humanas. Humanas livres.

Além disso, somos apresentados a um número gigantesco de criaturas, de formas e culturas variadas. Pessoas do tamanho de um polegar, anjos, quadrúpedes, ursos de armadura. Pullman sempre reforça que o “lado do bem” é aquele que consegue unir e dialogar, entender o diferente. Apenas o lado opressor teme o diferente. Em nenhum momento a opinião de um personagem vale menos que a de outro, ou sua vontade. Pelo menos não por causa de sua origem, gênero, sexualidade, raça ou credo. Nem mesmo entre os vilões existe uma diferenciação, uma vez que a Sra. Coulter é de longe a antagonista mais interessante de todo o enredo.

3 – O empoderamento dos protagonistas

Li certa vez que a diferença entre Philip Pullman e C. S. Lewis é que, enquanto as crianças de Nárnia são levadas para um mundo fantástico por meio de um plano divino, Lyra e Will cortarão seu caminho através dos mundos, com sangue e suor. Não poderia concordar mais.

Os personagens de Fronteiras do Universo não são apenas capazes de reagir sobre o que o mundo lhes apresenta. Eles desafiam, eles tomam as responsabilidades e crescem com seus erros e descobertas. Eles decidem seus próprios destinos. Claro que, por se tratarem de crianças, algumas de suas decisões são amparadas pela opinião e ajuda de personagens adultos e bem mais sábios. Porém, nenhuma dessas ajudas é providencial, não temos a sensação que Lyra e Will são jogados de um lado para outro pelo destino.

Quando Will se torna portador da Faca Sutil, um instrumento capaz de cortar o espaço que separa mundos diferentes, ele precisa pagar com sua carne (mais especificamente dois dedos da mão) o preço da ferramenta. E ele cresce com essa experiência. A evolução de Lyra é mostrada de uma forma mais sutil que a de Will, mas igualmente poderosa: através de sua relação com Pantalaimon e como os diálogos entre os dois se tornam mais profundos.

As duas crianças precisam conviver com conceitos como assassinato, traição e abandono. E claro, quando começam a adentrar a puberdade, estão se tornando um homem e uma mulher extremamente fortes.

Esse empoderamento também pode ser observado em outros personagens. A Sra. Coulter, Lorde Asriel, o urso Iorek, todos possuem suas motivações. Mesmo quando suas ações são repreensíveis, compreendemos seu propósito. Gosto como o autor se desvia dos arquétipos do “mocinho” e do “malvado” e permite que cada personalidade trace sua sina. Os dimons também são ótimas ferramentas para explicitar a personalidade e o crescimento de seus donos.

4 – Balthamos, Baruch e o amor

Balthamos e Baruch são dois anjos de baixa patente, representados como seres masculinos e completamente apaixonados um pelo outro. E esse amor não é colocado como um ponto central, como uma polêmica. É um amor tão natural na história, tão despretencioso que nos faz pensar “e porque não?”. Pullman mexe no grande tabu da homossexualidade com a mesma leveza de quem diz, por exemplo, que o cabelo de alguém é castanho. Ele simplesmente é, e isso não causa desconforto ou surpresa. Apenas os dois seres se amam, oras.

“…os dois anjos estavam se abraçando e Will, contemplando as chamas, observou a afeição entre eles. Era mais que afeição: eles se amavam apaixonadamente.”

“…(Baruch) olhava para Balthamos como se este fosse a fonte de todo conhecimento e felicidade. Will se deu conta de que estava intrigado e comovido com o amor que tinham um pelo outro.”

Pullman nos mostra o amor de várias formas, todas elas tão verdadeiras e realistas que é impossível não se deixar emocionar. Temos o conturbado relacionamento entre Sra. Coulter e Lorde Asriel, temos as paixões fulminantes das feiticeiras, o amor dos pais, o amor dos amigos. Para quem quer ter um contato com romance mas odeia livros de romance, taí uma boa história pra começar.

Sra Coulter e Lorde Asriel - Fonte: Tumblr - Reprodução

Sra Coulter e Lorde Asriel: amor fora dos padrões, mas…amor. – Fonte: Tumblr – Reprodução

E, claro, temos o amor de Will e Lyra, que, por serem duas crianças, deve ser tratado com o maior cuidado. O envolvimento dos dois é evidente, porém retratado com inocência. À medida em que os dois crescem, as passagens que sugerem um interesse mútuo também vão se tornando mais frequentes. Vale a pena ler o livro só pra conferir como o autor consegue descrever tão bem a transição da criança para o adolescente. Em tempos de Jacob-Renesmee, eu poderia ficar aqui rasgando seda pro Pullman para todo sempre.

5 – Este não é um livro sobre ateísmo

Essa é a maior falácia sobre Fronteiras do Universo. Ele se tornou um livro querido pelo público ateu por criticar fortemente a instituição religiosa. Mas jamais critica a fé e a religião.

Uma prova disso é que, embora Pullman seja realmente ateu, suas histórias estão repletas de referências ao sagrado, como a deusa Yambe-Akka das feiticeiras. Ele nem mesmo chega a negar a existência de um criador (pelo contrário!). Apenas diz que um usurpador tomou pra si o título de criador, e agora governa com punhos de ferro.

A crítica de Pullman é muito mais política que religiosa. Em seu universo fictício, a Igreja encontra-se sob o papel do Magistério, uma instituição religiosa extremamente controladora e totalitária, que exerce influência sobre a população e os países. Sua metáfora é de que, quando a religião se utiliza da opressão para obter poder (como ocorreu durante a Inquisição), ela passa a obedecer a um falso Deus. Pullman é contra qualquer forma de opressão, e chega a criar o termo “República no Céu”. Ou seja, o autor não quer negar a religião. Quer apenas que ela seja justa, inclusiva e tolerante, como uma república. A única coisa que as crianças aprenderão nos questionamentos de Pullman é que, quando seres ambiciosos e corruptos usam a fé para controlar pessoas, coisas ruins acontecem. E já vimos vários exemplos disso ao longo da História…

Mas claro que muita gente não interpretou assim. O Vaticano ficou tão alvoroçado com a obra que expediu pronunciamentos para explicitar sua total reprovação ao autor. A trilogia foi banida de escolas. E a polêmica cresceu a tal ponto que, quando o roteiro do filme sobre A Bússola de Ouro foi escrito, boa parte da história foi distorcida ou esquecida, temendo perder uma audiência mais conservadora. O que, óbvio, deixou a adaptação para o cinema completamente sem sal.

E se a religião como forma de opressão é um dos pilares de Fronteiras do Universo, não é sua única fonte de críticas.

Também somos levados a questionar a ética científica (até que ponto uma experiência se justifica pelo avanço da ciência?), a burocracia no financiamento de pesquisas, a corrupção, o preconceito… Enfim, um livro pra você pensar da primeira à última página.

6 – A grande lição

Toda a narrativa de Fronteiras do Universo culmina com a recriação do mito de Adão e Eva. E essa metáfora é também sua grande lição. O grande pecado oferecido pela serpente (personificada, que ironia, por uma ex-freira que se torna cientista), nada mais é que o conhecimento. A capacidade de procurar a verdade, conhecer sua essência e questionar o que lhe é imposto é o maior trunfo da humanidade contra um sistema totalitário, seja ele religioso ou não. O empoderamento do cidadão comum é o maior medo de um tirano.

"Deixe que eles tentem nos impedir" - Fonte: Giphy - Reprodução

“Deixe que eles tentem nos impedir” – Fonte: Giphy – Reprodução

O livro também está cheio de cenas com ótimos exemplos, lições encantadoras e cenas belíssimas e cheias de significado. Mas se eu fosse falar de todas elas, acabaria resumindo a história inteira (e esse texto já está bem grandinho).

Num artigo que adoro, Andrew Marr resume tudo o que foi dito acima:

These books have disturbed and angered Christian theologians almost everywhere that they have been noticed. So they should: Pullman is against all that. But I want my children to read him for a reason that C S Lewis would have understood – because they will be better people afterwards. (Estes livros perturbaram e enfureceram teologistas cristãos praticamente em todo lugar onde acharam destaque. E deveriam mesmo: Pullman é contra tudo isso. Mas quero que meus filhos o leiam por uma razão que C. S. Lewis teria entendido – porque eles seriam pessoas melhores depois disso.)

Mas e o tal steampunk?
A maldição do primeiro capítulo

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