Por que vale a pena ler Golem e o Gênio

O texto a seguir pode conter spoilers de: Golem e o Gênio. Depois não diga que eu não te avisei…

Golem e o Gênio foi um livro que me apresentou a uma atmosfera completamente nova dentro do gênero da fantasia. Eu já conhecia os épicos mais tradicionais, onde a magia encontra-se encaixada no cenário medieval. Já conhecia o estilo de Neil Gaiman, onde o fantástico coexiste em silêncio com a sociedade, mostrando-se apenas àqueles dispostos a prestar atenção. Conhecia as histórias futuristas, as passadas em outros planetas, e também os steampunks sobrenaturais que mesclam a magia com boas doses de ciência.

Mas Golem e o Gênio é outra coisa. Um livro que cheira a poeira, incenso e concreto.

Fonte: io9.com - Reprodução

Fonte: io9.com – Reprodução

“O premiado romance de estreia de Helene Wecker é uma viagem fascinante através das culturas árabe e judaica. Chava é uma golem, criatura feita de barro, trazida à vida por um estranho rabino envolvido com os estudos alquímicos da Cabala. Ahmad é um gênio, ser feito de fogo, nascido no deserto sírio, preso em uma antiga garrafa de cobre por um beduíno, séculos atrás. Atraídos pelo destino à parte mais pobre de uma Manhattan construída por imigrantes na virada do século XX, os dois se tornam improváveis companheiros de alma, desafiando suas naturezas opostas. Até a noite em que um terrível incidente os separa.”

Helene Wecker fez bastante barulho com seu livro de estreia, para mim, o melhor trazido pela Darkside até o momento. É até difícil explicar o que a história tem de tão diferente e porque ela me cativou tanto, então decidi dividir minhas impressões através de cinco tópicos que não cobrirão nem metade do meu fascínio por esse livro, mas que são o melhor que pude fazer (considerando que passei uns 20 minutos olhando para o vazio após terminar a leitura).

– Ambientação e mitologia

Golem e o Gênio já conquista por abordar mitologias não muito exploradas no mercado: a cultura judaica e árabe. E sim, sei que estamos cansados de ouvir histórias de gênios, príncipes em tapetes voadores e caravanas perdidas no deserto. Mas por algum motivo, estas lendas são tratadas em sua maioria apenas por um viés infantil, ao melhor estilo As Mil e Uma Noites ou Aladdin. Com isso, Golem e o Gênio se torna único pelo tratamento maduro com que conduz o tema.

Helene Wecker ambienta sua história na Nova Iorque de 1899, uma época marcada pela imigração, sobretudo de judeus (dominando o Lower East Side) e de cristãos libaneses e sírios (criando colônias próximas ao Rio Hudson, lado oeste). Neste período, os Estados Unidos se recuperavam das cicatrizes deixadas pela Guerra Civil e passavam por uma profunda revolução industrial, ascendendo como potência política, econômica e militar. É nesta cidade, apertada, frenética e cheirando a fumaça, onde as pessoas vêm e vão aos milhares, que nossos protagonistas acabarão se encontrando.  

A pesquisa realizada pela autora foi provavelmente monstruosa. Não apenas pelas descrições geográficas e divisão dos bairros pertencentes a judeus e sírios, mas também pelas vestimentas, jornadas de trabalho e modo de vida da população. De uma mansão da aristocracia até os prostíbulos do Bowery, tudo é muito bem descrito e detalhado. A cidade passa a ser quase uma entidade na história, o tabuleiro perfeito onde Helene dispõe seus personagens e dita o clima do jogo. Ela pode parecer promissora e calorosa em alguns momentos, assim como fria e opressora em outros. Enfim, uma aula sobre História e costumes, onde o proletariado é o maior protagonista.

Fonte: “The Syrian Colony, Washington Street,” por W. Bengough - Reprodução

Fonte: “The Syrian Colony, Washington Street,” por W. Bengough – Reprodução

– Entrelaçamentos

Helene não economizou no número de personagens. Numa conta rápida consigo pensar em pelo menos 12 personagens importantes para a narrativa, fora inúmeros outros coadjuvantes. Cada um dos personagens é desenvolvido emocionalmente no livro, cada um tem sua personalidade distinta e motivações bem delineadas.

Se não bastasse lidar com tanta gente, a dimensão temporal em Golem e o Gênio também não segue uma linha reta. Alguns personagens pertencem ao passado, outros ao presente, e há ainda os que transitam entre as duas fases. Como o livro intercala memórias e cenas do presente (um recurso que parece que virou moda mesmo), é preciso uma maestria muito grande para amarrar, ou melhor, trançar, tantos fios soltos de maneira a dar-lhes um sentido. E Helene não só consegue fazer isso como também consegue dar um papel crucial a cada um deles. Amamos e odiamos cada um dos personagens, e entendemos a importância deles dentro do enredo. Não existe ninguém supérfluo, nenhuma peça que não precisaria estar lá. E como uma grande entusiasta das histórias que não apelam para um único herói/vilão, acho que Golem e o Gênio merece mesmo o subtítulo de “uma fábula eterna”.

“Depois de mais alguns dias de um sôfrego treinamento, Arbeely concluiu que era chegada a hora de apresentar o Djim ao restante da Pequena Síria. O plano que havia elaborado para isso contava com a própria mulher que era, em certo sentido, responsável pela nova vida do Djim em Manhattan: Maryam Faddoul, a proprietária do café que entregara a Arbeely uma garrafa de cobre que precisava de conserto.”

– Relacionamentos

Helene trata os relacionamentos humanos com uma maturidade e um pé no chão impressionante. Golem e o Gênio não abre espaço para o romantismo, o amor à primeira vista, o encontro das almas gêmeas. E como poderia ser, numa história ambientada em meio ao realismo de uma revolução industrial?

Gosto particularmente do relacionamento entre Ahmad e Sophia Winston. O djin tem pela garota apenas desejo, apenas a satisfação de cumprir um desafio. E embora Sophia, em sua jovem ingenuidade, espere por um breve momento que a relação dos dois possa evoluir para algo mais concreto, a moça logo entende a realidade de sua situação. E cresce com isso, e faz com que Ahmad cresça com isso. Cada um remenda suas feridas, recolhe os cacos, ergue a cabeça e segue com a vida. O desabrochar de Sophia, principalmente, é algo lindo de se ver.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

“Mas aquela noite, à vista dos mais elegantes da cidade, Sophia Winston surgiu transformada. Chegara atrasada, descendo a grande escadaria diante de centenas de convidados […] Vários homens ali presentes a notaram de verdade pela primeira vez, e eles começaram a pensar que não seria assim tão desagradável casar por dinheiro.”

O relacionamento de Michael Levy e Chava segue nos mesmos moldes realistas. Não existe paixão, uma vez que Chava está no relacionamento apenas por necessidade e o sobrinho do rabi não faz a mínima ideia do que seja este sentimento, mas há carinho e uma sincera bondade que rodeia o casal. E embora saibamos que eles estão fadados à separação, sinto uma empatia solidária por Michael.  

O modo como Ahmad encara o amor também é bem bacana. Como um djin, livre de moral religiosa e questionamentos éticos, ele apenas acredita que desejos não devem ser freados e merecem ser compartilhados sempre que possível. Assim, embora seja um amante caloroso (olha o trocadilho…) e nada fiel, Ahmad desvia da figura do cafajeste, cujas conquistas amorosas são fruto mais do ego e da realização pessoal. O djin enxerga as mulheres com que se relaciona em pé de igualdade, como se a experiência fosse uma troca (e é!). Ahmad é, sobretudo, um amante de pessoas, de personalidades. Para ele, portanto, não existem regras. As pessoas se relacionam com quem bem desejarem, e um relacionamento sério e exclusivo deve ser criado se houver a compreensão de que o amor daquela pessoa basta, e não por causa de construções sociais ou dogmas religiosos. Isso torna ainda mais bonito seu envolvimento com Chava.

“Há semanas ele vinha tentando exilá-la em algum canto obscuro de sua mente, mas ela voltava à superfície quando ele menos esperava. Talvez estivesse fazendo as coisas de forma errada; nunca havia tentado esquecer alguém. Jamais precisara fazer isso.” 

– Protagonistas e seus debates morais

Com certeza o pote de ouro de Wecker são seus protagonistas. Tanto que, ao invés de florear o título, a autora foi bem direta: esta é uma história sobre uma golem e um gênio (embora tecnicamente, Ahmad seja um djin).

Claramente complementares, Chava e Ahmad personificam extremos. Ela é cuidadosa, altruísta, submissa e feita de terra. Ele é impetuoso, egocêntrico, dominante e feito de fogo. Se por um lado Chava se sente incompleta sem um mestre para obedecer, por outro Ahmad definha por não possuir a liberdade completa. E por causa dessa dualidade, são instrumentos perfeitos para provocar reflexões morais no leitor.

Ahmad e Chava. Fonte: www.nytimes.com - Reprodução

Ahmad e Chava. Fonte: www.nytimes.com – Reprodução

Um aspecto que acho interessante é que, embora teoricamente Ahmad esteja aprisionado por um grilhão e Chava esteja livre sem um mestre, a situação das criaturas é exatamente a oposta. É Chava que permanece presa, por seus medos e inseguranças. Mais que isso, Chava é uma prisioneira de sua ética moral, aquela que enxerga as possíveis consequências de seus atos e do uso de seus poderes. Ela tem medo do que pode causar aos humanos se viver sua vida conforme as próprias regras. Já Ahmad é um espírito livre, obedecendo apenas aos instintos e à curiosidade, sem gastar uma ruga de preocupação sequer com outra pessoa que não ele mesmo.

E no final das contas, não somos todos assim? Quais os limites que separam a ética saudável, que nos ajuda a conviver em sociedade, da anulação pessoal? Até onde o desejo de um indivíduo deve ser defendido? Uma vida sem compromissos ou leis foi capaz de dar à Ahmad uma vida plena? E qual o equilíbrio entre livre-arbítrio e altruísmo?

“- E eu suponho que deveria seguir seu exemplo e desfrutar de todos os prazeres possíveis!

– Por que não, se isso não machuca ninguém?

– Com isso, você quer dizer que você não se machuca, e é só o que importa!”

Talvez por isso a química entre os protagonistas seja tão intensa. Ahmad e Chava são um mistério um para o outro, e ao mesmo tempo, exatamente aquilo que estava faltando em si mesmos. Gosto da forma como o relacionamento deles se desenrola, como eles vão aprendendo a compreender suas motivações e como, apesar de não existirem cenas românticas propriamente ditas, a amizade deles desenvolve-se em cumplicidade e finalmente em amor bem diante dos nossos olhos. É lindo ver, por exemplo, como Ahmad sempre se arrepende do que diz no calor do momento, enquanto Chava sempre se arrepende pelas coisas não ditas, reprimidas por seu auto-controle e cautela.

Também gosto como a autora trabalha outros temas tabu nas interações de Ahmad e Chava com os outros personagens. A cena em que Ahmad pergunta a Arbeely se este é realmente feliz levando uma vida comum e sem aventuras e de como o latoeiro mostra-se assustado ao ser questionado sobre sua fé é de uma inteligência incrível. De certa forma, Arbeely representa o cidadão acomodado, que prefere a calmaria de sua zona de conforto à busca de uma felicidade mais plena, porém questionadora. Arbeely não gosta de arriscar e tem pavor de repensar conceitos ensinados pelo senso comum. Uma pessoa perfeita para conversar com um djin libertino, não?

O rabi Meyer e os empregados da padaria também rendem a Chava ótims insights sobre a natureza humana:

“Mas ainda havia alguns problemas para resolver. Tinha a tendência de trabalhar rápido demais, e os fregueses ficavam ansiosos ou irritados, achando que ela os apressava: então aprendeu a diminuir o ritmo, perguntando como estava a família e sobre seu estado de saúde, mesmo quando a fila estava grande.”

Li algumas críticas à Wecker, sobre como ela poderia ter abordado temas sociais relevantes mas acabou se prendendo ao aspectos mais pessoais. E embora eu concorde que houveram oportunidades de aprofundar, por exemplo, a questão da tolerância religiosa e da situação feminina na América de 1890, acredito que estas foram decisões da autora. Talvez, tentar abraçar todas as possibilidades acabasse por prejudicar um desenvolvimento mais específico. E vá por mim, Golem e o Gênio é um livro que faz você pensar bastante.  

– Narrativa

Helene Wecker tem um jeito muito peculiar de escrever, uma cadência própria. Sua narrativa é bem arrastada, e poderia ser até considerada morosa caso a personalidade de seus personagens não fosse tão brilhante. Só para se ter uma ideia, o casal protagonista só troca as primeiras palavras lá pela página 190.

“- O que você é? – ele perguntou.

Ela não disse nada, nem deu qualquer indício de compreensão. Ele tentou novamente.

– Você não é humana. Você é feita de terra.

Ela, por fim, disse:

– E você é feito de fogo.”

Mas antes que essa informação desanime os potenciais leitores, o ritmo lento da narrativa cai como uma luva para a proposta da história. É importante que o leitor sinta o clima melancólico da cidade, sempre enfrentando mais um dia de trabalho. Essa angústia, essa crescente sensação de incômodo acompanha o leitor o tempo todo, fazendo com que ele compreenda a situação de Chava e Ahmad, seres com tanto potencial porém restringidos em todos os seus aspectos.

Golem e o Gênio é uma história que parece flutuar, lenta e fluida como as areias do deserto, fria e cansada como o centro de uma cidade industrial.

Helene Wecker Fonte: Darkside - Reprodução

Helene Wecker. Fonte: Darkside – Reprodução

A única pausa, em que a narrativa ganha um colorido a mais, encontra-se nas interações entre golem e djin, principalmente na cena do baile, onde Chava finalmente se permite um instante de liberdade. O que também é crucial para a empatia do leitor.

Próximo ao desfecho do enredo, quando a ação toma o lugar da reflexão, a narrativa torna-se frenética, daquelas que a gente não larga o livro nem em casos de incêndio. Os acontecimentos passam rápido e os pontos de vista se alternam cada vez mais curtos. Golem e o Gênio é um ótimo exemplo de como o ritmo com que se conta uma história também é um recurso muito bom para a dramaticidade, desde que bem explorado.

Enfim, Golem e o Gênio é um livro diferente, com ritmo de sonho, personagens ricos em questionamentos e um toque apaixonante de realidade em meio à magia e à lenda. Uma daquelas histórias que sorrateiramente acha um lugarzinho em nosso coração. E que veio pra consolidar djins e golens no patamar das grandes criaturas fantásticas.

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