Porque Abominação não é nada do que você imagina (+SORTEIO)

O texto a seguir contém spoilers de: Abominação. Depois não diga que eu não te avisei… Caso você queira participar do sorteio sem que eu estrague toda a surpresa de ler o livro, basta rolar a página até o final do post e fazer promessa do mindinho de que vai voltar aqui pra ler a resenha algum dia. ;)

Fonte: DarkSide Books – Reprodução

“- Seja lá o que possa ter feito -, disse ela, – não faço julgamentos.
Wulfric grunhiu e fez uma careta que talvez fosse um sorriso de esguelha embaixo da imundície e da barba desgrenhada.
– É uma promessa fácil de se fazer antes de ouvir a confissão -, disse ele.”

Quando tirei Abominação da estante, eu tinha uma ideia bem formada sobre o que iria encontrar.

Se você acompanha o blog, sabe que ando numa fase bem “viking” de leitura, já calejada de tanto acompanhar esse jeito meio cru com que nossos brutamontes favoritos encaram a vida. Conhecendo a proposta do autor da obra, Gary Whitta, de unir fatos históricos com uma dark fantasy baseada nas bestas que povoavam o imaginário cristão da Idade Média, eu estava esperando encontrar naquelas páginas muito sangue, muito palavrão, muita gente dura e também, porque não, muitas metáforas que envolvessem bosta (Alguém me explica essa fixação que os vikings tem em falar sobre cocô?). Eu estava bem certa de que haveria personagens cinzentos e várias cenas de terror psicológico, coisas que fariam meu estômago revirar assim como o Casamento Vermelho do George Martin.

Comecei a leitura e…eis que eu estava errada. Profundamente errada. Excluindo a parte da fixação com bosta, todas as minhas outras intuições mostraram-se inadequadas para o livro. Abominação não é nada do que se imagina, o que é ao mesmo tempo um problema e seu maior trunfo.

Pra começar, digamos que os vikings, que são mote de destaque no marketing do livro, mal aparecem na história. E se aparecem (nas memórias de guerra do protagonista Wulfric), não receberam do autor nem mesmo uma linha de diálogo. As invasões vikings funcionam apenas como pano de fundo, como uma explicação plausível para que as engrenagens do enredo possam fazer sentido. Então se você entrou nessa em busca de paredes de escudo e braceletes de ouro, vai acabar se decepcionando.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Porém, como eu disse anteriormente, tudo em Abominação é uma questão de perder aqui para ganhar acolá. Sem os vikings, pude me voltar pela primeira vez com simpatia para o povo anglo-saxão. Porque vamos combinar, né… os vikings, com seu sarcasmo, deuses irreverentes e boa cerveja, possuem um apelo bem maior frente ao público. Sanguinários ou não, impiedosos ou não, a gente sempre gosta de acompanhar os fatos históricos pelo ponto de vista nórdico. Vikings é um tema arroz de festa, o garoto popular que chamava atenção na escola.

Quem escreve sobre vikings raramente tenta mudar isso. Olha, é tão difícil encontrar os reis ingleses daquela época caracterizados como pessoas decentes que o Gary Whitta merecia um prêmio apenas por me fazer gostar de Alfredo. Tá bom que ele ainda é um cara meio bundão nesse livro, mas ao menos é um bom homem, um cara justo em cuja cabeça não fiquei com vontade de quebrar um prato. Isso é raro.

Quebraria pratos na cabeça dos três. Fonte: Vikings / The Last Kingdom – Reprodução

Meu único incômodo com Alfredo representa também meu maior incômodo com o livro: a aceitação com que a corte encara as experiências de magia negra do arcebispo Aethelred (é sempre um desafio escrever o nome desse moço).

Ora, estamos no ano 888, em pleno domínio da Igreja Católica, uma época onde o imaginário popular encontrava-se repleto de monstros marinhos, demônios e maldições. Qualquer pessoa fora do padrão era tratada com desconfiança, e o menor mal entendido já era uma desculpa para acusações de heresia, blasfêmia ou traição.

Então imagina só um arcebispo, na frente de toda a corte, na frente até do rei, falar uma série de palavras mágicas e transformar um porco numa abominação gigantesca e assassina. Imagina só o pandemônio que seria isso.

Estranhamente, para Gary Whitta, não só a corte de Alfredo permanece em cima do muro como também aprende a conviver com as loucuras do clérigo. O enredo justifica o fato alegando que os monstros de Aethelred poderiam ser utilizados como linha de defesa diante das invasões vikings.

Mas, sendo realista, acho que essa explicação é bem capenga. Não importa se uma abominação poderia ser útil na guerra, não importa se o arcebispo pode ou não controlá-la: todo o episódio seria considerado magia negra, pecado, coisa do demônio. A coisa mais provável era Aethelred estar amarrado a um poste de madeira prestes a pegar fogo antes mesmo de ter tempo de se explicar. Se Alfredo estivesse mexendo com magia negra, ainda poderíamos pensar que ele teria a proteção de seus cavaleiros… mas um arcebispo? Acho muito, muito difícil de acontecer.

Muitos já queimaram por menos… Fonte: Tumblr – Reprodução

Bem, para desfrutar das inúmeras qualidades do livro, é preciso colocar a suspensão da descrença no nível máximo e seguir em frente. Fiz isso e acabei sendo recompensada:

Falando rapidamente sobre Aethelred, o vilão da história estava me soando muito raso. Era um típico caso de velhinho corrompido pelo mal que só sabe repetir a mesma coisa de novo e de novo. Ele me lembrou bastante Gul’dan, o orc feiticeiro de Warcraft.

“Foi então que hesitou, olhando para o arcebispo pela primeira vez de tão perto. Perto o bastante para sentir o fedor azedo do hálito, ver cada linha sulcada em seu rosto. E percebeu que não era a aparência amarelada, injetada dos olhos de Aethelred que o perturbava; era a maneira como o sacerdote o olhava.”

Mas é aí que as coisas se tornam interessantes. Após amaldiçoar Wulfric, Aethelred sai de cena e mostra ter sido apenas uma marionete na mão de Whitta: o arcebispo era apenas o vetor que colocaria as peças em suas respectivas posições no tabuleiro. Agora sim o jogo estava para começar. Abominação nunca teve a pretensão de fazer do mago o seu vilão principal. Este é um livro sobre pessoas normais que precisam lutar com lados obscuros de si mesmas. Não existe ‘o vilão’, e achei que isso foi uma decisão bem legal do autor.

Fonte: Aidan Moher – Reprodução

Outro ponto que me pegou desprevenida foi o distanciamento gradual dos fatos históricos. Apesar de conter referências sobre batalhas, locais e figuras conhecidas do período, o livro não se prende muito a elas. Numa entrevista à DarkSide, o próprio autor chegou a comentar:

“O cenário histórico é realmente importante para estabelecer o mundo e os personagens, mas uma vez que a história começou a andar, eu percebi que eu não precisava me apoiar tanto nele.”

Pois bem. O enredo dá um salto de quinze anos, onde começamos a acompanhar um Wulfric surrado e sem esperança, habituado a conviver diariamente com o monstro que carrega dentro de si: de dia humano, de noite abominação.

Wulfric é um personagem bem legal, fácil de se apegar (olha aí os saxões surpreendendo). O que é, aliás, outra característica do livro que me pegou de surpresa: Abominação é em seu íntimo uma aventura clássica de capa e espada. Classicão mesmo.

Wulfric personifica todos os ideais românticos de cavalaria, com sua ética e justiça inabaláveis, a convicção de ser um bom cristão e seu senso de dever com a pátria. As passagens que envolvem a Bíblia e toda a penitência que o personagem passa por acreditar que carrega um castigo divino tornam Wulfric quase um cruzado em busca de Jerusalém. E misturar esse cenário de moralidade cristã com uma fantasia obscura e pegajosa foi uma ótica sacada.

“Decidiu-se por uma casa e um torrão de terra onde pudesse plantar nabos e cenouras, e, talvez, encontrar uma mulher para si. Se Deus assim desejasse, talvez até se veria apto a criar um filho ou uma filha, mas Wulfric não pedia nada que ainda não merecesse. Em sua cabeça, tudo que tinha feito de notável fora matar homens em batalha, e não via motivo para ser recompensado por isso.”

Wulfric se daria bem com esse cara. Fonte: Cena de Kingdom of Heaven – Reprodução

Não que as cenas violentas de Abominação sejam o grande destaque do livro. Apesar de encontrarmos sim momentos bem gráficos e viscerais, o estilo clássico do autor impede que a narrativa cause aquele incômodo no estômago que a gente sente quando lê Gillian Flynn, por exemplo. Whitta pode até ser violento, impiedoso, brutal… mas jamais será “sujo” em sua obra. Ele é cavalheiresco demais para isso.

Afinal, em qual outro livro você acha que vai encontrar a palavra ‘bazófia’? Parabéns pro pessoal da tradução.

Gary Whitta já havia trabalhado com esses conceitos anteriormente (essa é a parte em que vou dar mega spoilers da trama, e é também sua última oportunidade de sair correndo e pular pro sorteio).

Fez a mesma coisa com o roteiro de O Livro de Eli. O velho paladino, cansado e solitário em sua missão, que é ótimo de briga mas que não quer machucar ninguém. Em O Livro de Eli, as coisas mudam quando nosso justiceiro encontra a personagem da Mila Kunis, uma garota cheia de personalidade a quem o protagonista acaba protegendo nem que seja por insistência.

Abominação seguirá o mesmo mote, só que aqui temos Indra, a precoce vingadora da Ordem, movida única e exclusivamente por seu ódio aos monstros que Aethelred espalhou pelo reino. Engraçado que o próprio Whitta dedica o livro para a esposa e filha. Seriam devaneios autobiográficos ou o autor apenas aproveita-se de sua experiência de vida para passar mais veracidade?

” – Senhor! – , gritou ele, exasperado. – Já não tenho maldição suficiente para que ainda me aflija com isto? Com esse carbúnculo teimoso?
Indra cruzou os braços sobre o peito, sem achar graça.
– Está zombando de mim.”

Uma pena que o grande plot twist da obra seja tão previsível. Acho que percebi qual era o segredo de Indra desde os primeiros capítulos da menina, pouco depois da metade do livro. Gary não é um cara de desenvolver muitos personagens, então as pistas acabam bem óbvias. Mas embora Abominação pudesse ter se beneficiado com um mistério bem construído, a falta dele não tira a graça do livro. Porque a obra não é sobre descobrir quem é o quê, ou sobre bonzinhos versus malvados. Não é nem mesmo sobre vingança.

Fonte: Daily Dead – Reprodução

A graça de Abominação, e sua maior qualidade, é lidar tão bem com o embate entre pai e filha, entre culpa e absolvição, castigo e azar. O livro faz uma metáfora interessante sobre o monstro que habita todos nós, sobre nossos pedaços mais obscuros que tentamos esconder. Sobre como as pessoas mais impiedosas são consideradas normais, livres da alcunha de vilão, muito distantes de um arcebispo maluco que faz magia negra. O perigo mora na inveja, no orgulho, na soberba.

“O que importava se a ameaça fosse imaginária? Durante os dias mais sombrios de calamidade, a Ordem era um símbolo de esperança para um povo que vivia com medo. A calamidade talvez tivesse desaparecido, mas a necessidade por símbolos continuava. As pessoas ainda precisavam de algo para temer, pois aquilo as mantinha leais e obedientes. Ainda precisavam de esperança, pois ela as mantinha produtivas.”

Todas as interações entre Wulfric e Indra são agradáveis de acompanhar, páginas e páginas que passaram rapidinho. Talvez, já sabendo sobre o passado de Indra, a leitura tenha sido ainda mais proveitosa. Também admiro muito o modo como o autor consegue passar o livro inteiro em tão poucos cenários sem causar cansaço. Praticamente metade do livro se passa na mesma clareira de floresta e você nem pensa em reclamar.

Se eu pudesse dar mais um único puxão de orelha em Whitta, falaria de Venator. Olha, todo grau de liberdade poética é bem-vindo na hora de criar as abominações (afinal, elas são criaturas mágicas e disformes), então eu vou morrer defendendo Wulfric e seu besouro rola-bosta gigante que também tem dentes e rosna como a pantera de Avatar, mas jamais poderei fazer o mesmo pelo falcão de Indra.

É uma águia, mas vamos fingir que é um falcão. Fonte: Fatherly – Reprodução

Não sendo uma ave ligada à magia, ela precisava ter um comportamento mais realista. Venator caça, persegue pessoas, defende a dona, monta guarda, entrega correspondências e acho que só não prepara chá porque Indra não tem um bule à disposição. Venator seria quase campeão de vendas na Polishop. E embora eu tenha um amor profundo por sidekicks animais, o falcão me tirou do sério em vários momentos.

Mas apesar dos pequenos deslizes e de contrariar totalmente as minhas expectativas, Abominação foi uma obra bem prazerosa de ler. Foi divertido acompanhar as cenas de luta e os muitos diálogos de Wulfric, seja com Alfredo, com Indra ou mesmo Cwen (melhor pessoa, merecia mais sorte nessa vida, embora eu compreenda a necessidade do enredo).

O livro chega na medida certa para quem procura uma fantasia curta e rápida, com cenas marcantes  e debates intimistas sobre a moralidade e o perdão. Gosto de uma frase que acompanha a contracapa do livro, onde está escrito que Whitta “transforma o gore em momentos de grande beleza”. Eu faria apenas uma modificação, e diria que Abominação transforma o gore em momentos de grande elegância.

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Tá, muito legal, mas e o sorteio? 

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Para quem não conhece o sistema do Rafflecopter, a coisa funciona mais ou menos como um sorteio de rifas. Cada ação vai te dar um número diferente de rifas para participar, e não é necessário fazer tudo o que está no formulário. Você decide. Porém, embora uma única rifa já garanta sua participação no sorteio, quanto mais delas você tiver, maiores as chances de ganhar.  ;)

O vencedor será anunciado na fanpage no dia 11 de maio. Entrarei em contato com o vencedor para pegar o endereço, e a DarkSide fará o envio assim que possível. Caso não consiga entrar em contato com o ganhador, outro participante será sorteado.

 

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O livro enquanto experiência de leitura

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