Precisamos conversar sobre Vaelin Al Sorna

*Suas definições de homão da porra foram atualizadas*

Tudo começou inocentemente na CCXP Tour Nordeste, quando o Vagner do Desbravando Livros me recomendou a série A Sombra do Corvo. Tive certa resistência no início. A Canção do Sangue, primeiro volume da trilogia, não seria um livro que eu escolheria logo de cara. Sabe como é… outra série, outra aventura de capa e espada, outro sistema de magia, outro protagonista invencível… será que valia a pena um comprometimento desse tamanho?

Fonte: Detalhe da capa – Reprodução

Decidi topar o desafio. O Vagner tem um gosto literário oriundo das paredes de escudos cornwellianas, idôneo o suficiente pra gente dar um voto de confiança. Além disso, o autor é escocês e eu tenho um carinho irracional pelo país ainda que nunca tenha pisado naquelas terras (culpa da Diana Gabaldon e de várias outras autoras de romance de época).

Pra encurtar a história, eu comecei a ler o livro. E aí Vaelin Al Sorna aconteceu na minha vida. E aí eu tive que vir aqui pra iniciar outra série de textões.

Para quem não conhece – e eu espero que você conheça porque isso aqui vai estar cheio de spoilers -, A Canção do Sangue é um relato sobre a vida de Vaelin Al Sorna, um menino de 10 anos recém abandonado pelo pai aos portões da Sexta Ordem, uma espécie de monastério para soldados de elite.

O treinamento de Vaelin é brutal. O garoto é espancado, desafiado, testado e levado ao limite, sem a menor possibilidade de contato com a família ou vida pregressa. Aprende a manejar espadas, lanças, arcos, andar à cavalo e sobreviver na selva. Muitos são os colegas que morrem pelo caminho. Digamos que A Canção do Sangue traz uma “versão estendida e sem cortes” do treinamento espartano que vemos em 300.

O resultado? Guerreiros habilidosos, inteligentes e de obediência cega e irrestrita. O tipo de pessoa que entrega o serviço feito, seja lá o que for requisitado. Os Imaculados de Daenerys são um bom ponto de partida para comparações, embora os irmãos da Sexta Ordem sejam mais autônomos e trabalhem em equipes menores. Vou conceituá-los como “Imaculados ninjas”, tá bem?

“Eram fortes. Eram matadores. Eram o que a Ordem os tornara.”

Fonte: Factinate – Reprodução

E se a princípio isso soa como algo grotesco (a gente aqui se divertindo com o sofrimento alheio…), o leitor vai aprendendo aos poucos a amar o cotidiano da Sexta Ordem. É sofrido sim, é pesado sim, mas é também um local de fraternidade. Quando percebemos a importância da Sexta Ordem para o reino e sobretudo a proteção que ela concede a seus integrantes, a gente começa a enxergar as coisas sob um novo viés. Não é que os mestres de Vaelin sejam sádicos sem coração, mas é que este é o único jeito de forjar os homens certos para o trabalho (ou as ferramentas certas, como diz Vaelin). Quando você compreende os mestres como pessoas que não são necessariamente más – aguardo confirmação nos próximos livros -, e que se importam e cuidam daqueles garotos, a Ordem passa a ser um porto seguro. Os próprios integrantes aprendem a amá-la e perdoá-la, dentro do possível. Às vezes é preciso fazer o que deve ser feito, mesmo que não seja lá muito bonito.

“- Tenho a impressão de que minha alma se beneficiaria de um período de meditação sobre os grandes mistérios, mestre – respondeu Nortah, mostrando os dentes perfeitos em um sorriso franco. Pela primeira vez em meses Vaelin teve vontade de rir.
– O que você quer dizer é que deseja passar uma semana sentado sem fazer nada – disse Sollis.
– A meditação costuma ser realizada em posição sentada, mestre.
Vaelin riu, não conseguindo evitar. Três horas mais tarde, ao completar a quadragésima volta no campo de treinamento, ainda estava rindo.”

Não sei se é algum traço psicológico meu, mas costumo gostar de enredos cujos personagens infantis são ensinados a segurar as pontas. Não é questão de se tornar insensível, mas eu gosto de crianças capazes de compreender suas responsabilidades e as consequências de seus atos. Evitaria a criação de muitos Joffreys por aí…

Vemos muito disso na infância de Uhtred, nas Crônicas Saxônicas, e em vários pontos a Ordem me lembrou o sistema pedagógico dos dinamarqueses. Mas, é importantíssimo dizer, Vaelin Al Sorna não poderia estar mais distante de Uhtred.

Embora ambos desfrutem de uma sociedade que não subestima crianças e não as trata como seres indefesos, Uhtred conta com uma liberdade e um ego que faltam ao irmão da Sexta Ordem. Uhtred segue seu destino por vontade, Vaelin por dever. Os traumas de Uhtred o tornam debochado e rebelde, já os de Vaelin tornam o fardo do garoto ainda mais pesado. Os dois podem ser considerados “homões da porra”, mas eu escolheria Al Sorna como o detentor do melhor senso de justiça (embora Uhtred seja imbatível na irreverência).

Fonte: Tumblr – Reprodução

Esse, inclusive, é um elogio que faço ao autor. Obrigada, obrigada mesmo por não me dar um senso de justiça pré fabricado. Vaelin difere dos mocinhos honrados tradicionais porque ele realmente reflete sobre o que deve fazer. Sua compaixão e seu julgamento são fruto de sua personalidade, não de uma construção imposta socialmente. Por exemplo, ao descobrir dois fugitivos indefesos, um típico cavaleiro medieval iria protegê-los sem pestanejar porque é o certo a se fazer, enquanto para Vaelin é algo do tipo “vocês estão atrapalhando todos os meus esquemas, mas não vou conseguir dormir de noite se vocês morrerem, então…”. Sua ética é construída com base em questionamentos e reflexões. Eu fico realmente encantada em acompanhar a formação do caráter do personagem. Nesse contexto, guardadas as devidas proporções, eu diria que o Vaelin se aproxima mais do Will de Fronteiras do Universo: a cada página uma promessa de que estamos vendo um cara incrível se desenvolvendo.

Por falar nisso, tem uma coisa que acho hilária na descrição não só de Vaelin, mas da maioria dos heróis de fantasia escritos por autores homens: ninguém é bonito. É tipo uma proibição, porque a gente precisa admirar o protagonista pelo caráter, pelo porte, pela inteligência. O cara pode ser simpático, bem apessoado e até esforçado, mas não pode, deus me livre, ser bonito.

“Poxa, Fernanda, e qual o problema nisso?” Nenhum, oras, eu sou inclusive super defensora de criarmos personagens cativantes sem precisar recorrer à estética, mas para isso é preciso que o autor consiga manter essa caracterização de pé (como no caso de Tyrion e Sandor Clegane em GoT). Costumeiramente, falamos bastante do caso das heroínas românticas e young adult que sempre “sofrem por serem feias apesar de terem o rosto de uma modelo da Victoria Secret“, mas deixamos passar batido esses heróis de fantasia que, no frigir dos ovos, estão fazendo a mesma coisa. A gente tem mania de criar guerreiros perfeitos.

Anthony Ryan faz de tudo pra nos dizer que Al Sorna é um cara padrão, normalzão, nada de mais. Mas aí ele começa a descrever como “o manto rodopiava em seus ombros largos”, ou como “Sherin passou a mão pelos músculos rígidos do peito e da barriga dele”, ou como “Vaelin tem os olhos escuros de um falcão”. E aí o personagem já é um misto de Leônidas e Aragorn na minha cabeça.

Meu amigo, você não tá me ajudando.

Fonte: Tumblr – Reprodução

(E nem vem me falar que ele é coberto de cicatrizes porque a gente sabe que cicatriz em guerreiro é quase um fetiche dentro dos romances medievais.)

Isso tudo foi pra dizer que, apesar de Ryan afirmar o contrário, Al Sorna é sim o estereótipo do herói romântico, ao menos em seu íntimo. Ele é honrado, corajoso, forte, bonito, inteligente, leal, um líder nato e de bom coração. O próprio enredo respira a construção do “the chosen one”, do escolhido. O cara simplesmente não tem defeito: nem espinhas, nem mesmo chulé!

E a grande graça de A Canção do Sangue é sua competência em fazer com que o leitor se identifique e torça por Vaelin Al Sorna mesmo assim. É torná-lo um personagem altamente complexo apesar da sua perfeição. Ryan consegue esse feito heróico graças à construção da narrativa desde a infância do protagonista. Essa fase é crucial para que a gente entenda de onde veio Vaelin, para que a gente entenda como ele foi construído. Sua lealdade foi conquistada dia após dia em cada uma das interações com os colegas de dormitório (especialmente Caenis e Nortah). Sua força física, forjada com muita dor nas lições de Mestre Sollis e no trabalho de ferreiro. A coragem, a inteligência…tudo foi moldado e justificado. Ele precisava ser assim para sobreviver na Ordem, afinal, era somente um menino. Vaelin tem uma vida tão árdua que faz a gente questionar se a perfeição vale a pena.

E eu aposto que, se pudesse escolher, o Matador do Esperança abriria mão de sua barriga de tanquinho sem nem pestanejar. Tornar-se um símbolo de resistência entre os guerreiros custou-lhe muitas coisas. Coisas que a gente não enxerga sem um conhecimento prévio do personagem. Vaelin é o cara perfeito que ninguém gostaria de ser.

Aliás, em determinado momento, comecei a ficar ansiosa para que Vaelin desenvolvesse um interesse romântico, seja lá com quem fosse. Me achei meio boba, querendo criar casais enquanto o Império desmoronava, mas depois percebi que não era bem isso: eu não queria ver Al Sorna com alguém pelo romance. O que eu precisava era de um momento de contato humano, de calor. A vida de uma pessoa não pode ser assim TÃO seca. Percebi isso na cena em que a Aspecto Elera o abraça no jardim. Esse único gesto me deixou muito aliviada: alguém finalmente ofereceu um pouco de carinho pra esse rapaz! Por mais que seus irmãos da Ordem sejam ótimos amigos, todos ali são treinados para não demonstrar vulnerabilidade. E era isso que estava me matando. As lágrimas de Vaelin em seu momento frágil lavaram minha alma.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Mas já que toquei no assunto romântico, deixe-me falar sobre Sherin.

Eu realmente gosto dela. Não poderia esperar nada menos para a contraparte do Matador do Esperança. Se Sherin fosse uma mocinha indefesa com medo da guerra, eu estaria revirando os olhos até agora (tem problema ser uma mocinha indefesa? Não, não tem, mas aí ela jamais seria compatível com a personalidade de Al Sorna).

Ao mesmo tempo em que Sherin traz empoderamento feminino para a história, ela também carrega uma mensagem linda de que é possível ser pacifista e ainda assim tocar o terror num livro. Ela é forte sem precisar ser violenta e sem precisar perder sua sensibilidade, um estereótipo ainda raro nas histórias de fantasia. Esse conceito também é encarnado, em menor grau, em Nortah e Sella (tenho um sexto sentido péssimo sobre o destino desses dois. Nunca acho que alguém pode ter um final feliz no primeiro livro e sobreviver pra contar a história).

Outra coisa que me agrada é a posição aparentemente “comum” que Sherin ocupa na narrativa. Logo no início do livro, achei que o par romântico de Vaelin fosse Sella. Já fui logo pensando: ah, não, o chosen one com a chosen one não! Para minha felicidade, parece que o Anthony Ryan e eu pensamos parecido. Sherin é a escolha perfeita porque ela aconteceu na vida de Vaelin: o relacionamento deles foi construído, e não planejado. E tá bom que ela tem tudo para virar a nova Aspecto, mas seu papel ainda assim é enganadoramente simples em comparação à grandiosidade da trama política.

Ah, e eu preciso citar isso aqui: nas muitas vezes em que Vaelin some (esse rapaz tem sérios problemas para entender como um relacionamento funciona), Sherin não se desespera, não deixa a peteca cair. Ela fica arrasada, óbvio, mas vai lá tocar a vida e continuar com o trabalho que tanto ama. Sei que isso é um detalhezinho de nada, mas a gente tem tão poucos exemplos nos romances de cavalaria de personagens femininas que sabem superar um pé na bunda com maturidade que sempre acho boa ideia dar uma ressaltada…

Capas do primeiro livro pela LeYa. Fonte: Foco de Resistência – Reprodução

Pois bem, notou que o título do post menciona especificamente que precisamos conversar sobre Al Sorna e não sobre A Canção do Sangue? Isso é porque eu acho, de verdade, que o personagem leva o livro nas costas. Não que os secundários sejam ruins, mas é que toda a nossa atenção fica presa em saber o que acontece com Vaelin. Em livros como Mistborn, por exemplo, ficamos curiosos por várias subtramas (Vin, Elend, Kelsier, Sazed, Fantasma…), mas aqui o foco é realmente exclusivo. Ouvi dizer que o segundo livro da série aborda o POV de outros personagens, algo que me intriga e ao mesmo tempo me preocupa: será que vai dar certo?

Anthony Ryan se deu muito bem com essa ideia de utilizar a infância de Al Sorna como abertura da trilogia. Além de tudo que já mencionei anteriormente, essa fase ainda serve como gancho para todo o enredo. Explico: por ser criança, Vaelin ainda não compreende muito bem as coisas que vê, ainda não consegue juntar todas as pontas. Assim, o autor pode plantar quantos ganchos e pulgas atrás da orelha quiser, porque o leitor não vai achar aquilo forçado ou se sentir enganado: não é que o livro não esteja me contando tudo, é apenas que o personagem ainda não tem maturidade pra me contar direito. A cada cena suspeita eu ria comigo mesma, amaldiçoando e me divertindo com a alma inocente e infantil de Vaelin, que deixava tudo de importante passar batido. Estou até agora esperando esclarecimentos para a seguinte passagem:

“Jamais soube se Caenis dera uma risada ou um suspiro. Muitos anos depois ele pensaria em como poderia ter se poupado e a tantos outros de tanta dor se apenas tivesse ouvido com clareza, se tivesse sabido de uma forma ou de outra.”

Mais dois pontos auxiliam o autor na implantação das suas sementinhas da discórdia: o formato da narrativa, com saltos temporais entre presente e passado (nossa, como eu adoro o Verniers) e a ideia de que ao entrar na Ordem sua história de vida deve ser abandonada. Desse jeito, a gente nunca realmente sabe de onde aqueles meninos vieram ou quem os enviou. Vai dizer que você não sofreu junto a Dentos naquele píer?

Fonte: Tumblr – Reprodução

A revelação final sobre Barkus foi surpreendente, mas não inesperada. Creio que era bem óbvio se tratar de alguém do bando, mesmo que a minha aposta primária fosse Caenis ou Frentis…

Outra prova de que Vaelin é o astro principal da história é o worldbuilding de A Canção do Sangue. Ele não é nada de mais no final das contas, apenas um apanhado de reinos e geografia variada o suficiente para que exista todo tipo de terreno e condição climática no Império (assim a gente pode ver os meninos lutando na neve, na floresta, na montanha, na chuva…). Quanto aos nomes, acho que nunca vou aprender quem é alpirano e quem é meldeneano naquela bagaça. A política também não é lá tão inovadora, sendo mais um pano de fundo para enredar Vaelin em novos problemas. Já o sistema de magia é bem legal, sua sutileza combina com a história. Resumidamente, é um tipo de poder bem íntimo e que depende do personagem associado (vou me abster de comentar mais sobre a magia porque acho que preciso de mais informações para ter uma opinião formada).

Fonte: Tumblr – Reprodução

Das muitas perdas que acompanham o livro, sentirei falta especialmente de três personagens:

Rei Janus, por motivos de amar esse político nato que não vale um centavo (o que o torna a pessoa ideal para ocupar o cargo). Eu gostava da forma como ele conversava com Vaelin, vomitando verdades sem se incomodar com a ética perfeitinha do garoto. Muita gente morreu na mão dele, mas não dá pra negar que o cara era esperto.

Cuspe e Arranhão. Olha, eu sei que esse negócio de amiguinho animal já tá meio batido, já é muito Jon Snow, mas eu adorava a leveza que este cachorro e este cavalo traziam à narrativa. Eram ótimas metáforas para o senso de liderança e responsabilidade de Al Sorna. Mestre Sollis definitivamente sabia o que estava fazendo.

De resto, faço votos para que a trupe de camaradas da Sexta Ordem volte a se reunir. Ryan é muito bom com a dinâmica dos garotos e trabalha bem suas personalidades distintas. Também estou me coçando pra saber mais sobre a Princesa Lyrna e sobre o passado de Mestre Sollis (eu seria capaz de apostar alto que esses dois estão do lado de Vaelin).

Vaelin Al Sorna. Fonte: Pinterest – Reprodução

Para o segundo volume, acho que é hora do Anthony Ryan focar em seu sistema de magia. Se no primeiro livro tivemos destaque para o lado guerreiro com o Matador do Esperança, penso que no segundo volume teremos mais de Beral Shak Ur e seus poderes. De modo geral, tenho poucas previsões a fazer, e acho pouco provável que a trama envolvendo a mãe de Vaelin venha completamente à tona no segundo volume. Muitos mistérios deverão ficar para o desfecho da trilogia.

Bem, agora só me resta atacar o segundo livro e descobrir como essa lenda conseguiu ficar viva até hoje. Afinal, o Anthony Ryan não me parece ser alguém com um pingo de consideração pelo bem-estar de seu protagonista…

Para comprar A Canção do Sangue: http://amzn.to/2qAnE7L
(Utilizando esse link, você ajuda o TBS a crescer.)

Caçador em Fuga: um livrão do tamanho do seu bolso
Minha conciliação com Ursula K. Le Guin

Comentários:

Loading Facebook Comments ...