Precisamos conversar uma última vez sobre Mistborn

O texto a seguir pode conter spoilers de: Mistborn – O Herói das Eras. Depois não diga que eu não te avisei…

Com Brandon Sanderson, nada está tão bom que não possa ficar ainda melhor. Se O Império Final já havia fritado meus neurônios e O Poço da Ascensão havia me feito ficar em posição fetal por alguns minutos, no terceiro livro da série, O Herói das Eras, o autor elevou sua narrativa a um novo patamar.

Este não é só um romance de fechamento de trilogia, um livro que apenas conecta pontas e revela segredos. Ele vai além, dando um novo significado para todos os acontecimentos anteriores, para todos os personagens, mesmo os mais banais. O Herói das Eras deixa a sensação de que boas histórias são conduzidas por tramas maiores, por emaranhados de fios cujas pontas não temos controle algum. É um livro que torna sua trilogia…grandiosa.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Olha, eu sou uma leitora chata. Parte da minha diversão com enredos intrincados é procurar por falhas, pontas soltas e incongruências. E puxa, como eu tentei. Vasculhei o livro inteiro, anotando todas as pistas que encontrava para ver se lá na frente tudo ia ser justificado e…sim, tudo foi mais do que bem justificado. Porque Vin era mais forte que Kelsier, porque Elend era mais forte que Vin, porque Humano estava voltando a ser humano…tudo. Cada pista tomou o seu lugar.

Essa parece, inclusive, ser uma característica de Sanderson: ele não dá ponto sem nó.

Explico: existem técnicas de escrita que aconselham a implantação de pistas falsas para manter o leitor engajado no mistério. Não é que você vá mentir, mas dá pra comentar casualmente, que Fulano tinha uma faca pendurada no cinto e deixar que a imaginação do leitor faça o resto. Sanderson, porém, faz exatamente o oposto. Roupas, objetos, pessoas…elas só recebem mais que duas palavras de atenção caso se encaixem de alguma forma na trama. Se um brinco é citado mais de uma vez no livro, pode ter certeza de que a peça é algo importante (falaremos sobre este fatídico brinco mais tarde).

A genialidade de Sanderson não é esconder suas pistas, mas sim colocar as pistas ali na sua cara e ainda assim te surpreender. Você vai criar mil teorias, vai juntar as peças em mil hipóteses e ainda assim vai estar errado. Mistborn vai te mostrar que as coisas mais importantes acontecem bem debaixo do seu nariz.

E, de vez em quando, ele sabe ser sutil.

Por exemplo, logo nos primeiros capítulos, quando Elend salva o vilarejo skaa dos koloss. Quando perguntam seu nome, o Imperador se apresenta como Venture. Não Elend, não herdeiro dos Venture. Apenas Venture. É uma simples escolha de palavra, uma sutileza, mas traz uma carga enorme ao personagem. Elend amadureceu, virou homem, tornou-se mais forte. Foi bonito poder vê-lo abandonar sua utopia de governo sem precisar abandonar também seu lado acadêmico e gentil. Neste terceiro livro, Elend Venture chegou ao seu máximo desenvolvimento.

Vamos admirar esse hômi um pouquinho, por favor. Fonte: The Pink Cave – Reprodução

Sanderson foi muito bacana com nosso casal principal. Se reclamei sobre a imaturidade e a falta de comunicação entre Vin e Elend no volume anterior, O Herói das Eras veio pra me fazer muito feliz. Vin parou (finalmente!) de tentar proteger o marido a todo custo, e os dois arrumaram tanto problema pra resolver que simplesmente pararam de se preocupar sobre serem ou não serem dignos de um casamento tão acertado.

Gostei muito do fato de Ruína poder escutar tudo o que é dito e também ler a palavra escrita. Vin e Elend foram obrigados a se entender somente no instinto, somente pela convivência. Se antes eles criavam problemas por falta de comunicação, eles agora resolvem pepinos quando a falta de comunicação é justificada. Um casal exemplar, onde cada um precisa exorcizar os próprios demônios e contribuir para o fortalecimento da dupla. Fiquei bastante satisfeita com essa nova dinâmica.

(E aquela cena de baile fez meu coraçãozinho shipper voltar no tempo e sonhar com as românticas noites de Villete. Obrigada, Sanderson, foi uma despedida e tanto.)

Já no âmbito pessoal, achei que Vin foi a personagem menos evoluída. Isso, contudo, não é uma crítica. Não é que Vin seja uma protagonista rasa, muito pelo contrário, mas talvez o amadurecimento dela já tenha sido tão cobrado ao longo dos dois primeiros livros que não sobrou muito espaço para continuar a crescer. Vin passou o livro inteiro sendo a Vin que já conhecíamos.

Já Fantasma…ah, Fantasma.

Na primeira resenha que fiz, comentei que apostava todas as minhas fichas em Fantasma. Sentia que havia ali um grande potencial: o menino invisível, garoto-de-recados, sobressalente do bando, fiel ao tio e amante não-correspondido. Eu queria, eu DESEJAVA, ver Fantasma crescer. O Poço da Ascensão me deixou um pouco morna quanto ao personagem, embora tenha gostado da forma como ele aceitou Elend.

Mas no terceiro livro, Fantasma cresceu. Fisicamente, emocionalmente, socialmente, escolha aí qualquer aspecto que eu vou dizer que ele cresceu do mesmo jeito. O que não significa, claro, que Fantasma seja perfeito.

Uma das coisas que mais gosto em Mistborn é que as pessoas não tomam decisões ruins por burrice, mas sim por causa de motivações compreensíveis. Ora, quem não iria obedecer a voz de Kelsier durante um incêndio? Quem não iria, em posse de um grande poder, tentar ajudar inocentes?

Aliás, mostrar um brumoso (ainda que no controle de dois metais) sendo tão badass quanto um Nascido da Bruma foi um ponto super positivo para a trilogia. Já estava na hora de quebrar esse paradigma, mostrando que o aperfeiçoamento e as improvisações inteligentes também possuem o seu valor no mundo da alomancia.

Fonte: Deviantart – @zsoszy – Reprodução

Fantasma foi um peão nas mãos de Ruína, mas o fez com as melhores intenções. O fato de ter percebido a realidade a tempo e rejeitado o poder só mostra a força de sua moral, ainda que encoberta em um pouco de complexo de inferioridade. Fantasma diz que Kelsier nunca o escolheu para o bando, que era apenas um agregado, mas tenho certeza de que Kelsier o escolheu por sua retidão de caráter. Fantasma sempre foi confiável, o que lhe rendeu, no final das contas, a imensa responsabilidade de erguer o mundo. Porque só ele, após vivenciar o que vivenciou, estaria apto para a tarefa.

Abrindo um pequeno parênteses para falar de Beldre: fiquei muito feliz com a criação do par romântico, Fantasma merecia envolver-se com alguém num nível carne-e-osso (não aquela coisa idealizada que ele tinha por Vin). Porém, Beldre acabou virando só isso mesmo. Não houve tempo de explorá-la ao ponto de torná-la uma personagem querida. A pobre acabou ficando com o simples rótulo de “a namoradinha”.

E já que estamos falando de Fantasma, vamos ao meu segundo “coadjuvante” favorito: TenSoon.

Olha, todo mundo nesse planeta seria mais feliz com um amigo TenSoon para chamar de seu. Ele demora pra fazer amizade, mas também quando faz…é mais fiel à Vin do que todo seu exército unido. Uma das coisas que mais dilacerou meu coração foi o fato de TenSoon nunca ter conseguido reunir-se novamente com sua amiga antes do fim.

A cultura kandra também é muito interessante e os capítulos que a exploram são um deleite de acompanhar. Desde a aparência dos ossos, a forma como constroem seus aposentos e as leis até as incríveis diferenças de personalidade entre cada uma das gerações. O mais legal é que as características de cada geração não foram escolhidas por puro acaso: Sanderson pensou bastante sobre como cada uma reagiria ao mundo à sua volta. Uma geração estática cria uma geração revolucionária, e kandras que viajam muito possuem uma visão menos apegada aos dogmas de sua sociedade praticamente secreta.

Fonte: Deviantart – @ladyroxanne7 – Reprodução

Aliás, a humanização das “criaturas da bruma” (koloss, kandras e Inquisidores) é um tema profundo que permeia todo o livro. E acho engraçado como é sempre Vin que traz o assunto à tona, seja com TenSoon, seja com Humano ou mesmo com Marsh. Toda a resolução da história e a destruição de Ruína, dependeu da capacidade de Vin de enxergar com empatia seres que viviam até então à margem, que eram considerados vilões e sem alma. A maior piada deixada por Preservação foi justamente provar que, mesmo em criaturas de pura Ruína, ainda é possível encontrar humanidade. E quem melhor do que Vin, a menina espancada e abandonada no submundo para enxergar isso, para compreender as falhas alheias? Ainda mais numa época de tanta desesperança.

Vamos imaginar o nível de desesperança que podemos esperar de um livro cujo prólogo já se inicia com um tiro desse calibre:

“Marsh lutava para se matar.”

Como se o suicídio já não fosse triste o bastante, o cara ainda precisa lutar para conseguir isso.

Todo mundo está sem esperança. Mesmo os irreverentes e otimistas, como Brisa, não acreditam mais na salvação. Sazed fraqueja. Até Elend fraqueja, ele e seu caráter tão inabalável. Mas não Vin, que, afinal de contas, passou a vida lidando com situações impossíveis.

Fonte: Pinterest – Reprodução

E em terra de desesperança, quem tem fé é rei. A crença é o grande mote de O Herói das Eras, assim como as questões humanas em O Império Final e a política em O Poço da Ascensão.

Sanderson abusa dos tropes religiosos, desde a dicotomia presente em toda a obra (branco-preto, Ruína-Preservação, metais e seus pares opostos…) até a figura do messias renascido, personificado tanto em Kelsier quanto em Fantasma, posteriormente. O livro acaba então se tornando um excelente meio de compreender como a mitologia é recriada e adaptada para cada cultura, para cada período histórico.

A busca de Sazed por sua fé é uma das construções mais delicadas de toda a trilogia, especialmente para mim. Me identifico profundamente quando o cérebro científico do terrisano encontra cada incongruência religiosa, mas me identifico mais ainda com sua conclusão:

“As religiões na minha pasta não eram inúteis, afinal. Nenhuma delas era. Não eram todas verdadeiras. Mas todas continham verdade.”

É isso que uma religião é, em seu cerne. Ou ao menos, é o que deveria ser. Uma religião é um modo de explicar algo que não temos capacidade de compreender, mas que pressentimos, que percebemos e inferimos a partir do universo ao nosso redor. A crença é uma forma instintiva de conhecimento, algo que o ser humano vem perdendo com o tempo. Sou apaixonada pela Ciência, mas a capacidade de uma pessoa confiar no impossível ainda é algo que me fascina, ainda que existam inúmeras falhas nesse raciocínio. O que não quer dizer que não exista verdade ali.

Eu só nunca imaginaria que O Herói das Eras era…Sazed.

Eu levando tiro atrás de tiro do Sanderson. Fonte: Tumblr – Reprodução

Mas agora, pensando melhor, te pergunto: e porque não Sazed?

Embora Vin e Elend sejam valorosos e de extrema coragem, é preciso conhecimento para ser um Deus. É preciso saber “aonde colocar o planeta”, para que os erros do Senhor Soberano não sejam repetidos. Sazed seria a escolha mais óbvia. Além de Mestre Guardador e terrisano, ele é um especialista em pessoas, em relações humanas, e dono de um caráter e de uma serenidade invejáveis. Enquanto Vin, assim como Rashek, já tenta de imediato fazer alterações assim que toca o poder, consigo até ver Sazed calmo e confiante, refletindo sobre cada uma de suas ações.

Ninguém seria mais perfeito para ocupar este cargo divino, ou para entregar à Fantasma o relato escrito de tudo o que se passou. A escolha de Sanderson não foi nada extraordinária, mas extraordinário mesmo foi conseguir mantê-la tão bem escondida, tratando o homem que mais tarde se tornaria Deus como um mero coadjuvante simpático. Porque embora Sazed sempre tenha sido um personagem amado do público, seu papel sempre pareceu bem delimitado aos bastidores.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Mistborn também se diferencia de boa parte das sagas de fantasia épica por causa desse detalhe. O destino do mundo pode até estar nas mãos de poucos heróis, mas são as ações conjuntas de diversas pessoas comuns, seus sacrifícios e decisões, que realmente colocam a roda do destino para girar. O bando de Kelsier só teve êxito porque acreditou no poder inerente a cada ser humano, porque Elend acreditava em seus súditos, porque Vin acreditava em seus amigos. A ação de Marsh pode ser bastante pontual, no brevíssimo momento em que conseguiu resistir a Ruína, mas seu gesto representou uma virada enorme para a trama.

Acho de uma maestria ímpar a forma como Sanderson desconstrói, pouco a pouco, a imagem vilanesca do Senhor Soberano. Ele ainda cometeu atos imperdoáveis, ele ainda deve responder por seus atos, mas…ele não era esse monstro todo. Duvido que Vin hesitasse em matá-lo novamente, mas ela com certeza o faria com certo respeito. Rashek foi um homem atormentado por Ruína. Um cara que no final das contas realmente se importava com seu povo.

A verdadeira vilania recai então sobre Ruína, que ainda assim, é somente uma força seguindo sua própria natureza. Gosto como a dicotomia de Mistborn soa natural, implícita. Tá bom que toda aquela história de “você nunca vai nos vencer porque não entende o que são emoções” soou um pouco Harry Potter demais na minha cabeça, mas ainda casou bem com a história.

Fonte: Pinterest – Reprodução

O plano de Preservação (que a gente pensava ser uma tolinha até os momentos finais do livro), mostra-se incrivelmente inteligente. Ruína jamais seria capaz de confiar no que há de bom no ser humano. Também é interessante mostrar a sutileza de suas ações, já que Preservação é impedida de destruir ou causar mal diretamente. Espero que as outras obras da Cosmere abordem mais aspectos sobre estas duas entidades. Fiquei curiosa pela descrição de um homem de cabelos ruivos e outro moreno. Como eu disse lá em cima, se Sanderson acha que vale a pena mencionar esse detalhe, é porque ele deve significar alguma coisa.

Mas claro que tudo isso sobre o Herói das Eras, o universo, a reconstrução do mundo e a morte de todo mundo querido é só aperitivo. Vamos ao que realmente interessa nesse livro: O MALDITO DO BRINCO DA VIN, o objeto que ocupou minha mente com mil e uma teorias conspiratórias desde a primeira linha em que foi descrito.

Eu colocava as duas mãos no fogo de que a mãe de Vin não era maluca. Era uma solução muito fácil e muito “aleatória” para satisfazer um cara perfeccionista como Sanderson. Só que eu nunca, nem em um milhão de anos, pensaria na Hemalurgia como alternativa. Jamais. Porém, depois que Sanderson explica, a gente fica se sentindo muito idiota porque a coisa era tão óbvia e fazia tanto sentido…

Fonte: Pinterest – Reprodução

Adorei a Hemalurgia. Não a “arte” em si, mas a forma como um sistema de magia novo se encaixou com tanta elegância entre a Alomancia e a Ferruquemia. As três formas de poder retiradas do metal associadas tão perfeitamente com Preservação e Ruína.

Ah, e além do brinco, preciso agradecer à Hemalurgia por resolver outra grande pedra no meu sapato: Zane. Assim que o espectro de Kelsier sugere a Fantasma que não retire a lâmina em seu ombro, me peguei quase gritando pela casa: É O CALOMBO DE ZANE!

Obrigada, Sanderson, por me deixar tão sem fôlego assim. Não é todo dia que um livro consegue virar meu mundo de cabeça pra baixo. A despedida de tantos personagens queridos foi agridoce, mas entendemos que ela era necessária. Se Preservação e Ruína nos ensinaram alguma coisa foi a admirar a beleza dos ciclos. As coisas se renovam, os heróis nascem e morrem, ressurgem. Perder Vin, Elend, Kelsier, TenSoon, Tindwyl, Dockson e tantos outros foi necessário, seria ingenuidade acreditar que o fim do mundo poderia ser evitado com um grande final feliz. E, no entanto, se você tiver fé nas palavras de Sazed, de certa forma ele foi.

Fonte: Deviantart – @tenskies – Reprodução

Ah, e não esqueça: sempre há outro segredo. Engana-se quem pensa que entendeu tudo o que havia nas entrelinhas de Mistborn. Ainda tem coisas sobre Mare, Kelsier e Marsh que eu gostaria de dissecar… e temos mais alguns metais alomânticos para descobrir, certo? Cosmere, aqui vou eu.

Por fim, me despeço dessa trilogia com imenso carinho, tendo a certeza de que continuarei uma leitora ávida de Brandon Sanderson e de que precisarei comprar uma camiseta dessa o mais breve possível:

E TenSoon, e Elend, e Marsh, e… Fonte: Pinterest – Reprodução

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