Precisamos conversar uma última vez sobre Vaelin Al Sorna

* Bora ser fangirl/fanboy uma última vez? *

O texto a seguir contém spoilers de: A Rainha do Fogo. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: Pinterest – Reprodução

Finalizar uma trilogia, do ponto de vista do autor, é sempre uma coisa complicada. Cada volume precisa ter sua própria cadência, com começo, meio e fim. Não dá pra simplesmente cortar o texto numa parte aleatória e mandar pra gráfica.

Isso significa que as coisas não serão lineares, você vai ter de criar uma montanha-russa progressiva e lidar com as expectativas do leitor. O primeiro livro é o início da aventura, onde todo mundo coloca os cintos, se acostuma com o movimento e experimenta os primeiros sacodes. É um livro ascendente que forma seu próprio clímax. Já o segundo livro esfria e prepara para a próxima subida. Ele precisa criar fôlego e tensão, tendo que terminar no exato momento em que o carrinho se prepara pra cair. E o terceiro…bem, o terceiro tem que ser a descida mais incrível da montanha-russa, com reviravoltas e chacoalhadas o suficiente para te fazer pensar “isso sim que é adrenalina”. E, claro, o terceiro livro precisa te trazer de volta à estação em segurança: precisa te dar um final, um desfecho.

Metáforas à parte, é uma coisa complicada. E ao finalizar o último volume de A Sombra do Corvo, me senti bastante dividida. Por um lado, a escrita do Ryan é tão agradável de ler e seus personagens são tão simpáticos que eu devorei o livro e me diverti bastante. Porém, analisando de forma mais técnica, é preciso admitir que o autor falhou em criar o final que a série merecia. A Rainha do Fogo é um bom livro, mas não faz jus aos seus anteriores. Em outras palavras, a última descida da montanha-russa foi boa, mas a primeira foi muito melhor.

Fonte: Goodreads – Reprodução

Bem, justiça seja feita, eu já havia sido alertada sobre isso. Esse sentimento anticlimático está presente em 9 a cada 10 leitores da trilogia. Mas eu precisava entender porque exatamente o livro não deu certo, e, mais importante ainda, eu precisava saber o que aconteceria com todos aqueles personagens.

Então vamos nos situar: após defender suas terras e expurgar os volarianos do reino, é hora de organizar o contra-ataque. As tropas da agora curada (meh) Rainha Lyrna embarcam rumo a Volar. Novas alianças são travadas, incluindo todo e qualquer povo que não seja volariano e cujos nomes/localizações eu jamais saberei diferenciar. Os mistérios acerca dos dotados e seus poderes finalmente começam a ser resolvidos. O confronto com o Inimigo torna-se inevitável. Neste cenário, o protagonismo é dividido entre Vaelin, Frentis, Lyrna, Reva e, ao menos no início da trama, Alucius.

A adição dos capítulos POV de Alucius foi muito bem-vinda. O personagem, já possuidor da simpatia dos leitores por ter tido algum destaque no segundo livro, serviu muito bem para mostrar ao público o que acontecia nas fileiras inimigas sem que Ryan precisasse apelar para artifícios mágicos ou subplots desnecessários. O motivo pelo qual Alucius permanece com os volarianos é bastante crível e as ações do personagem (mais um anti-herói do que outra coisa) também são condizentes com a personalidade construída nos volumes anteriores. Achei inclusive louvável a escolha do autor pela cena de sua morte. Alucius nunca foi um guerreiro e seria ingenuidade achar que ele iria passar todo mundo no fio da espada e sobreviver pra contar a história. O fato de ele ter dormido com a integrante da Sétima Ordem mesmo amando Alornis também traz umas camadas interessantes de profundidade ao personagem.

Fonte: Cinesia Geek – Reprodução

Porém, se Ryan acertou ao usar uma carinha já conhecida do público nesta parte do livro, errou feio ao inserir milhares de novos personagens, locais e frentes de batalha, tudo ao mesmo tempo. É tanta gente andando, lutando e morrendo que eu perdi a conta de quantas vezes precisei consultar os apêndices. Pior ainda, estas novas pessoas surgem e somem tão rapidamente que é impossível criar empatia verdadeira, marca registrada do autor em A Canção do Sangue. Se no primeiro livro  a gente se apegava a todo e qualquer personagem, neste terceiro a conexão é feita de modo forçado, sem que o leitor realmente se importe com o destino de ninguém. Os momentos da leitura que me deixaram empolgada foram quase todos referentes a personagens já conhecidos.

Outra coisa que me incomodou foi a falta de coesão e propósito entre as frentes abordadas no livro. Cada personagem vai pra um lado e, no final das contas, mais se atrapalham do que se ajudam. O plot de Reva na arena de batalha não serve para nada que não seja: a) nos dar uma cena de batalha com animais, porque o Ryan precisa esgotar todos os cenários épicos possíveis; e b) fazer com que todo mundo se encontre na mesma hora e lugar. Achei que a história chegou a ser desrespeitosa com a capacidade de Reva, e mantenho minha opinião de que Anthony Ryan não faz ideia do que se passa na mente de jovens mulheres.

Tentando achar a Reva crível. Fonte: Giphy – Reprodução

Vaelin também acabou sendo mal aproveitado. Logo ele, nosso homão da porra,  foi afastado do centro da ação como artifício para desencavar os mistérios mágicos da trama. É como se não houvesse espaço, no enredo de guerra contra os volarianos, para que a gente sentasse com calma e explorasse o sistema de magia, as lendas e seus desdobramentos (inclusive, comentei na resenha passada que o autor deveria ter explorado melhor este aspecto no segundo livro). Como não dá pra chorar pelo leite derramado – ou pelo livro publicado -, o jeito foi colocar Vaelin em uma busca sem o menor sentido. A pé, claro, porque todo mundo precisa passar uns 30 capítulos andando.

E eu nem me incomodo com as andanças, sempre digo que acho um recurso interessante para explorar o lado psicológico do personagem. E não dá pra negar que as referências culturais das tribos do gelo são interessantes. Mas o Ryan não aproveita as oportunidades. Vaelin estar sem sua canção não significa praticamente nada pro enredo, não faz a menor diferença e não causa crescimento do personagem. Dahrena é a criatura mais sem sal desse mundo (um tiquinho mais sem sal que Alornis).  Chegou ao ponto de eu estar mais preocupada com o cavalo do Vaelin do que com ela. Sua morte, além de não ter significado muita coisa por causa do lance da empatia que comentei lá em cima, também me deixou bem chateada.

Fonte: Giphy – Reprodução

Poxa, qual o sentido de jogar uma gravidez no enredo assim do nada? Só pra causar? Porque não há nenhuma reflexão do Vaelin sobre a própria infância, sobre seu papel paterno e a relação com o pai, o Senhor da Batalha, sobre a mãe, sobre colocar um guri num reino cheio de guerra. Nada. São duas linhas só pra causar e dizer que a tragédia foi completa. Achei preguiçoso e descuidado, ainda mais porque o Vaelin sempre foi o personagem mais complexo do enredo. As cenas de ação são ótimas, mas o que eu gosto mesmo é de passear em sua mente.

(Plus, o autor menciona o nome de Sherin uma única vez e também abandona qualquer outra reflexão.)

Uma coisa engraçada é que a jornada de Vaelin não revela todos os segredos do sistema de magia. Apenas lendas e informações soltas são mostradas ao leitor. Muita coisa permanece obscura, sem uma explicação racional ou científica. Isso poderia até ser um problema (eu provavelmente consideraria um problema em outros enredos), mas encaixa bem na narrativa de A Sombra do Corvo. Tudo porque o sistema de magia aqui é atrelado à religião e à fé, além do próprio protagonista vivenciar essa problemática. Vaelin existe no limiar entre crer e não crer, entre buscar respostas e simplesmente aceitar a realidade. Então, nessa perspectiva, achei interessante manter as coisas mais difusas: o poder dos dotados é uma questão de fé.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Novamente, critico apenas a falta de desdobramentos dados à perda da canção do sangue.

Diante desse cenário meio atrapalhado, outros personagens puderam florescer. Frentis, que já vinha se destacando no segundo livro sob a alcunha do Irmão Vermelho, torna-se ainda mais interessante ao lidar com a escravidão e os costumes de Volar. Afinal, ele é um dos poucos personagens que realmente faz a diferença por ter atravessado o oceano. Que seja ele a parar o Inimigo é apenas a cerejinha do bolo (achei inclusive uma decisão bem acertada para dividir o protagonismo).

Confesso também ter um fascínio especial por seu relacionamento muitxo louco com a Elverah. É um misto de dominação e compaixão, um conceito tão deturpado de amor, desejo, asco e vingança… acho incrível como o autor consegue equilibrar as coisas sem romantizar nada.

E, convenhamos, Anthony Ryan sabe escrever tanto personagens homão (Frentis e Vaelin rivalizam de igual pra igual) quanto personagens no final da adolescência, aquele tipo de jovem que ainda é só uma criança mas que já demonstra potencial para ser um adulto badass. Essa habilidade já era demonstrada desde o primeiro livro, com o treinamento sob as vistas de Mestre Sollis (aproveitando o ensejo, quero um prequel contando sobre a juventude de Mestre Sollis!), e é retomado neste terceiro livro através de personagens como Arendil, Illian e – meus favoritos – Cara, Lorkan e Marken.

Outro destaque do livro é a inusitada dupla formada por Verniers e Fornella. Os dois, que até então serviam apenas como desculpa para as introduções de cada parte dos livros, vão sorrateiramente ganhando espaço e quando você vê… puf, está ansiando por suas cenas. Ambos são personagens profundos e cinzentos, com uma dinâmica de companheirismo forçado-mas-nem-tão-forçado-assim que me encanta. A reflexão de Fornella sobre a escravidão é uma das mais sinceras. Ela é, inclusive, uma das raríssimas personificações de humanidade que Ryan permite ao povo volariano.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Lyrna também tem um crescimento bacana neste livro, revelando-se finalmente como a herdeira legítima do Rei Janus. Gosto do peso e da complexidade que Lyrna traz ao ato de governar. Ela ama estar no comando, ela é ambiciosa e realiza-se em sua posição: Lyrna não seria feliz em outro lugar, ela jamais suportaria uma vida nas sombras. Porém, e esse é o pulo do gato, ela precisa abrir mão de várias outras coisas que lhe são preciosas, porque todos nós somos formados por um conjunto de desejos muitas vezes conflitantes. Não dá para ser tudo ao mesmo tempo. E as escolhas que ela faz e as consequências que enfrenta são fascinantes, principalmente porque ela tem plena consciência do que irá perder. São escolhas racionais.

Não acho que ela seja uma exímia comandante ou entenda muito de táticas de batalha, mas ela é uma diplomata exemplar. A forma como coloca todos aqueles guerreiros pomposos de renome pra trabalhar por ela é um deleite. Lyrna consegue ter desenvoltura até com Vaelin, rebelde por natureza e seu eterno crush.

Por falar em crush, gostaria de ter tido mais informações sobre o que se passou depois com o Escudo. Também tenho curiosidade sobre Orven e Davoka. Senti que, sei lá, faltou um final propriamente dito. Não sei se isso foi proposital, se o Ryan tá guardando munição para novos livros dentro do mesmo universo, mas achei que a trilogia merecia um epílogo.

Bem, no geral A Rainha do Fogo é um pesadelo de logística, com gente andando pra todo lado em diversas frentes que nem sempre fazem sentido, nem sempre mudam alguma coisa no enredo e nem sempre possuem um final satisfatório.

Falando desse jeito, parece um desastre.

Magina, miga. Fonte: Giphy – Reprodução

Ainda assim, dei uma boa nota para o livro no Skoob e continuo recomendando a história. Acho que, por mais anticlimática que seja a conclusão, a série vale a pena. Você vai amar tanto os personagens nos dois primeiros livros que vai ser impossível não querer saber o que acontece com eles no final. Você vai se interessar pelo Vaelin até plantando chuchu. Digo e repito: o Anthony Ryan é competentíssimo em entregar personagens e cenas de ação apaixonantes. O livro escorre sangue com elegância, os diálogos são fluidos e a representatividade é ótima. Como leitora, devo muitas horas de diversão ao autor: ele merece o crédito, ainda que A Rainha do Fogo não seja essa coca-cola toda. Confesso que deu dó de virar a última página.

No mais, me despeço já com saudades de um certo grupo de meninos de manto azul, que esfregam os hematomas de um novo dia de treinamento e aguardam a hora do jantar. Eles sabem como fazer aquilo tudo parecer divertido.

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