Precisamos voltar a conversar sobre Mistborn

O texto a seguir pode conter spoilers de: Mistborn – O Poço da Ascensão. Depois não diga que eu não te avisei…

E de novo Brandon Sanderson consegue me roubar uma semana de vida. Agora, estive às voltas com O Poço da Ascensão, segundo volume da trilogia Mistborn – Nascidos da Bruma, que, assim como seu antecessor, O Império Final, conseguiu deixar minha mente de pernas para o ar.

Fonte: marcsimonetti.deviantart.com - Reprodução

Fonte: marcsimonetti.deviantart.com – Reprodução

Não que eles sejam livros parecidos. Longe disso.

Enquanto o Império Final foca na derrubada de um regime ditatorial, de um grande antagonista, O Poço da Ascensão focará em problemas administrativos e questões mais pessoais. Embora ainda recorra ao tom grandioso, o segundo livro mostrará seus personagens muito mais preocupados sobre como deixarão seus nomes no mundo, sobre como serão lembrados, sobre seus arrependimentos e incertezas, do que realmente buscando um bem maior, uma salvação.

A falta de Kelsier é palpável. Por mais que Vin e Elend sejam carismáticos e consigam manter o interesse na narrativa, o livro perde grande parte de sua irreverência. Rir no meio do caos não é mais uma opção, o que torna O Poço da Ascensão um volume bem mais sisudo. Porém, acredito que esta seja de fato a intenção de Sanderson: em vários momentos, podemos sentir a presença de Kelsier pairando sobre os ombros dos membros da gangue, sendo relembrado por cada personagem ou mesmo na seita criada pelos seguidores do Sobrevivente. Faz sentido que o legado de Kelsier seja um elemento opressor. A responsabilidade de levar adiante um plano tão ousado é uma preocupação legítima, um fardo. Acho que este segundo volume é uma transição importante e necessária para que Vin, Elend, Brisa, Ham e companhia possam aprender a lidar com suas realidades e poderes sem a orientação de Kelsier.

Também achei maravilhosa a forma como o idealismo de Elend é posto à prova. Sanderson escancara para nós algumas verdades políticas bem dolorosas, como o fato de vários oprimidos se elevarem ao cargo de opressor e também de que nem sempre a decisão mais correta é aquela mais adequada em tempos de crise. Na verdade, Elend descobre que, num reino ainda muito condicionado a obedecer, um terra de muito rancor e pouca educação, a democracia é um sistema frágil. Para que seu sonho torne-se realidade, Elend precisa primeiro preparar terreno e criar uma cultura política na mente de seus cidadãos. Caso contrário, seus próprios mecanismos em prol do povo poderão se voltar contra ele.

Fonte: nightfliersbookspace.blogspot.com - Reprodução

Fonte: nightfliersbookspace.blogspot.com – Reprodução

Mas se por um lado temos Elend e Vin questionando suas habilidades e idealismos, por outro lado o casal deixa muito a desejar. Entendo que os traumas, sobretudo os de Vin, devam atrapalhar o relacionamento dos dois. Afinal, eles ainda estão aprendendo a ser adultos, com responsabilidades enormes nas costas. É normal duvidar de si.

Porém, sinto que Sanderson confunde liberdade e confiança com total falta de comunicação. Absolutamente todos os problemas do jovem casal poderiam ser resolvidos com algumas frases simples numa conversa franca. E não estou nem falando de uma discussão filosófica sobre se Vin tem ou não valor o suficiente para ser esposa do rei, ou se Elend nunca será capaz de protegê-la. Estou falando de coisas simples do tipo “sabia que seu irmão tentou me matar” ou ainda “eu adoraria que você me explicasse o que está acontecendo”. Mas não, o casal permanece mudo numa teia de infantilidade e inseguranças primárias, que acabam cansando. Um mimimi tão tolo em meio aos problemas de Luthadel que basta Sazed ouvir uma pequena parte das queixas de Elend e Vin para saber exatamente o que está acontecendo. Os diálogos carinhosos entre os dois também me pareceram um pouco forçados. Acho que Sanderson tem muito mais habilidade com cenas de flerte do que com casais consumados.

E se Elend parece à flor da pele em seus desentendimentos com Vin, do nada o garoto se torna uma pedra de gelo quando estamos falando sobre sua família. Poxa, sei que sua relação com Straff nunca foi das melhores, mas descobrir num curto espaço de tempo que: a) você possui um irmão; b) seu irmão tentou matar sua esposa; c) seu irmão e seu pai foram mortos por sua esposa; me parece motivo o suficiente para pelo menos uma reflexão sentida, uma lágrima disfarçada. Elend, no entanto, passa por isso como se nada houvesse.

Fonte: http://robinnaira.deviantart.com/ - Reprodução

Fonte: http://robinnaira.deviantart.com/ – Reprodução

E já que mencionamos Zane, vale a pena comentar sobre o núcleo da família Straff.

Sanderson nunca se amedronta diante de um clichê bem construído, e Lorde Venture é uma daquelas personificações malignas de primeira linha. O ar sarcástico, as roupas impecáveis…eu consigo visualizá-lo em sua risada maléfica. Zane, por outro lado, foi uma ótima aquisição para a história. Ele ilustra bem não só os traumas causados pelo tratamento dos nobres aos filhos bastardos, mas também o quanto o excesso de poder pode levar o indivíduo a relativizar cadeias de comando e convenções sociais. Zane sente-se acima das leis, acima do mundo. Afinal, quem poderia pará-lo? E no entanto, sua sensação não é de invencibilidade, mas sim de deriva. Zane sente-se só, incompreendido, como se a falta de pessoas capazes de confrontá-lo tornasse seu mundo extremamente solitário. Alie isso a uma voz misteriosa que sussurra-lhe nos ouvidos e temos a receita do desastre.

(Fiquei um pouco sem entender o “calombo” que Zane descreve ter entre as costelas, que fazem o uso da capa de bruma desconfortável. Alguém tem alguma teoria?)

Já Amaranta, a ervanária de Straff, me pareceu uma personagem bastante descartável. Sua existência e seu subplot com os venenos não acrescentaram em nada à história, nem mesmo a Zane, nem mesmo a Straff. Não enxerguei muita necessidade de incluí-la neste volume, a não ser talvez mostrar até que ponto vai o desprezo de Lorde Venture por todas as formas de vida além do próprio umbigo.

O Poço da Ascensão também é um livro mais amplo que O Império Final em relação aos pontos de vista dos personagens. Bastante espaço é dado para nos conectarmos com Brisa, Sazed, Tindwyl e OreSeur, personagens que carregam boa parte da tensão emocional da trama.

E se eu torci e shippei Elend e Vin por todo O Império Final, me senti muito mais conectada à Sazed e OreSeur neste segundo volume. A descoberta da real identidade do kandra foi um dos pontos altos do livro, e a morte de Tindwyl me feriu profundamente. Sem nenhuma cena de romance propriamente dito, Sazed e Tindwyl personificaram um amor muito mais sólido do que nosso casalzinho principal.

Ai, meu coração. Fonte: Goodreads - Reprodução

Ai, meu coração. Fonte: Goodreads – Reprodução

A mitologia do mundo de Mistborn continua encantando. O espectro da bruma (que no final das contas era boa pessoa), os kandras, os koloss, as brumas envolvendo cada vez mais a cidade e o aparecimento de novas ligas metálicas. Ainda temos tantas pontas soltas e tantos desdobramentos…O universo de Sanderson tem muito o que oferecer.

Senti uma simpatia genuína pelos koloss. Os enxergo num papel tão de vítima quanto o dos kandras, apesar de sua cultura ser tão baseada na violência (me senti uma espécie de Hermione defendendo os direitos dos elfos domésticos). Também estou curiosíssima sobre o poder libertado no Poço, sobre o que realmente aconteceu no passado de Kelsier, sobre como Marsh foi transformado em Inquisidor, sobre Vin.

Koloss. Fonte: jaspersandner.blogspot.com - Reprodução

Koloss. Fonte: jaspersandner.blogspot.com – Reprodução

No final das contas, O Poço da Ascensão serviu como uma ótima transição, apesar de algumas falhas, capaz de manter a atenção do leitor intacta para o terceiro livro. Gosto como Sanderson nos dá algumas respostas e apresenta novos mistérios, sem resolver tudo mas também sem deixar todas as dúvidas no ar.

Muita gente reclama do ritmo lento do enredo, que segue por mais da metade do livro, mas eu sinceramente gostei da abordagem do cerco, o clima de espera e tensão constante. As estratégias de negociação são interessantíssimas e a sensação claustrofóbica dentro de Luthadel ajuda a fazer com que o leitor sinta-se na mesma situação de seus personagens.

Quando escrevi um post sobre O Império Final, que você pode ler clicando aqui, me arrisquei a publicar uma série de previsões e suspeitas acerca do enredo de O Poço da Ascensão. Bem, é hora de dar a cara a tapa e ver o que acertei e o que errei miseravelmente…

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

EU DISSE: “Imagino que Marsh vá assumir o papel “paterno” em relação a Vin. Isso faria sentido uma vez que o personagem mostra grande senso de dever e uma conexão profunda, embora conturbada, com o irmão. Esse sentimento provavelmente será transferido para a garota. Seria também uma boa forma de fazer com que Vin continuasse desencavando os segredos de Kelsier. Além de ainda precisarmos descobrir o que realmente houve com Mare, fiquei com a impressão de que a mulher era fonte dos desejos não só de Kelsier, mas também de Marsh.”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Essa previsão foi um golaço…só que contra. Marsh não poderia estar mais distante de Vin, e ainda ocupa uma posição de antagonista na história. Porém, o diálogo entre Sazed e o Inquisidor me deixou com a nítida sensação de que Marsh está agindo contra sua vontade. Então continuo apostando nesta previsão para o terceiro livro, mas sem a parte do papel paterno. Ainda creio em Marsh como a chave para resolução do mistério de Mare.

Fonte: www.mundomsf.com.br - Reprodução

Fonte: www.mundomsf.com.br – Reprodução

EU DISSE: “Espero ver Elend no limite. Ao longo do livro, percebemos que apesar do jovem ter bom coração e estar bem intencionado, Elend é uma pessoa ingênua e sem o menor conhecimento de mundo. Tudo em sua vida foi apenas teoria, o rapaz nunca foi testado em situações de estresse real. Ao contrário de Vin, Elend está tendo sua primeira oportunidade de amadurecer na vida, o que não é lá muito adequado quando se precisa exercer o papel de rei. Elend precisará aprender a usar a política a seu favor e entender como realmente funciona um governo. Não confio em nada em seus colegas filósofos e muito menos no resto da aristocracia (isso sem mencionar seu próprio pai). Falando nisso, lembra quando Lorde Venture dá a entender que o filho tentou levar outra mulher para a cama no passado? Estou apostando em muitos, muitos conflitos (e romancinho, claro).”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Previsão mais do que bem acertada.

Fonte: www.hexjam.com - Reprodução

Fonte: www.hexjam.com – Reprodução

EU DISSE: “Seguindo essa linha de raciocínio, espero um desenvolvimento grande para o personagem de Fantasma. O garoto, ao contrário de Elend, é o único capaz de compreender os dilemas de Vin, já que veio das mesmas origens e conheceu a vida no submundo. Não acho que Fantasma tomará papel num triângulo amoroso, mas funcionará como um braço direito nesta nova fase da heroína. O rapaz provavelmente terá amadurecido muito após ter seu pescoço salvo por Kelsier, e não podemos nos esquecer de que Fantasma é o melhor Olho de Estanho da oficina de Trevo. Gostaria mesmo de vê-lo em ação.”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Eu diria que não foi uma previsão ruim, mas o destino de Fantasma acabou não se desenvolvendo da maneira que eu esperava. Ele de fato cresceu e de fato aceitou que Elend é o par adequado para Vin, mas ocupou muito mais um papel à margem da história do que o de membro efetivo do governo de Elend. Também não gostei das inseguranças do rapaz. Como uma criança vinda do submundo de Vin, com o suporte de Trevo e todas as vivências obtidas em suas viagens, eu esperava um Fantasma muito mais maduro e prático.

EU DISSE: “Ainda sobre Elend, sabemos que a maioria dos brumosos só ativa seus poderes após algum episódio traumático. Como Elend sempre foi um jovem aristocrata cercado de cuidados, ainda tenho esperanças de que o rapaz carregue habilidades alomânticas escondidas.”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Ah, vá, eu cheguei bem perto.

Fonte: reactiongifs.com - Reprodução

Fonte: reactiongifs.com – Reprodução

EU DISSE: “Tem um caroço enorme nesse angu sobre quem é o verdadeiro pai de Vin. Imagino que ninguém tenha engolido a história do sumo prelado, ainda mais pelo fato da garota possuir poderes tão avançados. O pouco que sabemos sobre sua mãe é que a mulher ouvia vozes e assassinou a filha caçula enquanto proclamava a filha do meio como rainha. Caso Vin se case com Elend, na atual conjuntura, ela de fato será uma rainha. E também, sua mãe não é a única pessoa a ouvir vozes, uma vez que a própria nascida da bruma “escuta” o irmão o tempo todo. Minha aposta é que a mãe de Vin (se é que era a mãe dela mesmo) não era tão insana, e que Reen ainda será peça chave para a descoberta de uma trama maior. Sempre há outro segredo, certo?”

“Caso Sanderson continue seguindo o clichê do herói redentor hiper habilidoso, estou apostando que Vin terá algum controle de ferruquemia no próximo livro. Nesse caso, Sazed ocuparia o cargo de Kelsier como mentor.”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Estas vão ter de ficar para o terceiro livro…Mas continuo apostando firme nelas! As vozes continuam a surgir na mente dos personagens, agora com Zane e a própria Vin no Poço da Ascensão. Se havia uma força oculta tramando para ser libertada, este plano poderia ter se arrastado por muitos anos, envolvendo não só a mãe de Vin como a própria Mare (que então poderia ter traído Kelsier inconscientemente). Quanto à ferruquemia de Vin, minha desconfiança só fica mais forte com tantas menções ao brinco de sua mãe. Será que Vin não carrega nas orelhas as respostas sobre sua origem?

Fonte: Tumblr - Reprodução

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EU DISSE: “Pessoalmente, acho o kandra um personagem pra lá de interessante e, justamente por causa da aversão de Vin, creio que ele terá muita importância na trama que está por vir. Quem seria mais adequado para explicar o que são e de onde vieram as brumas, né mesmo?”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Acho que podemos considerar isso uma vitória, certo? Dei um tiro no escuro e cheguei até perto. OreSeur/TenSoon ocupou uma parte importantíssima do livro e da vida de Vin, sendo responsável pela resolução de uma série de mistérios e também por boa parte das minhas lágrimas…

EU DISSE: “Imagino que Brisa, Ham, Dox e Trevo serão presenças constantes na vida de Vin, mas não sei se no mesmo grau de amizade e descontração. O poder faz coisas estranhas com as pessoas. Não ficaria surpresa se houvessem rachaduras de confiança entre os ex-membros da gangue.”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Verdade verdadeira, embora a questão da quebra de confiança tenha vindo muito mais sob a bandeira do kandra infiltrado do que por alguma mudança de comportamento dos personagens.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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EU DISSE: “E por falar em Vin, acho que a garota abraçará de vez seu papel de nascida da bruma. Espero vê-la, então, como um meio termo entre a menina das sombras e Valette. Uma mulher feita, confiante e capaz de mexer muitas engrenagens no novo governo, seja na linha de frente ou nos bastidores.”

O QUE REALMENTE ACONTECEU: Essa previsão chegou perto de se realizar, mas apenas na parte final do livro. Durante a maior parte da história, os questionamentos de Vin continuam a miná-la, ainda mais sem a condução de Kelsier.

EU DISSE: Sinto que quando estamos falando sobre O Herói das Eras que fracassou, estamos na verdade acompanhando duas histórias distintas, cíclicas. Para mim, o fracasso do herói terá mais a ver com a missão futura de Vin (e talvez Elend) do que com O Senhor Soberano em si, como se tudo estivesse acontecendo outra vez.

O QUE REALMENTE ACONTECEU: TURN DOWN FOR WHAT.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

O terceiro volume, O Herói das Eras, tem previsão de ser lançado no Brasil ainda esse ano, com a responsabilidade de amarrar todas as pontas soltas e trazer um desfecho satisfatório para nossos amados protagonistas.

E lembrem-se: Sempre há outro segredo.

Fonte: danielgovar.deviantart.com - Reprodução

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