O Principe de Westeros: por que amamos o bom canalha?

Andei tentando desenferrujar minha escrita essa semana, trabalhando em algumas ideias aqui e ali. E nessa vibe de criar enredos curtos, achei que seria uma boa ideia dar uma olhada no Príncipe de Westeros e Outras Histórias, a coletânea de contos organizada pelo George Martin e cuja leitura eu andava postergando.

Imaginei que o livro poderia me ajudar a extrair uma espécie de fórmula mágica sobre como escrever um bom conto. Ou ao menos, sobre que tipo de coisa é responsável por fazer de um conto um bom conto. Mas não foi bem isso que eu encontrei.

Fonte: chasestone.deviantart.com - Reprodução

Daemon Targaryen oferece sua coroa. Fonte: chasestone.deviantart.com – Reprodução

Não é que eu não tenha dado de cara com textos de qualidade, pelo contrário, mas O Príncipe de Westeros é uma obra tão diversa que a única conclusão a que cheguei foi a de que todas as regras podem (e devem) ser quebradas de vez em quando.

A começar pela própria definição de conto. Segundo um artigo do Viver da Escrita que compartilhei recentemente, o pessoal lá da gringolândia classifica um conto como um texto de 2.000 a 7.500 palavras. Mais que isso e já vira uma noveleta. Além disso, assumimos que um conto precisa ser fortemente atrelado ao seu final, sua entrega, seu gancho. A gente precisa de um conflito e, depois, a gente precisa dar um desfecho para esse conflito. Certo?

Nem sempre.

O conto do George Martin nem mesmo parece um conto. Ele é apenas um relato com um final totalmente em aberto, como se partisse do pressuposto de que o leitor já sabe o que aconteceu na Dança dos Dragões, com o confronto entre Aegon II e a princesa Rhaenyra. Praticamente todos os textos de O Príncipe de Westeros fogem um pouco do padrão, e são histórias enormes, com páginas e páginas de extensão.

O que talvez explique porque a obra não teve uma aceitação muito boa aqui no Brasil…

A coletânea é, em grande parte, uma experimentação. Os contos são gigantescos e chegam a dar ressaca literária (demorei bastante para concluir a leitura por sentir a necessidade de pausas). E para nós que estamos acostumados a contos curtinhos, com começo meio e fim bem delineados, bem…é uma grande mudança de paradigma.

O marketing brazuca do livro também não ajudou em nada (basta dar uma olhada na capa da edição americana e da edição brasileira para entender do que estou falando). O título nos passa a falsa impressão de que veremos contos de fantasia e aventura nos moldes de Game of Thrones. O nome de Martin aparece em letras garrafais como chamariz de venda, mas serve de muito pouco como uma primeira impressão. Eu mesma só fui descobrir o verdadeiro tema do livro quando o abri pela primeira vez: canalhas.

Capa americana e capa brasileira - Reprodução

Capa americana e capa brasileira – Reprodução

Canalhas e suas canalhices são um tema recorrente no mundo do entretenimento. É um arquétipo que funciona. Mais do que isso, é um tipo de personagem que nos seduz, nos atrai. Desde os bandos fora-da-lei do Velho Oeste até o Capitão Jack Sparrow em Piratas do Caribe, a verdade é que sempre nos pegamos vibrando com nossos canalhas favoritos.

Mas será que essa regra se aplica a todos os patifes? Eu creio que não.

No final das contas, os farsantes mais amados são aqueles que se equilibram entre a linha tênue do bem e do mal. Eles fazem de tudo para levar vantagem, matam pessoas, não cumprem suas promessas. Então porque não os odiamos como fazemos com os vilões?

Porque o canalha possui um código moral muito bem delimitado. Se você perder a mão na hora de descrevê-lo, ele vira vilão. O canalha é aquele personagem que quebra as regras mas ainda guarda a humanidade dentro de si. Não é a toa que um dos nossos canalhas mais clássicos é Robin Hood: ele é um ladrão, sim, mas ajuda os mais necessitados.

O bom patife é aquele cara que volta para salvar os amigos, o que adota cãezinhos abandonados e o que no final das contas acaba estendendo a mão quando o verdadeiro vilão tropeça. Ainda melhor, faz tudo isso sem reivindicar para si nenhum desses atos generosos, o que também o distancia do herói. E a gente meio que gosta de ver alguém sendo bacana só…porque sim. Sem ter a obrigação de ser legal. Sem ter a obrigação de ser uma pessoa perfeita.

O canalha é humano. Talvez por isso mesmo tantos autores busquem justificativas para seus atos, seja em infâncias traumáticas ou governantes tirânicos. O canalha é um bom coração que endureceu com o tempo, alguém que faz o que pode para sobreviver (ao contrário do herói, que vai ser o primeiro a colocar a cabeça a prêmio). Posso citar aqui Locke Lamora, Kelsier e o próprio Tyrion Lannister como bons exemplos do universo.

Dois patifes que tão no meu coração até hoje. Fonte: Tumblr - Reprodução

Quem não lembra desses dois patifes do bem?. Fonte: Tumblr – Reprodução

Se sairmos deste cenário bem delimitado, o traste transforma-se no pior dos vilões. Isso porque suas ações não serão movidas por alguma força maléfica absoluta, mas sim pelo simples prazer que obtém da execução de suas maldades. O canalha, quando vilão, fica naquela escala de cinza que é muito mais assustadora do que o pretinho básico de um cara como Sauron. Quando temos um ser das trevas, não há muito o que fazer além de enfrentá-lo. Mas quando encontramos alguém cuja alma se tornou insensível à empatia, alguém que sabe brincar com as suas emoções…bem, é aí que mora o maior perigo. Engraçado como eu sempre lembro daquele príncipe mau caráter de Coração de Dragão quando falo sobre isso…

Decidi comentar um pouco sobre cada um dos contos de O Príncipe de Westeros separadamente, porque eles são tão grandes que é seguro discorrer sobre as histórias sem soltar spoilers. A seguir, conto mais um pouquinho sobre cada um dos canalhas que encontrei.

(E se alguém souber me dizer PORQUE CARGAS DÁGUA a versão original possui 21 contos enquanto a versão brasileira só veio com 10, eu agradeço o esclarecimento. Cadê meus outros 11 canalhas?)

Eu quero esses 21 aí! Fonte: Capa da edição americana - Reprodução.

Eu quero esses 21 aí! Fonte: Capa da edição americana – Reprodução.

1) COMO O MARQUÊS RECUPEROU SEU CASACO – Neil Gaiman

Vi muita gente reclamando desse conto porque ele simplesmente não parece algo escrito pelo Gaiman. E embora reconheça que o autor se permitiu experimentar novos elementos, eu consigo dizer que ele está claramente ali. O universo “fabulesco” e um tanto sem sentido lembra algumas passagens de Stardust, assim como os diálogos rápidos e de palavras bem escolhidas. O próprio Marquês é um personagem de Lugar Nenhum e, como um bom personagem gaimaniano, é também uma referência: o Marquês de Carabas aparece originalmente em O Gato de Botas.

O bom canalha de Gaiman me lembrou bastante o enredo de Locke Lamora (principalmente pelo envolvimento com a “máfia” e os castigos que envolvem água). E eu gosto da elegância com que Gaiman consegue descrever objetos, fazendo um simples casaco realmente parecer a coisa mais incrível e valiosa de todo o mundo.

Não é a melhor coisa do autor, mas achei um ótimo começo. Um canalha simples e tradicional para aquecer os motores.

2) PROVENIÊNCIA – David W. Ball

Muitos participantes de O Príncipe de Westeros, como no caso de David, eram autores desconhecidos para mim.

Aqui caiu a ficha de que a antologia não seguiria o gênero fantástico, mas que nem por isso perderia seu charme. Os canalhas de David Ball, todos com C maiúsculo, são daqueles criados pelas circunstâncias, produtos do meio conturbado em que viveram.

A narrativa alá livro do Dan Brown nos enche com informações históricas ao mesmo tempo em que planta as pistas para o plot twist final: aquele que você sabe que está por vir mas que jamais vai acertar (eu, pelo menos, fui pega completamente de surpresa).

Você nunca mais vai esquecer quem é esse cara aqui. Fonte: karavadjo.wordpress.com - Reprodução

Você nunca mais vai esquecer quem é esse cara aqui. Fonte: karavadjo.wordpress.com – Reprodução

3) QUAL É A SUA PROFISSÃO? – Gillian Flynn

Gillian Flynn me dá um medo danado. Sério.

Eu não ligo muito para aquele tipo de terror mais clássico, com monstros e serial killers que dão susto em ruas desertas. Eu tenho muito mais medo dos pequenos terrores, daquelas cenas de suspense de gelar o sangue por minutos de pura agonia. Tenho medo das ideias perturbadoras. E Gillian Flynn é a rainha delas. Eu fico realmente pensando o que se passa na cabeça dessa criatura para sair com histórias tão maravilhosas e tão aterrorizantes.

Eu não sei se classificaria os personagens dessa história como canalhas. A autora criou algo um pouco mais perturbador que isso. Também senti falta de alguma coisinha a mais ali pelo final. Contudo, é um texto fantástico, daqueles que deixa você com a pulga atrás da orelha para sempre.

4) UM JEITO MELHOR DE MORRER – Paul Cornell

Paul Cornell que me perdoe, mas achei este o conto mais fraquinho de O Príncipe de Westeros. Eu sei que a premissa de misturar Doctor Who e James Bond parece fantástica, mas a história realmente não me prendeu.

Achei que as questões sobre as diferentes dimensões ficaram mal explicadas, tive que assumir muita coisa da minha própria cabeça e, principalmente, não sei onde estava o canalha deste conto. Eu procurei com afinco o estereótipo do patife em Hamilton, em sua cópia e até mesmo na mulher misteriosa de vestido e…nada.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Fiquei com a sensação de que eu precisava de mais informações para realmente compreender a proposta do autor.

5) UM ANO E UM DIA NA VELHA THERADANE – Scott Lynch

Se alguém nesse mundo sabe escrever sobre um bom canalha, esse alguém é o Scott Lynch. Olha, amigo, tá de parabéns. Eu achei que Locke Lamora seria o patife número um no meu coração, mas isso foi antes de conhecer Amarelle Parathis.

Imagino que quem reclamou do excesso de colorido nas torres de Camorr deve ter surtado com a paleta de cores insana utilizada pelo autor. Mas para quem gosta, tipo eu, esse conto é puro deleite. A cidade fala por si tanto quanto os personagens, e dá uma vontade enorme de estar lá também, pedindo uma bebida de ilusão ao barman. Lynch consegue em poucas páginas criar todo um universo. Como é seu forte, aposta novamente no submundo cheio de becos de uma cidadela mercante.

E, ah…os personagens. Já passei por alguns debates sobre como a representatividade deve surgir de forma natural nas histórias. Quando forçada, ela torna-se desserviço. E Lynch é super espontâneo ao nos dar uma trupe de ladrões de elite amplamente diversificada. Muito bom ver não um canalha, mas uma canalha, sendo uma heroína tão incrível quanto Amarelle e seus companheiros. Definitivamente meu conto favorito. Faço votos de que um dia Lynch possa ampliar este universo.  

Fonte: camorr.wikia.com - Reprodução

Fonte: camorr.wikia.com – Reprodução

6)  CARAVANA PARA LUGAR NENHUM – Phyllis Eisenstein

Desde Golem e o Gênio que venho criando um fascínio por histórias ambientadas em caravanas no deserto. Algo naquelas areias e suas miragens trazem uma cadência única às narrativas. E Phyllis, uma grata surpresa nesta antologia, fez um excelente trabalho.

A história prende, os personagens são multifacetados e bem desenvolvidos e a descrição de roupas, utensílios e cenários é bastante imersiva. A gente realmente se sente lá.

Minha única ressalva, que nem chega a ser uma crítica, é que não consigo enxergar Alaric como um canalha. Eu não sei, apenas não consigo. Não vejo em Alaric a vontade de sair por cima ou tirar proveito de uma situação. Se fosse este o caso, Alaric usaria seu poder o tempo inteiro.

Para mim, o bardo é apenas um viajante curioso, desejando ouvir novas histórias e viver em paz.

7) GALHO ENVERGADO – Joe R. Lansdale

Engraçado como a voz narrativa de Joe Lansdale lembra uma mistura de JK Rowling em Morte Súbita e Harlan Coben em Seis Anos Depois: aquele ar de investigação decadente submundo afora.

Como o conto é uma espécie de spin-off de uma história anterior de Lansdale, sei que perdi um monte de referências. Também não é o tipo de gênero com o qual me identifico. Ainda assim, achei um texto bacana.

8) A ÁRVORE RELUZENTE – Patrick Rothfuss

Me sinto meio que em dívida com o mundo por nunca ter lido O Nome do Vento (ainda). Por isso, confesso que passei por esse conto com um olho aberto e outro fechado, temendo pegar algum spoiler importante.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Não peguei spoiler, mas também não peguei mais um monte de coisa. O universo de Rothfuss é bem vasto para ser explorado num conto, por isso A Árvore Reluzente serviu mais como uma ótima propaganda de que eu preciso mesmo ler a trilogia original.

Bast é um personagem bem cativante, com um toque de charme difícil de resistir. Rothfuss o conduz muito bem, com ótimos diálogos e situações inteligentes. É difícil não querer acompanhar o dia a dia do garoto, mesmo que suas canalhices se resumam a pequenos feitos locais. Além disso, o autor deixa o suficiente nas entrelinhas para sabermos que Bast esconde muito mais mistérios do que transparece em sua superfície.

Ps: Eu acho o nome Feluriana fantástico, sonoramente falando.

9) EM CARTAZ – Connie Willis

Connie provavelmente também passou um tempo, assim como eu, tentando entender porque amamos tanto os canalhas e cruzando referências sobre todos os bons patifes que já vimos no cinema. Daí saiu seu conto, um apanhado de referências e metalinguagem.

Connie Willis também era outra desconhecida na minha estante até então, mas me conquistou com o jeito simples e jovial de escrever. Me fez lembrar um pouco dos diálogos de Eleanor & Park, aquele young adult urbano com referências à cultura pop. E apesar da história ser despretenciosa, nem por isso o enredo torna-se fraco. Achei interessantíssima a ideia do mega cinema Drome.

10) O PRÍNCIPE DE WESTEROS – George Martin

Chegou a vez dele, o dono da festa, o carro chefe de vendas da antologia. E, para muitos, a maior decepção do livro.

O conto de Martin é parado, não tem final e é apenas um compilado do relato de várias pessoas sobre os eventos que antecederam a guerra civil conhecida como A Dança dos Dragões. Tem nomes pra todo lado, nenhum diálogo e nunca sai do tom morno e controlado de um meistre.

Fonte: Pinterest - Reprodução

Fonte: Pinterest – Reprodução

Olha, eu não sei se sou eu (tenho certeza de que seria feliz como meistre), mas a escrita do Martin sempre consegue me prender. Por mais críticas que eu escute, ainda acho este conto um dos mais interessantes.

Adoro ver a forma como Martin conduz cada um dos intrincados fios genealógicos, dando propósito e protagonismo a cada um dos inúmeros herdeiros Targaryen. Do tataravô ao bisneto, todo mundo tem uma personalidade e uma motivação. Aliás, acho genial a forma como traços genéticos (de aparência e também de caráter) são passados de personagem para personagem por baixo dos panos, sem que aquilo precise ser escancarado para o leitor.

Sou suspeita, mas Martin é Martin. Para mim, essa história nunca será morna.   

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

* Correção (22/10/2016) – O leitor Renato Madeira apontou que a imagem inicial do post na verdade mostra o Rei Torhen Stark entregando a coroa para Aegon, e não Daemon entregando sua coroa ao irmão. Bem que aquele cabelo estava muito escuro, não? hahaha. Valeu, Renato!

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The Kiss of Deception: dois homens que são um só

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