Problematizando Peter Pan

O texto a seguir pode conter spoilers de: Peter Pan. Depois não diga que eu não te avisei…

Por culpa da Disney, meu conhecimento literário deixa a desejar no quesito clássicos. Não é sempre que topo ler um livro sobre personagens que considero amigos de infância e cujas aventuras acompanhei milhares de vezes nas fitas VHS com o holograma do Mickey Feiticeiro.

Fonte: @giacobino DeviantArt - Reprodução

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Tudo que eu sabia sobre Peter Pan até então havia vindo do Cinema. Não só da Disney, mas também no filme do Robin Williams (em que todo mundo torcia pro Capitão Gancho). Por isso, foi uma enorme surpresa ler o texto original de James Barrie essa semana e descobrir uma trama muito mais profunda (eu diria mesmo trágica), embalando aquela trajetória que sempre me pareceu tão invejável.

Porque Peter Pan é um personagem pra lá de trágico. Mas vamos com calma.

A narrativa de Barrie nasceu como uma peça de teatro para os anos 1900. E ela ainda preserva muitos elementos dramáticos em sua estrutura, como quebras de quarta parede e um narrador onisciente que sempre visualizo como um contador de histórias que me olha por cima dos oclinhos de meia lua para ver se eu captei sua piadas.

Peter Pan é sim uma história para crianças, e com certeza os pequenos se divertirão bastante com ela. No entanto, para os leitores mais crescidos, Barrie esconde camadas mais profundas de significado, crítica e reflexão. E ao fim do livro, o sentimento que fica passa longe daquela alegria genuína com que eu me despedia de Peter quando era criança.

Mas para que isso aqui não vire por si só um livro, vou listar a seguir apenas as três principais problematizações que corroeram meu cérebro ao longo da leitura:

A magia da infância e o mundo adulto

Barrie é um grande admirador da infância. Ao longo de sua vida, conviveu de perto com várias delas (é o nono de dez filhos e foi nomeado tutor das crianças de Arthur e Sylvia Davies, que influenciariam sua obra para sempre). E grande parte de Peter Pan será dedicada a destrinchar o maravilhoso mundo infantil e mostrar uma representação caricata do mundo dos adultos.

Fonte: @giacobino DeviantArt - Reprodução

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“Nessas praias mágicas as crianças sempre irão ancorar seus barquinhos. Nós também já estivemos lá; ainda podemos ouvir o barulho das ondas, mas nunca mais vamos desembarcar.”

Barrie deixa claro que as praias mágicas da imaginação são exclusivas para as crianças. Os adultos criativos, que ainda conservam uma fagulha deste mundo de fantasia, apenas escutam o som das ondas quebrando, mas jamais poderão realmente adentrar essa propriedade exclusiva.

É interessante ver como a criatividade das crianças trabalha e chega a resoluções inviáveis para um adulto. Em Peter Pan tudo será passível de uma nova interpretação. Ao perder sua própria sombra, é óbvio que devemos costurá-la com linha e agulha, e o que mais seriam as luzinhas de cabeceira do que os olhos que as mães deixam acesas para cuidar de seus rebentos?

Babás de quatro patas, crocodilos que fazem tic-tac, fadas funileiras e estrelas que cochicham. Barrie cria um universo bem próximo ao de Alice, onde as distorções nos parecem bem lógicas e nos transportam de volta ao maravilhoso mundo do faz de conta. É uma delícia acompanhar todos os diálogos e planos nada maléficos dos meninos perdidos, suas refeições de mentirinha e sua visão equivocada sobre o que é uma família.

No entanto, o autor também deixa transparecer muito da personalidade e alma das crianças. Isso pode ser visto no modo como a Terra do Nunca se mostra diferente para Wendy, João e Miguel, refletindo suas personalidades. Tem também uma passagem que gosto muito, em que o livro fala com bastante verdade sobre como as crianças lidam com a quebra de confiança:

“Toda criança se sente assim da primeira vez que é tratada com injustiça. Quando a criança se aproxima de você, querendo se entregar a você, a única coisa que ela pensa que merece é um tratamento justo. Depois que você for injusto com ela, ela vai voltar a amá-lo, mas nunca mais vai voltar a ser a mesma criança. Ninguém nunca se recupera da primeira injustiça; ninguém, exceto Peter.”

Já falando dos adultos, Barrie prefere tratá-los como seres tão focados em suas rotinas pacatas que chegam a parecer patéticos. O Sr. Darling, pai de Wendy, sempre me dá nos nervos. Eu achava que a Disney o transformara num cara chato (quem o perdoaria por amarrar Naná do lado de fora?), mas descobri que ele pode ser dez vezes pior na versão original.

Sr. Darling está sempre pensando em finanças, é muito prático e tem uma necessidade patológica de ser obedecido e admirado, sem questionamentos. Ele é praticamente um estereótipo ambulante do “chefe de família”, cujos membros restantes estão eternamente à mercê de suas vontades. Mesmo que elas não façam o menor sentido.

“Ele era um desses homens profundos que entende de ações e fundos de investimento. É claro que ninguém entende disso na verdade, mas ele bem que parecia entender, e muitas vezes dizia que algumas ações estavam subindo e alguns investimentos estavam caindo de um jeito que teria feito qualquer mulher respeitá-lo.”

Fonte: @giacobino DeviantArt - Reprodução

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Outra coisa interessante é que no mundo de Barrie não existem esforços para esconder das crianças cenas de violência. Matar pessoas, arrancar cabeças e dar palmadas em fadinhas inocentes são ações consideradas muito normais, o que nos dá uma boa ideia da moral vigente naquela época. Ali por volta de 1900, não se pensava em termos de conteúdos inapropriados para crianças, e o politicamente correto não era um conceito muito amplo. Peter pratica tantos atos ilegais que poderia ir preso por uma eternidade. Gente do céu, o menino deixa cadáveres na porta de casa para apodrecer! Li algumas resenhas que inclusive apontam alguns preconceitos embutidos na trama, principalmente contra os pele-vermelha.

Síndrome de Peter Pan

Vamos combinar uma coisa: Peter Pan é, na maioria das vezes, um grande babaca.

Ok, ok, sei que ele pode voar, que é corajoso, que sabe lutar e que tem lá seu charme. Mas vamos aos fatos: ele é arrogante, mandão, não aceita ser questionado e pune todos que não compartilhem de sua visão. Peter Pan é o mimado dono da bola que vai embora do campinho após levar a primeira falta.

Podemos contextualizar esse comportamento por dois caminhos:

Primeiro, Peter tem um sério problema de memória. Sua atenção é tão volátil que ele simplesmente esquece das experiências vividas ao longo do dia. Ele não pode amadurecer porque não retém as lições que aprende. Apesar de ser um rapazinho inteligente, capaz de enganar inimigos e roubar o coração de praticamente todo o elenco feminino, Peter é, emocionalmente falando, o mais ingênuo. Essa falta de maturidade fará com que ele se comporte de maneira bem infantil em diversas situações, e que possa chegar a ser cruel e irresponsável, sem perceber o que está fazendo.

“Num segundo ele recuperou a sombra e ficou tão contente que esqueceu que fechara Sininho numa das gavetas.”

Muitas vezes Peter destrata Wendy e Sininho, e dá pouca (ou nenhuma) atenção para sua trupe de meninos perdidos. Mas veja, o que poderíamos esperar de alguém que não teve nenhum referencial familiar, que jamais levou “puxões de orelha” ou aprendeu através de exemplos? Porque crianças, mesmo em sua extrema pureza, podem ser cruéis e egoístas caso ninguém os faça refletir sobre seus atos. O que nos leva ao segundo caminho.

Peter jamais teve uma família. O menino é órfão desde a mais tenra idade e cresceu em uma terra fantástica altamente permissiva, onde todos parecem aplaudir seus feitos e engrandecer seu ego. Até mesmo os piratas contribuem para a auto-estima inchada de Peter, afinal, devotam suas vidas para enfrentá-lo.

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E no entanto, como costuma acontecer com pessoas que tem o próprio eu na mais alta conta, Peter sofre com um enorme medo de rejeição. Peter mente, mas sabemos que o menino teme ter sido propositalmente abandonado pela mãe. Ele inveja a família de Wendy, se ressente com o papel materno que a garota representa para os meninos perdidos e acaba por criar uma total aversão a qualquer coisa que o lembre do mundo adulto. E se equilibra, precariamente, em manter sua posição de ídolo na Terra do Nunca, mesmo que saibamos que Peter, no final das contas, é o mais solitário por ali.

Além de não poder, Peter não deseja crescer. Ele não confia nos adultos, ele jamais os conheceu de perto. E em sua filosofia de vida imatura e em constante negação, Peter acaba se tornando esse ser inconsequente e mandão que ainda assim amamos, por saber que o garoto possui, lá no fundo, um ótimo coração. Até porque Peter é baseado no irmão de James Barrie, que faleceu muito cedo devido a um trágico acidente de patins. Na imaginação de Barrie, seu irmão era um garoto que jamais cresceu. 

“Ninguém conseguia ficar tão alegre quanto Peter, e sua risada fazia um barulho lindo, parecido com o de um riacho correndo. Ele ainda tinha sua primeira risada.”

Wendy, ideal feminino e sexualidade

Acho engraçado como Wendy costuma ser uma personagem odiada pelos leitores. Digo mais, eu também não via a menor graça na menina com ares de adulta que botava fim em todas as coisas legais que os meninos perdidos resolviam fazer.

Porém, agora com um olhar mais maduro, enxergo bem mais profundidade na personagem. Wendy é tão protagonista quanto Peter, e sua jornada é uma das mais fascinantes de acompanhar.

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Wendy Moira Ângela Darling foi criada já com destino certo: se tornar uma boa mãe e dona de casa exemplar no conforto de um casamento seguro e financeiramente estável. Um modelo de vida imposto a praticamente todas as garotas “bem nascidas” da época.

Wendy, como fazem todas as crianças, emula o comportamento dos adultos. Ela mira no exemplo de sua mãe e toma para si essa persona materna. Muito antes de Peter, vemos a garota brincar com o irmão João, onde os dois fingem ser os pais do caçula Miguel. Wendy desenvolve essa síndrome, de cuidar e nutrir todos ao seu redor, como uma grande mãe que evita conflitos a qualquer custo e abre mão da própria felicidade e conforto para prover seus rebentos.

Ela não só coloca Peter embaixo da asa, mas também seus irmãos e todos os outros meninos perdidos. Vale lembrar que até em sua versão da Terra do Nunca Wendy cuida de um filhotinho de lobo desgarrado. A garota também vive um personagem: ela tenta ser adulta, ela quer crescer. Por mais que o livro a venda sob o manto de uma mãe ou de uma esposa, Wendy sempre será apenas uma menina.

“Isso foi tudo o que elas falaram sobre o assunto, mas desde então Wendy soube que teria que crescer. A gente sempre sabe depois dos dois anos. Dois anos é o começo do fim.”

Aos dois anos, Wendy já sabia que queria ser adulta, e que seria mãe. Não me entenda a mal, não quero dizer que a menina não tenha se realizado com a maternidade ou que ser adulto seja algo ruim. Mas vamos imaginar que tipo de cultura é capaz de incutir uma ideia tão fundo na mente de uma menina de dois anos. Porque os irmãos de Wendy, criados na mesma casa, não sonhavam em ser pais?

A sociedade da época exigia um comportamento diferente para meninos e meninas. Wendy provavelmente não tinha acesso às mesmas brincadeiras que os garotos, além de ter uma série de expectativas nas costas. Assim, Wendy se torna madura mais cedo. Aos dois anos, Wendy já sabia que precisava crescer, algo que Peter está até hoje tentando negar.

E, de certa forma, Wendy não considera que ser uma boa mãe ou dona de casa sejam suas obrigações. Numa visão bem mais empoderadora, ela enxerga essas atribuições como provas de sua maturidade, ela se orgulha disso (e fica muito chateada quando Peter quer roubar para si todo o crédito por ter costurado sua sombra). Claro que depois Wendy acaba cedendo aos charmes de Peter e volta ao estereótipo da mocinha casadoira, mas vocês entenderam o que quis dizer, certo?

Essa maturidade precoce de Wendy trará também o início de uma descoberta sexual. Uma característica que é estendida por Barrie a praticamente todas as personagens femininas.

Dá nos nervos acompanhar as inúmeras indiretas que passam raspando pelas orelhas de Peter e ele sequer percebe.  Do beijo/dedal à atenção especial que as sereias dispensam ao menino, é inegável o quanto Barrie trabalha o interesse amoroso de suas personagens pelo garoto.

Aparentemente, Peter e os meninos perdidos ainda são muito ingênuos para sentimentos maiores que a alegria de uma boa aventura. O amor, a atração e o ciúme somente são compreendidos e vivenciados por Wendy, Sininho e a princesa Tigrinha, sendo a relação entre as duas primeiras a mais interessante.

Sininho enxerga em Wendy uma rival, alguém que precisa ser eliminada. Já Wendy compreende os sentimentos da fada, e não nutre nenhuma competição em especial, ainda que também almeje o coração do herói. O fato de Peter ser extremamente volátil, dando carinho e atenções a todas elas em momentos diferentes, só reforça o ciúme de Sininho.

Tanto que a competição sexual delas evolui para uma verdadeira tentativa de assassinato. Sininho deseja a morte da outra, criando uma armadilha para ela. O tiro sai pela culatra, e ao ser atingida, Wendy acaba ganhando toda a atenção masculina do recinto, alimentando ainda mais o ódio entre as duas.

Há quem diga que Wendy e Sininho representam personas femininas da época. Wendy é a “moça de família”, recatada e prendada, que traz Peter e os meninos para a segurança. Ela é doce, controlada e sempre cede às vontades do menino. Já Sininho seria passional, uma companheira para as aventuras sempre disposta a apoiar loucuras, um espírito livre. Como sabemos, naquela época ainda era forte a concepção de que haviam garotas “para casar” e outras “para se divertir”, e creio que Barrie quis brincar um pouco com esses conceitos.

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Sinto que o final de Wendy foi muito, muito agridoce. Ao ver a filha Jane repetir a história e sair pela janela acompanhada de Peter, seu amor da infância, é como se Wendy aceitasse que o tempo de suas alegrias genuínas havia acabado, que sonhos são apenas para garotas.

Wendy acaba seguindo os mesmos passos da mãe. Duvido muito que ela tenha se casado por amor. Seu marido é sequer mencionado no livro e claramente podemos ver que a personagem ainda nutre sentimentos por Peter.

Tampouco acredito que casou por amor a Sra. Darling, por mais que seu relacionamento com o Sr. Darling tenha evoluído para uma cumplicidade confortável. O Sr. Darling jamais tomou dela o beijo do canto da boca, o que a mãe de Wendy entregou a Peter, um símbolo de seus sonhos de menina.

Foi assim que o Sr. Darling a conquistou: os muitos cavalheiros que haviam sido meninos na época em que ela era menina descobriram simultaneamente que estavam apaixonados por ela, e todos correram para sua casa para lhe pedir em casamento. Com exceção do Sr. Darling, que pegou um táxi, chegou primeiro e ficou com ela. Ficou com ela por inteiro, menos com a caixinha mais de dentro de todas e o beijo.

Wendy e a Sra. Darling optaram pelo caminho seguro, convencional. E Wendy, uma garota que no final das contas batalhava com piratas e se virava muito bem numa terra sem adultos, teve que deixar a magia de sua infância e se prender à vida padrão. Para sempre. Será que era isso mesmo que ela queria?

Fonte: @giacobino DeviantArt - Reprodução

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Sininho também tem um final triste, já que sua sina é completamente ignorada. Diz-se apenas que Peter se esquecera dela, que provavelmente haveria de ter morrido, uma vez que as fadas quase não duram. Achei uma grande crueldade da parte de Barrie encerrar a personagem com tanta frieza e distância. Porque assim como Peter e o próprio Gancho, Sininho era uma daquelas contradições ambulantes, de pessoas com defeitos graves mas também grandes virtudes. Sininho salva a vida de Peter tomando veneno em seu lugar. E ele simplesmente a esquece?

Não sei, a sensação geral que tive de Peter Pan é bem trágica. O menino está fadado à solidão, Wendy precisou abrir mão de seus sonhos para crescer, Sininho se foi com o tempo. É como um belo sonho, uma declaração de amor à infância e à imaturidade, em algum lugar que conheci quando eu mesma era criança. Mas que, como tudo na vida, chega a um fim. E crescer, pelo menos na visão de Barrie, é algo que dói.

#LendoSandman – Fim dos Mundos
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