Procrastinação e criptomnésia literária

As coincidências da vida são muito engraçadas. Na mesma semana em que só faltei arrancar os cabelos para produzir um texto com prazo definido, e por isso também tive de atrasar bastante as postagens por aqui, acabei me deparando com dois artigos excelentes sobre procrastinação e criptomnésia no mundo literário (leia aqui e aqui). Quer assunto melhor pro post de hoje?

Mas primeiro, vamos por partes. Começando pela procrastinação. Taí o George Martin que não me deixa mentir: a procrastinação na hora de produzir conteúdo deve atingir uns 9 a cada 10 escritores. E isso em qualquer formato literário: dos quadrinhos às monografias de faculdade, dos romances de banca aos roteiros de cinema. A pura visão de uma página em branco parece exercer tamanha aversão que cria uma vontade inexplicável de fazer qualquer coisa bem distante da tarefa de escrever, mesmo que essa coisa não tenha relevância alguma para nossas vidas. Sabe quando você senta na mesa para escrever algo, mas descobre que só poderá se concentrar depois de arrumar toda a sua bancada, fazer um lanche, levar o cachorro pra passear e reordenar suas músicas no iTunes? E mesmo quando você se força a começar, fica parando a cada cinco minutos pra dar uma olhada no Facebook? Pois é, isso é procrastinar… E você definitivamente não está sozinho.

"Não existem limites para o que você pode realizar quando você supostamente deveria estar fazendo outra coisa" Fonte: someecards.com - Reprodução

“Não existem limites para o que você pode realizar quando supostamente deveria estar fazendo outra coisa.” Fonte: someecards.com – Reprodução

Claro que esta é uma tendência crescente em qualquer atividade. Podemos culpar o próprio estilo de vida moderno pelo aumento da procrastinação. Afinal, sofremos com enxurradas de estímulos o tempo todo, interações sociais e apelos de consumo. É difícil se concentrar em uma única tarefa quando o smartphone e a internet estão tão ao nosso alcance.

Porém, o que Megan MCardle salienta em seu artigo “Why Writers Are the Worst Procrastinators” é que esse comportamento parece ser mais contundente no caso dos escritores. Quase um mal crônico. E Megan desenvolveu uma teoria interessante sobre isso.

Para ela, o problema está no fato de que escritores são muito bons em escrever. São muito bons em utilizar a linguagem, uma habilidade que geralmente se desenvolve desde cedo. Os escritores de hoje costumam ser as crianças leitoras de ontem, enfiadas debaixo das cobertas com uma lanterna para enxergar as palavras. Esse aprendizado se reflete nas aulas de Português e Redação e, como foi adquirido por meio do lazer, soa como um talento natural obtido sem esforço. De alguma forma, nossa sociedade encara a boa escrita como um dom: ou você nasce com ele ou pode procurar outra profissão.

Além disso, leitores vorazes se tornam ótimos críticos. Eles sabem reconhecer as sutilezas e entrelinhas de seus autores favoritos, sentem o cheiro de uma trama bem amarrada. Com o passar dos anos, esse limiar de qualidade vai subindo mais e mais.

E é aí que o escritor começa uma espécie de auto-sabotagem. Confrontado com a ideia de que escrever é um talento nato e oprimido pela genialidade de seus autores favoritos, o escritor começa a sofrer a síndrome do impostor. Que é basicamente o medo de que, uma vez que as ideias estejam materializadas no papel, você possa perceber que na realidade não é tão talentoso assim… É o medo de escrever algo ruim.

O mundo das ideias é um local seguro. Enquanto a história está apenas em sua mente, o texto é um projeto em aberto, cheio de possibilidades. Na sua cabeça tudo faz sentido. Você até consegue, inconscientemente, visualizar diálogos e cenas de acordo com o estilo de seus autores favoritos. Porém, a hora de amarrar toda a trama, escolher as palavras certas e finalizar o texto vai muito além do talento: é trabalho árduo, é desfazer e refazer, é aprender com a prática. Algo que não estamos acostumados a encarar, pois desconhecemos o início da maioria de nossos ídolos. Ninguém lê a redação feita pelo escritor favorito quando ele ainda tinha 15 anos. Ninguém vê os manuscritos que foram negados pelos agentes literários. E ninguém nos conta sobre aquela vez em que Fulano chegou a pensar que era mesmo um fracassado sem talento.

“You never see the mistakes, or the struggle,” says Dweck. No wonder students get the idea that being a good writer is defined by not writing bad stuff. (Você nunca vê os erros, ou a luta, diz Dweck. Não é de se admirar que os alunos tenham a ideia de que ser um bom escritor é definido por não escrever coisas ruins.)”

O interessante é que Megan notou outro fenômeno. Uma vez que o prazo para entregar a obra vai passando, o medo de escrever algo ruim vai sendo substituído pelo medo de não produzir nada, uma frustração ainda maior para o escritor. O que explicaria porque a maior parte dos autores produz em quantidade inversamente proporcional ao prazo restante. O capítulo a fluir melhor vai ser aquele feito aos quarenta e cinco do segundo tempo, quando seu editor já está quase tendo um AVC ao telefone.

Tirinha por Bill Watterson - Reprodução

Tirinha por Bill Watterson – Reprodução

Então, a melhor forma de contornar a procrastinação literária talvez seja mesmo abraçar a ideia de que escrever é uma atividade de melhoria contínua. Ou seja, entender que erros são necessários e que é melhor aprender com eles do que utilizá-los para medir sua própria competência. Apenas escreva e se esforce. Você estará dando um passinho na direção certa.

E falando nisso, vamos ao nosso segundo assunto: criptomnésia.

Calma que não é doença. O termo, criado em 1989, denota uma condição perfeitamente natural, que acontece o tempo inteiro com qualquer ser humano. Consiste no fenômeno da memória subliminar, quando lembranças e referências ficam fixadas em nosso subconsciente sem que tomemos conhecimento desse processo. É assim que funcionam muitas campanhas de marketing e é assim que muitas invenções foram criadas pela humanidade, copiando inconscientemente mecanismos já presentes no reino animal ou vegetal. Ideias inovadoras começam com a recombinação dos fragmentos de ideias existentes.

Porém, a criptomnésia se torna um assunto delicado para aqueles cuja moeda de trabalho é a criatividade. William Faulkner chegou a fazer o seguinte comentário, em 1958:

“Any experience the writer has ever suffered is going to influence what he does, and that is not only what he’s read, but the music he’s heard, the pictures he’s seen. (Qualquer experiência que o escritor já tenha sofrido vai influenciar o que ele faz, e isso não significa apenas o que ele lê, mas a música que escuta, as imagens que vê.)”

Então, se a criptomnésia é um fator inevitável e completamente cotidiano, qual a linha tênue que separa a apropriação inconsciente e o plágio? Onde começa uma ideia inovadora e termina a releitura?

Fonte: Buzzfeed - Reprodução

Fonte: Buzzfeed – Reprodução

O psicólogo cognitivo Ronald Kellogg escreveu um livro inteiro sobre o assunto, o “The Psychology of Writing”. Em suas pesquisas, Kellog notou que muito além das ideias, escritores podem pegar emprestado, sem saber, até mesmo o estilo de escrita e os jargões de outros profissionais que admira. Imagino que a maioria das pessoas que escrevem já passou por isso pelo menos uma vez. Sempre costumo notar como o “humor” de cada post varia dependendo dos livros que estou lendo no momento.

Outro fato curioso é que a criptomnésia também pode levar o escritor a ficar preso dentro das referências de seu próprio trabalho, o que Kellog comparou a uma espécie de auto-plagiarismo. Já comentamos aqui sobre os autores que parecem seguir sempre uma mesma fórmula para contar suas histórias.

E os estudiosos andam preocupados com uma possível epidemia de criptomnésia causada pela tsunami de informação compartilhada diariamente na internet. Estamos consumindo referências como nunca, de uma forma massiva e voltada para o mercado. Será pura coincidência o fato de livros de temática tão parecida estarem inundando as livrarias? Os autores estão apenas aproveitando um filão lucrativo ou estão presos em uma teia de mensagens subliminares, pedaços que se fazem presentes aqui e ali em sua criatividade?

Por outro lado, a criptomnésia é uma condição biológica, algo que não devemos necessariamente evitar. Ela ajuda sim no processo de criação e é parte integrante no excêntrico mundo da mente de um escritor. Talvez a solução mais segura seja apenas observar com mais cuidado aquilo que nos inspira…

Fecho aqui com uma frase de Pete Seeger escolhida no artigo do Brain Pickings, que joga uma luz de esperança na questão:

“All of us, we’re links in a chain. And if we do our job right, there will be many, many links to come. (Todos nós, somos elos em uma corrente. E se fizermos nosso trabalho direito, haverão muitas, muitas ligações para surgir.)”

Aviso: Concurso Brasil em Prosa
Locke Lamora – nosso malvado favorito

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