Quando Austen encontra Aidan

O texto a seguir pode conter spoilers de: Orgulho e Preconceito, An Assembly Such as This. Depois não diga que eu não te avisei…

“For a few breathless heartbeats, Town and Country took stock of each other and rushed to a dizzying variety of conclusions.”

Pamela Aidan nasceu na Pensilvânia em outubro de 1953. Amante dos livros, formou-se na Universidade de Illinois e trabalhou como bibliotecária por cerca de 30 anos. Jane Austen sempre esteve presente em sua vida: Orgulho e Preconceito ganhou o posto de romance favorito ainda durante o ensino médio.

Eis que, em 1995, enquanto a BBC exibia a minissérie Pride and Prejudice (aquela com o Colin Firth), uma ideia começou a se formar na mente de Aidan: como seria a história de Orgulho e Preconceito se esta fosse contada a partir do ponto de vista de Darcy?

Foi assim que, alguns anos depois, surgiu a trilogia “Fitzwilliam Darcy, Gentleman”, uma cuidadosa releitura do romance criado por Austen. A série é composta pelas obras “An Assembly Such as This”, “Duty and Desire” e “These Three Remain”, que acabei conhecendo após uma matéria que elegia as melhores adaptações e spin-offs de Orgulho e Preconceito (você pode ver a lista completa clicando aqui).  O post de hoje será focado no primeiro volume da coleção, que infelizmente ainda não está disponível para o português… Bora ver isso aí, né, editoras?

Capas. Fonte: https://samantaf2010.wordpress.com/2011/02/16/fitzwilliam-darcy-gentleman-trilogia/ - Reprodução

Capas. Fonte: https://samantaf2010.wordpress.com/2011/02/16/fitzwilliam-darcy-gentleman-trilogia/ – Reprodução

O principal ponto a favor de Pamela Aidan que precisa ser destacado é sua capacidade de costurar as narrativas do livro às de Orgulho e Preconceito com maestria. Seu trabalho não é uma releitura por si só, mas um complemento à obra de Austen. Vários diálogos originais estão presentes no texto, palavra por palavra. Qualquer movimento dos personagens no tabuleiro estará lá, só que agora acompanhamos a cena sob outro ponto de vista. Se Austen descreve um suspiro de Darcy, o mesmo suspiro acontece nas páginas de Aidan, só que agora saberemos o motivo. O inverso ocorre no caso de Elizabeth, o que torna a história, apesar de velha conhecida, inteiramente nova e bem mais rica. Aconselho ler An Assembly Such as This com uma cópia de Orgulho e Preconceito ao lado. Acompanhar a capacidade do casal principal em interpretar erroneamente toda e qualquer ação um do outro de forma simultânea é um prazer quase sádico.

An Assembly Such as This inicia com a chegada de Fitzwilliam Darcy e seu amigo Bingley ao baile promovido por Sir William, onde serão apresentados aos cidadãos locais e encontrarão, pela primeira vez, a família Bennet.

Num primeiro momento, as opiniões e comportamentos de Darcy revelam um cavalheiro extremamente contrariado com sua situação. Darcy desdenha a sociedade de Hertfordshire e critica o baile e seus respectivos convidados de uma forma quase pedante. Darcy é mesmo um chato. No entanto, Aidan tem sensibilidade o suficiente para plantar pequenas pistas que explicam os posicionamentos de Fitzwilliam. Somos levados a crer que seu comportamento é fruto de uma extrema precaução baseada em conselhos e más experiências, aliados à uma grande dificuldade em se relacionar com pessoas que não conhece. Enquanto em Orgulho e Preconceito a população rural se sente menosprezada por Darcy, em An Assembly Such as This percebemos que sua prepotência serve como nada mais que um escudo. É Darcy que se sente intimidado, medido e avaliado por milhares de estranhos. E embora seus preconceitos e insatisfações em relação à sociedade campestre sejam bem claros, não consigo deixar de pensar neles como uma inconsciente timidez de Darcy ao adentrar um ambiente onde não sabe se portar. É como a velha artimanha infantil ao perder um brinquedo: eu nem queria mesmo…

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Os encontros e desencontros com Elizabeth Bennet são conduzidos com delicadeza. É maravilhoso acompanhar como a atenção de Darcy é capturada pela moça pouco a pouco. Seu primeiro encantamento ocorre de forma sutil, quando percebe a alegria genuína que emana da jovem, tão diferente dos sorrisos calculados que encontrou nas damas londrinas.

“Then, with a sigh of pleasure, she gracefully adjusted her wrap and lifted her face to the beauty of the night sky. The simplicity of her joy caught him, and as the carriage lurched forward, Darcy found that he could not take his eyes from her.”

A admiração de Darcy cresce à medida em que os eventos das semanas seguintes insistem em atirar o casal na companhia um do outro. Elizabeth encanta por sua simplicidade e generosidade, mas é através da sagacidade intelectual e da língua ferina que a jovem realmente prende Darcy. Ele enxerga nela algo inédito: alguém capaz de encará-lo e enfrentá-lo como igual. Um jogo de gato e rato. Darcy e Elizabeth estão sempre num movimento cíclico de embate, encantamento e afastamento, como numa valsa. É muito divertido vê-los medindo forças e irritando um ao outro enquanto, inconscientemente, se envolvem cada vez mais.

“At that moment, without being entirely clear as to why her regard of him should matter or what was his ultimate goal, he set about devising a plan to obtain her particular attention.”

Mas é claro que Darcy não aceita o sentimento com facilidade. Fitzwilliam se orgulha de ser um homem que coloca a lógica acima das emoções e cumpre seu dever sem hesitação. Gosta de manter as coisas bem arrumadas e sob controle. Podemos enxergar isso através de algumas pistas deixadas por Aidan, como o fato de Darcy adorar cavalos e cachorros (treináveis e devotos) mas não simpatizar com gatos; e sua quase paranóia em obedecer horários ou cumprir rotinas. A simples ideia de se apaixonar por uma moça muito abaixo de seu nível social e que o trata com descortesia sempre que pode é algo novo e que o assusta profundamente, porém inevitável.

“Darcy watched, inexplicably fascinated, as with unconscious grace she slowly brought it to her lips. She sipped the wine, ever so slightly, and gently returned the glass to its place. As she released it and returned her hand to her lap, Darcy released the breath he had not realized that he had been holding. He quickly averted his eyes before she could notice his inappropriate behavior, directing them instead to his own glass of wine. His pulse somewhat elevated, his grip on his glass was not as sure as hers had been, and the wine sloshed dangerously in the bowl as he raised it. What is the matter with you? he scolded himself, then swallowed the contents without tasting anything.”

Darcy procura então desesperadamente dizer a si mesmo e aos outros que Elizabeth não é essa coca-cola toda, até mesmo desdenhando a jovem na frente dos outros.

“…in some mysterious way Miss Elizabeth Bennet was continuing to exact her penance for his stupid blunder. So, with as much insouciance as he could summon, he made it clear as he criticized her face, her form, and her manners that Miss Elizabeth Bennet was not his idea of perfection in a woman.”

Toda essa negação de Darcy é bastante esclarecedora para os fãs de Orgulho e Preconceito, quando finalmente podemos ver as intenções por trás do personagem. Sempre tive curiosidade em saber o que Darcy estaria pensando ao se referir à moça de forma tão mesquinha. Além disso, Aidan ainda apresenta, sutilmente, a cereja do bolo: a insegurança de Darcy.

“For a few troubling moments, he entertained the disconcerting possibility that he simply was not of interest to her. If this were so, it would be a singular experience.”

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Darcy está dividido entre achar que Elizabeth também sente prazer em implicar com ele ou achar que a moça simplesmente o odeia. E a ideia de ser ignorado por ela fere seu orgulho. É preciso entender que Darcy nasceu em uma posição social altíssima e que, sendo assim, nunca precisou lidar com a rejeição do sexo oposto. Alie isso à timidez natural do personagem e ao fato de que a sociedade espera dele um grande casamento, e poderemos compreender porque o herdeiro de Pemberley se sente tão desconcertado sobre sua batalha interna.

“Why, then, do you continue to attend to her? […] Suddenly, before thought could mitigate its power, the answer thrummed through his whole body. Because she is both — mind and heart — and what you have always desired.”

Mudando de foco, apesar do relacionamento de Darcy e Elizabeth ser o tema central do livro, An Assembly Such as This também me trouxe outras gratas surpresas.

A maior delas foi acompanhar Bingley e sua amizade com Darcy num nível mais profundo. O personagem, que embora cativante ocupava um papel secundário no enredo original, surge com muito mais força, com uma personalidade bem demarcada. É hilário comparar os dois amigos, que não poderiam ser mais desiguais. Enquanto Darcy se mantém sempre reservado, Bingley abraça estranhos de peito aberto e pensa o melhor de todos até que lhe provem o contrário. É o retrato da felicidade quando faz o que mais gosta: socializar com pessoas simples e não muito preocupadas com as enfadonhas regras de etiqueta.

“Accepting a cup of punch from the girl behind the table, he suffered her smiles and giggles with a show of composure he was far from feeling. At that moment, Bingley appeared next to him, secured a cup from the girl with a smile and a wink.”

Fonte: Giphy - Reprodução

Fonte: Giphy – Reprodução

Gostei bastante da forma como Pamela Aidan foi capaz de explicar as bases que sustentam a amizade dos dois. Darcy se vê como um tutor de Bingley e enxerga o rapaz como fonte de um excelente caráter, apenas precisando ser lapidado. A preocupação genuinamente paternal com Bingley é  reflexo da própria relação de Darcy com seu pai, seu maior professor e exemplo. Ao mesmo tempo, Fitzwilliam admira a autenticidade de seu amigo: ao contrário das irmãs, Bingley é uma daquelas pessoas verdadeiras e transparentes. Podemos dizer que os dois se complementam.

E falando em Caroline e Louisa Bingley, as irmãs continuam insuportáveis. Suas cenas possuem um maior destaque, já que estamos acompanhando a perspectiva de Darcy, mas não encontrei nada de muito inovador na dupla. Aliás, meu único divertimento era aguardar os momentos onde Caroline levaria alguma patada dos outros personagens (o que felizmente acontece com frequência).

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

An Assembly Such as This também trouxe personagens que não aparecem no texto original. Gosto bastante da participação do cavalo de Darcy, Nelson, e do estabanado cachorro Trafalgar. A autora os utiliza o tempo todo como recurso para explicar os sentimentos mais primitivos de Darcy, principalmente para nos fazer notar que Fitzwilliam não ama a disciplina, apenas se agarra a ela por medo daquilo que não pode controlar, já que a espontaneidade de seus animais claramente o fascina.

Mas a simpatia dos leitores fica mesmo com Fletcher, o valete de Darcy, que carrega com um pé nas costas o tom cômico do livro. A relação entre Fletcher e seu patrão me lembrou bastante A Bela e a Fera, onde um mocinho carrancudo e totalmente perdido no mundo dos relacionamentos é ajudado, assim quase sem querer querendo, por seus fiéis empregados. As maquinações feitas por Fletcher para vestir adequadamente o patrão e suas mordazes observações sobre a vida de Darcy são fundamentais para o desenrolar do romance com Elizabeth, mas também servem para mostrar uma forte amizade entre os dois.

“Memorable, eh? And why should I want to style myself in a ‘memorable’ fashion tomorrow?”

The regard Fletcher turned to him at his question was a portrait of professionalism piqued.

“Mr. Darcy, sir! I have a reputation to maintain!”

“In Hertfordshire?”

“In whatevershire you happen to be, sir.”

O livro ainda é pontuado por outras boas aparições. Gosto como a mãe de Elizabeth foi retratada no ponto de vista de Darcy e de como as intenções de Jane Bennet realmente se tornam difíceis de compreender para os que não estão acostumados ao seu convívio. E não adianta: sob qualquer ponto de vista, ler os diálogos de Mr. Collins ainda me dá vontade de enfiar a cabeça num buraco por pura vergonha alheia…

Enfim, An Assembly Such as This é muito mais do que uma releitura ou a simples apropriação da história de outra pessoa. O trabalho de Aidan é, na verdade, um grande tributo prestado por uma fã para todos os outros admiradores de Austen. Vale a pena a leitura.

(No entanto, mais de uma pessoa veio me prevenir quanto ao segundo livro, “Duty and Desire”. Ele não só estaria bem distante do estilo de Austen como traria acontecimentos não muito relevantes para a trama principal. Me recomendaram pular direto pro terceiro volume e fingir que o livro intermediário nunca existiu…)

Fonte: Pinterest - Reprodução

Minha cara enquanto lia. Fonte: Pinterest – Reprodução

OBS: Tenho um carinho especial quando um livro começa a falar sobre outros livros. E além de citar obras famosas, An Assembly Such as This também diverte ao mostrar a relação de Darcy com seus livros. Sua preocupação em manter as capas intactas é bastante compreensível, Mr. Darcy!

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