Quando começar e quando terminar um capítulo?

Eis a questão.

Fonte: keybridgemed.com - Reprodução

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Zapeando pelos grupos de autores independentes no Facebook (esse mar de inspiração para posts), vira e mexe escuto essa pergunta. Ou a sua variação mais comum, a “de que tamanho deve ser um capítulo?”.

E embora pareça frustrante ter de dizer isso, acho que a resposta mais sincera que posso oferecer é: eu não sei, ninguém sabe.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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Isso porque uma história não é um produto ou um objeto capaz de ser projetado da mesma forma com que tiramos as medidas de uma mesa ou desenhamos a planta de uma construção. Produzir um texto parte muito de instinto, mesmo que existam dicas e técnicas para te ajudar no processo.

Não é diferente com a questão dos capítulos.

Pra começo de conversa, você nem precisa realmente deles. Se quiser, você pode escrever sua história inteira sem uma única pausa para o cafezinho. Alguns autores, como o Terry Pratchett, são totalmente contra capítulos, porque as quebras narrativas tirariam o leitor de sua imersão e atrapalhariam o ritmo e a dinâmica do livro. As obras do Pratchett seguem frenéticas utilizando apenas interrupções de cena (falaremos disso mais tarde) e nem por isso deixam de ser maravilhosas.

Já outras pessoas, como eu, só conseguem organizar mentalmente um enredo se puderem pensar em cenas fechadas, com começo, meio e fim.  Como numa peça de teatro, sinto a necessidade de baixar as cortinas de vez em quando, trocar o figurino dos personagens, mudar o cenário e limpar a garganta antes de uma nova rodada. Capítulos são estruturas que me caem bem.

Então, a primeira dica de ouro é: se te incomoda, não use. Se instintivamente você achar que inserir uma pausa em determinado ponto não é uma boa ideia, é porque provavelmente não é mesmo. Uma quebra de capítulo não pode tornar o texto desconexo ou desestimular o leitor a prosseguir com a leitura. Se isso acontecer, você com certeza vai notar alguma coisa estranha. Do mesmo modo, sentir que a narrativa está causando cansaço é um alerta para uma possível necessidade de parar.

Tudo vai depender do seu instinto. Fonte: Tumblr - Reprodução

Tudo vai depender do seu instinto. Fonte: Tumblr – Reprodução

O efeito mais imediato disso tudo é que o tamanho de um capítulo torna-se obra do acaso. Não existe um padrão, não existe nada próximo de certo ou errado. Embora a média seja de umas 20 páginas, existem capítulos de 60 páginas e capítulos com apenas uma linha, muitas vezes convivendo dentro de um mesmo livro. Me incomoda ver autores tentando espremer suas obras em uma fórmula, onde capítulos são sempre certinhos e possuem o mesmo tamanho. Gente, é bacana conseguir uma cadência? É sim, e se você puder fazer isso, ótimo. Mas não estrague uma boa história tentando padronizá-la. Se o enredo não te permite, se ele implora por mais ou menos espaço, respeite-o.

Bem, considerando que você se decidiu por utilizar o recurso, surge outra pergunta frequente: nomear ou não nomear um capítulo? Usar apenas números ou queimar neurônios em busca de um título interessante?

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De novo, isso vai depender do seu propósito. Lembre que o capítulo é uma pausa, mas que seu objetivo primário como autor é manter a audiência engajada e sem conseguir desgrudar o nariz do livro. Quando encontro obras cujos capítulos terminam com bons ganchos, daqueles que me fazem prometer “tudo bem, só mais um e vou dormir”, eu praticamente nem presto atenção no nome dos capítulos. Estou tão ávida para continuar lendo que os títulos passam batidos.

Já no caso de narrativas mais lentas, com cenas de ritmo suave, o título do capítulo pode servir justamente como o gancho que te faltava: ele é uma promessa, um contrato com o leitor sobre o que ele poderá encontrar nas páginas seguintes. É muito bom quando um capítulo esfrega na sua cara o que vai acontecer, mas de um jeito tão indireto que você só vai compreender bem mais tarde. É o caso do nosso icônico “O menino que sobreviveu”, primeiro capítulo de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Não fazemos ideia sobre o que aquilo significa a princípio, mas é o suficiente para colocar uma pulga atrás da orelha e apostar na história. Mais tarde, muito mais tarde, o título deste capítulo torna-se crucial para a série inteira.

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Em alguns cenários, os capítulos podem auxiliar o autor não somente para marcar a passagem do tempo, mas também para indicar a quebra de algum paradigma na narrativa. Você pode utilizá-lo, por exemplo, para marcar a mudança de POV entre os personagens, indicar saltos na linearidade (flashbacks e flashforwards), separar sub-plots simultâneos e muito mais. As opções são enormes.

E por falar em opções, os capítulos não são as únicas formas de pausa disponíveis. Existem também as partes e as interrupções de cena. Quando falamos de trilogias e sagas, cada livro é, de certa maneira, também um capítulo da história.

Uma interrupção de cena (aquela linha em branco ou repleta de asteriscos que separa blocos de texto dentro de um mesmo capítulo) é a forma mais suave de pausa. Ela é útil quando queremos continuar no mesmo contexto, mas mudando levemente a perspectiva ou avançando um pouco no tempo. Se citei a peça de teatro lá em cima como uma metáfora para capítulo, a interrupção de cena é a mudança de câmera de um filme no cinema. Ela entrega uma nova tomada de um mesmo assunto.

A parte é o oposto, é uma pausa ainda maior que o capítulo. A parte significa de fato uma quebra: nela, dizemos ao leitor que uma fase do livro foi encerrada. É um corte abrupto. Daqui pra frente, seguiremos novos caminhos. Geralmente as partes são utilizadas para indicar grandes saltos temporais ou espaciais (você gastou metade do livro falando da infância do protagonista e agora de repente pula para sua velhice, ou passa milhares de páginas na Austrália e agora vai para o Polo Sul).

Uma dica de que gosto muito é que a parte é uma pausa a ser utilizada com moderação. Por exemplo, se seus personagens fazem várias viagens entre dois países e essa transição é bem documentada na história (você narra o vôo, a despedida no aeroporto etc), então a parte é desnecessária, porque seu leitor já está habituado com a mudança. Não é um corte profundo, apenas uma transição familiar e recorrente.

Por fim, falta falar sobre as maneiras estratégicas de manter o leitor engajado após o término de um capítulo. É bacana dar uma pausa (a gente também precisa dormir), mas é importante garantir a fidelidade do dia seguinte.

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Um bom gancho é uma promessa de que algo interessante está por vir.

A forma mais simples de fazer isso é sugerindo conflito. Seu personagem acaba de ser desafiado para um duelo? Alguém anuncia que vai pedir o divórcio? Dois inimigos se encontram frente a frente num bar de quinta categoria? Todas essas situações sugerem que um embate está para acontecer num futuro próximo, e a gente acaba ficando preso pela curiosidade de saber como a coisa toda foi resolvida. Esses pequenos atritos que amarram as pausas não são a problemática geral do livro ou a motivação do enredo, mas são pequenas engrenagens que nos levam até o desfecho absoluto.

Outra boa forma de manter um gancho é utilizar viradas de enredo. O teste de gravidez deu positivo? Acharam o testamento perdido daquela tia milionária? Aquele personagem que morreu na primeira página estava vivo esse tempo todo? Conhecer as implicações de uma surpresa também é um elemento motivador. Além disso, sempre dá para plantar uma pulguinha na orelha do leitor, uma sementinha da discórdia. Muitos autores terminam seus capítulos com sugestões ou perguntas não respondidas, permitindo que a audiência crie suas próprias teorias e faça suas apostas. E, óbvio, a gente paga pra ver (no caso, paga pra ler) se acertou o alvo.

Enfim, independente das escolhas, lembre-se de seguir os seus instintos. As técnicas de escrita servem apenas para tornar suas decisões mais conscientes, mas elas ainda serão inteiramente suas. Se você sente que a coisa não está fluindo como deveria, vale a pena tentar mudar a abordagem. As pausas foram feitas para deixar a história mais confortável, e se não deixam…bem, não deveriam estar ali, não acha?

Fonte: Tumblr

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Para saber mais:

Helping Writers Become Authors – 10 Killer Chapter Breaks

Novel Writing Help – Anatomy of a Novel: Chapters and Parts

Writability – Scene Break vs. Chapter Break: How do You Know?

Writer’s Digest – Writing a Novel: Chapter Breaks

Sobre livros gratuitos, pirataria e a ponta do iceberg
O Principe de Westeros: por que amamos o bom canalha?

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