Quando patriotismo literário atrapalha

A ficção fantástica, seja qual for sua vertente dentro do gênero fantasia, está finalmente conquistando espaço na literatura nacional: muitos autores estão despontando no mercado e promovendo uma justa concorrência com os livros importados. Influenciados pelo cenário favorável, Wattpad e outras plataformas de compartilhamento gratuito fervilham com escritores independentes e universos mágicos. Tudo bem que de vez em quando apareça um clichê aqui ou um tema batido acolá. Ainda estamos caminhando para que a ficção brasileira ganhe de fato voz. Porém, como pessoa criada metade do dia em Hogwarts e a outra metade na Terra Média, eu não poderia estar mais feliz.

Mas nem tudo são flores. Basta entrar no assunto da ambientação de enredos para sentir um mal estar generalizado. Autores nacionais são constantemente pressionados para que suas obras se passem no Brasil. Para que seus personagens sejam brasileiros. Valorizar o que é de casa. Mostrar ao mundo que não devemos nada a ninguém.

O saudoso Clóvis representando o dilema do escritor de fantasia. Fonte: Veja - Reprodução

O saudoso Clóvis representando o dilema do escritor de fantasia. Fonte: Revista Veja – Reprodução

A questão acaba se tornando um fardo gigantesco para o autor de ficção fantástica. Porque, embora o patriotismo literário tenha seus méritos, é algo que não funciona na fantasia. Vá por mim, simplesmente não funciona.

E olha que até concordo em parte com a ambientação de obras no Brasil. Primeiro porque costumamos escrever melhor sobre locais que conhecemos com mais propriedade, evitando estereótipos e incoerências. Se você vai escrever uma história sobre um estudante de faculdade num triângulo amoroso, onde a cidade não é algo crucial para o clima do enredo, porque não no Brasil?

Segundo porque ainda sofremos, de fato, com uma síndrome de inferioridade. Muitos leitores torcem o nariz para histórias que se passam no Brasil, como se estas não pudessem alcançar a profundidade dos livros estrangeiros. No Wattpad, a maioria esmagadora dos personagens de ficção fantástica sustentam nomes gringos (mesmo quando a narrativa se desenvolve no Brasil). Então é sim importante minar esse preconceito, apresentando histórias de qualidade passadas em solo tupiniquim.

Porém, a obrigatoriedade de incluir temas brasileiros pode se tornar danosa nas histórias de ficção. Principalmente porque a fantasia costuma lidar com lendas e referências à outras culturas, conceitos já arraigados em nossa imaginação. E estas culturas só se desenvolveram desta forma graças ao período histórico e posição geográfica onde viviam. O clima, o relevo, a tecnologia disponível, tudo isso conta. Quando você distorce o pano de fundo de uma civilização, esta perde um pouco de seu propósito, de sua essência. As lendas dos índios americanos falam muito mais sobre animais e espíritos das árvores do que as lendas dos beduínos do deserto, mais focadas em espíritos do vento e fogo, fruto da movimentação constante das areias. E existe um preço a pagar para que esta ambientação seja trocada.

Claro que toda regra tem sua exceção. Livros maravilhosos podem surgir de mesclas inusitadas, desde que o autor seja bastante cuidadoso e muito, mas muito coerente. Por exemplo, vamos imaginar uma história viking ambientada no coração da floresta amazônica. Vikings numa floresta tropical? Inusitado, mas ainda assim possível. No entanto, os guerreiros sofreriam com o calor e acabariam trocando suas mantas de pele e adereços em metal por materiais mais leves. Cabelos e barbas só serviriam para esquentar ainda mais. Suas lendas eventualmente acabariam englobando onças e macacos ao lado de lobos e ursos. Seu modo de vida, regrado de acordo com as estações do ano, teria de mudar para ajustar-se ao clima estável. E no fim, os nórdicos vikings acabariam se tornando quase uma cultura à parte.

Forçar referências estrangeiras em terras brasileiras é dar um tiro no pé. E o contrário também se aplica. Veja como apesar de serem criaturas parecidas, o capelobo e o lobisomem trazem história e tratamento completamente diferentes.

Capelobo e lobisomem, similares porém diferentes. Fonte:1realhora.blogspot.com e issoebizarro.com - Reprodução

Capelobo e lobisomem, similares porém diferentes. Fonte: 1realhora.blogspot.com e issoebizarro.com – Reprodução

 E estes limites mudam de acordo com a temática do livro. Se seu foco for uma fantasia bem humorada, tendendo mais à sátira do que à aventura épica, mesclar referências pode ser uma boa ideia. Quem não gostaria de rir das desventuras de um vampiro tendo que se esconder sob o sol do sertão?

Quem deve comandar a decisão da ambientação é o próprio enredo. Dê aquilo que a história está precisando, aquilo que a fará melhor. Mesmo que seja um casebre abandonado aos pés do Everest ou o metrô de São Paulo. Forçar a ambientação tira a credibilidade do livro e não gera imersão do leitor. Não soa real, porque local e história permanecem incongruentes.

A meu ver, tão errado quanto desprezar o Brasil na literatura fantástica é supervalorizá-lo. O país deve ser uma opção como qualquer outro, uma decisão de mesmo peso. O escritor escolhe o que melhor lhe servir.

Gosto bastante de um texto do Blog do Escritor, onde Henry Bugalho comenta a diferença interpretativa entre duas afirmações, uma de Tolstói (“Se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia”) e outra de Mark Twain (“Escreva sobre o que você conhece”):

“É difícil avaliar o estrago que a frase de Tolstói causou no imaginário coletivo da literatura. Se fôssemos interpretar esta recomendação de um modo que não literal, suporíamos que tem a ver com a noção de Mark Twain. Embora elas pareçam estar muito próximas, – afinal de contas, o que você conhece melhor do que sua própria aldeia? E que maneira melhor para falar sobre todas as pessoas do que falando das pessoas que você conhece, posto que, essencialmente, somos todos iguais? – há uma extrapolação desnecessária de uma para a outra.

Poderíamos citar uma variedade de casos de autores que seguiram à risca esta recomendação de Tolstói. Grande parte das obras de James Joyce (Dublin), Dalton Trevisan (Curitiba), Charles Dickens (Londres), Érico Veríssimo (Rio Grande do Sul), Charles Bukowski (Los Angeles), Patrick Modiano (Paris), Jorge Amado (Bahia), entre vários outros, revolvem ao redor de suas aldeias, mesmo que estas aldeias sejam metrópoles com milhões de habitantes ou vastas regiões geográficas que eles conhecem bem. Estes exemplos passam-nos o retrato incorreto de que este é o único modo de se aprofundar no espírito de um local ou população. Fugir disto seria uma deslealdade.

Um indivíduo pode conhecer tudo sobre a Grécia Antiga, seus mitos, histórias e personagens, sem jamais ter posto os pés na Grécia atual, sem jamais ter saído de sua aldeia, aliás, conhecendo-a melhor do que a sua própria cidade-natal. Não há absolutamente garantia alguma que conhecemos melhor nossa aldeia de modo que possamos falar com propriedade sobre ela e, assim, atingirmos algum nível de universalidade.”

Então, extrapolando o conselho do Sr. Twain, escreva não só sobre aquilo que você conhece, mas sobre aquilo que você gosta, sobre aquilo que funciona bem na sua narrativa e que desperta sua paixão. Não perca a chance de contar uma boa história por medo da ambientação.

Você escrevendo sobre o lugar que ama. Fonte: Tumblr - Reprodução

Você escrevendo sobre o lugar que ama. Fonte: Tumblr – Reprodução

Mas porque estamos falando disso? Porque os autores estrangeiros desfrutam de muito mais liberdade na hora de escolher um local como pano de fundo para seus livros, enquanto os brasileiros parecem sempre amarrados no dilema Brasil-mundo?

Encontrei um artigo, escrito por L. L. Wurlitzer (autor de “As Crônicas de Olam”), que procura explicar por que existem tão poucos escritores de ficção no Brasil. E as razões explicitadas por ele também nos ajudam a entender a questão da ambientação.

Segundo Wurlitzer, acadêmicos e a crítica especializada criaram uma espécie de restrição, onde a literatura brasileira acaba sendo categorizada de acordo com os autores do século XIX, transmitindo a ideia de uma prosa pesada e erudita, com temática definida. Livros que não se adequem ao estereótipo e não refletem sobre uma realidade brasileira são considerados obras menores, sem expressão artística. Some isso ao fato de que a fantasia ainda é vista como um gênero exclusivo para crianças e jovens sonhadores, e poderá entender a insegurança que assombra os escritores de ficção. Sair do lugar comum da “praia-favela-floresta” ainda é um ato de coragem.

“Lembro das caras estranhas que vi, numa apresentação que fiz durante o meu doutorado em letras, em que mostrei um texto de Tolkien, aquele em que Galdalf detém o Balrog diante da ponte de Khazad-Dûm, nas minas abandonadas dos anões. Procurei mostrar os detalhes literários impressionantes da cena, mas a maioria dos colegas, especialmente os que estavam começando o mestrado, olhavam para o texto com um ar de superioridade, mesmo sem nunca ter, provavelmente, lido.”

Outro ponto a considerar é o tempo e a criação de uma cultura. Fantasia é uma abordagem relativamente nova para o Brasil, ainda mais se compararmos nossas produções aos épicos centenários como Beowulf e a Ilíada. Enquanto outros países, sobretudo europeus, respiram lendas e histórias mágicas desde tempos remotos, o Brasil ainda está caminhando em busca de sua própria representação fantástica. A própria indústria do cinema faz com que o expectador brasileiro consuma quase que apenas cenários estrangeiros.

Fonte: Um Sábado Qualquer - Reprodução

No fim somos todos iguais, as metáforas que variam. Fonte: Um Sábado Qualquer – Reprodução

Essa configuração cria uma falsa noção de que o gênero fantástico é algo que não nos pertence, como se o autor nacional não pudesse falar sobre temas que não surgiram em nossas fronteiras. Trazer a história para outra locação ainda parece um tabu, uma apropriação ilegal da literatura alheia. Muitos escritores sentem medo de serem tachados como profissionais que desprezam a própria terra. Aí está o dilema.

Ainda precisamos de tempo para amadurecer o gênero, para criar uma geração acostumada a absorver e tratar com naturalidade o folclore, sem delimitá-lo por território de origem. Ainda estamos fabricando a geração que irá numa livraria onde não exista uma seção “autores nacionais”. Mas estamos no caminho.

Sobre contos, kaijus e empatia
4 clichês dos romances eróticos

Comentários:

Loading Facebook Comments ...