Quis desistir no prefácio, mas Malazan é mesmo tudo isso que prometem

O texto a seguir não contém spoilers propriamente ditos. Mas tá cheio de referências a nomes de personagens, lugares e situações. Se você não se sentir mal com isso, pode seguir sem problema algum. Se não, vai ler Jardins da Lua e volta aqui pra gente conversar! :)

Fonte: Reddit – Reprodução

Hype. Muito hype. Uma expectativa enorme cercava a publicação de Jardins da Lua no Brasil. E, apesar de acompanhar ativamente as acaloradas e passionais discussões que rolavam sobre o livro nos grupos de leitores de fantasia, eu não me sentia assim tão tentada a lê-lo.

Acho que a aura criada em torno da obra, alimentada pelos fãs mais antigos e pela própria editora, funcionou como duas faces de uma mesma moeda (captaram essa?). Veja bem, Malazan é vendida como uma série difícil. Uma série que exige atenção e comprometimento. E é também vendida como uma das maravilhas da ficção fantástica.

Esse tipo de estratégia funciona bem para alguns. Além dos leitores com interesse genuíno na história de Steven Erikson, temos também as pessoas em busca de status quo. Elas querem se testar, querem experimentar aquele mundinho tão “seleto” que parece esconder leitores mais capazes e maduros. O famoso: se você não gostar de Malazan, é porque estava esperando uma história mastigadinha. Se você não gostar de Malazan, leu errado, leia de novo (não que eu não aprecie esse tipo de piadinha, mas ela não pode passar disso…de uma provocação bem-humorada.).

Para outras pessoas, o hype acabou saindo pela culatra. Eu inclusa. Apesar de atraída pelo universo de Erikson, principalmente após um post do Eduardo Schimitt no Intocados, algo me fazia hesitar. Sou leitora de vários gêneros e sei bem como é chata toda essa guerrinha de “meu tipo de livro tem mais valor que o seu”. Entendo que não foi esse o objetivo da Arqueiro, mas acabou acontecendo. Pelo menos ali para quem acompanhou de perto o desenrolar de todo o processo de publicação.

Fonte: Malazan Wiki – Reprodução

Ainda assim, senti que precisava dar uma chance. A história parecia promissora e, se era pra eu reclamar, queria reclamar com propriedade. Solicitei um exemplar de Jardins da Lua com a Arqueiro e… seja o que Oponn quiser.

Devo dizer que, pra quem já estava de má vontade, o prefácio do livro foi “um convite a jogá-lo na parede”, como disse um amigo meu. Steven Erikson tem um jeitinho pedante de referir-se a si mesmo que me deu nos nervos. Perdão, ó Senhor da Fantasia, por ser uma leitora medíocre demais para cair de amores pelo seu universo obra-prima. Mas vamos lá, porque eu também sou chata a ponto de nunca desistir de um desafio.

Ainda bem que eu fiz isso. Foi só ultrapassar as primeiras páginas para, a contragosto, admitir que o Erikson é bom, bom pra caramba. Mais que isso, comecei a pensar no autor como o tipo de profissional que é tão competente em sua área que acaba conquistando o direito de ter um ego inflado. Tipo o Romário ou o Usain Bolt. Gente que diz na sua cara que é um fenômeno e a nós, meros mortais, só resta mesmo concordar e seguir admirando.

Olha esse nariz em pé que coisa mais linda <3 Fonte: Lightspeed Magazine – Reprodução

Pra quem começa Malazan, um dos primeiros avisos costuma ser o de que você não vai entender nada no início. O que é uma verdade, você vai ficar perdidão, mas não da forma como você imagina. Não é que o livro seja complexo demais para ser entendido, não é que falte a você a capacidade de entender uma trama inteligente. O problema não está em você e, pelamordedeus, não perca seu tempo relendo páginas e mais páginas em busca de uma pista que você deixou passar. Ela não estará lá.

O pulo do gato é perceber que Erikson NÃO QUER que você saiba o que está acontecendo logo de cara. As coisas são confusas porque simplesmente não foram explicadas pelo autor: a descoberta lenta é um dos trunfos do livro. Então relaxa, aproveita e jornada e desfruta da sua ignorância: se você entendesse tudo, eu juro que não seria tão divertido. Quando você aceita que existem coisas além da sua compreensão, o livro não se torna nem um pouco difícil. Pelo contrário, achei uma leitura bem fluida devido às constantes cenas de ação. Erikson parece fazer um trato com o leitor: em troca da sua ignorância, que será recompensada lá na frente por revelações bombásticas, eu vou te dar umas cenas bem épicas.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Porque em minha opinião, Erikson é o rei da movimentação de câmera. Ler Jardins da Lua é quase como assistir um filme ou acompanhar um streaming de jogos multiplayer: uma mesma cena se desenrola, mas as perspectivas são múltiplas. O autor sabe a melhor hora para aproximar ou afastar sua câmera (por exemplo, o excelente parágrafo em que descreve o elmo machucando a pele do capitão em Itko Kan. Com esse tipo de zoom, consegui sentir todo o desconforto do homem). O ritmo do livro também é beneficiado pelos cortes rápidos e mudanças contínuas de POV. Incrivelmente, algo que poderia soar confuso e caótico acaba se tornando maravilhoso. Ponto pro Erikson por conduzir sua narrativa tão bem.

Se a gente parar pra analisar o conteúdo de Jardins da Lua, as coisas não parecem tão inovadoras. Exércitos, magia, cidades antigas, sangue, nobreza corrupta, heróis, feras e divindades. Nada que a gente já não esteja acostumado. Porém, apesar de igual, Malazan é diferente. Difícil explicar.

Um bom ponto de partida pode ser o worldbuilding em si. Erikson criou um ambiente primoroso, com uma diversidade que só esperamos encontrar em space operas. Aqui não somos apresentados apenas a povos e culturas diferentes, mas sim a raças completamente distintas, incluindo as não-humanóides. De um jeito único, Steven consegue equilibrar toda essa galera num mundo medieval e ainda assim soar convincente. Um cara que consegue fazer uma marionete de madeira soar convincente merece um pouco de crédito, não acha?

Outro fator que pesa é a escolha dos cenários. Darujhistan, com seus muitos becos, telhados e estabelecimentos duvidosos, é perfeita para uma trama que preza pela convergência de personagens. Quer lugar melhor para trabalhar com traições, conspirações e jogo de poder do que uma cidade decadente? Eu gosto demais do estilo do Erikson, uma mistura perfeita entre a honra e coragem dos épicos tradicionais e o empolgante mundo da bandidagem (em outras palavras, nós amamos o bom canalha).

Fonte: Malazan Wiki – Reprodução

Inclusive, deixa eu fazer um adendo aqui. Sempre falo o quanto gosto de cenas de baile. Livros com cenas de baile sempre me cativam. Se for um baile de máscaras então…PURO AMOR. Bailes criam uma atmosfera única para que personagens se cruzem e mostrem suas intenções de um jeito velado. Ameaças são colocadas na mesa, olhares são trocados, provocações e ciúmes, tudo sob o manto tenso da civilidade. A tensão sobe em cenas de baile, de um jeito muito elegante. Porém, como a maioria dos livros com cenas de baile que leio são romances de época, tenho dificuldades em mostrar isso para os amigos leitores de fantasia. Ainda bem que agora tenho o baile de Lady Simtal pra usar como exemplo.

Talvez a coisa que menos tenha me agradado no livro foi a magia. Não sou grande fã de poderes tradicionais, como bolas de fogo ou raios de poder. Também não gosto muito de um sistema aparentemente ilimitado: me causa aquela sensação de que tudo é possível. Prefiro regras e limites. Ou, ainda melhor, prefiro as magias mais sutis de Kruppe e a leitura do baralho. Porém, não cheguei a ficar incomodada (no final do livro, já tava inclusive achando tudo lindo).

Os Gêmeos. Fonte: Imgur – Reprodução

E por falar em Kruppe, vamos à cereja do bolo: os personagens. Os malditos 48597 personagens que você vai conhecer e amar.

Jardins da Lua possui uma daquelas tramas ancestrais que se arrastam por milênios. No início do livro, você acha que vai ler sobre uma campanha bélica, depois sobre uma campanha bélica e mágica, depois sobre uma campanha bélica e mágica que envolve deuses e depois finalmente você leva as mãos à cabeça e descobre que tudo é muito maior do que você sonhava.

Porém, todos esses acontecimentos épicos são moldados pelas micro ações e ambições das dezenas de personagens. Como o Steven Erikson mesmo chama, uma “convergência de poder”. Tem gente de todo tipo, gênero, credo, cor, opinião e background. Tem até gente morta. Um elenco pra ninguém colocar defeito.

Apesar de sentir – posso estar bem enganada – que nesse primeiro volume os núcleos giraram em torno de três forças (Paran, Crokus e Rake), não tem nenhum personagem descartável na trama. Erikson faz jus a cada um deles, tratando-os com respeito. Todos são bem desenvolvidos, com personalidades próprias e facilmente reconhecíveis. Até aqueles personagens que você torce pra se darem mal tem um quê de empatia. Nunca gostei da Lorn e ainda assim adorava ler seus capítulos.

Principalmente por causa desse cara. Essa fan art é obra do Kite, um ilustrador brazuca muito incrível: facebook.com/thekiteart

Bem, não quero me estender muito ao falar sobre personagens porque né…eu precisaria comentar o livro inteiro, mas digamos que, além do nosso trio Paran-Crokus-Rake, tenho um amor especial por Kruppe, Tool, Oponn, Ben Ligeiro, Kalam, Jovem Toc e Bruxa. Estou tentando não me apegar muito por motivos de “autor malvado que gosta de matar pessoas”, mas está sendo inevitável…

(Se eu fosse fazer uma aposta sobre quem vai ficar vivo até o último livro, porém, apostaria minhas fichas em Kruppe.)

Pra concluir, Jardins da Lua conseguiu me fisgar com facilidade. Parei de torcer o nariz e virei fã em questão de páginas. E se você ainda está se convencendo sobre se comprometer ou não com Malazan, confia em mim: este não é um livro difícil. É apenas diferente, e num ótimo sentido. Aproveite os espaços vazios do enredo para desfrutar das melhores descobertas.

Fonte: Reddit – Reprodução

Dizem que o segundo livro da série, Deadhouse Gates, é que realmente faz o leitor virar acólito do Steven Erikson pro resto da vida. Poxa, ainda melhor que o primeiro? Pode vir então, que eu já tô aqui na ansiedade.

Ps: Quando comecei a leitura, comentei com o Victor Burgos, que estava lendo ao mesmo tempo que eu, que gostaria de umas moedinhas de Oponn pra dar sorte. Essa semana, ganhei dois sorteios em blogs diferentes. Reflita.

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