Resolvi me arriscar com The Game

Hoje resolvi deixar a fantasia um pouquinho de lado e arriscar com algo fora da minha zona de conforto. E o escolhido foi o primeiro volume do suspense policial The Game, romance estreante do sueco Anders de la Motte.

Fonte: Promocional DarkSide - Reprodução

Fonte: Promocional DarkSide – Reprodução

Já fazia um tempinho que eu flertava com esse livro, mais especificamente desde o período de seu lançamento, quando a DarkSide organizou uma enorme ação de marketing convidando o público a participar de uma gincana online valendo um exemplar da obra e mais alguns outros prêmios. Toda essa comoção na internet despertou curiosidade pelo livro, e fui atrás de mais detalhes.

Anders de la Motte foi oficial de polícia e diretor de segurança em TI antes de inciar sua carreira como escritor. Seu trabalho reflete muito de seu antigo cotidiano embasado por anos de experiência, e assim como Stieg Larsson, de la Motte traz o típico suspense sueco de volta para os holofotes. E eu gosto desse clima “suspense  corporativo”, de tramas amarradas com protocolos e burocracia. Algo que encontrei também em Harlan Coben, e que gosto bastante.

Assim, não me faltaram motivos para apostar no escuro com a DarkSide, que ainda por cima criou uma edição caprichada e muito bem bolada. Para os leitores que prezam um bom projeto gráfico, o livro é de fazer chorar de emoção.

Em The Game, tudo começa quando nosso protagonista, Henrik “HP” Pettersson, encontra um celular abandonado num vagão de trem. O aparelho, que não possui nenhuma marca, menu ou identificação aparente, começa a enviar convites anônimos, atraindo HP para um misterioso jogo, cuja regra número 1 é jamais mencionar a ninguém a existência de tal competição.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Você não fala sobre o clube da luta. Fonte: Tumblr – Reprodução

No Jogo, é preciso completar missões (normalmente pequenos delitos), que rendem pontos, fama e um bom dinheiro àqueles que se submetem às ordens do Mestre do Jogo. Porém, à medida em que HP se envolve no estranho desafio, começa a notar indícios de que o Jogo esconde propósitos muitos maiores do que um simples reality show baseado em apostas.

Logo de cara,  criei uma antipatia profunda por HP. Sua total inconsequência, desprezo pelas regras, acomodação e a forma como parasita em torno de todas as pessoas ao seu redor tornam o personagem difícil de digerir. HP é um chato.

O que não é, contudo, uma crítica ao livro. Imagino que HP venha para nos apresentar a um tipo diferente de herói. Quero vê-lo respondendo por seus erros, mas também gosto de vê-lo tentando se livrar do Jogo. Além disso, a cada virada da trama, o autor joga novas peças do quebra-cabeça sobre a mesa, nos mostrando que muito do que HP é, hoje em dia, é fruto de um passado turbulento e desequilibrado. Não é suficiente para perdoar, mas é crucial para compreendê-lo.

Marcador lindinho que acompanha o livro. Fonte: Autoria própria

Marcador lindinho que acompanha o livro. Fonte: Autoria própria – Reprodução

Dividindo a narrativa lado a lado com HP, temos sua irmã Rebecca, uma espécie de guarda-costas de elite da força policial sueca. Confesso que quando vi os dois protagonistas lado a lado na capa do livro pela primeira vez, esperava a formação de um casal. Clichê dos clichês, o bandido cai nas graças da mocinha policial por causa de seus belos olhos. Então foi uma grata surpresa descobrir essa relação de parentesco, bem como notar o quanto o passado mantém as vidas de Rebecca e Henrik intimamente entrelaçadas.

Esse novelo de mágoas e consequências é muito bem explorado pelo autor. Anders usa e abusa das quebras narrativas, intercalando o ponto de vista de cada um dos irmãos, deixando o leitor meio zonzo por acompanhar as duas histórias simultaneamente. Destaco a cena de sexo intercalada, onde acompanhamos primeiro HP e sua parceira e logo em seguida Rebecca e Micke. A cena nos deixa desconfortável por seu corte abrupto, e serve como uma ótima maneira de mostrar ao leitor as principais diferenças entre irmã e irmão, dispensando o uso de longas descrições.

The Game também faz bastante uso das viradas no enredo e dos vários níveis de suas conspirações. Quando achamos que uma trama está se resolvendo, ela rapidamente se mostra apenas uma peça aninhada dentro de outra trama muito mais ambiciosa. E mesmo assim conseguimos acompanhar bem todas as linhas de ação.

Fonte: entrelivrosetransitos.com - Reprodução

Fonte: entrelivrosetransitos.com – Reprodução

No entanto, se a linha narrativa que envolve HP, Rebecca e o Jogo é sempre bem costurada, fiquei com a impressão de que a polícia é completamente ingênua. Enquanto os transgressores tomam as rédeas da história, os policiais se limitam a andar de carro, trocar telefonemas e conduzir investigações que não vão dar em canto nenhum e que raramente são questionadas. É como se, para eles, descobrir o que explodiu seja suficiente, ou mais importante do que se perguntar porque aquilo explodiu ou através das mãos de quem.

Por fim, The Game é um mar de referências, o que é um ponto forte mas também seu maior defeito.

Enquanto menções envolvendo Star Wars, Harry Potter, Guitar Hero e outros ícones são um deleite sempre bem-vindo para quebrar a tensão, o uso gigantesco de lugares/expressões/corporações suecas só nos deixa com uma conclusão: sueco é uma língua de palavras difíceis.

Não é fácil lidar com “Bergsundsgatan”, “Ulvsundavägen” ou – pera, deixa eu pegar fôlego – “Kungsträdgardsgatan” quando você não faz a mínima ideia do que são essas coisas. As inúmeras notas de rodapé que acompanham o livro não são suficientes para dar conta do recado.

Anders de la Motte acabou criando um livro local. Ele faz muito mais sentido se você for sueco, ou ao menos conhecer bem a Suécia. A certeza de que eu estava perdendo um monte de significados por simplesmente não conhecer o país, me deixou incomodada.

Fonte: www.forum.se - Reprodução

Fonte: www.forum.se – Reprodução

Esse problema reaviva uma temática que eu já havia inclusive tratado aqui no blog. De como a mania que temos de achar que autores brasileiros precisam ambientar suas obras no Brasil acaba por limitar os romances. Não me entenda mal, gosto de livros que se passam em terras tupiniquins, mas acho que quem decide a ambientação é a própria história, e não nenhuma convenção social.

Faz o maior sentido que The Game se passe na Suécia, uma vez que a experiência do autor dentro do país serve para deixar o livro mais crível do que se este fosse ambientado em outro local. Porém, se o objetivo é entregar um volume voltado para um público mundial, é preciso partir da abordagem que nem todo mundo conhece as suas referências. Dan Brown faz isso muito bem: apesar de colocar seus personagens em locais que nunca visitei, me sinto transportada para lá. Ao receber um contexto, o leitor passa a relacionar nome e definição, e começa a compreender o ambiente fictício ao seu redor. Veja uma comparação entre trechos de Inferno (Dan Brown) e The Game, respectivamente:

“O Palazzo Vecchio parece uma peça de xadrez gigante. Com sua fachada quadrangular robusta e ameias quadradas de cantaria rústica, o enorme e bem posicionado edifício parecido com uma torre protege a extremidade sudeste da Piazza della Signoria.”

“Ela pegou um café na Galeria Sture, passou rapidamente pelos jovens de 20 anos com cartão de crédito do papai que se aglomeravam em volta das butiques ao longo da Biblioteksgatan e em seguida virou para pegar a Hamngatan em direção à estação principal de metrô em T-Centralen.”

Percebe a diferença?

Noto que muitos escritores nacionais direcionam suas obras para uma brasilidade que somente é compreendida pelo público no Brasil. Isso é algo ruim? Não necessariamente, depende muito do tipo de obra que se pretende obter. Para algumas, é uma ótima opção, para outras, um tiro no pé. O que aconselho é que os autores reflitam sobre qual a melhor ambientação para o enredo(e como abordá-la), e não se sintam pressionados a utilizar uma locação X ou Y.

Enfim, embora parte da imersão em The Game seja perdida por essa falta de explicações, a leitura foi agradável e surpreendente para mim. Anders conseguiu montar uma trama que suscita teorias, que nos deixa ávidos pela verdade. Muitas pontas são amarradas, muitos mistérios permanecem no ar e o final deixa o leitor na ponta dos pés para agarrar uma continuação.

Fonte: Autoria própria

Fonte: Autoria própria

TBS entrevista: Davi Paiva – Antologia Poderes
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