Segurando (e talvez explodindo) forninhos com Nimona

O texto a seguir pode conter spoilers de: Nimona. Depois não diga que eu não te avisei…

Que tal começar o mês de março com uma história escrita e protagonizada por mulheres dentro de um dos setores mais machistas da literatura? Hoje é dia de falar da Noelle Stevenson. Hoje é dia de Nimona.

Fonte: Host Geek – Reprodução

Ouvi falar da Noelle pela primeira vez em 2015, graças à sua aclamada parceria em Lumberjanes e por causa do projeto gráfico para a capa de Fangirl, livro da Rainbow Rowell. Só mais tarde fui descobrir que ela também era responsável pela criação da Iniciativa Hawkeye, um projeto que reúne fan arts de super heróis nas mesmas posições sexualizadas que as super heroínas para mostrar, entre muitas risadas, o quanto esse costume é babaca e sem sentido.

Dá para perceber, então, que o trabalho de Noelle é permeado pelo humor enganadoramente inocente e pela representatividade, quase que suas marcas registradas. E poxa, vencer no mundo dos quadrinhos com essas duas características e ainda recém formada na faculdade é algo digno de nota. Em 2015, com apenas 23 anos de idade, Stevenson ganharia o prêmio Eisner, que é quase o Oscar para os quadrinhos americanos.

Ela também conseguiu uma popularidade imensa na internet, sendo bem ativa sobretudo no Tumblr. Além de todos os projetos citados acima, Noelle também nos deu essa maravilhosa releitura hipster de O Senhor dos Anéis que é um tesourinho à parte… Olha só essa Arwen e essa Éowyn!

I am no bro! Fonte: Noelle Stevenson – Reprodução

Por tudo isso, não demorou muito para que eu colocasse Nimona (primeiro livro solo da autora) na lista das minhas futuras aquisições: eu simplesmente precisava saber mais sobre o que ela tinha a dizer!  Além disso, foi como juntar a fome com a vontade de comer: a Intrínseca anunciou a publicação da HQ aqui no Brasil e a Jana Pin (entre outras dezenas de pessoas) morreu de me recomendar Nimona por causa de um conto que escrevi para a newsletter. Acho que eu não tinha muito como fugir dessa leitura…

Surgindo  como uma webcomic no Tumblr, Nimona tornou-se o projeto de conclusão de curso da faculdade de Stevenson, que jamais imaginou tamanha repercussão.

E sobre Nimona…bem, digamos que é uma história sobre coisas que não são. Vilões que não são vilões, heróis que não são heróis e menininhas indefesas que não são menininhas indefesas.

Fonte: Noelle Stevenson – Reprodução

A começar pela ambientação do livro.

A forma como Noelle constrói seu universo, uma mistura medieval/futurista de fantasia e ficção científica, casa muito bem com a história e deixa aquele clima de desenho animado, de histórias que não precisavam muito de regras comuns, apenas de regras. Tipo o desenho das Meninas Superpoderosas. É uma abordagem completamente geek de um cenário de conto de fadas.

Essa “atmosfera geek” vai ajudar a tornar crível a brincadeira com os estereótipos de mocinho e vilão e o uso distorcido de um montão de clichês, como as disputas de justa e a maçã envenenada. É uma ambientação que sabe rir de si mesma, que combina com a proposta da hq.

Também vale destacar o traço maravilhoso da Noelle, que parece ter nascido pra trazer essa menina metamorfa à vida (já notaram como, inclusive, a Nimona parece um montão com a autora?). O livro traz traços leves, com um colorido viçoso quase beirando o infantil, num visual chapado que evoca mais ainda os desenhos animados. Nas cenas em que Nimona se descontrola e deixa os dentes à mostra, é magnífica a forma como o traçado se transforma em um rascunho cuidadosamente desleixado, daquele que a gente encontra nas fan arts ou nos mangás. São em cenas como essas que percebo que Nimona é cria da internet. Todo o visual do livro combina com o enredo (e a Intrínseca caprichou no acabamento da versão nacional).

Alguém duvida que a Noelle é cria da internet? Fonte: Los Angeles Times – Reprodução

Nimona não traz em si a pretensão de ser uma grande hq, de mudar o mundo ou de tirar o seu sono. Ela deseja apenas agradar a adultos e crianças, uma premissa leve e divertida para inspirar as novas gerações de garotas que careciam de representatividade no mundo dos quadrinhos. Suas reflexões são sutis, fogem da fórmula dos contos de fadas onde o narrador tenta te empurrar  uma lição de vida garganta abaixo. É uma história que levanta bandeiras sem que isso pareça proposital: os personagens são de determinado jeito porque essa é sua natureza, e não porque a história precisava ser politicamente correta a todo custo. Nimona segue os moldes de obras como Fronteiras do Universo, A Menina Que Navegou Ao Reino Encantado Com o Barco Que Ela Mesma Fez e Felizmente, O Leite. Livros com pessoas de carne e osso agindo como pessoas de carne e osso, em suas variadas complexidades. Que é exatamente o tipo de representatividade que mais admiro.

Algumas pessoas reclamam sobre um possível queerbaiting em Nimona, afirmando que o envolvimento amoroso de Ballister e Ouropelvis é apenas sugerido mas nunca defendido por sua autora. Não sou a pessoa mais indicada pra bater o martelo sobre o assunto, mas preciso dizer que, pelo menos pra mim, ficou bem claro desde o início que os dois formariam um par romântico. Não senti em momento algum o mesmo incômodo de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, apenas imaginei que o desenrolar amoroso dos dois não era o foco central da história, e que seria algo afirmado muito mais no campo gestual (como quando Lorde Ballister segura o rosto de Ouropelvis entre as mãos) do que no campo verbal. Não acho que Noelle tem o perfil de alguém que hesitaria nesse quesito. E em mundo de Alvo e Scorpius, Nimona é romance de novela das seis.

Fonte: Noelle Stevenson – Reprodução

Tenho outro ponto de discordância em relação à Nimona: eu não acho que nossa amada metamorfa seja a representação de um modelo a seguir.

Não me entendam mal, Nimona é sim muito girl power e é sim muito admirável a forma como ela luta as próprias batalhas, desafia estereótipos e não leva desaforo pra casa. Ela é uma personagem incrível. Mas eu não acho que ela é um modelo.

Ao menos, eu não tenho como objetivo me tornar Nimona. Porém, adoraria conhecê-la, ser sua amiga e evoluir com ela. Nimona não é modelo porque ainda não está pronta, porque ainda é muito imatura. Precisamos admitir que ela faz muitas burradas e tem vários defeitos, não porque ela seja má, mas porque ela é despreparada e ainda está aprendendo a lidar com questões complexas, como ética e empatia.

Fonte: Noelle Stevenson – Reprodução

Nesse aspecto, a garota me lembra bastante a pequena Vin, de Mistborn, quando ainda era uma ladra no primeiro livro da trilogia. Assim como Vin, Nimona tem um potencial enorme para virar uma fucking mulher dona da porra toda, mas eu ainda não consigo enxergá-la como alguém que atingiu seu desenvolvimento completo. Ela ainda vai aprender muito mais.

Talvez isso explique porque muitos acham o final da hq um pouco frustrante. Ele não tem, exatamente, um final. E se você pensar em Nimona como um modelo prontinho de girl power, é um término que deixa dúvidas, que gera decepção. Cadê o final da Nimona? Já se você acompanhar esse raciocínio de evolução, vai enxergar um final mais do que perfeito: uma promessa. Uma possibilidade. Um mundo em branco que Nimona terá de preencher ela mesma até alcançar seu pleno desenvolvimento.

Também é notável como Noelle consegue equilibrar as más ações de Nimona sem condenar o caráter da garota. Nimona não é má, nem maluca, mas sim uma força, uma personificação de seus instintos e de seus desejos, de suas mágoas escondidas. Algo que vamos entender lá na frente, quando o background da personagem for exposto. Porém, esses instintos sempre são, no final das contas, benevolentes. Sempre que canaliza seus poderes, Nimona tem como objetivo salvar seu chefe, ajudar o povo ou simplesmente ser deixada em paz. Seu coração é bom, mesmo que ela não perceba isso e sonhe em ser uma vilã. Mas esta é uma hq sobre coisas que não são, certo?

Adoro a forma como Ballister é capaz de enxergar a natureza da metamorfa. E adoraria ler outros livros sobre Nimona, sobre seu crescimento.

E voltando a falar um pouco sobre Ballister Coração-Negro, eu já imaginava que a hq abordaria a representatividade e traria uma protagonista bem forte, mas fui pega de surpresa pela abundância de outros temas presentes na obra. Admiro a coragem de Noelle em fazer com que Ouropelvis realmente tenha atirado em seu adversário. Num rompante, sem entender direito o que estava fazendo, após ser manipulado por sua superiora, mas ainda assim…culpado.

Fonte: Noelle Stevenson – Reprodução

Achei muito bacana como Stevenson fala ao leitor sobre culpa, mágoas e perdão. É uma excelente subtrama em Nimona, que humaniza ainda mais seus personagens e traz justificativas bem embasadas para as escolhas de herói e vilão.

E se tudo poderia parecer um dramalhão sem medida, as cenas são tão pontuadas pelo humor que Nimona lida com assuntos sérios enquanto a gente dá risada. O humor de Noelle funciona tanto nas piadas diretas quanto nas indiretas, sendo leve e simples. Você não vai gargalhar ou sentir aquele gosto ácido do Terry Pratchett, por exemplo, mas vai ler o livro inteiro com um sorriso meio besta na cara. Ah, e nem preciso falar o quão incrível é a Dra. Meredith Blitzmeyer, certo?

Nimona é uma obra tão simpática que já dá vontade de reler assim que você vira a última página. Toda a atmosfera de Noelle é tão…do bem. Como uma manhã de sábado chuvosa, sabe? Fico muito feliz de que possamos contar com ela para inspirar uma legião de novas leitoras (algumas nem tão novas assim) a explorar o mundo dos quadrinhos. É o tipo de história que eu com certeza leria para pais, amigos, filhos, meninos e meninas.

Nimona é uma história necessária. E você nem vai notar o tanto que aprendeu com ela.

Fonte: Noelle Stevenson – Reprodução

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