Só os Animais Salvam: a incapacidade de definir o que é ser humano

Dia desses, li o texto de um professor astrofísico da Universidade de Princeton, afirmando que o Universo é vasto demais para a criatividade da ficção científica. O que ele quis dizer é que, além de não conhecermos a totalidade do cosmos que nos cerca, somos igualmente limitados por nossa própria humanidade.

Fonte: DarkSide – Reprodução

Qualquer raça alienígena que imaginemos, qualquer sociedade ou sistema de governo ainda terá raízes em nossa própria experiência, em nosso paradigma sobre o que é, para começo de conversa, uma raça. Nossos aliens podem até ter duas cabeças ou cinquenta olhos, mas quando tratamos de seu interior, de seus desejos, temores e aspirações, temos personagens basicamente humanos. A ficção em geral trata sobre empatia, sobre como gerar compreensão entre personagens e leitores, sobre como criar essa ponte e então aproximá-los. Ainda que estejamos lendo sobre um filhote de cisne que pensa que é um pato, a vergonha do cisne por sua feiura é algo inerentemente humano. Por mais que nos esforçássemos para descrever sua percepção de cisne, ainda assim haveria um viés, pois nossa percepção é humana. Seria como pedir aos animais das cavernas, cegos após anos de evolução, para que nos explicássemos como são as cores do arco-íris.

Ao mesmo tempo, uma conhecida frase de Dr. Seuss diz que a fantasia é uma maneira de olhar a vida através do lado errado de um telescópio. Ou seja, quando você extrapola sua experiência humana, quando aplica elementos fantásticos e tenta criar o novo, o diferente, o não usual, você cria paralelos interessantes. Pode ver a si mesmo e à toda raça humana de longe, sob perspectiva. Pode transformar problemas complexos em metáforas, em modelos, em algo tangível o suficiente para que você compreenda e, mais importante, seja capaz de transmitir às outras pessoas.

Então apesar de sermos incapazes de transmitir com fidelidade o que significa ser outro ser vivo (porque não somos), é importante que a gente tente se colocar no lugar do outro, que a gente tente compreendê-lo. Pois quanto mais empatia geramos, quanto mais “eu reconheço algo da minha realidade na sua” geramos… mais conseguimos aprender sobre o outro e sobre nós mesmos.

Ceridwen Dovey Fonte; DarkSide – Reprodução

Ceridwen Dovey percebeu isso. A autora, que tem mesmo esse nome mágico de nascença (seus pais se inspiraram em um livro de Richard Llewellyn), nasceu na África do Sul e é antropóloga social. Após estudar em Harvard e cobrir a situação dos trabalhadores rurais pós apartheid, foi estudar escrita criativa em Cape Town. Só os Animais Salvam é seu segundo livro, publicado no Brasil pela DarkSide. E se você quiser julgar o livro pela capa (e que capa!), tudo bem. Ele faz jus à maravilhosa arte gráfica que o acompanha: é onírico, poético, melancólico e sensível.

Só os Animais Salvam é quase um livro experimental, cheio de nuances e metalinguagem. Cada um de seus dez contos trará a perspectiva da alma de um animal diferente, morto em situações diversas em algum conflito ao longo da História. São eles: camelo, gata, chimpanzé, cachorro, mexilhão, tartaruga, elefante, urso, golfinho e papagaio.

Cada conto também trará citações e participações de personagens reais, autores famosos, trechos retirados de cartas enviadas pelos soldados na guerra, poemas e outros detalhes biográficos. Num dos meus contos favoritos do livro, a tartaruga de estimação da filha de Tolstói acaba na casa de Virginia Woolf e é mais tarde adotada por George Orwell. No conto da gata, a felina em questão é a fonte de inspiração para que a francesa Colette escreva “Gigi and The Cat”, em 1944. É como se Ceridwen Dovey, ao assumir para si a tarefa de descrever o ser humano através dos animais, quisesse homenagear também seus colegas de profissão e os animais que surgiram em suas vidas.

E como se não bastasse (manda mais que tá pouco), a autora também faz um interessantíssimo exercício narrativo, mudando drasticamente seu estilo e voz em cada um dos contos. Se eu não soubesse do livro e alguém me entregasse apenas o miolo dos contos, sem nenhuma indicação, eu dificilmente acreditaria tratar-se da obra de uma única pessoa e não de uma coletânea.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Ceridwen é maestral em captar o pensamento e modo de vida de cada época da História, de cada país e cada conflito. Creio que ela emula também um pouco do estilo dos autores homenageados, mas não tenho bagagem o suficiente pra afirmar isso. Só sei que temos uma diversidade imensa, podendo ir de um cão treinado por nazistas até um mexilhão pirado nas drogas que leva a vida no melhor estilo Jack Kerouac. No conto do urso, também podemos ver uma maravilhosa narrativa em abismo, com direito a três camadas de imersão!

Uma das coisas mais marcantes em Só os Animais Salvam é justamente essa ideia de que a gente roda roda e não sai do lugar. Mesmo com vozes diferentes, épocas diferentes, conflitos diferentes… nossos questionamentos continuam os mesmos. O medo da solidão e da morte é o mesmo seja na Austrália de 1892 ou no Líbano de 2006. Mais de uma centena de anos se passam e continuamos iguais, “o ponto onde o anjo caído encontra o macaco em ascensão”, como já diria o falecido Terry Pratchett. Por isso as grandes obras são atemporais: elas extrapolam o período histórico e falam diretamente ao nosso cerne. A única diferença é que agora contamos com mais tecnologia.

“Essas tecnologias são desenvolvidas mais rapidamente do que o tempo que os humanos têm para assimilá-las, para entender o que significam – acabam por sobrepujar moralmente os homens, atordoando-os até a submissão e então arrastando junto o resto das espécies do planeta.”

E olha, ver a sua própria espécie assim nua no espelho não é uma imagem bonita. Os animais de Ceridwen Dovey são tão plenos, tão dignos e verdadeiros, que dá vergonha de ser humano. Não espere finais felizes: neste livro, os indivíduos sofrem e perdem. Não porque somos inerentemente ruins, mas porque somos falhos. Fazemos coisas horríveis aos animais e uns aos outros por motivos que, colocados assim sob a perspectiva de um bichinho de estimação, nos parecem ridículos. Ou então simplesmente por nossa incapacidade de enxergar o diferente enquanto pessoa. O conto do chimpanzé foi um dos textos mais perturbadores que li ultimamente, sob vários aspectos. Me deixou desconfortável, reflexiva.

Gosto também como o conto do elefante emula o comportamento humano na manada ao mesmo tempo em que consegue suspender os julgamentos: quando é preciso matar algo para sobreviver e se está ciente de que isso é algo ruim… então o assassino pode ser considerado uma má pessoa? Quando sofremos por algo que somos levados à fazer em função das circunstâncias…de quem é a culpa? Onde nos encaixamos nessa cadeia alimentar?

Fonte: Pinterest – Reprodução

Talvez, o que falte aos homens seja apenas equilíbrio.

“No planeta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tantas coisas – a roda, Nova York, as guerras etc. -, enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos.”

Ainda pegando carona na citação ao Pratchett, achei interessante o trecho em que uma fêmea de golfinho comenta sua predileção por escrever para uma mulher, pois estas encontram-se mais perto da sensação de ser um animal. É engraçado pensar nisso.

De fato, a humanidade está sempre em busca de formas para ignorar e contornar nossos instintos primitivos. Remédios, roupas, perfumes, raciocínio lógico: sempre tentamos racionalizar e controlar nossa natureza. Embora sejamos todos suscetíveis às mudanças hormonais e ambientais, elas acontecem de forma velada, quase imperceptível. O homem aspira parecer mais com o anjo caído e menos com a criatura.

Porém, para as mulheres, as coisas são um pouco diferentes. Ainda vivemos de acordo com os ciclos, sentimos as mudanças mensais do corpo e da mente, observamos de perto os hormônios da maternidade e do parto agindo sobre cada aspecto de nosso ser. Nem todas as mulheres passam ou desejam passar por isso, é verdade, mas ainda assim vivenciam um contato mais íntimo com suas naturezas. Isso talvez explique porque tantas culturas atribuem qualidades esotéricas às mulheres: é mais difícil separá-las do selvagem. A natureza é chamada de Mãe, é fêmea. Para o bem e para o mal: quantas religiões não pregam a feminilidade como uma forma de pecado ou magia?

Fonte: Pinterest – Reprodução

Mas enfim, estou divagando. A verdade é que Só os Animais Salvam me colocou pra pensar bastante (e cheguei à conclusão de que preciso ler “Mulheres que Correm com os Lobos” tipo assim PRA ONTEM).

Cada conto proporciona emoções e reflexões diferentes, ainda que o clima de pacífica tristeza seja um companheiro constante do leitor. Eu poderia passar muitas horas aqui escrevendo sobre tudo o que pensei durante a leitura do livro. Um dos trechos que ficou ecoando em minha cabeça é dito por um porco assassinado e não resisti a colocá-lo aqui no post:

“Um sábio amigo certa vez me disse que a bondade, assim como a crueldade, pode ser uma expressão de dominação.”

Acredite, se você souber o contexto da história, essa frase ganhará múltiplos sentidos e abrirá discussões homéricas.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Ah, outro ponto a elogiar: Ceridwen também fez uma boa pesquisa com relação aos animais apresentados, respeitando bastante suas características físicas e comportamentais. Eles acabam soando bastante críveis.

Só não dei cinco estrelas com louvor porque o conto do mexilhão me incomoda (não gosto desse estilo narrativo em que o personagem apenas segue a maré da vida – o que pensando bem faz muito sentido para um mexilhão – sem nenhuma forma de reflexão ou aprendizado) e também porque a tartaruga não é uma tartaruga de verdade, mas sim um jabuti ou no máximo um cágado. Eu sei, eu sei que isso é besteira e que talvez seja um problema apenas na tradução, mas para um livro que se presta a dar voz ao próprio animal, é o tipo de detalhe que deveria ter sido abordado com mais cuidado.

No mais, fica a recomendação de Só os Animais Salvam para quem ama todas as espécies, sobretudo a humana. Em tempos de discussão sobre impacto ambiental, veganismo, o filme Okja e tantos conflitos armados, preconceito racial e tensão internacional, este livro é um melancólico e tocante lembrete de que embora sejamos tão distintos, ainda somos parecidos. Falta chão para que nossa espécie com pretensões de dona do planeta seja capaz de compreender a si mesma, quanto mais aos outros. Mas… é importante continuar tentando.

Fonte: Pinterest – Reprodução

“Entre os dois existia o maior abismo que pode separar um ser do outro. Ela falava. Ele era mudo. Ela era uma mulher; ele era um cão. Assim, intimamente ligados; assim, imensamente separados, um encarava o outro.”

Agora dá licença que eu preciso ir ali abraçar as duas calopsitas que tenho a audácia de chamar de minhas.

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