Sobre livros gratuitos, pirataria e a ponta do iceberg

À exemplo do que fiz no post sobre como o Wattpad está influenciando a vida dos autores independentes, vou começar esse texto com uma declaração bem franca: não sou uma autora renomada e nem consigo pagar minhas contas vendendo histórias. Ainda.

(Note que esse “ainda” é puramente uma questão de otimismo. Na base da fé.)

Portanto, tudo o que eu disser a seguir é baseado somente em minhas vivências, percepções ou relatos que encontrei por essas estradas de meu Deus. Possivelmente estarei errada em alguns pontos, e certamente você tem o direito de discordar. Não há garantias de que essa estratégia funcione em todos os cenários, não tenho embasamento científico ou profissional para tanto. Mas acho que sempre vale a pena conhecer um ponto de vista, certo?

Fonte: usborne.com - Reprodução

Fonte: usborne.com – Reprodução

Dia desses estava acompanhando uma discussão num dos grupos de que faço parte no Facebook. A conversa girava em torno de um texto sobre pirataria de livros. E muito falava-se sobre como a aquisição de ebooks pirateados era um desrespeito ao autor, sobre como prejudicava a cadeia de pessoas que trabalham para produzir um livro. Muita gente nos comentários afirmava ter parado completamente de baixar ebooks ou ao menos estar fazendo o possível para sempre comprar a obra por meios legais. De modo geral, dizia-se que a pirataria também era responsável por tirar lucros das editoras, que investiriam menos em novos lançamentos, o que acabaria prejudicando o autor independente por tabela.

E embora exista muita verdade sendo dita no parágrafo acima, preciso discordar um pouco sobre o tema: eu não acredito que a pirataria seja assim tão danosa para um autor. Ou, ao menos, acredito que essa seja apenas a ponta de um enorme iceberg.

Existe uma entrevista muito boa com o Neil Gaiman, onde um repórter pergunta o que seu entrevistado acha da pirataria, sobre tantas pessoas estarem lendo obras como Sandman online. E Gaiman vai na contramão do senso comum, afirmando que não só acha a prática muito saudável como também a incentiva. Porque para ele, o que um autor deseja, no final das contas, é bem simples: ser lido.

Ainda na opinião de Gaiman, a gente raramente conhece nosso autor favorito comprando um livro aleatório na estante de uma livraria. Geralmente nossas melhores histórias foram recomendadas por conhecidos, foram presentes de Natal de pessoas queridas, por vezes nos acompanhando desde a infância. Quem nunca pegou um livro emprestado e descobriu nele um novo amor?

Na era das coisas digitais, o “pegar emprestado” ficou meio capenga. Não temos o que emprestar, pois tudo é exclusivo, todo o conteúdo está guardado a sete chaves num arquivo intransferível e impessoal. Não dá nem pra escrever o seu nome na capa. O mais próximo de emprestado é o PDF pirata disponibilizado na internet.

Um arquivo pirateado é uma venda a menos para o autor? Sim, sem dúvidas, mas Gaiman nunca vendeu tanto. Ele continua disputado na base da tapa pelas editoras. Ele continua fazendo sucesso ainda na pré-venda. Eu já li Sandman, e mesmo assim ainda sonho com o dia em que poderei comprar toda a obra em alguma edição extravagante, com capa dura e cheia de páginas extras para poder abraçar e reverenciar na estante.

Então calma, quer dizer que nem sempre disponibilizar conteúdo de graça implica em vender menos?

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Vou tentar responder a essa pergunta analisando outro cenário, o dos projetos de financiamento coletivo. Por mais legais que sejam as iniciativas, a verdade é que nós apenas investimos naquilo que nos toca. Em algo que nos emociona.

Essa emoção pode vir em formas variadas, seja naquele livro que fala sobre uma mitologia que você admira, seja no projeto daquele artista que você acredita, seja na causa nobre para ajudar pessoas cuja história te fez perder o sono. Existe um mar de projetos para ajudar, e no entanto só financiaremos alguns poucos escolhidos.

É o mesmo princípio de conhecer e gostar de uma cacetada de músicas mas só comprar o CD de algumas bandas.

Mas como funciona a escolha desses pouquíssimos floquinhos de neve especiais?

Fonte: geradormemes.com - Reprodução

Fonte: geradormemes.com – Reprodução

O diferencial fica sempre com a empatia. No ramo da produção de conteúdo, nós consumimos aquilo que nos emociona, aquilo que nos conecta. E dificilmente você entra na Amazon e paga, ainda que por um preço mínimo, algo que você desconhece. Consumimos muito mais autores renomados a preços altos do que ebooks na promoção de autores independentes. A gente continua comprando box de edição especial do Harry Potter na Black Friday mesmo já sabendo as falas decoradas, mas fica em cima do muro pra comprar um desconhecido autor nacional.

Então imagine que um autor independente atinja uma margem de lucro relativa à X pessoas que compõem seu círculo social. As vendas passam por parentes e amigos, colegas de trabalho, contatos do mundo literário e ocasionais leitores surpresa que pintam por aí vez ou outra. Mas convenhamos, o mundo do autor independente é árduo: não é fácil extrapolar esse público de X pessoas com as quais você já estava contando. É complicado convencer um estranho a apostar no escuro.

Enquanto isso, youtubers vendem como água na livraria, graças a um público enorme que já os acompanhava através de vídeos (que por sinal são gratuitos) e que já se sentia parte de uma comunidade. A verdade é que youtubers vivem de empatia.

E editoras vivem de lucros. Elas dificilmente podem arcar com os riscos de apostar em desconhecidos. Imagino que para elas pouco importe o fato de um livro ser disponibilizado de graça num torrent da vida ou não, desde que ele continue vendendo. Embora a pirataria cause a perda de muitos exemplares vendidos, antes o pirateado que vende bem do que o desconhecido que encalha na estante. E uma forma de garantir lucro é investir em autores com uma base de fãs sólida e fiel. O que nos faz voltar aos youtubers (e aos mil livros de capa igual do Nicholas Sparks).

Então talvez o seu problema não seja vender ou deixar de vender. Talvez devamos retornar ao conselho de Neil Gaiman: você precisa ser lido. Crie fama e deite-se na cama, já dizia a minha avó.

E nem sempre a venda será a maneira mais efetiva de conseguir isso.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Alto lá, não estou fazendo apologia ao crime. Não estou dizendo que pirataria seja algo legal. Ela de fato prejudica a indústria, o autor e todas as pessoas envolvidas no processo de criação de um livro (o que não é pouca gente). Mas estou afirmando que é possível jogar com essa peça a seu favor.

Quando é você mesmo que disponibiliza seu material gratuitamente, a coisa sai de pirataria e passa a ser estratégia de marketing, embora eu não goste muito desse termo. Quando penso em marketing, a palavra me soa fria e puramente mercadológica. Para o mundo dos produtores de conteúdo, a publicidade é mais quentinha e amigável. O marketing do autor independente serve para aproximar o leitor, para criar vínculos.

Quando envio meus contos gratuitamente para os leitores da newsletter, eu sei que não receberei um centavo por isso. Estou abrindo mão de uma margem de lucro, ainda que pequena, e abrindo meu trabalho para a possibilidade do plágio e da pirataria. É um risco, mas é também a fortificação de uma relação de confiança com o leitor.

Ou seja, quando envio uma história de graça, tenho esperança de que o leitor indique aquele texto para alguém, que repasse o arquivo para um colega ou para um parente, que diga “olha que interessante isso que eu recebi hoje” na timeline do seu Facebook. Aos poucos, uma rede vai se formando. Além disso, as pessoas que recebem material gratuito se sentem mais próximas do autor (digo isso por experiência própria), enviam feedbacks mais sinceros e acabam realmente torcendo por você. São essas pessoas que podem a vir a te ajudar no futuro, se não financeiramente, ao menos gerando o boca a boca.

A Sybylla, dona do blog Momentum Saga, faz um trabalho maravilhoso de disponibilização de ebooks gratuitos. Para fazer download, porém, é preciso usar uma plataforma chamada PagSocial, que nada mais é do que um escambo de publicidade online. Você recebe o livro mediante a publicação de um tweet ou de um post no Facebook que menciona o site e a obra que acabou de adquirir. Você não gasta um centavo, ajuda a autora e ainda por cima duvido que vá esquecer o site.

Fonte: Pagsocial - Reprodução

Homepage do site. Fonte: Pagsocial – Reprodução

A própria Amazon permite que, vez ou outra dentro de um conjunto de regras, o ator independente disponibilize seus livros de graça no sistema. O que ela estaria ganhando com isso se não soubesse ser esta a melhor forma de fomentar vendas futuras?

Outras plataformas também parecem corroborar a teoria. No Wattpad, é comum que autores que mandam bem nas histórias abertas ao público também obtenham sucesso nas vendas de ebooks: eles tem um público que confia na qualidade de seu material. Assim de cabeça posso citar a Camila Marciano e a Karina Heid, mas existem vários outros exemplos.

Muitos autores de sucesso, que assinam junto ao selo de grandes editoras, também disponibilizam material gratuito. O George Martin cansa de mandar capítulo pros leitores (o que só aumenta o bafafá sobre seu novo livro), a J.K. Rowling posta um monte de textinhos sobre Harry Potter no Pottermore e a gente é brindado com batalhas incríveis entre personagens famosos a cada edição do Suvudu Cage Match.

Falando nisso, o Tor.com também tem um clube de ebooks gratuitos para todos os assinantes da newsletter. Se você lê em inglês e gosta de fantasia, é uma mina de ouro.

Aliás, lembra quando o primeiro episódio da temporada de Game of Thrones vazou na internet e a HBO só faltou arrancar os cabelos? Bem…o seriado bateu todos os recordes de audiência do mesmo jeito.

Enfim, não sejamos hipócritas: é claro que todos nós queremos poder viver de nossa escrita. É justo sonhar com isso. Monetizar seus textos é uma consequência óbvia de ser um escritor. O que estou propondo aqui é que é preciso ter uma estratégia para que o lucro venha a longo prazo, num montante maior e mais diversificado. É preciso saber a hora de abrir mão e a hora de cobrar.

Nem 8 nem 80, ok? Fonte: Tumblr - Reprodução

Nem 8 nem 80, ok? Fonte: Tumblr – Reprodução

Mas não vá sair atirando todo o seu trabalho de graça pela janela só porque eu falei, ok? As coisas não são assim tão simples. Precisam ser bem planejadas, avaliadas e pesadas, numa gama de fatores que renderiam um texto muito maior do que este. Cada autor tem seu próprio contexto, e os nichos de mercado variam bastante. Meu objetivo aqui é apenas abrir uma janela para novas possibilidades, para modelos de negócio fora da caixinha. Um pontapé inicial para suas próprias reflexões.

Tem bastante gente quebrando a cadeia convencional de publicação de um livro e obtendo sucesso. Quem sabe isso não sirva para você? E se servir (ou não), depois você me conta.

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