Sobre onomatopeias, Tolkien e os estereótipos da linguagem

Às vezes eu preciso pesquisar bastante para encontrar um tema. Mas às vezes, é o tema que vem me encontrar, insistente e repetitivo, aparecendo em diferentes situações da minha vida. Demorei para falar sobre estereótipos de linguagem, principalmente pela densidade do tópico. Mas acho que tá na hora: esse assunto já está me assombrando faz tempo.

Fonte: Warner Bros – Reprodução

Tudo começou com um artigo do The Washington Post, intitulado “Porque porcos franceses falam ‘groin’, abelhas japonesas falam ‘boon’ e sapos americanos falam ‘ribbit‘”.

O título inusitado esconde a profundidade do texto. Nele, a jornalista Karin Brulliard comenta sobre as onomatopeias utilizadas por seus filhos para descrever os sons de diferentes animais. Criadas em uma casa bilíngue (Karin e seu marido possuem nacionalidades distintas), as crianças conhecem ao menos duas versões de onomatopeias para descrever cada um dos bichinhos. Se Karin ensina aos filhos que um porquinho faz ‘oink’, seu marido francês prontamente as ensinará que um bom porco, na verdade, faz ‘groin’.

Essa é uma questão que linguistas e sociólogos estão apenas começando a desvendar. Porque as onomatopeias variam tanto a depender da língua que está sendo falada? Afinal, a lógica deveria ser simples. Não estamos nomeando algo, utilizando radicais, prefixos e sufixos para dar nome ao que depois viria a ser uma águia careca ou um tigre-de-dentes-de-sabre. Estamos apenas tentando reproduzir, com nossas cordas vocais, um som que ouvimos. E, convenhamos, um cavalo sempre soará como um cavalo, seja aqui ou na França.

Então porque a diferença tão gritante? No quadro abaixo, emprestado do artigo, dá para ver algumas das onomatopeias utilizadas para caracterizar um relincho ao redor do planeta. Não são variações sutis, são palavras claramente distintas.

Fonte: The Washington Post – Reprodução

A explicação, apresentada pela Ciência, é que nossas onomatopeias não estão tentando imitar fielmente um som. Na verdade, elas são uma mistura de imitação, arbitrariedade e cultura linguística.

Brulliard utiliza o exemplo das abelhas. Se pegarmos a frequência emitida por suas asas em pleno vôo, não há nenhuma evidência que aproxime o ruído emitido com a sonoridade da letra ‘Z’. Acontece que nossas cordas vocais são incapazes de emitir uma imitação exata das abelhas, então escolhemos uma das letras mais “vibratórias” de nosso alfabeto, numa espécie de gambiarra sonora. Poderíamos ter escolhido o ‘V’ pelas mesmas características? Possivelmente, e aí está a arbitrariedade da coisa. Alguém escolheu o ‘Z’ e sua associação com as abelhas foi crescendo ao longo do tempo.

A cultura linguística aparece logo depois. Para o inglês, não existem palavras formadas por apenas uma consoante em sequência. Daí veio a adição do ‘B’ à onomatopeia, resultando no conhecido vocábulo ‘bzzzzz’. Esta forma foi então popularizada pelas histórias infantis, quadrinhos e outras mídias, constantemente exportadas para outros países como, digamos, o Brasil. E foi assim que a abelha ganhou seu som característico. Embora ele não soe nada como uma abelha real.

Outra coisa engraçada é que a criação de onomatopeias é diretamente proporcional à importância daquele animal dentro de uma cultura. Cachorros e gatos, os animais de estimação mais populares, contam com uma enormidade de sons à disposição, mas eu duvido muito que você saiba escrever uma onomatopeia que caracterize o som de um texugo ou de uma marmota. Enquanto eu nem sei dizer que barulho faz um camelo, tribos que lidam com estes animais diariamente possuem não apenas uma, mas várias imitações, cada uma diferenciando um tipo único de vocalização.

(vai ver é por isso que é tão difícil para o Ylvis descrever o barulho de uma raposa)

Outro ponto é que fonemas estrangeiros são muito difíceis de reproduzir para falantes não-nativos. Você já viu algum americano falando ‘obrigado’ com a flexão correta do ‘R’? Todo ser humano possui as mesmas habilidades vocais, biologicamente falando, mas é a nossa língua mãe que molda como nos comunicamos com o mundo. Eliminar um sotaque demora e dá um trabalho danado.

Então, vejamos: quer dizer que a nossa língua nativa influencia a forma como vocalizamos os sons e passamos para o papel as nossas impressões do mundo?

Sim, e o buraco é ainda mais embaixo. Quando analisamos a sonoridade de uma língua (pensando em cada palavra como uma onomatopeia, e não como um vocábulo), conseguimos identificar estereótipos em cada uma delas. Você já ouviu falar que o alemão é uma língua fria e agressiva? Ou que o francês é delicado e o espanhol é corrido?

É a língua que causa essa impressão ou são os falantes que causam essa impressão na língua? Ou um pouco dos dois?

Esses dias li um conto chamado Obrigações Familiares, que trazia em sua introdução uma citação de Olavo Bilac:

“A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.”

(Inclusive, fica aqui a dica: se você acha que autores nacionais não escrevem ficção fantástica/aventura de qualidade, é porque não conhece Obrigações Familiares.)

Para Olavo, é a capacidade de comunicação que une um conjunto de pessoas, a nossa forma mais primitiva de integração social. Num exemplo bem menos erudito, é como tentar explicar pra um gringo o que é “borogodó”, “cafuné” ou “aperreio”. Não importa a quantidade de traduções perfeitas e adaptadas: essas palavras dependem de um contexto cultural para serem entendidas. Sua correta interpretação resulta numa identidade brasileira (e nos regionalismos que também dão identidade a cada pedacinho do país).

Fonte: rightbrainrevival.com – Reprodução

Num texto maravilhoso para o LitHub, Ana Menéndez conta uma história interessante pela qual passou com seus alunos da classe de escrita. Ela havia solicitado que cada estudante reescrevesse sua história na língua materna (quase todos eram estrangeiros e os livros eram entregues em inglês à professora).

De início, o que prometia ser apenas um exercício como outro qualquer mostrou-se um enorme desafio: todos os estudantes apresentavam dificuldade com a tarefa.

Ana começou a questioná-los para descobrir as origens do problema, afinal, traduzir algo para sua língua materna deveria ser mais simples do que produzir um manuscrito inteiro na língua de outra nação.

Foi um aluno letão, identificado como ‘B’, que lhe deu as primeiras pistas:

“- O problema – ele explicou, – é que essa é uma história muito obscura e letão apenas não é este tipo de língua. Você sabe, letão é uma língua muito doce e bonita.”

Outra aluna dizia não produzir textos em seu idioma porque a língua Gujarati (adotada em algumas partes da Índia) era uma língua reprimida e censurada. O que me lembra de como, não por acaso, uma das primeiras medidas adotadas pelos povos conquistadores de antigamente era proibir o uso dos dialetos nativos. Linguagem é poder.

Roubar a linguagem de um povo é também roubar parte de quem eles são. Faz parte da globalização absorver vocábulos de outros lugares, mas quando isso é feito por imposição, por violência, é como um roubo de identidade e descaracterização. É por isso que iniciativas como o livro Jegwaká, que reconta histórias da mitologia indígena utilizando vocábulos próprios, são tão importantes, nos permitindo resgatar uma parte suprimida de nossa identidade enquanto nação.

Fonte: Dicio – Reprodução

De um modo surpreendente, os alunos de Ana Menéndez achavam que a língua influenciava o seu modo de contar histórias ou que certas histórias não podiam ser contadas em determinado idioma. O que é algo a se levar em conta quando a gente pensa que a maior parte da literatura estrangeira consumida aqui no Brasil é fruto de traduções. O quão diferente torna-se a essência de uma mesma história em suas diversas traduções? Se cada língua carrega seus estereótipos, como isso influencia no tom da narrativa?

Saindo um pouco destas perguntas (que sozinhas já renderiam outro post), caí em outro post excelente, dessa vez escrito para o Atlas Obscura, o que me levou até Tolkien.

Tolkien moldou a nossa visão sobre a fantasia e seus seres mágicos. Até então, elfos estavam mais para pequenos duendes com saiotes de tutu do que para os imponentes seres imortais da Terra Média. Tolkien nos mostrou como viviam elfos, anões, orcs e humanos, como se relacionavam, se vestiam e se alimentavam. Também nos mostrou cada um dos idiomas proferidos por seus personagens com um nível absurdo de detalhe.

Fonte: linguisticsociety.org – Reprodução

Mas Tolkien jamais nos mostrou a forma como eles falavam.

Presos na palavra escrita, os personagens da Terra Média não possuíam voz. Foi apenas nas primeiras adaptações da história para o rádio e a televisão que eles começaram a soar da forma como os conhecemos. Algo que influenciaria a ficção fantástica para sempre.

J R R Tolkien era um linguista bastante apaixonado por seu objeto de estudo. Os idiomas da Terra Média foram criados antes mesmo de seus usuários, com todo o cuidado e meticulosidade que só mesmo um estudioso da área poderia ter.

Tolkien levou em consideração as raízes e a sonoridade de idiomas reais para criar suas palavras fictícias. Aos anões, trouxe influências do árabe e do hebreu (e é por isso que você encontra palavras como Moria e Khazad-dûm). A ideia do autor era utilizar uma língua cujas origens fossem bem discrepantes em relação à língua élfica (baseada no finlandês e galês), caracterizando o quanto anões e elfos são criaturas opostas. Além disso, fazia sentido utilizar os fonemas mais ásperos do árabe e do hebreu: era algo que combinava com a natureza dos anões.

Fonte: Warner Bros – Reprodução

Então porque os anões que vemos no cinema falam como escoceses?

Bem, pode colocar a culpa nos estereótipos da linguagem.

A ideia que tiramos dos livros é a de que anões são seres terrenos, práticos, de constituição firme, troncudos, sérios porém chegados a festas e muita cerveja, além de sinceros e confiáveis. O que é mais ou menos a ideia geral que temos dos escoceses (pura generalização, eu sei, mas ainda assim real).

Para representar o outro lado da moeda, os elfos deveriam soar como o extremo oposto: cultos, de gramática perfeita e rebuscada, daquele tipo de gente que toma chá com o dedo mindinho levantado: os elfos de Tolkien começaram a soar como a realeza da Inglaterra.

Fonte: Tumblr – Reprodução

O que é uma visão bem interessante, porque sempre costumamos considerar os elfos uma raça “superior” e “desenvolvida”, enquanto os anões são povos “bárbaros”. Os ingleses consideram seu sotaque a forma superior de falar inglês apenas pela maneira como ela soa (menos áspera) ou porque realmente se enxergam assim em relação às outras nações? Se os anões fossem bárbaros malvados ao invés de bárbaros bonzinhos, será que escutaríamos escoceses falando ou fariam jus às raízes árabes de sua língua?

Para os hobbits, as criaturas “simples e politicamente desimportantes”, sobrou o sotaque caipira da zona rural inglesa, enquanto aos orcs foi atribuído um sotaque pesado e meio burro, cheio de erros e cacoetes. Lá vamos nós com mais estereótipos. Lá vamos nós com mais generalizações.

Esse sotaque “cockney” (da classe trabalhadora de Londres) dado aos orcs talvez tenha sido uma influência do próprio Tolkien, já que o autor utilizou propositalmente palavras modernas no diálogo dessas criaturas, algo nada típico da Terra Média. Fico pensando se Tolkien, como linguista, não era um daqueles velhinhos que abominam gírias e expressões coloquiais (como ‘gonna’ e ‘wanna’), culpando as novas gerações pela destruição de seus amados idiomas. Sendo Tolkien um cara tão conservador, talvez essa hipótese não esteja muito distante da realidade.

O modo de falar dos seres mágicos foi delineado pela obra de Tolkien e tornou-se uma espécie de convenção. Não há um só brutamonte intelectualmente limitado que não soe como um orc, ou anão que não soe como Gimli. O mundo da fantasia foi moldado por esses estereótipos.

Imagine só um troll da montanha falando com sotaque francês ou alguém como Frodo falando em russo. Parece estranho, né? Não combina.

Mas não combina por causa da sonoridade das palavras ou porque fomos treinados, dia após dia desde a infância, a associar os idiomas às características humanas, assim como as criancinhas lá de cima com as onomatopeias de seus animais favoritos?

Creio ser um pouco dos dois.

Parlez-vous français? Merci beaucoup. Fonte: Wired – Reprodução

PS: os hiperlinks que eu escondi por esse texto estão, modéstia à parte, incríveis. Dá uma olhadinha neles, vai… prometo que tem assunto pra ficar pensando durante uma tarde inteira.

Retrospectiva TBS – 2016
A sensibilidade discreta de Reescrevendo Sonhos

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