Sobre por que as bruxas de Terry Pratchett são tão incríveis

Tenho uma estratégia para nortear minhas leituras durante o NaNoWriMo desse ano: preciso ler meus autores favoritos para que suas vozes narrativas me inspirem.

Parece besteira, mas quando lemos uma história e partimos para a escrita, muita das características daquele autor são passadas para nós, seus maneirismos e construções sintáticas. Diferente do plágio,  este é um processo subconsciente e completamente natural, como quando você passa certo tempo vivendo em outro lugar e acaba adquirindo um pouquinho do sotaque e das gírias da região. Então, decidi ir direto ao ponto e garantir que tipo de sotaque eu desejo aplicar à minha história.

Terry Pratchett foi uma escolha imediata. Além deste senhor de cartola figurar em destaque entre meus escritores favoritos da vida, ele também é muito bom com textos de humor e com textos sobre bruxas: exatamente as duas coisas que resolvi abordar esse ano.

Suas lindas! Fonte: geekadelphia.com - Reprodução.

Suas lindas! Fonte: geekadelphia.com – Reprodução.

Como já havia lido Lordes e Damas, me decidi por uma leitura mais leve e rápida: Os Pequenos Homens Livres, primeira aventura de Tiffany Dolorida. E eu me apaixonei por ela, pelos coadjuvantes, pela história…blá blá blá. Tudo o que sempre acontece quando leio Pratchett.

Mas…fica aqui a dúvida: Por que esse senhor é tão bom em escrever  esse tipo de personagem? O que ele tem de diferente? Por que, dentre as inúmeras referências que possuo, Esme Weatherwax é a primeira coisa que aparece na minha cabeça quando penso numa Bruxa com B maiúsculo?

A primeira pista é ler o discurso proferido por Pratchett em 1985, intitulado “Porque Gandalf nunca se casou”. Por favor, por favorzinho: leia esse discurso (nunca te pedi nada). Em seu brilhante ensaio sobre os estereótipos que envolvem bruxas e magos, Terry percebeu que toda forma de magia feminina era, até então, rebaixada inconscientemente para uma forma “ruim” de mágica. Enquanto magos poderosos criavam ouro e pedras filosofais a partir de conhecimentos químicos, filosóficos e astronômicos…as bruxas serviam para fazer crescer verrugas a partir de pernas de sapo e asas de morcego.

“Ao contrário dos magos, bruxas aprendem a se virar com pouca coisa.”

O estereótipo da bruxa, desde as histórias infantis, é algo bem triste. Ela é feia, suja, decrépita e má. Conte nos dedos quantas bruxas loiras dos olhos azuis você conhece: quase nenhuma, certo? A mocinha loira dos olhos azuis sempre foi a princesa.

“As histórias nunca diziam porque eram malvadas. Bastava ser mulher, velha, totalmente sozinha e com aparência estranha por não ter dentes. Era o que bastava para ser chamada de bruxa.”

Fonte: thetimes.co.uk - Reprodução

Fonte: thetimes.co.uk – Reprodução

Essa construção sobre como uma bruxa deve parecer é herança dos tempos em que queimávamos pessoas nas fogueiras. Afinal, era preciso difamar e manter as novas gerações distantes de um tipo muito preocupante para a sociedade da época: a mulher dona do próprio nariz. Assim, todos os aspectos magníficos da magia foram delegados exclusivamente aos homens.

Primeiro, Terry Pratchett resolveu rir disso tudo. Discworld começou como um grande apanhado de sátiras ao mundo da fantasia. Seus personagens eram estereótipos ambulantes que ironizavam as próprias inconsistências.  Mas foi só depois que Pratchett resolveu que, além de continuar com as alfinetadas ácidas, ele também tentaria apresentar personagens melhores, personagens que realmente fizessem sentido. E, para mim, o ápice da coisa acontece na caracterização de suas bruxas.

As bruxas de Pratchett são pragmáticas, críticas e dificilmente impressionáveis. Elas são fortes e não perdem tempo conjecturando sobre o que poderia ter sido. Elas jamais choram sobre o leite derramado. E eu gosto de ver como a visão de magia de Pratchett é atrelada ao fato de manter os pés no chão.

“- Se você confiar em si mesma e acreditar nos seus sonhos e seguir a sua estrela…ainda assim será derrotada por pessoas que usaram o tempo delas trabalhando pesado, aprendendo coisas e não sendo preguiçosas.”

Suas bruxas, ao contrário da crença popular, estão muito mais ligadas à terra do que às questões intelectuais. A magia delas não depende do estudo de palavras mágicas ou de poções complicadas. Elas, na verdade, não estão ligando muito para nada disso. O que faz uma boa bruxa é sua capacidade de compreender a raça humana, é ser capaz de ver e escutar sem influências externas, pensar com justiça sem embutir preconceitos. Essa visão faz bastante sentido se pararmos pra pensar que boa parte das mulheres consideradas “bruxas” ao longo da História eram na verdade apenas parteiras, curandeiras, ervanárias, psicólogas, políticas: mulheres com poder transformador dentro da sociedade. Mulheres de cujas habilidades outras pessoas dependiam.

Fonte: Snackbar Games - Reprodução

As bruxas de Discworld. Fonte: Snackbar Games – Reprodução

O que é outro fato fascinante sobre as bruxas de Terry: muito além de construir casas de doces para atrair criancinhas, suas bruxas estão constantemente preocupadas com o bem-estar de sua comunidade. Elas se doam por completo em favor do coletivo.

Lembro de uma cena memorável em Lordes e Damas (minor spoiler), quando Esme Weatherwax é desafiada para um duelo de bruxas: ela precisa continuar olhando para o sol sem piscar nenhuma vez. Quando Vovó Weatherwax desvia o olhar por causa do choro de uma criança, é imediatamente reconhecida como vencedora: somente uma bruxa de verdade seria capaz de deixar o orgulho de lado e partir em socorro de um possível necessitado. O quão mágica é essa visão sobre a bruxaria?

“- Diga-me por que ainda quer ser bruxa, tendo em mente o que aconteceu com a Senhora Snapperly?
– Para que esse tipo de coisa não aconteça de novo – respondeu Tiffany.”

Fonte: Gizmodo - Reprodução

Tiffany Dolorida. Fonte: Gizmodo – Reprodução

Falando em mágica, uma das coisas que sempre questionei enquando lia Harry Potter foi: se é possível fazer mágica para tudo, porque as pessoas ainda se dão ao trabalho de cozinhar, lavar louça ou andar por aí? E o quão perigosa é uma vida na qual você não precisa de fato fazer nada e tudo está ao alcance de uma giradinha de pulso com uma varinha de condão?

As bruxas de Terry Pratchett não gostam de fazer magia. A magia sempre vem atrelada à um preço (sim, estou citando Once Upon a Time), e é perigoso e imprevisível mexer com as leis do Universo. A magia é o último recurso. Isso torna as bruxas de Pratchett mulheres muito resistentes, que não se intimidam perante os desafios da vida. Elas não resolvem as coisas com mais facilidade do que eu ou você: elas também vão lá, arregaçam as mangas e trabalham duro. Isso destrói outra grande crença da ficção fantástica: o escolhido. Para ser bruxa em Discworld, não basta ter nascido bruxa. Aliás, acho que isso nem existe por ali. Para se tornar bruxa é necessário muito esforço, paciência, estudo, caráter e também aquela pontinha de instinto que costuma faltar nos seres humanos hoje em dia. Sua responsabilidade com o uso da magia é digno de nota.

“- Quando você aprender coisas sobre magia, e eu quero dizer aprender de verdade tudo o que puder sobre magia, ainda terá pela frente a lição mais importante de todas.
– E qual é?
– Não usá-la. Bruxas não usam magia, a menos que realmente tenham que usar. Dá muito trabalho e é difícil de controlar. Fazemos outras coisas. Uma bruxa presta atenção em tudo o que acontece. Usa a cabeça. Uma bruxa tem confiança em si mesma.”

Fonte: Tumblr - Reprodução

Tiffany Dolorida: defendendo o mundo de avental. Fonte: Tumblr – Reprodução

Também gosto de como Pratchett trabalha o respeito à ancestralidade. Vovó Dolorida e Tiffany, Esme e Magrat. A visão de que o pupilo deve aprender com o mestre casa muito bem com as culturas pagãs que temos ao redor do mundo. Ensinar aos mais novos e respeitar os mais velhos é uma construção muito, muito antiga. E bonita. Porém, é preciso aliar uma visão mais moderna, igualmente bacana: também é possível aprender com o novo, mudar as coisas de vez em quando.

Eu realmente acho que Vovó Dolorida e Vovó Weatherwax possuem mais bagagem e mais conhecimentos do que suas pupilas. Mas quantas e quantas vezes Magrat ensinou-lhe belas lições (embora ela vá preferir morrer à admitir isso)? Pratchett sabe equilibrar muito bem a tradição e a inovação, um conflito eterno e necessário.

As bruxas de Discworld também são, acima de tudo, livres. Odeiam injustiças e tiranias. E não estão nem aí pro que os outros pensam. E elas existem em todas as formas, tamanhos e temperamentos. Tem as recatadas, as escandalosas, as beberronas, as mandonas e as delicadas. Quando você tá achando que sabe tudo sobre aquele pessoal que usa chapéu preto e pontudo, aparece Magrat com flores no cabelo e Tiffany armada com uma frigideira. Porque, afinal de contas, muito além de bruxas, elas são pessoas. Boas pessoas. Com toda a pluralidade que isso pode oferecer.

A que está em cima da mesa é bruxa. A que está quase caindo da cadeira também. Fonte: TUmblr - Reprodução

A que está em cima da mesa é bruxa. A que está quase caindo da cadeira também. Fonte: Tumblr – Reprodução

“Miss Tick não parecia uma bruxa. A maioria das bruxas não parece, ou ao menos as que ficam indo de um lugar para outro. Parecer uma bruxa pode ser perigoso quando se anda no meio de pessoas sem instrução.”

Ah, mas não se engane: ser uma boa pessoa passa longe daquela ideia de fada-madrinha dos contos de fadas. Ser boa não tem nada a ver com ser boazinha e condescendente. Essas bruxas sabem a hora de pegar pesado, de dar uma boa bronca e de ser tão badass quanto o leitor poderia desejar. Quem é que não tremeria nas bases na hora de receber um sermão de Esme Weatherwax?

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Por último, acho muito bonito que Pratchett trabalhe com o conceito das Três que são Uma: os arquétipos femininos da donzela, da mãe e da anciã. Cada um destes papéis se reveza ao longo do tempo, e cada um traz particularidades interessantes. Esme, Nanny Ogg e Magrat são o exemplo imediato, personagens que já foram pensadas para encarnar a tríplice, mas é possível reconhecer essa construção mitológica aparecendo aqui e ali, nas outras aventuras das bruxas de Lancre.

As bruxas do Discworld são mulheres fantásticas, intimamente em contato com a natureza, com sua essência e com o bem-estar coletivo. São mulheres fortes que, das mais variadas formas, não hesitam em resolver problemas e ajudar o próximo. São o tipo de personagens com o qual meninas de todo o planeta podem se identificar e se espelhar, porque elas realmente não dependem de sua aparência ou de suas origens para se tornarem boas bruxas. Elas são vozes atuantes na sociedade, pessoas respeitadas e muitas vezes temidas, mas nem por isso perdem a simplicidade inerente à sua profissão.

Por essas e por outras: Obrigada, Terry Pratchett, muito obrigada mesmo pelas bruxas de Discworld.

Fonte: independent.co.uk - Reprodução

Fonte: independent.co.uk – Reprodução

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