Descrevendo personagens: bom senso e raras certezas

Nos primórdios da TV Globinho e similares, passava um desenho animado chamado Mickey e Donald em que por acaso também apareciam aventuras do Pateta (muitas coisas não faziam sentido naquela época…). Nesses episódios, Pateta tentava aprender alguma atividade nova através das instruções de um narrador, numa espécie de tutorial. E o Pateta sempre se embananava todo enquanto era soterrado por uma quantidade cada vez mais rápida de palavras técnicas e fórmulas que ele não fazia ideia de como equilibrar e que culminavam num resultado desastroso.

Sempre que vou criar um artigo técnico aqui no TBS, essa cena aparece na minha cabeça. Escrever é uma arte conceitualmente simples e também infinitamente complicada. Basta colocar uma palavra após a outra no papel, mas são mil e uma variáveis a considerar, listas de boas práticas, conselhos de ouro e, pior de tudo, um universo de regras que deverão ser quebradas em algum momento. Mas que momento? E como equilibrar construção de mundo, ritmo, premissas, profundidade dos personagens, estilo, gênero, ponto de vista e tudo mais?

Fonte: YAlicious – Reprodução

É inevitável estudar sobre escrita e não se sentir o Pateta de vez em quando.

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Brandon Sanderson: Quero mostrar que existe algo de inerentemente bom no ser humano – TRADUÇÃO

Existem algumas entrevistas que me deixam mais apaixonada por um autor do que o próprio livro. Em dezembro de 2016, Brandon Sanderson teve uma conversa com Josep Lapidario para a revista JotDown, da Espanha. E foi uma coisa tão incrível, tão rica em referências e debates, que logo a entrevista tornou-se uma queridinha entre os fãs do autor.

Mas ela até então só existia em inglês e espanhol. E eu sinceramente acredito que um texto desse mereça ser disponibilizado para o mundo todo, para alcançar qualquer pessoa que se interesse pela ficção fantástica. Seja você autor, leitor ou mero simpatizante da área, você merece ler isso.

Num esforço hercúleo, usei todo o meu inglês para entregar esta versão traduzida. Lembrando que os direitos autorais pertencem à JotDown e que eu não sou uma tradutora profissional. Ah, também tentei ser o mais fiel possível, mas tem coisa que simplesmente fica muito feia ao pé da letra e meu ouvido frescurento não aceita. Então saiba que 99% do que está aí foi traduzido tal qual estava, mas que aquele 1% é vagabundo.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

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Clichê ou não clichê: eis a questão

Se você quiser ver um autor sair correndo de uma sala, é só falar a palavra “clichê” em voz alta.

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Não tem erro, o pobre coitado certamente agarrará seus pertences e partirá em fuga, sem nem olhar para trás. Junto a “plágio” e “deus ex machina“, o clichê compõe a trindade do mal que habita nossos piores pesadelos.

Estamos, definitivamente, numa época de caça ao clichê.

Mas será que a gente realmente o odeia? Será que ele é mesmo um atestado de incompetência para o autor? Ou será que estamos entendendo tudo errado?

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Sobre onomatopeias, Tolkien e os estereótipos da linguagem

Às vezes eu preciso pesquisar bastante para encontrar um tema. Mas às vezes, é o tema que vem me encontrar, insistente e repetitivo, aparecendo em diferentes situações da minha vida. Demorei para falar sobre estereótipos de linguagem, principalmente pela densidade do tópico. Mas acho que tá na hora: esse assunto já está me assombrando faz tempo.

Fonte: Warner Bros – Reprodução

Tudo começou com um artigo do The Washington Post, intitulado “Porque porcos franceses falam ‘groin’, abelhas japonesas falam ‘boon’ e sapos americanos falam ‘ribbit‘”.

O título inusitado esconde a profundidade do texto. Nele, a jornalista Karin Brulliard comenta sobre as onomatopeias utilizadas por seus filhos para descrever os sons de diferentes animais. Criadas em uma casa bilíngue (Karin e seu marido possuem nacionalidades distintas), as crianças conhecem ao menos duas versões de onomatopeias para descrever cada um dos bichinhos. Se Karin ensina aos filhos que um porquinho faz ‘oink’, seu marido francês prontamente as ensinará que um bom porco, na verdade, faz ‘groin’.

Essa é uma questão que linguistas e sociólogos estão apenas começando a desvendar. Porque as onomatopeias variam tanto a depender da língua que está sendo falada? Afinal, a lógica deveria ser simples. Não estamos nomeando algo, utilizando radicais, prefixos e sufixos para dar nome ao que depois viria a ser uma águia careca ou um tigre-de-dentes-de-sabre. Estamos apenas tentando reproduzir, com nossas cordas vocais, um som que ouvimos. E, convenhamos, um cavalo sempre soará como um cavalo, seja aqui ou na França.

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