Quando patriotismo literário atrapalha

A ficção fantástica, seja qual for sua vertente dentro do gênero fantasia, está finalmente conquistando espaço na literatura nacional: muitos autores estão despontando no mercado e promovendo uma justa concorrência com os livros importados. Influenciados pelo cenário favorável, Wattpad e outras plataformas de compartilhamento gratuito fervilham com escritores independentes e universos mágicos. Tudo bem que de vez em quando apareça um clichê aqui ou um tema batido acolá. Ainda estamos caminhando para que a ficção brasileira ganhe de fato voz. Porém, como pessoa criada metade do dia em Hogwarts e a outra metade na Terra Média, eu não poderia estar mais feliz.

Mas nem tudo são flores. Basta entrar no assunto da ambientação de enredos para sentir um mal estar generalizado. Autores nacionais são constantemente pressionados para que suas obras se passem no Brasil. Para que seus personagens sejam brasileiros. Valorizar o que é de casa. Mostrar ao mundo que não devemos nada a ninguém.

O saudoso Clóvis representando o dilema do escritor de fantasia. Fonte: Veja - Reprodução

O saudoso Clóvis representando o dilema do escritor de fantasia. Fonte: Revista Veja – Reprodução

A questão acaba se tornando um fardo gigantesco para o autor de ficção fantástica. Porque, embora o patriotismo literário tenha seus méritos, é algo que não funciona na fantasia. Vá por mim, simplesmente não funciona.

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E essa nossa mania de shippar

Vamos lá, admita: quem aqui nunca torceu loucamente para um casal de personagens finalmente se acertar? Eu sei, eu sei, parece meio bobo. Mas cá entre nós, a verdade é que praticamente todo mundo já foi torturado por algum autor, esse ser incapaz de juntar aquele par romântico que faz o maior sentido dentro da sua cabeça. No final das contas, somos todos shippers.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

A “arte do ship” surgiu como uma variação da palavra inglesa relationship (relacionamento), denominando o ato de torcer por um casal. Acredita-se que o termo tenha sido utilizado pela primeira vez entre os fãs da série Arquivo X. Registros de 1996 apontam que a palavra já era utilizada para caracterizar os telespectadores que enxergavam envolvimento romântico entre os agentes Fox Mulder e Dana Scully. Os dois personagens formariam, então, um ship.

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Lauro Kociuba e o épico do detalhe

O texto a seguir pode conter spoilers de: Estações de Caça: Haakon I. Depois não diga que eu não te avisei…

Estou bem feliz em escrever o post de hoje. Primeiro porque vamos falar de um livro que explora a mitologia nórdica, uma velha queridinha da minha estante. Segundo porque o autor é brasileiro e lançou sua primeira obra de maneira independente através de uma belíssima campanha de financiamento coletivo.

A vitória do paranaense Lauro Kociuba é uma vitória para todo o mercado literário brasileiro. Uma prova de que estamos finalmente vencendo as barreiras que limitavam as estantes, principalmente no gênero da fantasia, às produções inglesas e americanas. E a internet conta com um papel essencial neste processo. Plataformas de publicação gratuita, campanhas de crowdfunding e principalmente o boca a boca dos fóruns de discussão estão mostrando que autores de talento podem sim pertencer ao território nacional e, a bem da verdade, a qualquer lugar do mundo. (Ainda na semana passada li um artigo maravilhoso sobre como escritores nórdicos estão vencendo as dificuldades e estreando nas livrarias do Brasil)

Foi mais ou menos o que aconteceu com o Lauro, que em 2014 estava divulgando seu livro, Alvores: A Liga dos Artesãos, uma fantasia moderna ambientada na cidade de Curitiba. As interações através da plataforma Catarse renderam um público fiel e bastante engajado, crucial para a popularização da história. Assim como centenas de anos atrás, quando as histórias ainda eram contadas oralmente, o vínculo de empatia entre escritor/leitor ou orador/ouvinte sempre será uma força poderosa.

Autor e capa de Estações de Caça - Reprodução

Autor e capa de Estações de Caça. – Reprodução

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Sobre o uso de pseudônimos

Já somos acostumados com a existência de pseudônimos no mundo literário. A prática, até bem comum, é utilizada de duas maneiras: tanto por autores em busca de um nome mais “comercial”, quanto por motivações um tanto quanto obscuras.

No primeiro caso, o pseudônimo funciona de maneira similar aos “nomes artísticos” de astros do cinema, sendo impactantes ou de sonoridade agradável. Porém, seu objetivo não é garantir o sigilo da identidade autoral. Os escritores continuam interagindo com os fãs normalmente, comparecendo a eventos e tirando fotos. Sabemos quem eles são. É o caso da autora Cora Stephan, que deciciu assinar como Anne Chaplet simplesmente por considerar que seu nome de batismo não transmitia o glamour necessário para os romances policiais.

No segundo grupo, o pseudônimo serve aos propósitos do anonimato. Cláusulas de sigilo são assinadas e existe toda uma logística para manter a pessoa por trás do livro em absoluto segredo ou, no máximo, difícil de deduzir à primeira vista. Desde que J. K. Rowling assumiu publicamente a identidade de Robert Galbraith, autor de O Chamado do Cuco e O Bicho-da-Seda, o debate sobre as razões que levam um escritor a esconder-se do público ressurgiu com força total. E é sobre elas que vamos falar.

Rowling e a capa de O Chamado do Cuco. Fonte: Deadline.com - Reprodução

Rowling e a capa de O Chamado do Cuco. Fonte: Deadline.com – Reprodução

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