TBS entrevista: Davi Paiva – Antologia Poderes

“Nenhum autor foi ferido durante o processo de criação da antologia. Todos foram instruídos, motivados e mereceram a aprovação.”

Fonte: Autoria própria - Reprodução

Fonte: Autoria própria – Reprodução

Dia desses o carteiro deixou uma surpresinha na minha porta: um exemplar da Poderes, antologia organizada pelo Davi Paiva (o grande responsável por eu acabar conhecendo a Márcia, meu braço direito no projeto Valquírias).

O livro, publicado pela Darda, reúne um total de 24 contos. Cada uma dessas histórias gira em torno da seguinte questão: o que você faria se tivesse um dom fantástico que o tornasse diferente de outras pessoas?

Confesso que, quando iniciei a leitura, estava esperando um universo digno da Marvel, com super-heróis e justiceiros em roupas coladas, saltando nos prédios de grandes metrópoles. Porém, a Poderes não é, definitivamente, sobre nada disso.

Quebrei a cara e acabei me surpreendendo com cada uma das narrativas, com cada situação apresentada pelos autores da obra. Partindo da premissa que os personagens sejam pessoas comuns, como eu ou você, que se descobrem portadores de algum talento inexplicável, a Poderes embarca numa jornada muito mais íntima, muito mais questionadora.

Em outras palavras, esqueceremos a ideia do heroísmo, do ponto de vista de sociedade, para olhar esse ser superpoderoso mais de perto, conhecer seus medos, seus anseios e suas dificuldades. Principalmente, vamos conversar sobre como a sociedade enxerga aquele que é diferente, como se sente uma pessoa que não consegue sentir-se semelhante a mais ninguém. Na Poderes, o dom é por vezes um elemento de segregação, de isolamento, além de uma enorme responsabilidade. Será que vale a pena usar o poder em benefício próprio? Ou será mais seguro escondê-lo dos curiosos?

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Maravilhada com esses questionamentos, chamei o Davi para uma conversa, onde a gente aprofunda a temática da Poderes e fala um pouco sobre a experiência de organizar uma antologia.

(Antes de começar, queria parabenizar cada um dos autores que, pasmem, não repetiram nenhum poder em 24 histórias, e ressaltar como é bacana encontrar minibiografias ao fim de cada conto, com links para sites e blogs de cada autor. Para o escritor independente, é imprescindível experimentar esse contato mais direto com o leitor, permitindo que este acompanhe seu trabalho.)

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– De onde surgiu a ideia para o tema “poderes”? No prefácio, você comenta sobre o quanto figuras com dons fantásticos maravilham a humanidade desde os mais remotos tempos. Até hoje, isso se perpetua com os super heróis, magos, lobisomens e afins. Porque o “ponto fora da curva” capta tanto a nossa atenção?

Sou fã de quadrinhos e mitologia desde criança. A ideia era algo que me acompanhava há muito tempo e preferi entrar no mercado de organização investindo em um ponto forte. Ofereci o projeto a outras editoras e aceitava dividir organização com outros “profissionais” do mercado. Hoje, fico feliz em ver que eles recusaram. Assim pude fazer tudo do meu jeito (risos).

A meu ver, a ideia do poder ser tão fascinante é porque nós o desejamos. Quem não queria ser atraente como um Narciso? Quem não queria ser forte e lutar por aquilo que acredita como um Aquiles? A inteligência de Odisseu poderia ser usada tanto para resolver problemas pessoais quanto para subir de cargo na empresa e poder ganhar muito dinheiro, não acha? Se reparar, descrevi coisas bem “humanas” como beleza, coragem e inteligência. E tudo isso é altamente desejável. Agora imagine coisas fantásticas como voar, alterar a realidade ou matar com apenas um toque.Tudo isso é muito tentador.

– Como foi o processo de criação da Antologia? Alguma história engraçada ou perrengue? Como foi a evolução dos autores?

O processo foi bem delicado. Comecei com uma postagem em meu Facebook e chamei amigos que participaram de uma antologia da qual eu havia dado uma força na organização (sem receber créditos por isso, diga-se de passagem). Alguns aceitaram e outros se candidataram. Depois expus o regulamento no blog que divido com o meu primo, o Detonerds. Em seguida montei um grupo de estudos no Facebook não só para falar do tema como também de técnicas de escrita, novidades e até material motivacional e de humor para quebrar o ritmo.

A história mais incrível que rolou ali foi quando reuni os autores já aprovados para comunicar que eu queria prorrogar o prazo. Todos aceitaram e dei mais quinze dias. Na noite do último dia, minha caixa de e-mail explodiu (risos).  Que eu lembre, só duas pessoas desse bolo não foram aprovadas (uma por ter mandado um texto pela metade e mandar o resto algumas horas depois — se todos seguiram o regulamento, não era direito de tal participante violá-lo — e uma que se recusou a reescrever o próprio conto).

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

– E como você avalia o mercado independente?

Entrei no mercado em janeiro de 2013 e publiquei em 28 antologias por 8 editoras diferentes nos mais variados temas: romance, fantasia, terror, policial, infantil, zumbi, humor, etc. Nem sempre fui “invicto” e era reprovado em alguns concursos. Quando a tristeza passava, procurava usar a experiência como força motivacional e me aprimorar ainda mais.

Depois de um tempo, vi que eu era um dos poucos a estudar para entrar em antologias. A maioria do pessoal chegava com uma bagagem cultural adquirida na escola pública, de outras mídias (filmes, séries, jogos, etc.) e literaturas mais “água com açúcar”. Cheguei a reclamar com organizadores e editores, mas apenas ignoravam o que eu dizia alegando que se subissem a nota de corte, a antologia ficava pequena e não faria sucesso. Frustrado, resolvi tocar o projeto.

O mercado independente é bem amplo. Tão amplo que qualquer um publica (risos). Daí fica a situação: se você não tiver o dinheiro para investir em seu projeto, crowfunding não é crime. E se ele não der certo, arrume dois empregos. E se você não tem nome no mercado, invista em qualidade (subentenda-se: escreva bem) para oferecer ao público um bom produto. Um livro é um produto tanto quanto sua roupa, seu alimento ou o seu celular.

– A Antologia é variadíssima em sua temática: temos horror, ação, romance, crítica social… Porém, notei que praticamente todos os contos resolveram abordar a questão do poder sob um ponto de vista negativo. Foi uma agradável surpresa pra mim, confesso: estava esperando histórias mais voltadas ao heroísmo. Nos contos, o poder é um elemento de segregação, de isolamento. Como você enxerga essa postura?

Depois de tantas guerras, crimes, casos de exploração e corrupção somados a eventos catastróficos e doenças cada vez piores, não tem como não ser pessimista. Ingleses e americanos possuem uma visão mais “preto e branco” pelo seu histórico em guerras, sejam elas as Cruzadas, a Guerra Civil nos EUA ou mesmo a Segunda Guerra Mundial. Já o brasileiro sabe o quanto apanhou, mas não perde a oportunidade de apunhalar um amigo pelas costas para vencer na vida se for necessário.

Pessoas que possuem um poder são isoladas ou são afastadas da sociedade por não serem entendidas ou por serem quase uma anomalia. A internet fez com que pudéssemos encontrar semelhantes. Mas antigamente era normal ouvir algo como “por que você lê tanto?”. E dependendo da região em que você vive, não é difícil ser taxado de criança por “ficar lendo gibi” ou “perder tempo com essas bobagens de dragões e não escrever putaria, que dá mais dinheiro”.

– Ainda nessa linha de pensamento, em quase todos os contos o poder é algo imposto ao protagonista (ou no mínimo, adquirido em situações extremas). Você acha que os personagens optariam por ter um poder? Digo isso porque todo mundo sonha em ter algum dom especial quando criança, mas sinto que o “ser diferente” é algo que assusta na idade adulta…

Em muitos casos, o poder passa a ser uma transformação na aproximação para a fase adulta. Uns ganham espinhas e outros ganham a capacidade de voar (risos).

Alguns optam por manter os dons que tiveram. Outros tendem a escondê-lo e ignorá-lo. E ainda há aqueles que se esforçam para se desfazer deles. Há contos na antologia que falam muito bem deste aspecto. Tudo isso é muito próximo da realidade: encerrei o colegial com nota C em língua portuguesa e sou formado em Letras. Por outro lado, eu era muito bom em Matemática e abdiquei da minha habilidade em troca de um conhecimento em escrita.

Fonte: Super Shadows, by Jason Ratliff - Reprodução

Fonte: Super Shadows, by Jason Ratliff – Reprodução

– A esmagadora maioria dos contos teve sua história ambientada no Brasil, mesmo quando as cenas não precisavam necessariamente que fosse dada uma localização geográfica para o leitor. Como você avalia essa tendência? Esse recurso seria uma forma de valorização da produção nacional ou uma fonte limitante para a criatividade do autor?

Vejo isso com muita felicidade. O mercado estrangeiro domina as livrarias no Brasil  ao ponto de muitos iniciantes quererem escrever narrativas nos EUA, Europa e Ásia por acharem que assim farão mais sucesso. Mal sabem que o volume de obras produzida por autores americanos, europeus e asiáticos é colossal e um bom avaliador dificilmente perderá tempo com um novato que acha que os Estados Unidos se resumem apenas a Nova York, Washington, Texas e outros estados mais populares…

A literatura com o Brasil como cenário não só é uma forma de valorização do nosso país como também traz aproximação ao leitor. Alguns autores trabalharam em conjunto e ambientaram seus contos em São Thomé das Letras, o que achei incrível. Com isso, traz ao público uma curiosidade de saber como é o lugar e também mostra que Nova York não é o único lugar onde coisas incríveis podem acontecer.

– Qual seria a reflexão maior a ser aprendida com a Antologia Poderes?

Se realmente vale a pena ter um poder, se vale a pena usá-lo e se vale a pena passar pelas conseqüências do uso ou da abdicação do mesmo.

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Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Para quem ficou curioso, recomendo também a leitura deste artigo do Davi, em que ele destaca as vantagens e desafios de participar de antologias, bem como essa entrevista concedida ao talk show da FlixTV.

Exemplares da Poderes podem ser adquiridos diretamente com os autores ou no próprio site da Darda Editora.

Participam dessa obra os seguintes autores (clique nos nomes para ser direcionado ao blog/site correspondente): Ana Alves de Souza / Andréa Bertoldo / Anelise Vaz / Angie Stanley / Camila Amazonas / Caroline Policarpo Veloso / Daniel R. Salgado / Davi Paiva / Dryh Meira / Duda Monteiro / JP Tarcio Jr. / Juliano Alves / Lucas Palhão / Marcelo S. Araújo / Marcia Dantas /Raphael Sousa / Ricardo Biazotto / Ricardo Thadeu / Samuel de Andrade / Silvia V. Fragoso / Tamires Branu / Thais Freire / Tiago Delfini / Willian Couto.

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