TBS entrevista: Gail Carriger

Quando li pela primeira vez sobre O Protetorado da Sombrinha no blog da Coruja, sabia que havia encontrado uma mina de ouro. Se não me falha a memória, comprei o primeiro livro da série logo depois numa promoção da Amazon, devorando cada uma das páginas em menos de 24h. De lá pra cá, minha fascinação por Gail Carriger só aumenta.

Fonte: Robert Andruszko – Reprodução

Afinal, como não se surpreender com alguém que é formada em Arqueologia e escreve romances góticos com pitadas de steampunk, humor, investigação policial e erotismo sobrenatural? Aliás, vocês já pararam para apreciar o guarda-roupa da Gail Carriger?

Suas histórias trabalham temas importantes de forma descontraída, como tolerância, feminismo e representatividade. Em suas palavras rebuscadas e cenas improváveis, Carriger entrega um texto provocativo, questionador. Livros que não dão a mínima para estereótipos e preconceitos sobre literatura feminina ou LGBT. Livros que sabem rir de si mesmos. Tudo isso regado a boas doses de chá e babadinhos de renda, claro (se você quiser saber mais sobre as maravilhas do Protetorado, eu fiz um post inteiro elogiando a obra).

Diante disso, sempre me incomodou o fato da Gail – olha a intimidade – não ser tão conhecida aqui no Brasil. Poxa, ela é aquele tipo de autora que está sempre interagindo com os fãs, sempre acessível e distribuindo cortesias para seus admiradores (inclusive, Gail Carriger me segue no Instagram e minha auto-estima ainda não se recuperou de tamanha lisonja). Porém, embora sua produção literária seja robusta, apenas quatro de seus livros chegaram em terras brasileiras, publicados pela Editora Valentina.

Como assim só 4 livros??  Fonte: Tumblr – Reprodução

O que é uma pena. Realmente acredito que suas histórias fazem falta por aqui. Além da questão da representatividade, é sempre bom encontrar livros que trabalhem o amor e o erótico sem romantizar relações abusivas. Isso é fundamental para desmistificar o gênero (falei mais sobre isso neste outro artigo).

Enfim, pra encurtar a história: tive a ideia maluca de entrar em contato com a Gail Carriger e fazer umas perguntinhas. Alguns emails tímidos pra lá, algumas respostas pra cá e… ACONTECEU.

O resultado você encontra aí embaixo. Mantive cada resposta bilíngue para evitar possíveis erros de tradução. Vale lembrar que o site oficial da autora conta com uma seção enorme de FAQ, por isso tive de ser criativa em meus questionamentos. Para saber coisas mais básicas, sugiro que você acesse o site e assine a newsletter dela, The Chirrup. É diversão garantida.

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TBS: Qual seria a “árvore genealógica bibliográfica” para formar alguém como você? Suas obras misturam steampunk, romance, sobrenatural, policial… O que você andou lendo para formar um background tão diverso?

GC: Bem, uma grande quantidade de Jane Austen, só que eu queria vê-la mexendo com ciência e tecnologias a vapor. Então uma grande quantidade de P.G. Wodehouse só que eu queria lobisomens no Drones Club. Sou uma leitora voraz, mas gosto de saber minhas raízes; e tudo o que escrevo vem, originalmente, do movimento literário gótico, que nos deu a maior parte da ficção de gênero comercial. Então eu tendo a pensar que tudo isso se mistura de forma bastante orgânica.

Well a great deal of Jane Austen, only I wanted her to be dabbling in science and steam technology. Then a great deal of P.G. Wodehouse only I wanted werewolves in the Drones Club. I’m a voracious reader but I like knowing my roots and everything I write comes, originally, from the late Gothic literary movement, which gave us most of commercial genre fiction. So I tend to think they all go together quite organically.

Fonte: Acervo da autora – Reprodução

TBS: Seus livros abordam a tolerância como um tema constante: racial, comportamental, de gênero… várias facetas. Isso foi planejado ou foi algo que simplesmente aconteceu?

GC: Acho que é parte do meu DNA enquanto autora, então simplesmente acontece. Tento assegurar que meus rabiscos sejam sempre divertidos, e nunca muito “ficção doutrinadora”. Mas sou quem eu sou, e meus personagens tendem a refletir isso.

I think it’s part of my DNA as an author, so it pretty much just happens. I try to make sure my scribbles are always fun, and never too “message fiction.” But I am who I am, and my characters do tend to reflect that.

TBS: Sobre representatividade: seus personagens sempre retratam um humor caricato. Os exageros de Lorde Akeldama, o temperamento curto de Lorde Maccon. Ainda assim, eles são dignos. Todos possuem sua dignidade e são respeitados enquanto personagens. Como é escrever sobre “o diferente” sem cair em estereótipos?

GC: Lá no fundo suponho que o que escrevo é paródia, o que (até certo ponto) requer exagero. Eu adoro o burlesco e aprecio todas as facetas de humor; do pastelão ao humor inteligente, dos jogos de palavras aos trocadilhos. Contudo, ainda que eu escreva dessa forma, sinto que meus personagens precisam ser capazes de gerar identificação, não importa o quão absurdo, ou eles não serão nada mais que caricaturas, profundidade ainda é importante porque é o que torna alguém “amável”. E eu quero que eles sejam amados.

At root I suppose what I write is parody, which (to a certain extent) requires exaggeration. I like farce a lot and I enjoy all facets of humor from slapstick to wit to wordplay to puns. However, even as I write this I feel my characters need to be relatable, no mater how absurd, or they are nothing more than caricatures, depth is still important because that’s what makes someone loveable. And I want them to be loved.

TBS: Já aconteceu de suas temáticas terem despertado preconceito por parte de leitores ou editores?

GC: Na maioria das vezes, não. Uma vez recebi o mais polido e bem escrito email raivoso. Alguém havia lido toda a minha primeira série (5 livros!) e então decidido ofender-se porque eu parecia apoiar os direitos dos homossexuais. E eu estava tipo “Você não percebeu isso desde o primeiríssimo livro?”.

Mostly no. I once got the politest and most well written angry email. Someone had made it all the way through my first series (5 books!) and then decided she was offended that I seemed to be in support of gay rights. I wanted to be, like, “You didn’t figure that out from the very first book?”.

Fonte: Tumblr – Reprodução

TBS: Acredito que todo autor passa por algum momento de síndrome do impostor: pensar que seu trabalho não atinge os padrões. Vi seu comentário, em sua “Entrevista sem Fim”, onde diz que, por causa de seu estilo, seria improvável para você ser indicada ao prêmio Hugo. Como você enxerga essa questão e faz as pazes com sua auto-estima?

GC: Bem, comédia é raramente levada a sério, por boas razões, eu suponho. Mas acho que eu devo ser bem desconcertante para ser levada a sério. Se eu for considerada como uma excêntrica então eu posso ser subversiva, então há um tipo de poder estranho aqui. Eu saio vagando, escrevendo o que escrevo, sabendo que não é para todo mundo, e torcendo para que as pessoas gostem. No final, não posso fazer mais do que isso, então alcancei minha paz.

Well comedy is rarely taken seriously, for good reason, I suppose. But I think I should be rather disconcerted to be taken seriously. If I’m regarded as a fliberty-jibbit then I can be subversive, so there is an odd kind of power in it. I bumble along, writing what I write, knowing it’s not for everyone, and hoping people enjoy it. In the end, I can’t do more than that, so I’ve made my peace.

TBS: Como você enxerga o processo de publicação hoje em dia? Quero dizer, existe a internet, um relacionamento bem mais próximo com os fãs, ebooks, auto-publicação e toda uma exibição de marketing que teria deixado bem surpresos os autores de décadas atrás…

GC: Sim, é bem diferente. Eu agradeço aos céus todos os dias por ter sido criada na era da internet, próxima ao Vale do Silício, e abraço as mídias sociais. Não sou uma autora do tipo “fortaleza solitária”, então aprecio a companhia online de meus colegas autores e dos meus leitores. É um dos motivos pelos quais frequento tantas convenções.

Yes, it’s very very different. I count my blessing every day that I was raised in the internet age, near silicon valley, and embrace social media. I’m not a “solitary tower” kind of author, so I enjoy the company online of my fellow authors and my readers. It’s one of the reasons I do so many conventions.

TBS: A mitologia em O Protetorado da Sombrinha parece combinar perfeitamente com o ambiente da Londres vitoriana. Especialmente no caso dos vampiros, são criaturas que encaixam bem em todas aquelas mansões suntuosas e todo aquele chá. Eles são “bastante ingleses”. Com muitos de seus livros sendo publicados em outros países, você teme que parte dessa sensação se perca? Digo, poderia a cultura e o idioma mudarem a forma como nós interpretamos histórias?

GC: Eu me preocupo com isso, e o humor. Mas os livros são bastante populares em locais como França, Alemanha, Japão e (é claro) Brasil. Então algo parece funcionar direito através das barreiras de linguagem.

I worry about it, and the humor. But the books are pretty popular in places like France, Germany, Japan, and (of course) Brazil. So something seems to work across language barriers.

Fonte: Vanessa Applegate – Reprodução

TBS: Este é primariamente um blog sobre fantasia. Então gostaria de saber: qual é a definição de fantasia para Gail Carriger?

GC: Fantasia? Um gênero de ficção comercial, cuja versão ocidental baseia-se principalmente em tropos e arquétipos da literatura romântica gótica do século XIX, na qual magia (ou alguma iteração dela) desempenha um papel primordial no enredo e no cenário-enquanto-personagem. 

Fantasy? A commercial fiction genre, the Western version of which draws primarily on tropes and archetypes of the romantic Gothic literature of the 19th century, in which magic (or some iteration there of) plays a primary role in the plot and setting-as-character.

TBS: Suponha que seus leitores tenham esgotado todos os seus livros: nem mais uma palavra de Gail Carriger até que algo novo seja lançado. Que outros autores você recomendaria, num estilo próximo, para que essa espera fosse menos traumática?

GC: Eu na verdade tenho um post inteiro dedicado exatamente a esse tópico! Minha primeira recomendação seria Sorcery and Cecelia (Wrede e Stevermer), que é uma série de fantasia histórica. Ou então Newt’s Emerald (Garth Nix), que é um romance de fantasia histórica regencial misturada com um estilo bem próximo ao meu.

I actually have an entire blog post dedicated to this very topic! My first reccomendation is Wrede & Stevermer’s Sorcery & Cecelia series which is a gaslight fantasy series. Or Newt’s Emerald by Garth Nix, which is a gaslight fantasy regency romance mix very close to my own genre style.

TBS: Última pergunta, capciosa, claro: o que Gail Carriger tem a dizer sobre o Brasil?

GC: Bem, Gail Carriger já foi uma arqueóloga então ela quer visitar e dar uma boa olhada em todas as coisas antigas. E, é claro, comer toda a comida de vocês. Toda ela.

Well Gail Carriger was once an archaeologist so she wants to visit and go tromping around looking at all the ancient THINGS. And, of course, eat all your food. All of it.

Valeu, Gail. :)
Ei, Valentina, traz mais coisas dessa diva pra gente!

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