TBS entrevista: Raquel Machado

“No caminho pensei em como a minha vida era boa: eu amava Alan e ele era bom pra mim. Pobre Nicole, não merecia morrer daquele jeito. Ela era tão divertida e cheia de vida. E agora estava morta.”

Arquivo pessoal da autora - Reprodução

Arquivo pessoal da autora – Reprodução

Raquel Machado é formada em Ciência da Computação e mora na cidade de Caxias do Sul/RS com os pais, quatro cachorros e uma estante cheia de livros. Há anos participando do mundo das artes, e principalmente, da literatura, decidiu tirar do baú uma de suas histórias e compartilhá-la com o mundo. Vingança Mortal é seu romance de estreia.

Recheado de suspense, o enredo acompanha a história de Brenda, surpreendida com a notícia da repentina morte de sua amiga de infância, Nicole. Brenda decide voltar à sua cidade natal, Lageado Grande, acompanhar o velório e reencontrar antigos colegas de escola. Mas existe algo de muito estranho no suposto acidente que tirou a vida de Nicole. Será que o tempo poderia ter mudado até as pessoas que ela imaginava conhecer tão bem?

Nesta entrevista, Raquel fala sobre o processo de criação de seu livro e sobre o mercado de publicações independentes.

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– Raquel, vi que você é formada em Ciência da Computação. Muita gente tem preconceito de que o mundo das Artes e o mundo das Exatas não se misturam, mas você vai na contramão disso tudo. Como é, pra você, viver entre as duas áreas? Sua experiência profissional te ajudou na escrita do livro?

Na minha opinião, o mundo das Exatas complementa o mundo das artes e vice-versa. Porque se pararmos para pensar, todos nós somos seres lógicos e racionais, mas ao mesmo tempo cheios de sentimentos. Para mim a divisão é muito clara, entrei para o mundo das artes ainda criança, comecei a fazer teatro quando tinha apenas 7 anos e já me aventurei em corais, na dança e sempre adorei escrever. Isso nasceu comigo. Porém, infelizmente essas carreiras não são tão bem valorizadas no nosso país: ou você tira a sorte grande e realmente consegue viver disso, ou acaba sendo marginalizado. Tendo isso em mente, sabia que precisava pensar no meu futuro financeiro e em ter uma vida estabilizada, então acabei caindo no mundo das Exatas, mais particularmente na área da Informática, que também amo muito. Gosto muito de estar envolvida nesses dois meios, porque como disse, um complementa o outro.

– Você comenta em sua biografia que já tinha várias histórias na forma de rascunhos. Quando surgiu essa vontade de publicar e a certeza de que Vingança Mortal era o enredo certo?

Então, como escrevo desde criança tenho muitas histórias, e eu sempre soube que uma hora ou outra iria querer publicá-las. Foi no ano passado (2014), quando uma amiga minha me falou que a Amazon estava com um incentivo para novos escritores na publicação de seus livros, que senti que era a hora. Já estava formada, trabalhando, etc…enfim, estabilizada. Escolhi o Vingança Mortal pois achei que ele era o que estava mais “redondinho” em questão de enredo e que não precisaria de muita revisão.

– Vingança Mortal foi publicado quase de maneira independente, utilizando o Clube de Autores e a Amazon. Como foi o processo de publicação e como você avalia sua experiência com o método?

Isso é engraçado, pois nunca tinha imaginado fazer uma publicação independente, mas a coisa aconteceu gradativamente. Quando minha amiga falou sobre a publicação da Amazon, decidi pesquisar para ver como funcionava. Minha ideia inicial era lançar o livro em formato digital e se uma pessoa lesse, eu já estaria feliz. Porém, ao pesquisar melhor vi que eles também disponibilizavam o formato físico e pensei comigo “porque não, seria muito legal ter meu próprio livro na estante”. E quando falei isso para minha cunhada ela disse “porque você não faz um lançamento aqui na cidade?”, então comecei a correr atrás disso. Como tinha os arquivos prontos e já conhecia o Clube de Autores, decidi também disponibilizar minhas histórias por lá, afinal, em quanto mais lugares estiver melhor, não é? Depois que isso passou, eu não queria que minha história morresse, então comecei a realizar a parceria com os blogs literários, pois são pessoas que tem me ajudado muito tanto em divulgação como em incentivo para continuar nesse caminho (sabem que adoro vocês). O que posso dizer de toda minha experiência é que ela foi muito enriquecedora em diversos sentidos, além de ter realizado esse meu grande sonho, conheci muitas pessoas, consegui compartilhar minha ideias com elas, e fiquei muito feliz com cada comentário que recebi, porque como digo, esse sempre foi o melhor prêmio que um escritor poderia receber.

Em suas previsões para a Indústria Literária, Mark Coker afirma que autores independentes, desvinculados de grandes editoras, vão capturar uma fatia maior do mercado de ebooks em 2015. Você vivencia esse potencial dos livros digitais entre os escritores estreantes?

Como disse anteriormente, minha ideia inicial era começar pelos livros digitais. Mas infelizmente não tenho visto tanto retorno assim nesse quesito, vejo que as pessoas ainda preferem o livro físico em mãos do que a leitura digital, e não as culpo por isso, pois eu mesma sou assim. Claro que a leitura digital ajuda em vários pontos, mas ainda estou testando isso. Inclusive criei para mim uma conta no Wattpad, onde os autores colocam provas dos seus livros online gratuitamente para as pessoas lerem, estou tentando me organizar para lançar alguma coisa por lá e ver como funciona.

– Você enxerga a internet como o grande divisor de águas para os autores independentes?

Com certeza. Na realidade eu vejo a internet como um divisor de águas para a literatura em geral. Olha só, antigamente como você conhecia um autor novo? Ou você ia em uma biblioteca ou em uma livraria e tentava encontrar algo do seu estilo, o que às vezes era bem complicado, deixando as pessoas viciadas somente em um tipo de leitura. Com a internet, a divulgação de livros cresceu exponencialmente. Todos os dias temos notícias de livros que estão saindo para todos os gostos e estilos. Quanto a nós escritores independentes, ganhamos um meio de divulgar nosso trabalho, onde podemos abranger mais pessoas.

– O grande trunfo do livro de suspense é conseguir manter seus leitores curiosos e ao mesmo tempo amedrontados. O famoso “quero ver o que é mas tenho até medo de olhar” (risos). Onde você buscou inspiração para dar esse tom ao livro? Quais seus autores favoritos no gênero?

Então, minha grande inspiração para escrever o Vingança Mortal, foi o Sidney Sheldon, sou completamente fã dele e já li todos os seus livros, sua forma de levar o suspense sempre me agradou muito.

– Uma das coisas, a meu ver, que contribui para o clima de suspense em Vingança Mortal é o número de personagens e suas personalidades. São seis amigos de longa data, cada um completamente diferente do outro, cada um carregando seus problemas e paixões. Como foi o processo de construção de cada uma das personas? Foi difícil mantê-los coerentes às suas personalidades ao longo das cenas e diálogos?

Isso é uma pergunta bem interessante, desde que tive a ideia do livro eu sabia que queria personagens distintos, ligados por um laço de amizade. Isso pois queria demonstrar as características de nós humanos mesmo, afinal somos todos diferentes. Então, tracei seus perfis, e ao decorrer da história eles foram ganhando vida própria nas suas falas e ações, foi algo natural.

– O enredo de Vingança Mortal é ambientado em duas cidades reais, Caxias do Sul e Lageado Grande. Alguns escritores preferem utilizar cenários fictícios pela liberdade de criação. Outros, gostam mais de descrever locais onde já estiveram, para garantir um clima realista. E para você? Houve alguma dificuldade na história ao escolher duas cidades do Rio Grande do Sul?

Outra pergunta interessante. Como escrevi o Vingança Mortal quando tinha 15 anos e isso faz algum tempo, a minha ideia inicial era que a história se passasse nos EUA, pois eu mesma tinha a impressão de que se fosse fora do país seria melhor. Porém, com o tempo amadureci, e vi que temos tantas paisagens lindas por aqui mesmo, e decidi que minha história seria no Brasil. Eu precisava de uma cidade do interior que tivesse um ar de mistério, e sempre passei por Lageado Grande ao ir para praia, ficava fascinada com seus campos, principalmente no inicio da manhã onde a geada baixa e temos um tom misterioso. Então, estava decidido que ia ser Lageado. E Caxias entrou, pois é minha cidade natal e fica próxima a Lageado, acho que encaixou perfeito. Inclusive uma das coisas que me fez muito feliz foi poder fazer uma sessão de autógrafos no próprio Lageado Grande, e passeando pela cidade fiquei imaginando onde os personagens poderiam morar, aonde eles frequentavam, foi muito legal e emocionante.

– Ainda sobre a história, temos cenas que mostram a adolescência da protagonista Brenda, 20 anos antes do desenrolar da trama de Vingança Mortal. Achei interessante a maneira como você insere pequenos detalhes para criar uma atmosfera saudosista, anos 80/90, muito gel e jaquetas de couro (risos). Como foi escrever essas cenas?

No início da história não tinha essa parte da adolescência dos personagens, mas ao lê-la novamente decidi que seria fundamental para termos uma base de como eram as coisas e de como elas ficaram com o passar dos anos. Me diverti muito ao escrever essa parte, pois lembrei de cenas de minha própria adolescência (como as aulas de educação física), e consegui dar um tom mais leve ao livro, antes de começar com o real mistério do enredo.

– Você está trabalhando em alguma outra história? Quais seus planos para o futuro?

Sim, sempre. Minha cabeça anda a milhão e está difícil escolher para qual história dou atenção primeiro. Sou uma pessoa de ideias, então posso dizer que tenho pelo menos mais umas 5 ideias de histórias completamente diferentes na cabeça. Meu grande problema é o tempo, tempo para sentar e escrever. Esse ano eu gostaria de finalizar uma delas, que a meu ver está mais pronta. É um livro de contos chamado “Histórias do Povo”, onde cada conto é relacionado ao dia-a-dia das pessoas e às decisões que temos que tomar na vida, todos com um tom divertido. No livro, o próprio leitor poderá escolher o final, como naqueles livros de RPG. Se quiser o final 1 vá para página x, se quiser o final 2 vá para página y. E nele teremos as mais diversas situações como: “Será que caso ou compro uma bicicleta?” “Será que sigo a dieta ou me acabo nos doces?” “Será que ligo no dia seguinte ou não?”. Acho que vai ser bem legal.

– Por fim, se você pudesse dar um conselho para aqueles que também desejam se tornar autores, qual seria?

Leiam muito, a leitura é fundamental para quem quer escrever, tanto pelo português correto como pelo aprendizado que ela nos traz. Escrevam muito, sempre tentando aprimorar suas histórias, pensando “isso é algo que eu gostaria de ler?”. Planejem pequenos objetivos e metas e vão executando elas devagar, pois assim você verão os pequenos frutos nascerem e com certeza vão se animando a continuar nesse caminho. E por fim tenham muita perseverança e persistência, as vezes seguir por esse caminho não é fácil, terão muitas respostas negativas pelo caminho, muitas pessoas que vão querer te puxar para trás, mas lembrem-se  que os frutos que serão colhidos no final valerão todo o esforço de vocês.

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Para entrar em contato com a Raquel Machado e acompanhar seu trabalho, acesse:

Leitura Kriativa (blog onde a Raquel fala sobre livros)

Fanpage da autora no Facebook

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É possível adquirir exemplares de Vingança Mortal diretamente com a autora, ou nas livrarias Amazon e Clube de Autores. A versão em ebook também pode ser adquirida na Saraiva. Além disso, para ler os primeiros capítulos, basta clicar aqui.

O TBS agradece à Raquel pela atenção e simpatia, com os melhores votos de sucesso. Queremos ver mais livros seus por aqui!

Arquivo pessoal da autora - Reprodução

Arquivo pessoal da autora – Reprodução

A maldição do primeiro capítulo
Aviso: Projeto Histórias

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