Here be Dragons – vamos falar sobre dragões

Desde que li o segundo livro da série Temeraire, da Naomi Novik, tenho andado às voltas com um tópico bem querido para os leitores de fantasia: dragões. Um assunto que só fez crescer com a chegada de mais uma temporada de Game of Thrones.

Fonte: mikeazevedo.deviantart.com - Reprodução

Fonte: mikeazevedo.deviantart.com – Reprodução

Pensava eu: quase todas as culturas, em algum ponto de sua História, chegaram ao conceito do dragão. Um conceito que converge. É como se o dragão fosse uma das mais antigas e proeminentes criaturas folclóricas de todos os tempos, encontrada nas bandeiras chinesas, nas armaduras medievais, nos escudos vikings, nos símbolos de realeza do Vietnã. E ao mesmo tempo, se é tão difundido, como poderia ser uma figura tão flexível?

Se pensarmos em outros seres fantásticos, veremos que sua caracterização é bem delimitada. Um unicórnio sempre será, de modo geral, um equino com um chifre único, costumeiramente branco. Um vampiro (mesmo os que brilham no Sol e nos matam de vergonha) sempre será um ser que se alimenta de sangue. Embora existam variações, a criatura mantém certos traços.

Mas e o dragão? O que faz de um dragão…um dragão?

A habilidade de cuspir fogo? Ora, essa não é uma regra geral. As asas? Também não são necessárias. A semelhança com um réptil coberto por escamas? Então o que dizer de Falkor, o dragão-bichinho-de-pelúcia-com-cara-de-cachorro de História Sem Fim?

De alguma forma, o dragão me fascina por sua capacidade de apresentar-se em formas tão diversas, com comportamentos e significados tão opostos. E, no entanto, a figura de um dragão é rapidamente reconhecida por nós, é um símbolo instintivo para a mente humana. Você sabe que aquilo é um dragão…porque é.

Acredite ou não, estamos falando sobre a mesma criatura... Fonte: Cenas de História sem Fim e O Senhor dos Anéis - Reprodução

Acredite ou não, estamos falando sobre a mesma criatura… Fonte: Cenas de História sem Fim e O Senhor dos Anéis – Reprodução

Seguindo essa linha de pensamento, no post de hoje conversaremos um pouco sobre arquétipos, o papel do dragão na História e sua participação no mundo dos livros, sobretudo de fantasia.

De onde surgiu o conceito do dragão?

Muitos especialistas já tentaram determinar as origens da lenda. Afinal, embora quem conte um conto aumente um ponto, a figura do dragão deve ter saído primordialmente de algum lugar, certo?

Bem, não necessariamente.

Podemos encontrar na natureza diversos animais com características semelhantes aos dragões, que podem ter servido como inspiração. Serpentes, iguanas, dragões de komodo e lagartos voadores são possíveis fontes. Algumas teorias atribuem a paternidade dos dragões aos crocodilos do Nilo, enquanto outras afirmam que a descoberta de fósseis de dinossauros e ossos de baleia levaram os povos antigos a conjecturar sobre lagartos gigantes e monstros marinhos colossais, criando as bases para a lenda, que mais tarde se espalharia pelo globo.

No entanto, se analisarmos a ocorrência dos dragões em manifestações mitológicas, alguma coisa parece fora do lugar. Como povos que jamais se encontraram e advindos de ecossistemas tão distintos puderam chegar a um ser fantástico equivalente? Era de se esperar que cada cultura criasse um monstro baseado em sua própria fauna. É por isso, por exemplo, que não encontramos registros de unicórnios em lendas da América do Sul: os cavalos simplesmente não existiam por aqui antes da colonização (a própria Mula Sem Cabeça é um mito bem “recente” em terras brasileiras).

Possíveis inspirações? Fonte: Montagem própria

Possíveis inspirações? Fonte: Montagem própria

O antropologista David E. Jones, autor do livro An Instinct for Dragons, pode trazer uma luz ao assunto. Ele argumenta que a figura do dragão é um conceito inato para a mente humana, um arquétipo que já nasce conosco, instintivo.

Um estudo conduzido nos anos 80 consistia em mostrar a um filhote de macaco simultaneamente o vídeo de uma serpente e de outros macacos assustados. O filhotinho, que inicialmente era indiferente ao réptil, rapidamente desenvolvia um sentimento de medo pela serpente. No entanto, quando observava o vídeo de uma flor junto à gravação de outros macacos assustados, o macaquinho não apresentava nenhuma reação negativa. O estudo concluiu que, embora nossos medos sejam sim definidos por nossas experiências e interações sociais, existem certos arquétipos incutidos em nosso cérebro que definem o que pode ser considerado assustador ou impactante. Assim, mesmo que todo mundo tema uma flor, enquanto a plantinha não lhe fizer mal, você dificilmente se sentirá ameaçado por ela.

Dessa forma, o dragão funcionaria para nós como a serpente funciona para o macaquinho. Ele é a representação inata de nossos medos enquanto presa. Não é a toa que ele apresenta, em sua forma mais “clássica”, caninos pontudos, olhos vidrados, pele escamosa, língua bifurcada e garras compridas. Para David E. Jones, o dragão surgiu a partir da combinação entre os medos ancestrais e o folclore local, o que explicaria porque ele existe em quase todas as culturas e porque sua imagem varia tanto. Também nos daria uma boa base para explicar o costume de escrever “hic dunt dracones” em áreas de mapa que não fossem conhecidas pelos viajantes, o que originou a famosa expressão “here be dragons” (aqui há dragões). O medo do desconhecido ativaria essas memórias ancestrais de perigo, nos fazendo imaginar uma série de criaturas assustadoras.

O que um dragão costumava significar?

Assim como sua representação física, o significado do dragão varia imensamente, a depender da localização geográfica e do período histórico abordado. De modo geral, podemos identificar três correntes:

1) O intelectual, afortunado e divino

A visão do dragão como um ser celestial, muitas vezes divino, dotado de grande sabedoria e bondade é típica das culturas orientais. No Oriente, o dragão é muitas vezes associado à boa sorte e fortuna, sendo costumeiramente representado junto ao elemento água, indicando pureza e bondade. Na China, acreditava-se que dragões habitavam mares e lagos, enquanto os vietnamitas afirmavam que eram capazes de criar a chuva, tão necessária para as plantações. Ele também é o símbolo da realeza, do poder político.

Shenlong, em Dragon Ball, o típico dragão oriental. Fonte: watchdbsuper.com - Reprodução

Shenlong, em Dragon Ball, o típico dragão oriental. Fonte: watchdbsuper.com – Reprodução

Nessa representação, o dragão raramente está associado à destruição, e por isso é difícil encontrar alusões à capacidade de cuspir fogo. Aqui, o dragão é um ser quase etéreo, muito superior ao homem, conhecedor dos segredos do Universo e movido por um código de ética e tradição. Não à toa, aqui o dragão aparece como uma figura mística, capaz de transitar entre dimensões e conceder poderes sobrenaturais. É uma criatura perigosa, digna de ser reverenciada, porém intrinsecamente benevolente. Sua presença é uma honra, uma dádiva para os homens.

Exemplo: Saphira (Eragon) e Temeraire (Temeraire)

2) A força incontrolável da natureza

Nesta interpretação, o dragão não é visto como um ser “consciente”, mas sim como uma força bestial de grandes poderes. O dragão aqui age como um animal, movido por instintos. Ele não é nem mocinho nem vilão, é apenas uma fúria capaz de sobrepujar a humanidade. É a natureza em sua mais pura forma, simbolizando a aliança entre morte e vida, criação e destruição.

Antigos povos do México e América do Sul acreditavam em uma grande serpente voadora recoberta de penas, cujo papel é destruir o mundo para gerar renovação. Ou seja, o ser representava a fatalidade das catástrofes naturais, como vulcões, furacões, incêndios e maremotos, incidentes destrutivos mas que abriam brechas para novas formas de vida, renovação. O dragão aqui simboliza a coesão da natureza, o ciclo do renascimento.

Os anglo-saxões e povos nórdicos também enxergavam os dragões por essa linha de pensamento (principalmente na forma das serpentes marinhas). As cabeças de dragão eram entalhadas e postas na proa dos barcos para afastar os maus espíritos, enquanto o símbolo do dragão era gravado em escudos e armas. Para eles, era uma criatura a ser temida, mas cuja força era desejada pelos guerreiros. A destrutividade da fera era uma característica que todo guerreiro gostaria de incorporar, de personificar. O dragão é um inimigo, mas um inimigo a ser admirado. Uma inspiração.

Capa de A Dança dos Dragões. Fonte: Leya - Reprodução

Capa de A Dança dos Dragões. Fonte: Leya – Reprodução

Exemplo: Rabo Córneo Húngaro (Harry Potter) e Drogon (Game of Thrones)

3) A fera, o mal, o pecado

Se por um lado o Oriente tende a enxergar os dragões como seres benevolentes, no Ocidente é comum que a criatura seja a personificação do mal. Aqui temos novamente um animal inteligente, com consciência própria, porém sempre mal intencionado. O dragão é descrito como uma criatura astuta, ardilosa e gananciosa, capaz de trair e enganar para obter o que deseja.

Porém, quando dizemos que esta é uma interpretação ocidental, é importante frisar que as coisas nem sempre foram deste modo. A vilanização do dragão, sua consolidação como monstro, foi em grande parte obra da Igreja Católica.

Para a instituição, era crucial manter na mente de seus fiéis o conceito da dicotomia entre o bem e o mal, o claro e o escuro, o divino e o mundano. A maioria das criaturas folclóricas, então, recebeu um viés obscuro, monstruoso. O dragão sofreu ainda mais com essa distorção, uma vez que o arquétipo do réptil maléfico foi escolhido para personificar uma construção ainda mais forte: o demônio.

Não é a toa que a serpente simboliza as forças do mal na Bíblia. Provavelmente, a Igreja também percebeu o medo inato causado nas pessoas por répteis rastejantes de olhos vidrados, ainda que tenha percebido isso de modo inconsciente.

O dragão foi então permanentemente associado às forças das trevas. No Antigo Testamento, ele aparece no Livro de Jó como o demônio Leviatã. Também é considerado o símbolo do quinto pecado, a Inveja, também sendo tratado com um dos sete príncipes infernais. O fogo, outro elemento que faz alusão ao Inferno, também tornou-se recorrente.

Full title: Saint George and the Dragon Artist: Gustave Moreau Date made: 1889-90 Source: http://www.nationalgalleryimages.co.uk/ Contact: picture.library@nationalgallery.co.uk Copyright © The National Gallery, London

Fonte: Saint George and the Dragon, Gustave Moreau – Reprodução

A partir daí, a mitologia só cresceu. O matador-de-dragões tornou-se uma figura lendária, um personagem comum nas histórias medievais, com um propósito muitas vezes considerado santo (quem não conhece a trajetória de São Jorge?). Ao dragão foi dada a sede pelo ouro, um gosto peculiar por devorar mocinhas virgens e o papel de adversário favorito para príncipes e guerreiros valorosos (aqueles que geralmente terminavam com a mocinha).

Exemplo: Smaug (O Hobbit) e Glaurung (Os Filhos de Húrin)

Isso está mudando?

Sim!

Estamos vivendo uma fase onde seres mitológicos deixam de ser temidos para se tornarem personagens aclamados, com os quais nos conectamos e pelos quais torcemos.

Essa inversão mitológica acontece principalmente devido às mídias de entretenimento (livros, cinema, HQs, programas de televisão) que permitem ao leitor explorar estas criaturas de um ponto seguro, do alto da narrativa. O seres fantásticos passaram a nos fascinar.

Fonte: masateru.deviantart.com - Reprodução

Fonte: masateru.deviantart.com – Reprodução

Nas palavras do próprio Tolkien, quando perguntado sobre dragões:

“Of course, I in my timid body did not wish to have them in the neighborhood, intruding into my relatively safe world, in which it was, for instance, possible to read stories in peace of mind, free from fear. But the world that contained even the imagination of Fafnir was richer and more beautiful, at whatever cost of peril.

Claro que, eu no meu corpo tímido não desejaria tê-los em minha vizinhança, intrometendo-se no meu mundo relativamente seguro, no qual, por exemplo, é possível ler histórias em paz, livre do medo. Mas o mundo que continha até mesmo a imaginação de Fafnir era mais rico e mais bonito, seja lá a que custo de perigo.” 

*Fafnir: dragão derrotado por Sigurd – mitologia nórdica.

Ou seja, enquanto povos ancestrais tremeriam diante da descrição do dragão Smaug, de O Hobbit, a escrita de Tolkien nos mostra tantas nuances que passamos a considerá-lo um personagem incrível, o favorito de muitos, apesar de seu papel antagônico.

(Claro que se Smaug surgisse no mundo real todo mundo sairia correndo…mas vocês me entenderam, certo?)

Outro fator que pode explicar a popularização dos dragões é o fenômeno das feras infantilizadas, adaptadas para o universo das crianças. Um “fluffly dragon”, como Banguela de Como Treinar seu Dragão, a fêmea rosada de Shrek e o próprio Barney (embora seja um dinossauro), contribuem para suavizar o arquétipo do dragão na mente das crianças. Em vez de considerá-lo um bicho papão de histórias assustadoras, as novas gerações enxergam o dragão como um animal interessante, passível de ser domesticado, leal e muitas vezes…fofinho.

Como não amar? Fonte: cineindiscreto.wordpress.com - Reprodução

Como não amar? Fonte: cineindiscreto.wordpress.com – Reprodução

O dragão, a fantasia e os livros

Assim como boa parte dos mitos ancestrais, os dragões podem ser encontrados em diversas referências na Literatura.

Além da própria Bíblia, é possível obter relatos sobre as criaturas na Epopéia de Gilgamesh, saga de Volsunga, Beowulf e algumas obras do Oriente.

Nos livros, muitas vezes temos o dragão como uma representação de um obstáculo, uma barreira simbólica que o herói deve atravessar. Na construção da Jornada do Herói, o dragão é constantemente utilizado como metáfora para simbolizar esse crescimento do protagonista. O dragão, por sua natureza selvagem e seu poder descomunal, simboliza bem problemas aparentemente intransponíveis. Somente “um herói de verdade” teria coragem suficiente para desafiar o senso comum.

Muito do que conhecemos hoje como a figura de um dragão tradicional deve-se ao trabalho de Tolkien e Lewis, cujas visões baseavam-se bastante na mitologia anglo-saxã. Os dragões de Tolkien são cruéis, criaturas de Morgoth, amantes de tesouros. O que faz até sentido, uma vez que o autor era um grande apreciador do cristianismo. Porém, como por outro lado Tolkien nutria uma paixão profunda pela cultura anglo-saxã, Tolkien optou por não torná-los simples demônios. Ao invés disso, acrescentou camadas de desenvolvimento psicológico, dando às criaturas uma profundidade impressionante. Smaug é elegante, tem uma desenvoltura nata, domina a oratória e cresce na narrativa. Ele fica no meio termo entre a concepção da Igreja e as lendas de bestas mitológicas.

Com o passar dos anos, porém, a figura do dragão vem dando lugar a uma outra personificação: a dos próprios humanos. Personagens como Temeraire e Saphira, por exemplo, poderiam muito bem ser figuras humanas, se deixarmos para lá o fato de serem lagartos gigantes. Eles possuem personalidade, conflitos e emoções diversas.

De minha parte, prefiro obras que abordam dragões como animais, independente de poderem ser domesticados ou não. É a fúria, a força e a selvageria que me encantam na criatura, o que talvez explique porque não vou muito com a cara de Eragon. A polidez de Saphira, sua educação e sabedoria adquirida sem esforço me irritam um pouco, como se ela fosse à prova de falhas. Algo que acredito não combinar com o arquétipo de um dragão.

Independente disso, a figura dos dragões é algo que perdurará. Ela está em nosso subconsciente, passada de geração em geração, reforçada pelos livros, recontada nas histórias. É um símbolo humano, um símbolo natural: nossa antítese e também nossa personificação. Quando enfrenta um dragão, o homem aceita o fato de ser fraco perante o mundo, ao mesmo tempo em que grita: ei, vamos lá, não posso aceitar tudo isso aqui parado. Quando faz amizade com um dragão, o homem comunga com a própria natureza.

A fantasia, como um gênero alimentado por metáforas, agradece.

Fonte: chasestone.deviantart.com - Reprodução

Fonte: chasestone.deviantart.com – Reprodução

“I never imagined that the dragon was of the same order as the horse. And that was not solely because I saw horses daily, but never even the footprint of a worm. The dragon had the trade-mark Of Fairie written upon him. In whatever world he had his being it was an Other-world. Fantasy, the making or glimpsing of Other-worlds, was a profound desire.I desired dragons with a profound desire. – Tolkien

Eu nunca imaginei que o dragão fosse da mesma ordem que o cavalo. E isso não era somente porque vejo cavalos diariamente mas nunca nem mesmo a pegada de um dragão. O dragão tem a marca do encantamento escrita sobre ele. Qualquer mundo em que esteja presente é um Outro-Mundo. Fantasia, o criar ou vislumbrar de Outros-Mundos, era um desejo profundo. E eu desejei dragões com um profundo desejo. – Tolkien”

 

#LendoSandman – Espelhos Distantes
AVISO: Autoras selecionadas para Antologia Valquírias

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