Tolkien x Personagens femininas: quem vai atirar a primeira pedra?

Falar sobre Tolkien é sempre um assunto complicado.

Primeiro porque mexe com questões afetivas, com histórias muito amadas e que me formaram enquanto leitora. E segundo porque falar sobre Tolkien não é simplesmente analisar um livro ou uma ideia, mas sim todo um legado, a obra de uma vida que trouxe tantos desdobramentos que é quase impossível falar sobre fantasia moderna sem mencionar O Senhor dos Anéis. O trabalho de Tolkien está arraigado em nossa cultura.

Óbvio que um tema tão querido e complexo continua sendo debatido à exaustão. Para quem não sabe, existe até um periódico exclusivo para a publicação de artigos científicos cujo foco é a Terra Média, o Journal of Tolkien Research. E foi justamente navegando pela primeira edição publicada em 2014 que dei de cara com o artigo de Deidre A. Dawson, que nada mais é do que uma alongada resenha do livro “Perilous and Fair: Women in the Works and Life of J.R.R. Tolkien“, um compilado de ensaios revisados e editados por Janet Brennan Croft e Leslie Donovan.

Fonte: Tumblr – Reprodução

O objetivo do livro, como o próprio nome sugere, é passear sob um ponto de vista acadêmico pelos diferentes aspectos de um assunto pra lá de incômodo: onde estão as personagens femininas da Terra Média? Era desejo de Tolkien deixá-las deliberadamente de fora da ação? Seria O Senhor dos Anéis uma obra sexista?

Essa discussão não é de modo algum nova, mas sem dúvidas é uma problemática que vem ganhando mais e mais espaço graças à popularização do feminismo e dos debates sobre gênero e papéis sociais. De fato, como argumenta a autora de um dos ensaios contidos no livro, “apenas dois artigos focando nas personagens femininas de Tolkien foram publicados nos anos 70; nos anos 80, o número aumentou para quatro; na década seguinte, foram apenas três. Em contraste, durante a primeira década do século XXI, tivemos vinte e três artigos e capítulos publicados”.

Óbvio que o assunto chamou minha atenção. Logo eu, a estudante de mestrado. Logo eu, cujo primeiro crush foi o Legolas.

* Curiosamente, nunca tive nenhum crush com personagens de Harry Potter. Acho que crescemos juntos demais e éramos parças demais para suportar romantismo… E os personagens de Nárnia são tãão sem sal… Mas vamos voltar ao que é realmente importante:

Comecei a cruzar referências, dar uma garimpada em artigos e posts que falassem sobre o tema e…não cheguei a uma conclusão definitiva. Mas calma, isso não é necessariamente ruim.

É só que, como eu disse lá em cima, Tolkien é complexo demais e já foi canonizado e adaptado demais para que alguém bata o martelo. É difícil alguém garantir 100% o que se passava na cabeça daquele cidadão, e eu definitivamente não sou a pessoa mais indicada para fazer isso. Porém, isso não nos impede de conversar. Nesse post, vou expor todos os argumentos e pontos de vista que encontrei, explicando porque faz sentido dizer que O Senhor dos Anéis é um livro sexista e porque também faz sentido dizer que O Senhor dos Anéis não é um livro sexista. Aí você pode tirar as suas próprias conclusões, escolher um lado e me dizer se o seu gato de Schrödinger está vivo ou morto.

Piadinha infame. Fonte: Meme Center – Reprodução

Comecemos dizendo que Tolkien não era um cara perfeito. Sei que isso é meio óbvio uma vez que todo ser humano tem defeitos, mas digamos que para mim foi um choque ler a biografia do autor e descobrir que um dos meus heróis de infância não era assim essa coca-cola toda. Tolkien era um bom homem, inteligente, honesto, fiel, bom pai, pagador de boleto, mas era também um senhor conservador e retrógado em vários aspectos. Uma das coisas que mais me marcou durante a leitura da biografia foi acompanhar sua história de amor com Edith Tolkien (que serviu como base para a história de Lúthien e Beren, que mais tarde seria espelhada por Arwen e Aragorn). Embora devoto à esposa e muito apaixonado, Tolkien não colocava as necessidades de Edith em primeiro plano. Sua mulher precisou abrir mão de muita coisa para acompanhá-lo, precisou enfrentar muita coisa sozinha enquanto o marido passava horas e horas trancado no escritório ou em demorados encontros dos Inklings. Inclusive, diz-se que Tolkien aceitou mudar-se já aposentado para Bournemouth como um reconhecimento aos anos de dedicação de Edith: ela adorava a cidade, já ele, detestava.

Ainda na biografia de Tolkien, é possível encontrar seu desagrado quanto ao relacionamento de C.S. Lewis com a  escritora e poeta Joy Davidman. Por ser desquitada, mãe de dois filhos e um tanto moderna para os padrões da época, Tolkien não a considerava uma companhia adequada. Chegou inclusive a aconselhar Edith a não se aproximar da moça por temer suas más influências. A grande ironia da coisa é que Edith e Joy acabaram virando boas amigas.

Falando assim, dá pra suspeitar que Tolkien é um machista velado. Mas é preciso ir ainda mais fundo em sua biografia para enxergar o outro lado da moeda: Tolkien não era machista, mas sim conservador e puritano ao extremo.

É verdade que Tolkien visualiza a mulher ideal como uma esposa recatada e dedicada, mas também é verdade que ele aplica os mesmos padrões aos homens. De criação católica, Tolkien também exaltava as virtudes dos homens, a honestidade, a moralidade, a fidelidade. Tanto que, ainda que as obras da mitologia nórdica estejam repletas de bastardos e relações extraconjugais, a gente não escuta falar sobre traições ou amantes na Terra Média. Os heróis de Tolkien são, quase sempre, cavalheiros castos (imagina só colocar o Tolkien para ler Game of Thrones).

Fonte: musingsofatolkienist.blogspot.com – Reprodução

Além disso, o autor não tinha uma visão desfavorável sobre as mulheres. Embora vivesse em um ambiente predominantemente masculino (não só da sociedade como um todo, mas também da universidade onde ensinava, dos pubs que frequentava e entre os integrantes dos Inklings), Tolkien tinha grande apreço por sua tia Jane Suffield (bacharel em Ciências) e por sua mãe Mabel Tolkien, que, por saber francês, alemão e latim, foi a base para o amor do filho pelo estudo das línguas. Tolkien também teve uma filha, teve netas e teve Edith. É complicado dizer que ele “não tinha intimidade com o universo feminino”.

John D. Rateliff, autor de outro dos ensaios analisados, destaca que, ainda mais importante, Tolkien sempre acolheu mulheres em sua vida profissional, dando suporte e encorajando suas alunas. Essa atitude por si só é um claro contraste com o desdém de C.S. Lewis pela participação feminina na academia, o que, infelizmente, era o comportamento predominante dos professores de Oxford. Das muitas alunas com quem mantinha contato, nenhuma delas demonstrou nenhum sinal de ter sido tratada de forma diferente ou desrespeitosa pelo mestre.

Então, embora eu ache que Tolkien seguia o estereótipo do tiozão conservador que iria surtar se um filho aparecesse tatuado em casa, acho injusto atribuir-lhe o rótulo de misógino. Tolkien não era contra os direitos femininos nem considerava mulheres como seres inferiores e submissos: ele apenas era contra mudanças, contra qualquer modernidade que viesse a ameaçar seu modelo de vida e de virtude cristã. Talvez, renascido nos dias de hoje, ele fosse um cara completamente diferente.

Bem, feitas as considerações sobre o homem, vamos à obra.

Em O Senhor dos Anéis, apenas 18% dos personagens que possuem nome são mulheres. E existe também algo apelidado de “fantasmas textuais’, que são personagens mencionados casualmente, que não possuem nome e que não tem grande importância para a história. Algo como figurantes. Existem 616 mulheres fantasmas na obra de Tolkien. Matematicamente, existem mais nomes de cavalos na trilogia do que de mulheres.

Scadufax muito bem representado. Fonte: The Independent – Reprodução

A discrepância entre o número de personagens femininas e masculinas em O Senhor dos Anéis acabou trazendo-lhe o estigma de “uma aventura para garotos”. Afinal, tá lá a Sociedade do Anel fazendo sua jornada pela Terra Média sem um único ovário presente.

Essa definição irritava Tolkien, porque era reduzir a complexa obra de sua vida a uma aventura de capa e espada feita para enaltecer a bravura e a coragem de heróis idealizados. E o objetivo do autor jamais foi esse. Tolkien não escrevia para uma audiência jovem e masculina. Ele escrevia para todas as idades e gêneros, uma obra que, esta sim, não tinha lá muitas personagens femininas. Ele inclusive gostava de mesclar traços comumente associados ao feminino e ao masculino em seus personagens, e por isso dificilmente vemos o estereótipo do machão em sua obra. Sam é um bom exemplo disso.

Outro ponto interessante: divaga-se sobre se as críticas afetavam ou não a maneira de escrever de Tolkien. De fato, enquanto O Hobbit não possui nenhuma personagem feminina e O Senhor dos Anéis possui uma meia dúzia de mulheres relevantes, nas obras do Silmarillion e em Contos Inacabados é possível encontrar várias delas, inclusive exercendo cargos de poder e chefia em batalha. Como a mitologia de Tolkien não foi criada de forma linear (seus livros eram revisados, editados e se sobrepunham o tempo inteiro), não há como afirmar se o autor simplesmente resolveu ouvir o apelo de sua audiência feminina por mais mulheres na Terra Média ou se tudo é apenas uma grande coincidência.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Numa discussão ocorrida no Reddit, um usuário levanta uma teoria: Tolkien afirma que, no passado da Terra Média, tudo era maior e mais poderoso, havia mais magia e os homens não haviam deturpado as coisas belas do mundo. É por isso, por exemplo, que Galadriel é tão mais poderosa do que Legolas, embora ambos sejam elfos. Galadriel pertence aos tempos antigos. Da mesma forma, os gêneros são bem equilibrados na distribuição dos Valar: temos as senhoras Varda, Yavanna, Nienna, Estë, Vairë, Vána e Nessa, o que reforça a ideia de que Tolkien acreditava que o poder divino é uma mistura de força feminina e masculina (embora Eru ainda seja o Pai de todos, reflexo de uma base cristã).

Talvez a visão de Tolkien seria de que mulheres eram seres menos corruptíveis e mais mágicos, personagens da época áurea de seu universo fictício. Elas estariam em plena igualdade na época do Silmarillion, mas teriam perecido com as atrocidades que levaram até a guerra do Um Anel. Como O Senhor dos Anéis é também uma metáfora para o embate entre o avanço da tecnologia e a destruição do meio ambiente, podemos dizer que Tolkien atribuía o lado ruim da revolução industrial aos homens (é importante lembrar que Tolkien lutou como soldado na guerra, e viu um sem número de atrocidades cometidos em ambientes puramente masculinos).

Um indício disso seria o discurso de Barbárvore, onde o personagem afirma não mais existirem entesposas. Ora, se os ents já são a representação da natureza enquanto personagens, porque suas mulheres suportariam ainda menos os avanços tecnológicos de Saruman? E aí, seguindo esta teoria, fica a cargo do leitor interpretar se o intuito de Tolkien era apresentar o gênero feminino como uma forma superior e menos inclinada à destruição ou como uma forma mais frágil de criatura. As duas interpretações poderiam ser consideradas coerentes.

Fonte: @ronaldfoerster Deviantart – Reprodução

(Eu, pessoalmente, prefiro apostar na primeira. Acho que os traumas de guerra do autor eram bem profundos. E o mundo da Primeira Guerra Mundial girava em torno de homens.)

Entrando em uma questão um tanto quanto filosófica, a gente ainda precisa analisar a relação entre quantidade de representação e qualidade de representação.

Os poucos exemplos femininos que Tolkien nos entrega não são exemplos ruins. Pelo contrário: se existe alguma mulher ruim ou zé ruela na Terra Média, eu realmente não me recordo (estou deixando de fora personagens femininas não-humanóides, como Laracna). Enquanto explora diversas falhas humanas em seus personagens homens, como a ganância de Boromir e a covardia de Grima, Tolkien trata suas personagens femininas com extrema devoção. Elas são badass. Bem mais do que a maioria dos homens.

“Uma observação interessante feita por Crowe é de que enquanto as personagens femininas, assim como os homens, possam ser oprimidas e até chegar a resoluções violentas, existe uma refrescante ausência de violência contra mulheres por serem mulheres. Além do mais, homens (ou elfos) que tratam mulheres de forma maldosa acabam tendo um final ruim. Crowe concorda com Enright e Rawls de que o equilíbrio entre elementos femininos e masculinos e a denúncia do abuso de poder são temas encontrados no trabalho de Tolkien e que também são contemplados por muitas feministas.”

Galadriel, Lúthien, Arwen e Éowyn são os principais destaques, personificando mulheres fortes e poderosas que realmente contribuem para o andamento da trama e que possuem seus arcos dramáticos bem desenvolvidos. Longe de serem perfeitas (quem lembra da cena de tentação de Galadriel?), elas se fortalecem através da coragem, retidão moral ou sabedoria. E embora todas elas permaneçam mais ou menos confinadas na sociedade patriarcal da Terra Média, todas dão um jeito de conquistar seus objetivos. Nenhuma delas deu errado. O que é, sem dúvidas, melhor do que ter 200 personagens estereotipadas que só servem como recurso narrativo para justificar a perdição ou vingança dos homens. O número de personagens não é uma métrica muito confiável quando separada do contexto (embora eu ainda ache quatro um número ridiculamente pequeno de personagens se considerarmos a grandiosidade da obra).

Fonte: Comic Vine – Reprodução

Aliás, nunca entendi porque a Tauriel foi inserida no filme do Hobbit se  -spoilers adiante-  ela iria terminar jogada no chão em posição de vulnerabilidade e sendo a principal responsável pela morte do Kili (que, convenhamos, estava indo muito bem até ter de salvá-la). É engraçado como a mídia sempre parte do princípio de que para uma mulher ser empoderada basta ela saber manejar uma arma e pronto.

Porém, no momento em que você já estava relaxando na cadeira e dando graças a deus porque O Senhor dos Anéis pode até não ter muitas, mas tem representações legais, é hora de levantar outra bola:

Mesmo que a Sociedade do Anel seja basicamente sobre camaradagem, a camaradagem não é estendida às mulheres. Elas não conversam, elas não se ajudam, elas não interagem. E, se a gente for olhar o destino de cada uma delas, as coisas soam um tanto preocupantes.

Para Galadriel, a plenitude só é atingida quando ela renuncia ao poder, quando se retira para além mar e deixa de ser uma figura de autoridade na Terra Média. Para Arwen, a luta pela paz e a escolha da mortalidade estão calcadas em seu amor por Aragorn.

No caso de Lúthien, ainda que ela seja uma guerreira formidável capaz de desafiar não só o patriarcado como as forças das trevas, ela o faz motivada pelo amor de Beren. Antes de Beren, Lúthien não parecia querer fazer muita coisa por sua terra, e após o casamento, ela volta ao seu estado de inatividade, sombra e água fresca. Para Éowyn o desfecho é ainda mais bizarro: após o pé na bunda de Aragorn, Éowyn, que passou a vida inteira sonhando em ser guerreira e defender seu povo, resolve casar com Faramir e profere uma das citações mais recorrentes dentro da problemática da representação feminina:

“- Eu não serei mais uma guerreira, nem competirei com os grandes cavaleiros e nem me alegrarei apenas com os sons da matança. Eu serei uma curandeira, e amarei todas as coisas que crescem e não são estéreis. – E novamente ela olhou para Faramir. – Não desejo mais ser uma rainha…”

Argh.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Renata Kabke Pinheiro possui uma dissertação de mestrado inteira voltada à análise da Éowyn pela Universidade Católica de Pelotas (recomendo a leitura). Para ela, embora Éowyn represente uma ruptura no modelo patriarcal e seja uma chama da revolução, ela ainda assim acaba incorporando o que a sociedade espera dela.

“Temos com o discurso atribuído a Éowyn uma relativa inovação, pois a partir do momento em que ela se recusa a assumir o papel que é esperado dela como mulher e se coloca no mesmo nível que os homens, capaz de assumir o mesmo papel que eles na guerra, ele não se insere na ordem de discurso nem do gênero literário da obra, nem da época em que ela se passa ou da em que foi escrita. No entanto, essa rebeldia que em outros textos é “punida” com a solidão ou fim trágico – final inclusive alertado por Tolkien – no caso de Éowyn, já que ela retorna aos padrões determinados, é “perdoada” e o destino que lhe é reservado é o de uma vida “feliz” ao lado do marido.”

“Assim, para finalizarmos, mesmo que o autor tenha dado voz às mulheres através de Éowyn, seus valores e não os da personagem venceram ao final: a heroína vai para a guerra – disfarçada de homem – e tem um papel fundamental e decisivo na derrota das forças do mal, mas acaba por casar-se com outro príncipe, Faramir, assumindo assim o papel que se esperava da mulher. Venceu a imagem idealizada criada por Tolkien, venceu o mundo masculino onde ele vivia, venceu uma reação de valores que transcendeu a personagem e que foi, em última instância, do autor. Tolkien, pelo que se percebe não só em O Senhor dos Anéis, mas também em uma das cartas que escreveu a seu filho Michael, via surgir à sua frente o tema da mudança do papel da mulher em todas as áreas, desde a família até o trabalho, e questionava-se sobre isso. Ainda assim, ao final, sua conclusão foi a mesma que deu a Éowyn: as mulheres sempre iriam ansiar pelo amor e pelo casamento.”

Problemático, não?

Voltando ao artigo que eu estava lendo no Journal of Tolkien Research, o texto argumenta que o final de Éowyn simboliza a assimilação pacífica de duas culturas, e que o casamento da Senhora de Rohan com um nobre de Gondor seria uma construção benéfica, um indício de que é possível deixar as diferenças de lado quando existe admiração mútua. Faramir, no caso, estaria plenamente consciente das capacidades de sua esposa, e Éowyn teria um importante papel político pela frente.

Ainda assim, é inegável que nossas quatro escassas heroínas tiveram suas jornadas reduzidas a uma busca por amor ou simplicidade. Porém, é importante ressaltar que essa não é uma exclusividade feminina. Tolkien, católico, amante do campo e das silenciosas bibliotecas, era um cara pacífico. Demonizava guerras, tecnologias, indústria, lucro, poder. E quase todos os seus mocinhos são pacifistas. Não é a toa que os principais heróis de seu trabalho são os pacatos hobbits. A criação cristã de Tolkien clama pela humildade, indulgência e sacrifício pessoal. Então, antes de acusar o autor de machismo, talvez seja interessante imaginar que o destino das mulheres da Terra Média era a visão de Tolkien sobre  o máximo de realização que uma pessoa poderia alcançar. Uma visão influenciada pela mentalidade da época, verdade, mas ainda assim bem intencionada (pena que delas o inferno esteja cheio).

Fonte: feanor-journal.blogspot.com – Reprodução

Terminei minhas divagações com um sentimento agridoce. Se por um lado O Senhor dos Anéis não pode ser considerado um primor em representatividade, tampouco é um desastre. Minha atual posição é de que, levando em consideração o período histórico em que foi escrito, ele é um livro satisfatório ainda que os princípios pessoais de Tolkien tenham tolhido muito do potencial implantado nas personagens. Acho válido dizer que Tolkien não é misógino: seus personagens masculinos sofrem mais ou menos dos mesmos problemas. Ao menos, nunca me senti desrespeitada enquanto leitora, apenas sub-representada. E confesso ainda ter muito o que pensar sobre o assunto. Mesmo com esse texto gigantesco, acho que descascamos apenas a primeira camada da cebola.

O lado bom da discussão, seja lá de que lado você estiver, é que muitas garotas estão se apropriando de sua história de fantasia favorita e dando um jeito no problema. Cresce o número de fanfics e obras reparadoras, que retratam a vida de mulheres da Terra Média, seja inserindo novas personagens ou ampliando o ponto de vista daquelas já existentes. E se a obra de Tolkien é tão grandiosa que chega a ser desconfortável apontar um erro (quem somos nós na fila do pão?), por outro lado é nosso dever utilizá-la como base para construir coisas ainda melhores. E quer algo mais “tolkianesco” do que ampliar um mundo fantástico para que este acompanhe a evolução da sociedade?

Contudo, afirma Uma McCormack em seu ensaio, é uma pena que as histórias escritas por mulheres no universo de Tolkien recebam bem menos atenção do que aquelas escritas pelos fãs do sexo masculino.

Galadriel rainha, o resto nadinha. Fonte: imgur – Reprodução

Minha conciliação com Ursula K. Le Guin
Eu finalmente li Jonathan Strange & Mr. Norrell

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