Um pouco sobre Edith Tolkien

Muito se sabe sobre a obra de Tolkien, a mitologia da Terra Média é incansavelmente debatida todos os dias pelos milhares de fãs ao redor do planeta. Mas nem todos conhecem a fundo a vida e personalidade do aclamado autor. E menos ainda são os que conhecem a trajetória de sua esposa, Edith Tolkien.

Edith - Fonte: http://www.deeprootsathome.com/j-r-r-tolkien-more-than-meets-the-eye/ - Reprodução

Edith – Fonte: http://www.deeprootsathome.com/j-r-r-tolkien-more-than-meets-the-eye/ – Reprodução

Tive oportunidade de ler recentemente “J. R. R. Tolkien – O Senhor da Fantasia”, biografia escrita por Michael White e publicada em capa dura aqui no Brasil pela DarkSide (e por falar nisso, meus sinceros parabéns pelo cuidado com a edição). Devo confessar que esse livro partiu meu coração ao mesmo tempo em que reforçou minha admiração por Tolkien.

Acontece que as histórias deixadas por Tolkien são tão sublimes, tão carregadas de conceitos importantes e reflexões filosóficas, que acabamos criando um mito acerca do homem que as escreveu. Esquecemos que, no final das contas, John Ronald Reuel Tolkien era apenas um ser humano, sendo influenciado pelos acontecimentos históricos e pela forma de pensar de sua geração. Foi um baque conhecer seus pontos negativos e descobrir que, se por acaso pudesse conhecê-lo pessoalmente, iríamos discordar e discutir sobre muita coisa… Porém, isso acaba por torná-lo “mais próximo dos meros mortais”. Conhecer seus temores, alegrias e frustrações faz com que vejamos seu trabalho sob uma nova ótica, ainda mais impressionante. O próprio autor da biografia, Michael White, tinha consciência desse sentimento, fazendo questão de escrever em sua brilhante introdução:

“Tolkien era, como mostram estes livros, um homem bom, de moral justa, confiável e muito inteligente, mas ele não estava na fila para a canonização. Eu já havia visto tal endeusamento antes. […] Gostaria de pensar que os verdadeiros fãs buscam um pouco mais do que imagens monocromáticas de seus heróis.”

No entanto, enquanto lia sobre um de meus escritores favoritos, não pude deixar de me envolver com a história de Edith Tolkien. Como deveria ser a vida ao lado de um dos maiores nomes da literatura mundial? E, após mais de 50 anos de casamento, conhecer Edith é conhecer também uma face importantíssima do próprio John. Por isso, o post de hoje será sobre ela.

Capa do livro. Super recomendo a leitura. Fonte: DarkSide - Reprodução

Capa do livro. Super recomendo a leitura. Fonte: DarkSide – Reprodução

Edith Bratt (seu nome de solteira) tinha 19 anos quando conheceu o jovem Tolkien, cerca de três anos mais novo que ela. Na época, os dois estavam morando na casa da família Faulkner, conhecida por alugar quartos, e logo se deram bem. Tolkien admirava a maturidade de Edith e se identificava com a história da garota. Assim como John, Edith também ficara órfã muito cedo e estava longe de nadar em dinheiro.

“Tolkien geralmente expressava essa perspectiva para suas próprias crianças, de que ele e a mãe delas haviam, de alguma maneira, salvo um ao outro da privação e do sofrimento de suas respectivas infâncias.”

No entanto, os flertes e longas pedaladas juntos duraram pouco tempo. Padre Francis, uma espécie de tutor de Tolkien após a morte de sua mãe, não viu o relacionamento com bons olhos. E antes de considerá-lo um vilão na história, precisamos entender suas motivações. Na visão de Padre Francis, Tolkien não poderia se dar ao luxo de uma distração nos estudos, já que o tutor não tinha condições de manter John e seu irmão mais novo por muito tempo. Tolkien não só precisava ser aceito numa boa universidade para garantir seu futuro, mas também teria de ser contemplado com uma bolsa de estudos para custear o curso, concedida somente aos alunos mais brilhantes. Padre Francis foi categórico: o casal só poderia se ver novamente dali a três anos, quando o rapaz já estivesse estabelecido na faculdade. Mas mesmo com a proibição, Tolkien arquitetou um último encontro. Ele e Edith se encontraram numa casa de chá, onde trocaram presentes e juraram esperar um pelo outro até que os três longos anos se passassem e pudessem enfim se casar.

Este deve ter sido um período difícil para Edith. Tolkien foi aprovado em Oxford e mudou-se para longe, imerso em um mundo novo e repleto de grandes círculos sociais, esportes, clubes e cerveja. Sem notícias, ela imaginava se Tolkien estaria mesmo esperando-a depois de tanto tempo, e com medo de fazer papel de boba ou ficar para sempre solteira (vale lembrar que naquela época as jovens se casavam muito cedo), Edith acabou se comprometendo num noivado com um certo George Field.

O momento não poderia ser pior. Assim que completou 21 anos, como Padre Francis havia exigido, Tolkien mandou uma carta apaixonada para Edith. Ele não havia, afinal, esquecido dela em nenhum momento. O que fazer?

Edith respondeu a carta de Tolkien da melhor maneira possível, contando sobre seu recente noivado. No entanto, suas palavras sutilmente davam a entender que ela não amava realmente George, apenas achava que John não estaria mais disponível. Tolkien, como um bom leitor, captou a mensagem e pegou um trem o mais rápido possível para a cidade de Cheltenham, em busca da amada. Edith estava esperando na estação.

Mas mesmo depois de cumprir o prazo de Padre Francis, romper o noivado com George Field e enfrentar toda a fofoca dos vizinhos, ainda havia um obstáculo separando Edith Bratt e John Tolkien: a religião. Para realizar a cerimônia, os dois deveriam possuir o mesmo credo.

Acontece que, a mãe de Tolkien, Mabel, havia morrido alguns anos antes, desamparada por sua família. Nenhum de seus parentes aceitou a decisão de Mabel em abraçar o catolicismo, e ela foi simplesmente ignorada no convívio social. A dificuldade de criar os filhos sozinha em péssimas condições financeiras foi crucial para agravar seu estado de saúde. Tolkien sempre se ressentia pela pouca ajuda oferecida à sua mãe, e por isso, o catolicismo, além de sua religião, era também uma questão de honra. Edith sabia que para casar com John, precisaria se converter.

Edith começa então a ter aulas sobre o catolicismo, preparando-se para a conversão. No entanto, este foi um ressentimento que se arrastou por toda sua vida. Ela sentia que fora obrigada a trocar de religião, e não nutria quase nenhum afeto pela Igreja Católica. É bem claro que, por Edith, permaneceria muito bem acomodada como anglicana. Para agravar a situação, os dois continuavam morando em cidades separadas e a Primeira Guerra Mundial se tornava uma ameaça cada vez mais concreta.

Em 1916, Tolkien se casa com Edith, agora católica. Mas a felicidade dos dois não dura muito (parece até uma história do Joseph Climber), pois Tolkien é logo em seguida enviado à guerra. Num golpe de sorte, John escapa ileso de todas as batalhas, apenas com ferimentos superficiais. No entanto, devido às péssimas condições sanitárias dos acampamentos e trincheiras, era comum que epidemias e febres desconhecidas assolassem os soldados sobreviventes. Tolkien contrai uma doença bacteriana e é enviado de volta à Inglaterra para se recuperar.

Sua recuperação foi uma espécie de lua-de-mel para o casal. Caminhavam juntos, tinham tempo de conversar e apreciar a vida de casados. Edith engravidou do primeiro filho, John Francis Reuel, ainda no mesmo mês. Porém, Tolkien foi obrigado a retornar às atividades do exército.

Edith estava à beira de um colapso, frustrada ao extremo. Grávida, mudando loucamente de casa em casa para seguir Tolkien onde quer que o soldado fosse enviado e constantemente preocupada com a saúde do marido (além do perigo da guerra em si, Tolkien teve muitas recaídas de sua doença). Acabou por ter o filho apenas na companhia de uma prima, e Tolkien só conseguiria ver a criança cerca de uma semana depois de seu nascimento.

Quando o fim da guerra finalmente veio, John finalmente pôde se dedicar à carreira acadêmica. Mas isso não significava que a rotina de Edith se tornaria mais fácil. Tolkien demorou muitos anos para publicar seus trabalhos, e o lucro da venda dos livros não veio de imediato. Ele precisava trabalhar muito, tanto dando aulas como corrigindo provas, para sustentar a casa (tiveram ainda mais três filhos: Michael, Christopher e Priscilla). Some isso ao fato de que Tolkien tinha o hábito de escrever até madrugada, participar de clubes e virar noites em discussões filosóficas com os amigos, e podemos ter uma noção do grau de solidão que Edith experimentava certos dias.

Edith e um de seus filhos. Fonte: Pinterest - Reprodução

Edith e um de seus filhos.  Alguém sabe informar qual? Fonte: Pinterest – Reprodução

Edith era uma mulher simples, adorava jogar conversa fora e passear, e por isso nunca se acostumou à pomposidade dos acadêmicos de Oxford, à fumaça dos charutos e suas palavras difíceis. Fez poucos amigos na cidade, não conseguia ter intimidade com os companheiros do marido e não via a menor graça no ambiente da universidade. Tolkien passava muitas noites fora em seus encontros com escritores e professores (como os famosos debates dos Inklings) enquanto Edith ficava em casa com as crianças. Os livros também tomaram muito do tempo de seu marido, consumindo as poucas horas livres que lhe restavam.

Conta-se que um dos ressentimentos de Edith estava no fato de que, antes de Tolkien, sempre fora uma mulher independente. Tinha aprendido a se virar muito cedo, após a perda da mãe, e tinha plena consciência de ter mais idade que John. Contudo, Tolkien tinha uma visão quase medieval do amor, como explica Michael White:

“Sua visão imatura do romance prático e moderno era fruto de sua inexperiência, mas ele também foi muito influenciado pelo que havia lido. O escritor Charles Moseley observou que Tolkien, era, assim como muitos, e ao menos em parte, dirigido por uma imagem literária do romance.”

Por isso, adotava uma atitude paternalista e protetora em relação à Edith, o que a irritava profundamente. Ele não dividia seus assuntos de trabalho com ela e tampouco demonstrou muito interesse no talento musical da esposa (quando se conheceram, Edith costumava tocar piano na casa dos Faulkner). Todo esse ressentimento e potencial tolhido fazia com que a amargura de Edith viesse à tona vez ou outra, resultando em brigas homéricas.

Fonte: http://www.thewhitetree.org/ - Reprodução

Fonte: http://www.thewhitetree.org/ – Reprodução

Mas falando assim, fica parecendo que o casamento deles foi uma tragédia. Longe disso. Tolkien era um excelente pai e um marido visivelmente fiel e apaixonado, mesmo após tantos anos de convivência. Eles arrumavam tempo para fazer viagens de férias com as crianças, escreviam cartas ao Papai Noel em cada Natal e todos se entendiam muito bem. Creio que Edith era uma das poucas pessoas realmente qualificadas para falar sobre a personalidade de J. R. R. Tolkien, ou pelo menos era a pessoa que melhor sabia lidar com ele, com suas necessidades e aflições. Edith soube respeitar o espaço que John precisava para dar forma às suas criações, e sempre o apoiou e amou incondicionalmente. É só que, como em todo casal de carne e osso, nem tudo são flores.

Quando as crianças saíram de casa e a venda dos livros finalmente permitiu uma situação financeira confortável para os Tolkien, o casal deciciu se mudar para a cidade de Bournemouth. Edith amava o lugar e tinha bons amigos por lá, pessoas completamente diferentes dos amigos acadêmicos de John. Ela foi extremamente feliz nessa época.

“…Tolkien parece ter visto esse período como um martírio necessário. Ele sentia um amor profundo e genuíno por sua mulher e, na velhice, talvez tenha se dado conta do quão infeliz ela havia sido em relação a certos aspectos de sua vida conjugal. ”

Aos 82 anos, Edith foi internada com uma inflamação na vesícula, e acabou falecendo em 29 de novembro de 1971.

Interessante notar que uma das maiores críticas à obra de Tolkien é sua aparente dificuldade em escrever sobre amor e sexualidade. Realmente, a escrita do autor não flui numa cena de romance com a mesma naturalidade com que flui nas cenas de batalhas. Porém, uma das histórias mais românticas da Terra Média, o amor de Lúthien Tinúviel e Beren (mais tarde recriado por Arwen e Aragorn), foi inspirado em seu próprio romance com Edith. Sua pequena homenagem para a mulher que encantou aquele que ainda iria encantar milhares de pessoas.

Quando Edith veio a falecer, Tolkien pediu para que o nome “Lúthien” fosse gravado em sua lápide. Alguns anos mais tarde Tolkien se juntaria a ela, e abaixo de seu nome estaria escrito “Beren”.

Fonte: http://raccoon.com.br/2011/12/04/10-coisas-sobre-jrr-tolkien-que-provavelmente-voce-nao-sabia/ - Reprodução

Fonte: http://raccoon.com.br/2011/12/04/10-coisas-sobre-jrr-tolkien-que-provavelmente-voce-nao-sabia/ – Reprodução

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