Um steampunk pra ninguém botar defeito

Já tem um tempo que ando interessada no gênero steampunk (acho que desde a trilogia Fronteiras do Universo). Afinal, a temática entrelaça duas características que me atraem, romances vitorianos e engenhocas científicas. Pois eis que em minhas andanças acabei topando com a série O Protetorado da Sombrinha, da escritora americana Gail Carriger.

Se o título peculiar e o aviso “a série de steampunk mais cultuada do mundo” não já fossem motivo suficiente para chamar minha atenção, some o fato de que Gail Carriger, cujo verdadeiro nome é Tofa Borregaard, é arqueóloga e cita Dickens e Austen como suas principais influências. Tão logo surgiu a oportunidade, coloquei as mãos em “Alma?”, o primeiro volume da série de cinco livros. Acabei lendo em apenas um dia e não poderia ter ficado mais feliz.

Gail Carriger e capa do livro Fonte: gailcarriger.com - Reprodução

Gail Carriger e capa do livro Fonte: gailcarriger.com – Reprodução

(“Alma?” foi também meu primeiro contato com a editora Valentina, que merece ser parabenizada pela qualidade de impressão. Ponto extra pelo pequeno polvo impresso em cada uma das páginas.)

São tantos elogios a fazer que não sei bem por onde começar. Digamos, primeiramente, que o livro se revelou completamente diferente do que eu estava esperando. No bom sentido, claro.

Isso porque “Alma?” carrega estampado na capa o subtítulo “um romance sobre vampiros, lobisomens e sombrinhas”. Ops, pensei. Mais um livro sobre vampiros, lobisomens…e romance. Uma temática que além de nunca ter sido o meu forte, também já está extremamente saturada nas livrarias. E foi a roupagem inovadora de Carriger que acabou me surpreendendo.

No universo de “Alma?”, vampiros, lobisomens, fantasmas e outros seres sobrenaturais são uma realidade. E, após o Iluminismo, todos eles convivem maravilhosamente bem em sociedade. Os tempos de caçadores de recompensa e exorcistas ficaram pra trás, lembranças de um passado profundamente retrógrado. A própria rainha Vitória possui um corpo diversificado de ministros responsáveis por representar os interesses de cada raça.

Nesse cenário peculiar, somos apresentados à nossa protagonista, Alexia Tarabotti. Que seria apenas mais uma “solteirona de vinte e poucos anos” do período vitoriano se não fosse por um detalhe: Alexia nasceu sem alma. Ela é uma preternatural, como são chamadas as raríssimas pessoas de sua condição. Isso significa que seu toque é capaz de neutralizar os poderes dos seres sobrenaturais, pelo menos enquanto durar o contato físico.

“O vampiro estendeu as mãos depressa em direção ao pescoço dela. Pelo visto ele concluíra que, como não podia sugar o sangue da moça, estrangulá-la seria uma alternativa razoável.”

Fonte: Soulless, mangá - Reprodução

Fonte: Soulless, mangá – Reprodução

E claro que a falta de uma alma trará a Alexia, além de uma personalidade extremamente forte e pragmática, um monte de problemas. Após um incidente com um vampiro desesperado, a srta. Tarabotti se vê em meio a uma grave conspiração, que ameaçará a duradoura harmonia entre as raças. Persistente como ela só, infernizará a vida de Lorde Maccon, encarregado do Departamento de Arquivos Sobrenaturais e lobisomem Alfa da Alcatéia de Woolsey, em busca de respostas. E então aí estará formado nosso problemático par romântico.

Grande parte da graça de “Alma?” está no tom de sua narrativa. Gail Carriger consegue conduzir um mistério sobrenatural com a leveza e o bom humor dos bailes da alta sociedade londrina. O livro mais parece uma história da Jane Austen, sendo narrada pela Julia Quinn e ambientada nos cenários de Van Helsing. A própria Alexia Tarabotti me lembrou bastante Penelope Featherington, protagonista de “Os Segredos de Colin Bridgerton”, da Quinn.

“A srta. Hisselpenny aprendera a apreciar a falta de tato da srta. Tarabotti, que, por sua vez, compreendera que nem sempre se devia prestar atenção nos chapéus das amigas. Portanto, como logo no início do relacionamento uma aprendeu a fazer vista grossa para os aspectos mais desagradáveis da personalidade da outra, as duas cultivaram uma amizade proveitosa para ambas.”

As situações e diálogos beiram o cômico, satirizando os costumes e etiqueta da sociedade britânica, ao mesmo tempo em que carregam no romantismo e tensão, aqueles tipicamente encontrados nos romances de banca. Essa harmonia entre a crítica social e o mundo pecaminosamente mundano fazem com que “Alma?” seja um livro extremamente divertido, que passa despreocupadamente mensagens importantes.

A principal delas, com certeza, é a questão da tolerância e do preconceito. É aqui que a série traz sua vertente steampunk. A constante desconfiança do “diferente”, representado na forma das raças sobrenaturais, e o embate cultural podem ser rapidamente adaptados para o nosso mundo. Gail está sempre nos mostrando que sujeitos usuais, perfeitamente adequados à moral e os bons costumes sociais, não são garantia alguma de um bom caráter e coração. A tolerância sempre deverá nortear o progresso, e bons frutos podem ser colhidos da convivência entre diferentes formas de pensar.

E esse embate não ocorre apenas entre humanos e sobrenaturais não. Muito além de sua personalidade forte, Alexia é deixada de lado por não possuir a estereotipada beleza do período vitoriano e, principalmente, pelo tom moreno de sua pele, herança do falecido pai italiano. E sabe como a srta. Tarabotti lida com essas terríveis críticas? Simples: ela não se importa. Alexia se interessa muito mais por literatura, engenharia e investigações policiais. Ponto pra autora.

“Em circunstâncias normais, uma jovem solteira, de boa estirpe jamais passearia no Hyde Park sem a  companhia da mãe ou de uma ou duas parentas mais velhas. A srta. Tarabotti achava que tais regras não se aplicavam a ela, por já ser uma solteirona de carteirinha.”  

Gosto muito da maneira como a Gail Carriger construiu a Alexia. Ao mesmo tempo em que a protagonista é independente e decidida o suficiente para não cair na monotonia da mocinha romântica, suas incertezas e inseguranças também a afastam do ar de superioridade sem coração. Alexia é, sobretudo, humana. Mesmo que sem alma…    

Fonte: www.fanpop.com - Reprodução

Fonte: www.fanpop.com – Reprodução

Outro ponto importante é o fato de que Carriger consegue trazer humor ao mundo dos vampiros e lobisomens sem no entanto desagradar os entusiastas destes seres sobrenaturais. Sua escrita é ferina e irônica, mas nunca chega a ridicularizar o mito, a criatura. Apesar de colocar seus personagens em situações ímpares, a autora mantém as principais características das raças e os trata com dignidade. Achei uma releitura bastante válida para uma mitologia já tão arraigada na literatura. Bram Stoker não vai precisar se revirar no caixão.

E falando em humor, a autora fez um ótimo trabalho com os personagens secundários. Todos eles contribuem ativamente com a construção da história, possuindo um perfil tão individual e peculiar que é impossível não se apaixonar por todos. Destaco aqui o professor Lyall, Beta da alcatéia (e meu personagem favorito), Lorde Akeldama, um vampiro apaixonado pelo estilo rococó e a melhor amiga de Alexia, Ivy Hisselpenny. Só estes três já poderiam render um livro. Incrível a coesão com que “Alma?” trabalha personalidades tão distintas.

“- O professor Lyall é chegado a fofocas? – A preternatural parou de olhar para o corpo e fitou o rosto dele.

– Como uma velha futriqueira.”

Os trejeitos vampirescos e lupinos também merecem destaque. Talvez pelo conhecimento antropológico de Carriger ou pela simples experiência de anos de leitura, a autora realmente nos convence de que o instinto de vampiros e lobisomens sempre está presente nos personagens. A maneira como ela consegue manter a hierarquia de uma alcatéia de lobos dentro do mundo civilizado é digna de aplausos. Conseguimos mesmo enxergar os animais presentes por trás das máscaras de etiqueta, o instinto primal transparece por trás das atitudes (como a obsessão de Lorde Maccon em morder coisas e o territorialismo de Akeldama). A ideia de organizar os vampiros como castas de uma colméia também foi um toque de inovação muito bem-vindo.  

Talvez o momento em que essa habilidade de transcrever o comportamento animal se torne mais clara seja na interação entre Maccon e seu Beta, Lyall. O primeiro, um lobisomem ainda relativamente jovem, mostra seus instintos de dominância lupinos ainda à flor da pele, enquanto o segundo já está escolado e muito bem adaptado ao mundo civilizado. Seus diálogos sempre rendem bons insights. O relacionamento entre Alexia e o Alfa de Woolsey também se mostra interessante, uma vez que a aparente falta de alma da mocinha (caracterizada por sua falta de sensibilidade e papas na língua) faz um bom contraponto com a explosão de instintos e sentimentos do lobisomem.

“Lorde Maccon levantou-se, empertigado. Teria ficado bem mais alto que o segundo em comando, mesmo que este não estivesse sentado.

– Eu não sou do tipo que rasteja!

– Ao longo da vida, podem-se adquirir habilidades novas e interessantes – aconselhou o professor, nem um pouco impressionado com a postura do outro.”

Lorde Maccon Fonte: Tumblr - Reprodução

Lorde Maccon Fonte: Tumblr – Reprodução

Por fim, “Alma?” me ensinou uma importante lição narrativa: um mistério não precisa ser necessariamente intrincado ou extremamente longo para ser bom. Ele só precisa ser contado do jeito certo. O livro possui apenas 305 páginas, das quais muitas são gastas nos situando no universo do Protetorado da Sombrinha e explorando a relação de amor e ódio entre Alexia e Lorde Maccon. E apesar disso, o plot de mistério e conspiração funciona muito bem. Ele é relativamente curto, com pistas rápidas e diretas e a resolução aparece sem muito furor. Como “Alma?” não é uma obra focada na investigação (a investigação é apenas uma das facetas da trama), Gail parece ter decidido que menos é mais e que é melhor pecar pela falta do que pelo excesso. E, pessoalmente, achei que a opção caiu como uma luva para a trama. Na era dos plot twists, foi bom relembrar que o simples ainda pode ser eficaz.

É uma pena que a série ainda não tenha conquistado a repercussão que merece no mercado nacional. Por enquanto, a Valentina já lançou os três primeiros títulos da coleção. Faço votos para que corram logo com os dois últimos volumes e para que mais pessoas resolvam se aventurar com O Protetorado da Sombrinha. Afinal, um livro que menciona ao mesmo tempo a máquina diferencial de Babbage e aparelhos de chá só pode ser um ótimo livro.

(Para quem já é fã, existe também uma versão em mangá da série, escrita pela própria autora)

As cinco capas, em inglês. Fonte: sffbookreview.wordpress.com - Reprodução

As cinco capas, em inglês. Fonte: sffbookreview.wordpress.com – Reprodução

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