Uma palavrinha de Neil Gaiman sobre relacionamentos

O texto a seguir pode conter spoilers de: Stardust. Depois não diga que eu não te avisei…

Estive lendo Stardust – O Mistério da Estrela e me ocorreu que, muito além do estilo conto de fadas (erroneamente classificado como literatura juvenil), o livro pode ser encarado como um manual de boas práticas sobre relacionamentos amorosos para iniciantes.

Gaiman é um dos escritores mais amados da atualidade, e não só por suas histórias. Ele é também reconhecido por suas ótimas críticas à sociedade e aos “bons costumes”, e por seu excêntrico (e porque não, livre) modo de viver. Além disso, Neil vive um casamento com a artista, cantora e também escritora, Amanda Palmer, e o relacionamento virou uma espécie de xodó para os apaixonados. E basta dar uma olhadinha nesses dois pra saber que provavelmente o casal deve saber uma coisinha ou outra sobre achar tampas de panela…

Neil e Amanda. Fonte: http://www.nemumpoucoepico.com/2013/06/um-casamento-no-fim-do-caminho/ - Reprodução

Neil e Amanda. Fonte: http://www.nemumpoucoepico.com/2013/06/um-casamento-no-fim-do-caminho/ – Reprodução

Stardust pode parecer um livro bem bobinho à primeira vista, um romance de fantasia para passar o tempo. Mas esconde algumas alfinetadas interessantes aos contos de fadas que estamos acostumados a ver por aí. Pode até parecer piegas, mas a história de Tristran Thorn se repete muito na vida real, uma vez que estamos sempre tão imersos na cultura do amor incondicional. Eis o enredo:

O jovem Tristran mora no vilarejo de Muralha, que separa o “mundo real” do “mundo da fantasia”. Assim como todos os rapazes de sua cidade, Tristran está apaixonado por Victoria Forester, a moça mais bonita da região (ou do mundo inteiro). Porém, Victoria não está lá muito inclinada a um relacionamento com o rapaz, e Tristran Thorn, num rompante de audácia, se propõe a buscar uma estrela cadente, recém caída nas terras para lá de Muralha. Caso ele complete a missão, Victoria deve dar-lhe o que ele desejar. O que Tristran não imaginava era que a estrela não se tratava de uma simples pedra celestial, e sim de Yvaine, uma garota cheia de personalidade. E até que ele consiga entregá-la como presente, os dois precisarão aprender a conviver e a sobreviver num mundo cheio de reis, bruxas e encantamentos.

Esse é Tristran, nosso amado panaca, digo, mocinho. Fonte: Tumblr - Reprodução

Esse é Tristran, nosso amado panaca, digo, mocinho. Fonte: Tumblr – Reprodução

Então, como o TBS já está em clima de Dia dos Namorados mesmo, vamos analisar as preciosas dicas de Neil Gaiman:

1 – Você pode estar apaixonado somente pelo ideal do amor romântico.

“Você é a mulher mais linda do mundo inteiro – disse Tristran, do fundo do coração.”

Tristran tem o pensamento do típico herói romântico. Sua paixão por Victoria é completamente platônica, uma vez que ele não conhece absolutamente nada da personalidade da moça. Se apaixonou por sua beleza incomparável, observando-a de longe, espiando pela janela do quarto. Com raras exceções, todas as descrições de Victoria no livro se referem unicamente a seus atributos físicos.

Ou seja, Tristran ama apenas a ideia que faz de Victoria. Aquela dos livros de romance, da princesa perfeita e inalcançável, desejada por muitos, que o príncipe teria de conquistar de joelhos, com flores e poesias. Note que ele mesmo vive essa utopia, sendo forçadamente pomposo, sempre que encontra com Victoria:

“Tristran Thorn caiu de joelhos na lama, sem se preocupar com o casaco, nem com as calças de lã […]

– Vou deixá-la aqui, minha senhora – disse Tristran Thorn. – Pois tenho negócios urgentes, lá para o leste. – Ele se levantou, sem se dar conta da lama e da água estagnada em seus joelhos e no casaco. Fez uma reverência para ela e tirou o chapéu-coco.”

Victoria é para Tristran nada mais que a personificação de um sentimento que ele admira, mas que está apenas começando a conhecer. Assim como você calçava os sapatos dos seus pais e saía por aí se achando bastante adulto.

Victoria não anda, ela desfia. Fonte: http://notneilgaiman.tumblr.com/ - Reprodução

Victoria não anda, ela desfila. Fonte: http://notneilgaiman.tumblr.com/ – Reprodução

2 – O amor te deixa meio estúpido. E algumas pessoas podem usar isso pra te deixar mais estúpido.

Quando finalmente temos contato com Victoria além de sua aparência (no diálogo em que Tristran promete lhe trazer a estrela cadente), notamos que a garota está bem longe da imagem que o jovem Thorn cultiva em sua mente.

Victoria sabe que é bonita, sabe que exerce poder sobre os rapazes, sente que tem o mundo na palma das mãos. E, como costuma acontecer com as pessoas mimadas que imaginam ser as melhores em algum tópico, ela decide se divertir às custas do pretendente. Note que, enquanto Tristan praticamente se humilha, prometendo estrelas, mundos e fundos, Victoria nunca sorri para ele, ou com ele. Ela apenas ri dele. Imagino que a escolha das palavras tenha sido proposital.

“E Victoria riu dele, recolheu a mão e começou a andar na direção da fazenda do pai.”

“…Victoria Forester riu do caixeiro magricela, riu alto, riu muito, e seu riso cristalino acompanhou Tristran morro abaixo e pelo caminho afora.”

E aqui Gaiman nos ensina que pessoas não merecedoras podem fazer com que o nosso amor nos deixe em situações bastante patéticas.

3 – Pessoas mais vividas e mais livres tratam o amor de forma mais realista.

Esta deve ser minha cena favorita de Stardust. Assim que Tristran atravessa a muralha e começa sua aventura, conhece um estranho homenzinho peludo, com quem divide um café da manhã. Tristran lhe conta seu propósito na Terra Encantada de forma idealizada e romântica, sendo prontamente cortado pelo companheiro:

“- Sou do povoado de Muralha, onde mora uma moça chamada Victoria Forester, que não tem igual entre as mulheres. E foi pra ela, e só pra ela, que dei meu coração. Seu rosto tem…

– As partes normais que o compõem? – perguntou a criaturinha. – Olhos? Nariz? Dentes? O de sempre?

– Claro que sim.

– Então, pode deixar para lá tudo isso.”

Gosto da forma como Gaiman retrata o povo mágico. Eles possuem uma visão bem mais prática e realista sobre sentimentos e decisões que “pessoas comuns” costumam complicar. É como se eles não ligassem para implicações éticas, morais e de costume. Eles não seguem utopias ou modelos pré-fabricados por regras sociais. O povo mágico de Neil é…um povo livre. E como tal, bem mais vivido que Tristran.

“- E então que idiotice essa moça quis que você fizesse?

Tristran pôs no chão a taça de madeira e se levantou, ofendido.

– O que poderia fazer você imaginar – perguntou ele, um tom que tinha certeza de ser arrogante e desdenhoso – que minha amada me houvesse despachado em alguma missão tola?

O homenzinho olhou para ele, com os olhos como contas de azeviche.

– Porque esse é o único motivo pelo qual um rapaz como você faria a estupidez de atravessar a fronteira e entrar na Terra Encantada.”

Essa passagem deixa bem claro o quanto Tristran é imaturo e o quanto o homenzinho compreende rapidamente a situação do garoto e o tipo de pessoa que é Victoria. Assim que toma conhecimento da promessa da estrela, a criatura nos dá um dos conselhos mais preciosos do livro inteiro:

“- Sabe o que eu faria?

– Não – respondeu Tristran, com a esperança começando a brotar no coração. – O que?

O homenzinho limpou o nariz.

– Eu a mandaria enfiar a cabeça na lama do chiqueiro e trataria de sair para procurar outra que quisesse me beijar sem pedir a terra em troca. Sem dúvida, você encontraria alguma.”

Anotaram? Essa é pra levar pra vida.

4 – Muitas vezes o amor da sua vida é aquela pessoa que mais te tira do sério.

Fonte: Tumblr - Reprodução

“Mas é claro! Nada mais romântico que ganhar uma mulher sequestrada de presente.” Fonte: Tumblr – Reprodução

Quando finalmente conhecemos a estrela Yvaine, ela e Tristran já estão brigando. Afinal, qualquer garota de bom senso ficaria extremamente chateada de ser levada à força para ser o presente de alguém.

“- Você é a estrela – disse Tristran, começando a entender.

– E você é um palerma – retrucou a garota, com rancor – um mariquinhas, um pateta, um parvo e um metido!”

E é exatamente isso que Tristran estava precisando: interagir, entrar em conflito, conhecer a complexidade de um ser humano.

Acho que essa é inclusive uma concepção do próprio autor. Certa vez, falando sobre seu relacionamento com Amanda, Neil Gaiman falou a seguinte frase:

“Nós não somos um casal perfeito. Nós somos só um casal. Nós nos amamos e damos nos nervos um do outro.”

Porque muitas vezes o seu par ideal é aquela pessoa que bate de igual pra igual com você. E quando pessoas se consideram equivalentes, elas discutem. Claro que existe uma linha tênue separando opiniões diferentes e pessoas que simplesmente não se suportam. Mas é uma linha bem tênue mesmo, ou você nunca ouviu que o ódio é o sentimento mais próximo do amor? Clichê, eu sei, mas ainda válido.

Quanto mais Yvaine e Tristran interagem e convivem, mais se tornam especiais um para o outro, e o garoto arrepende-se de tê-la levado acorrentada. Destaco a maneira como Yvaine é descrita e como os diálogos dos dois acontecem. Ao contrário de Victoria, raramente Tristran repara no físico da estrela, embora saibamos que esta também possui beleza. Se não me engano, em momento algum Tristan chega mesmo a dizer que a acha bonita. Os dois enxergam coisas mais profundas, como a voz ao cantar, a luz do sorriso. Yvaine inclusive continua manca por toda a vida, após ter machucado a perna ao cair do céu.

Nada como a convivência... Fonte: Tumblr - Reprodução

Nada como a convivência… Fonte: Tumblr – Reprodução

5 – Seu par ideal não pede nada em troca.

Ao contrário do que acreditava Tristran, não foi preciso provar seu amor para que Yvaine acreditasse nele. Essa é outra importante tecla que Gaiman faz questão de apertar em várias passagens do livro.

Por um lado temos Victoria, em seu egoísmo e visão material, onde o casamento é uma conveniência e um negócio:

“- Eu, me casar com você? – repetiu ela, sem acreditar. – E por que cargas dágua eu me casaria com você, Tristran Thorn? O que você poderia me dar?”

Mais adiante, o homenzinho peludo também alerta:

“- Ela o mandou para cá em busca de fortuna? Antigamente era um pedido muito comum. A gente via uns rapazolas perambulando por todos os cantos […]”

Ao final do livro, descobrimos que Tristran é o legítimo herdeiro do trono da Terra Encantada. Porém, apesar de todos os títulos e posses que o aguardam no castelo, de uma vida de glórias e de riquezas, o casal prefere esperar mais alguns anos para debutar na realeza, rodando o mundo em novas aventuras, chegando surrados e sujos de lama. Yvaine não cobra que Tristran prove seu amor, apenas que vivam a vida e suas experiências sempre juntos.

Saindo um pouco da temática apaixonada, Stardust ainda carrega muitas outras lições importantes, sobre paternidade, amadurecimento, amizade e a finitude da vida. Para os enamorados ou não, crianças ou não tão crianças assim, vale muito a pena a leitura. Interessante que a adaptação para o cinema, embora possua alterações significativas no roteiro, mantém a ideologia do autor. Aliás, algumas cenas do filme  conseguem ser mais didáticas nos pontos acima do que o próprio livro.

No fim das contas, Gaiman nos mostra que uma dose de amor-próprio é fundamental na busca de um grande amor.

"E ele estava certo" Fonte: Tumblr - Reprodução

“E ele estava certo” Fonte: Tumblr – Reprodução

OBS: Tenho uma dificuldade enorme com o nome do protagonista. No livro temos Tristran Thorn, enquanto na adaptação cinematográfica, apenas Tristan Thorn, sem o R. Enfim, os dois jeitos são válidos.

Consequências dos diferentes POVs
O que aconteceu com Eragon?

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