Vale a pena ler Julia Quinn?

Já fazia um bom tempo que eu queria escrever sobre a Julia Quinn aqui no TBS. Para além da fantasia, sempre tive um fraco por romances históricos, e Julia Quinn acabou ocupando um lugarzinho de destaque na minha estante e no meu coração.

Fonte: maisqinerds – Reprodução

Sem contar as histórias leves e divertidas, daquelas leituras para aproveitar em casa de pijama, achava a técnica narrativa da Quinn muito interessante: ela é alguém que realmente fez seu dever de casa, tanto comercialmente quanto artisticamente falando.

Porém, e isso acontece com mais frequência do que eu gostaria, recebo alguns olhares tortos quando expresso meu amor pelos livros açucarados da tal autora americana. É como se o gênero do romance, principalmente o romance histórico, com suas cenas de chá quentinho e bailes de gala, fosse considerado uma “forma inferior” de literatura. Como se o gênero contasse apenas com histórias comerciais e clichês programados para capturar mocinhas incautas e sonhadoras pelo pé. Ou, como ouvi certa vez: não gosto deste tipo de livro porque prefiro histórias que me façam pensar.

Ouch.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Daí surgiu a ideia de trazer a Luciana, do Coruja em Teto de Zinco Quente, para debater e questionar cada um desses estereótipos, bem como analisar os valores e estilos que a Tia Quinn coloca em suas obras. Luciana não só foi a pessoa que me apresentou à Julia Quinn, pra começo de conversa, como também deve ser uma das blogueiras mais entendidas de romance histórico que você vai encontrar nesse país. Por razões diversas, o post acabou ficando na gaveta, esquentando como uma receita em banho-maria. Mas bastou o anúncio da Editora Arqueiro sobre o lançamento da série Smythe-Smith aqui no Brasil para que meus neurônios voltassem a formigar em direção ao projeto.

Bem, sem mais delongas, hoje teremos uma conversa informal e nem um pouco imparcial (porém cheia de justificativas) sobre porque você deveria começar a enxergar a obra de Julia Quinn sob um ângulo mais favorável.

*****

Luciana: Quero começar dizendo duas coisas. Primeiro, sou apenas, e acima de tudo, uma leitora muito enxerida, então não escutem a Fernanda quando ela disser que sou das pessoas mais entendidas sobre o assunto – afinal, nem sou especialista em Letras e muito menos em História e posso estar falando grandes besteiras por aqui. Depois não digam que eu não avisei. Mas, olha, agradeço pela confiança. E, claro, pelo convite para vir tagarelar por aqui.

Segundo lugar, e isso é importante, para todo mundo que acha que romance ‘romântico’ é subgênero de alguma coisa, problema desse tipo de pensamento é que para maior parte dos críticos, todo tipo de literatura de gênero é um tipo ‘menor’ de arte. O que é realmente hilário a se considerar que algumas das mais importantes obras do chamado cânone ocidental se inserem nessa categoria, de Shakespeare a Austen – que, especialmente para o leitor moderno, não tem como NÃO ser um romance histórico.

Fonte quoteaddicts – Reprodução:

Particularmente, eu leio quase de tudo. Meu único preconceito literário declarado é com livros de autoajuda ou de ficção disfarçada de autoajuda – e não porque eu ache que esse tipo de livro esteja abaixo da minha magnânima presença, mas simplesmente porque não há nada que eu deteste mais no mundo do que gente (e, por tabela, livros) que acha que pode meter o bedelho e dizer como eu devo ou não viver.

Fernanda: Hahaha, somos duas.

Luciana: Vamos montar um clube e mandar convites para as tias chatas para ver se elas se tocam de quando estão sendo inconvenientes. Embora essa seja uma esperança de que já me desfiz, porque como bem demonstra a autora de que falaremos hoje, família existe para pegar no pé…

Enfim, já que estou num humor meio beligerante hoje, complemento minha apresentação dizendo a quem acha que não pode aprender nem tem nada a pensar lendo um romance histórico, que o problema vai mais pela sua própria preguiça em parar para refletir – porque, como já dizia meu sábio avô, a gente pode tirar lição até da desgraça. E mesmo que assim não fosse, ler também é um divertimento e se a história conseguiu te fazer passar as horas, esquecer as obrigações e roubar umas risadas, então cumpriu sua função e tem seu mérito. Querer julgar os outros por aquilo que eles leem é uma babaquice sem tamanho.

Feito esse disclaimer, vamos ao que interessa! Julia Quinn!

Meu primeiro contato com tia Quinn se deu por acaso. Isso foi por volta de 2009, último semestre de faculdade, dias de estresse e muito cabelo arrancado. Estava na livraria, investigando as prateleiras atrás de coisas interessantes com que me distrair quando não estava surtando escrevendo sobre direito de guerra e convenções de paz para o TCC, quando dei de encontro com The Viscount Who Loved Me – traduzido cá no Brasil como O Visconde que me Amava. A capa era da edição inglesa, desenhada em traços corridos, e ela foi a primeira coisa que me chamou a atenção; a segunda, claro, foi o título, que imediatamente me arrancou uma risada. Comecei a ler sentada no chão mesmo e uma tarde voou inteira sem que me desse conta. Todo mundo deve ter me achado completamente louca sentada ali, volta e meia soltando uma gargalhada, mas olha, nem me importo, porque essa tarde me rendeu o descobrimento de uma autora que se tornaria uma das favoritas na minha estante.

Fernanda: E quem diria que anos depois, em janeiro de 2015, eu estaria caçando dicas de leitura até me deparar com o artigo do Coruja sobre a Julia Quinn. Comprei o primeiro volume dos Bridgertons apenas para “ver qual era” e acabei passando uma tarde inteira grudada no livro, dando cabo de toda a história numa única sentada e já procurando encomendar as continuações.

Fonte: Tumblr – Reprodução

A Julia tem um estilo muito fluido e leve de escrever. Ela não se demora com descrições ou cenas desnecessárias e todos os seus diálogos são rápidos e incrivelmente precisos. Admiro a capacidade dela de escrever romances tão enxutos.

Luciana: De fato, ela não enrola muito e, de forma geral, existe um enredo linear, não são cenas episódicas com entremeios de encher linguiça, que acontece muito no gênero. E, bem, já que chegamos até aqui, falemos então do gênero.

Fato é que Julia Quinn faz parte da tradição do que se costuma chamar ‘bodice-rippers’ (a tradução literal, ‘rasgadores de corpete’, não tem nem de longe a mesma graça) – em termos diretos e objetivos, pornografia leve para consumo feminino. Então, sim, ela escreve cenas de sexo; não, elas não são nem de longe gráficas como um filme pornô e, mais importante, o relacionamento sexual não é o clímax (haha) dessas histórias. O grande mérito de tia Quinn e que a diferencia de outros títulos na prateleira dos romances de banca – que, como já observei, nem sempre têm lá grandes enredos – é o humor, combinado a um desenvolvimento dos personagens que vai para bem além do romance.

Quinn tem sido bastante comparada a uma gigante da literatura, a inglesa Jane Austen e essa é uma comparação que se sustenta num nível superficial.

Austen nos dá muito de contexto histórico, social e econômico, sendo uma exímia crítica da sociedade de sua época e há uma infinidade de camadas de subtexto a se descascar em todos os seus romances. Em essência, seus livros falam de relacionamentos e sobre a busca do par perfeito (especialmente se ele tem uma renda de dez mil libras por ano…), funcionando por nos entregar protagonistas críveis, com os quais conseguimos nos identificar e por quem torcemos apaixonadamente. Ela é também uma profunda conhecedora das nuances psicológicas de seus personagens e não à toa é considerada uma das grandes precursoras do romance – no sentido mais amplo de estilo narrativo que se prende às minúcias da realidade e não na categorização de gênero ligada ao romantismo.

Fonte: quoteaddicts – Reprodução

Quinn também tem o mérito de escrever personagens por quem somos capazes de sentir empatia. Suas mocinhas não são princesas ingênuas, perfeitas e virginais e seus heróis são extremamente humanos em seus medos e anseios. Eles não se apaixonam à primeira vista, construindo seus relacionamentos pouco a pouco. E, mais que isso, eles estão inseridos num contexto maior, de família e de sociedade, enriquecendo suas personalidades e dando credibilidade ao seu desenvolvimento pessoal ao longo das histórias.

Ela não tem o mesmo tipo de sutileza da Austen, e seus personagens se inserem no meio aristocrático, ao passo que Austen está mais preocupada com a classe média, escrevendo sátira social. Quinn também é mais otimista e não tem tanto do cinismo que Austen por vezes demonstra, mas ao final, acho que se trata de uma comparação válida na satisfação que o leitor comum, interessado no relacionamento romântico e no humor, tira das duas autoras.

Fernanda: Quinn realmente sabe entregar personagens bastante humanos. Existem três aspectos abordados na obra dela que são geniais e que deveriam receber um maior crédito:

Primeiro, além de suas mocinhas serem mulheres de carne e osso, com defeitos e tudo mais, elas também são amigas. Parece uma bobagem, mas é algo muito importante de abordar, principalmente se considerarmos a ampla faixa etária de seu público leitor. Vou deixar aqui um pedacinho de uma declaração dada pela própria Quinn sobre o assunto:

“Me parece que as histórias românticas tiveram sucesso em retratar amizades masculinas fortes, mas eu raramente vejo amizades femininas fortes. Encontros entre mulheres parecem sempre cair nas seguintes categorias:
– Nossa mocinha e a tia idosa que é realmente mais esperta do que todos imaginam.
– Nossa mocinha e a inocente irmã mais nova que ela quer cuidar e proteger a todo custo.
– Nossa mocinha e a criada fiel.
– Nossa mocinha e a bruxa vilã saída dos infernos.
Agora, não há nada errado com esses elementos de enredo. Pelo menos eu espero que não, porque eu mesma uso alguns deles! Mas nunca me pareceu que as heroínas românticas possuíam o tipo de amigas que eu tinha – as mulheres com quem você fofoca, as mulheres com quem você chora, mulheres que você pode ficar sem ver por dois anos, e quando você encontra, é como se as tivesse visto apenas ontem.”

Fonte: Tumblr – Reprodução

Luciana: Isso, de fato é extremamente importante, nem de longe uma bobagem, Fernanda. Todo mundo sabe que existe um certo discurso rasteiro de que mulher é falsa, gosta de fofocar e cuidar da vida dos outros e está só esperando para te dar uma facada nas costas. Mulheres não são confiáveis e é melhor ter um amigo homem. Aposto que todo mundo por aqui já ouviu uma variante desse tipo.

Assim é que é muito bom ver retratos positivos de amizades femininas, relacionamentos em que elas estão de igual para igual, sem subordinações. A Quinn faz isso muito bem, trazendo amizades de anos, amizades fraternas, sogras e noras que se respeitam e se admiram, cunhadas que se pedem conselhos…

Fernanda: O segundo aspecto fala sobre os mocinhos da Julia. Eu sei que, para escrever romances calientes e mexer com imaginário do leitor, é preciso criar personagens apaixonantes. Porém, vários autores confundem “apaixonante” com “perfeito”. Os mocinhos de Quinn possuem sim algumas daquelas características clichês de serem altos, elegantes, bons de lábia e todas essas coisas que a gente tá careca de ver no cinema, mas eles definitivamente não são perfeitos. Eles fazem besteira, brigam por motivos bobos, se arrependem, tremem de medo e vão chorar no colo da mãe. Eles são pessoas, e apesar de vestirem a camisa do arquétipo galante e independente, Julia sempre dá um jeito de mostrá-los em situação de vulnerabilidade. Acho que principalmente no caso do Anthony.

Luciana: Acho que todos eles têm essas vulnerabilidades. Eles não são retratos de homens viris com peito cabeludo e usando kilts – um tema muito recorrente em capas de romances de banca (homens de saia são, aparentemente, um fetiche feminino universal…) -, não apenas porque eles preferem usar casacas, mas porque uma boa parte deles possuem profundas inseguranças, especialmente em relação às suas figuras paternas autoritárias – vide Simon, de O Duque e Eu e Gareth St. Clair de Um Beijo Inesquecível.

Até na aparência física, ela desafia essa perfeição usualmente dada aos heróis dos romances românticos. De uma forma geral, defeitos físicos são considerados uma marca de vilania – se tem uma corcunda, é manco ou possui uma cicatriz, além de um bigode para ficar penteando, é quase certo que ele será um vilão (aliás, o direito penal por muito tempo seguiu essa máxima; se não acreditam em mim, pesquisem sobre Cesare Lombroso). Sem forçar muito a memória, consigo pensar em pelo menos dois protagonistas da Quinn que têm de andar de bengala, John Blackwood de Dancing at Midnight – que além de tudo sofre com estresse pós-traumático por causa de seu tempo como soldado nas guerras napoleônicas – e Hugh Prentice, o herói de A Soma de Todos os Beijos, o terceiro volume da série Smythe-Smith que está sendo lançado agora em português.

Fonte: quoteaddicts – Reprodução

Fernanda: Por fim, o terceiro aspecto é que, embora estejamos focados na interação do casal protagonista, Quinn nunca deixa passar batido seus personagens secundários. As famílias de seus romances possuem desenvolvimentos intrincados, com particularidades, altos e baixos. Não importa que é uma história açucarada: ainda haverá espaço para tratar as relações de mãe e filho, de irmã, de patroa. Em O Visconde que Me Amava, por exemplo, dá para encontrar um relato sincero e tocante sobre uma madrasta que resolve tomar para si a responsabilidade de criar com amor e carinho a filha órfã do novo marido.

Luciana: Sim. Isso para não falar em como ela desenvolve o tema da viuvez e do processo de aprender a amar de novo. Uma das melhores cenas de O Conde Enfeitiçado é o diálogo sobre isso, muito franco, entre Violet Bridgerton e sua filha, Francesca.

Isso é muito legal. Na verdade, é uma das melhores partes dos livros dela – as interações familiares, amores e rixas fraternas, intervenções parentais, primos, tios, avós, todo mundo dando pitaco, na versão inglesa da macarronada da nonna, com chá no lugar de macarrão porque, como todo mundo sabe, chá é a panacéia universal.

A essas relações familiares é dada uma importância que se expande a cada livro em função da continuidade. Julia Quinn tem várias séries diferentes, sendo a mais famosa a dos Bridgerton, contando os romances de cada um dos oito irmãos com esse sobrenome. Mas todas essas séries estão interligadas num universo maior, da sociedade inglesa do período regencial, de forma tal que personagens se tornam recorrentes, sendo protagonistas em um volume para retornar mais adiante como elenco de apoio, mais maduros, com novos desenvolvimentos em sua própria história.

Fonte: Tumblr – Reprodução

A melhor parte de ler Julia Quinn é, provavelmente, o fato de a própria Quinn não se levar a sério. Todos os seus livros parodiam clichês do gênero – ela não se furta de fazer humor com todas as fórmulas que costumamos associar ao romance de banca. Isso é brilhante, porque esses romances costumam ser bastante formulaicos e você dificilmente será pego completamente de surpresa por eles… mas a Quinn consegue surpreender. E consegue te fazer rir loucamente no processo também.

Ela tem um domínio da linguagem maravilhoso – demonstrado particularmente pela fixação de Caroline Trent de To Catch an Heiress em aprender e se utilizar das palavras mais obscuras do dicionário – e sabe, como ninguém, se aproveitar de trocadilhos e turnos de frase. A descrição do momento em que Penelope Featherington se apaixona em Os Segredos de Colin Bridgerton demonstra bem a forma como ela se utiliza de clichês e da linguagem para negar certas expectativas:

“On the sixth of April, in the year 1812 –precisely two days before her sixteenth birthday– Penelope Featherington fell in love.
It was, in a word, thrilling. The world shook. Her heart leaped. The moment was breathtaking. And, she was able to tell herself with some satisfaction, the man in question –one Colin Bridgerton– felt precisely the same way.
Oh, not the love part. He certainly didn’t fall in love with her in 1812 (and not in 1813, 1814, 1815, or– oh blast, not in all the years 1816-1822, either, and certainly not in 1823, when he was out of the country the whole time, anyway.) But his earth shook, his heart leaped, and Penelope knew without a shadow of a doubt that his breath was taken away as well. For a good ten seconds.
Falling off a horse tended to do that to a man.”

Confesse agora que você ficou surpreso e soltou uma gargalhada após ler esse trecho. E tia Quinn nos brinda com montes de momentos como esse…

Fernanda: Minha cena favorita da Quinn, até hoje, é também uma das primeiras que li: o (des)encontro de Simon e Daphne no baile de O Duque e Eu. Lembro de ter me divertido muito com a situação do casal, ainda mais por perceber uma autora que sabia ridicularizar o próprio enredo (e seus clichês) sem abobalhar os personagens. É difícil conseguir esse equilíbrio, ainda mais quando você lida com a sociedade conservadora e recatada da época. Quinn consegue criar um humor autêntico e ainda assim manter a credibilidade da narrativa e de sua pesquisa histórica. O que, guardadas as devidas proporções, era algo que Jane Austen gostava de fazer.

Ela também trabalha bem os clichês com a máxima do “steal old stuff (roube coisas velhas)”. Tá faltando enredo? Pegue toda a narrativa da Cinderela e adapte. O que poderia soar como cópia descarada torna-se releitura nas mãos de Quinn: mesmo que a gente já saiba o rumo que aquela história vai tomar, as decisões dos personagens e suas interações uns com os outros e com a vida social da época são suficientes para tornar a obra única e para nos manter fisgados pela leitura.

A lei da releitura. Fonte: Mauricio de Sousa – Reprodução

Luciana: Isso é bem verdade. Aliás, nesse assunto, não sei se comentei antes, mas um dos motivos de ter caído de amores por O Visconde que me Amava foi ter enxergado de cara que a história era uma referência a A Megera Domada e Muito Barulho por Nada, sendo essa última minha comédia favorita do bardo.

Chamo a atenção também para o fato de que os relacionamentos que ela apresenta são construídos pouco a pouco; com uma ou outra exceção, não há amores à primeira vista, e, quando isso acontece, os personagens passam por longos períodos de separação e só se resolvem à medida em que conversam e se conhecem de verdade – vide Everything and the Moon e Um Perfeito Cavalheiro.

Fernanda: Mudando o foco da conversa para o lado mais mercadológico da coisa, também acho a carreira da Julia Quinn bem interessante.

Graduada em Harvard (História da Arte) e aspirante a Medicina, Quinn era uma devoradora de livros desde a mais tenra idade. Seu gosto por romances era fortemente desaprovado pelo pai, e, para provar a ele que os livros eram úteis em sua vida, Quinn resolveu usá-los como material de estudo para escrever suas próprias obras.

(Engraçado que, mesmo sem conhecê-la, eu tenho uma ideia muito fixa de que a Quinn é imensamente teimosa, haha. Deve ser algo que captei de suas personagens, mas acho que se não fosse o pai desaprova-la, a humanidade teria perdido um montão de suas histórias.)

Foi talvez por enxergar os livros como objetos de estudo que Julia Quinn conseguiu vender seus manuscritos sendo ainda tão inexperiente com o mundo editorial. Fico pensando no quanto essa jovem Quinn tinha visão de mercado: sabia que ela escolheu o sobrenome artístico Quinn porque dessa maneira seus livros seriam colocados para vender ao lado dos de Amanda Quick, uma renomada autora de romances históricos? Eu jamais pensaria em uma estratégia tão sutil e ao mesmo tempo eficiente de alcançar seu público alvo!

Tia Quinn sacando dos paranauê. Fonte: Twitter – Reprodução

Luciana: Concordo contigo no quesito teimosia, e acrescento que ela deve saber muito bem como rir de si mesma.

Imagino a Quinn como uma amálgama de seus dois personagens escritores, Lady Whistledown, a misteriosa colunista social que espicaça todo mundo, especialmente nos primeiros volumes da série Bridgerton e Sebastian Grey de Ten Things I Love About You – e posso vê-la em pé em cima da mesa de centro, fazendo uma leitura dramática das passagens mais ridículas de seus romances da mesma forma que Sebastian faz quando ainda é apenas um personagem secundário em What Happens in London.

Ela entende seu público, e sabe como conversar com ele. A Quinn é uma das autoras de romances históricos com maior presença em redes sociais. Seu site também é muito bom, repleto de conteúdo extra e muito claro na forma como interliga as diferentes séries num mesmo mundinho. Ela alimenta a curiosidade dos leitores, responde questões, esclarece dúvidas… sabe exatamente como jogar.

Aliás, isso de ela apresentar num livro um personagem no elenco de apoio e no seguinte transformá-lo em protagonista cria uma cumplicidade maior, uma familiaridade com aquele universo. É um pouco como Pratchett faz, não é? E é também inspirado nos antigos folhetins, servindo como um gancho para você ir atrás do livro seguinte. Eu, por exemplo, vivo na expectativa dela escrever sobre o Winston Bevelstoke, o irmão de Olivia, protagonista de What Happens in London, especialmente depois que ele reapareceu como amigo de Richard Kenworthy no último volume do quarteto Smythe-Smith.

Fernanda: Até porque, o mercado anda saturado de trilogias e sagas. Às vezes desanimo de entrar de cabeça numa série cujo final só poderei conhecer anos depois, ou então simplesmente não há espaço na agenda de leituras para comprometer com apenas uma história. Nesse formato, onde o livro dá gostinho suficiente para querermos o próximo mas também nos deixa satisfeitos para parar, todo mundo sai ganhando. Acho que a Arqueiro captou bem a estratégia da Quinn ao lançar os quatro livros ao mesmo tempo.

Fonte: Vintage Pri – Reprodução

Luciana: Sem dúvida. Eu li os três primeiros livros do quarteto Smythe-Smith mais ou menos na época em que foram lançados e cheguei a resenhar A Soma de Todos os Beijos, e aí quando você me chamou para escrever esse artigo, terminei o quarto volume e já enveredei pelo Because of Miss Bridgerton, o início da série dos Rokesbys.

Todo mundo que é familiar com a obra da Quinn conhece o musical das Smythe-Smith, que ocorre uma vez por ano e é um acontecimento que todos que têm uma desculpa razoável (ou irrazoável) e não se deixam levar por questões como compaixão – ou então são surdos – tentam faltar. Levadas pela tradição familiar, quatro moças da família sobem ao palco para tocar violino, cello e piano, fazendo Mozart revirar no túmulo toda vez. Elas se apresentam ano após ano até que estejam casadas, quando uma nova geração de Smythe-Smiths (a família é enorme e muito fecunda…) assume os instrumentos e o palco.

A série acompanha uma geração de primas Smythe-Smith do quarteto musical… ou melhor, três primas e uma substituta, já que a Sarah escapa da ribalta em Uma Noite Como Esta, mas vamos por partes…

Fonte: Quotefancy – Reprodução

Em Simplesmente o Paraíso acompanhamos a história de Marcus Holroyd, o Conde de Chatteris e Honoria Smythe-Smith, irmã caçula de Daniel que, por sua vez, é melhor amigo de infância de Marcus. Na verdade, considerando o tempo que Marcus passou visitando os Smythe-Smith em seus tempos de Eton, é razoável dizer que ele é praticamente da família. Após um escândalo que leva Daniel a ter de fugir da Inglaterra, Marcus se arvora numa espécie de guardião secreto de Honoria, tendo por tarefa, entre outras funções, espantar pretendentes à mão da moça.

Esse é um dos livros mais leves do quarteto – se você ignorar a parte em que Marcus quase morre por causa de uma infecção. Honoria e Marcus se conhecem desde crianças – ela tinha seis anos, ele, doze, quando Marcus começou a frequentar a casa. Há uma leveza, uma familiaridade na forma como eles se tratam que é muito gostosa de ler. Ambos são personagens que anseiam por criarem uma família, especialmente por terem passado por uma criação bem solitária – Marcus, filho único de família aristocrata; Honoria como caçula inesperada de uma série de irmãos bem mais velhos.

Os dois também adoram chocolate, o que faz com que eu me identifique enormemente com os dois.

Uma Noite Como Esta é, talvez, o livro que eu menos goste na série, não necessariamente por ser ruim, mas porque, regra geral, torço o nariz para situações de amor à primeira vista. Em todo caso… nesse volume, Daniel Smythe-Smith volta do exílio na noite do no musical anual da família e apaixona-se de primeira pela governanta de suas primas Pleinsworth, que está substituindo Sarah ao piano. Juliet Anne Wynter está fugindo do seu passado e a ideia de ser o objeto da afeição de um conde – especialmente um que já esteve antes envolvido num escândalo – não é exatamente a melhor maneira de continuar escondida. Daniel é bastante dramático e me faz pensar no Gregory de A Caminho do Altar… mas tem seus bons momentos. De forma geral, contudo, o que mais gosto nesse livro são as meninas Pleinsworth e, sério, a Frances me mata de rir…

Fonte: Dimensão da Leitura – Reprodução

Então temos A Soma de Todos os Beijos, onde Lady Sarah Pleinsworth tem de lidar não apenas com a obsessão de sua irmã caçula com unicórnios, como também o casamentos de seus primos – primeiro Honoria e depois, Daniel – quando é confrontada com Hugh Prentice, o homem que desafiou Daniel para um duelo e deu início à toda confusão que acabou com o exílio de Daniel.

Sarah detesta profundamente Hugh por seu papel em ‘quase destruir’ a família. Hugh também não vai muito com a cara de Sarah, em virtude de sua aversão por ‘moças dramáticas’. Só que, por mais que Hugh estivesse bêbado quando acusou Daniel de roubar nas cartas, dando causa ao duelo que quase lhe fez perder a perna; o verdadeiro culpado pelo exílio de Daniel foi seu pai, que jurou vingança pelo que tinha sido feito ao filho. É só com muita insistência e ameaças que Hugh consegue convencer o pai a para com a vendetta e permite assim o retorno de Daniel.

Seja como for, a animosidade entre Hugh e Sarah não é o suficiente para evitar o surgimento de uma atração e enquanto brigam feito cão e gata, vão se somando também os beijos roubados…

Por fim, Os Mistérios de Sir Richard começa com mais uma apresentação do musical anual e dessa vez as atenções estão voltadas para Iris Smythe-Smith, a celista do quarteto. Iris chama a atenção de Sir Richard Kenworthy que precisa, de forma desesperada, casar – e casar o mais rápido possível. Devo confessar que não foi difícil descobrir qual era o segredo por trás de tanta pressa, mas ainda que não tenha me surpreendido, o livro me rendeu muitas gargalhadas (de novo, prestem atenção nos unicórnios quando eles aparecerem).

*uma pequena curiosidade já que falamos de Austen no começo: tanto Iris quanto Richard são leitores de Austen – aliás, a própria abertura do livro é uma citação direta do início de Orgulho e Preconceito.*

Fonte: Tumblr – Reprodução

O quarteto das Smythe-Smith traz tudo o que mais gostamos na Quinn: os relacionamentos familiares, o bom humor e, claro, os romances de fazer suspirar. Tem ainda o talento de dar rosto e voz – e tornar simpáticas – personagens que até então pensávamos apenas como ridículas por sua insistência em manter um evento que atraía pena e escárnio. É bem mais fácil entender porque personagens como Lady Danbury se prestam a comparecer ano após ano ao musical, mesmo sabendo o quão horríveis eles serão, quando as Smythe-Smith vêm à frente para se justificar com tradição, amor à família e a consciência de suas próprias deficiências (exceto pela Daisy. Daisy realmente acredita ser uma virtuose no violino…).

Já comecei a ler a série nova da Quinn – os Rokesbys. Adorei o primeiro, Because of Miss Bridgerton (e a Bridgerton dessa história é irmã de Edmund, o pai falecido da família que dá nome à série dos… Bridgerton) e estou na contagem regressiva para o lançamento de The Girl With the Make-Believe Husband. Vamos ver o que mais tia Quinn tem a aprontar pra gente…

Fernanda: Julia Quinn tem um mercado enorme a conquistar por aqui, e ainda tem muito material a ser traduzido e publicado (fora que a mulher não para de escrever novas histórias). É bem possível que o nome dela torne-se cada vez mais carimbado nas prateleiras das nossas livrarias. Então, espero que tanto eu quanto Luciana tenhamos ajudado, com essa conversa meio devaneio de fã meio redação do ENEM, a responder de uma vez por todas que sim, vale muito a pena ler os romances da Julia Quinn. Este pode até não ser o seu gênero favorito (e gosto é uma coisa realmente única), mas é preciso reconhecer as qualidades profissionais desta baita escritora. Por baixo das camadas de saias e rendas, das tardes de chá e das páginas bem humoradas que passam por nós num piscar de olhos, tem também muita técnica, muita crítica e um jeito pra lá de irreverente de encarar a vida.

A sensibilidade discreta de Reescrevendo Sonhos
Deuses Americanos: viajando de carro pela mente de Neil Gaiman

Comentários:

Loading Facebook Comments ...