Vale a pena ler O Chamado do Cuco

O texto a seguir pode conter spoilers de: O Chamado do Cuco. Depois não diga que eu não te avisei…

Em plena semana de anúncio sobre o lançamento de Harry Potter and the Cursed Child, terminei a leitura de O Chamado do Cuco através de outra indicação recebida aqui no blog.

Escrevendo sob o pseudônimo de Robert Galbraith, J K Rowling nos apresenta a uma trama investigativa protagonizada pelo detetive particular Cormoran Strike e sua não tão provável assistente, Robin, ambos focados no suposto caso de suicídio da modelo Lula Landry, uma celebridade do momento cuja vida era pra lá de complicada.

Fonte: hypable.com - Reprodução

Fonte: hypable.com – Reprodução

O Chamado do Cuco foi um livro que me deixou bastante satisfeita, quase como um reencontro quentinho com a autora da minha infância. Embora num tom bem mais maduro, Rowling claramente está lá, perceptível em cada uma das palavras. E como eu estava com saudades dela!

Anos atrás, tive uma experiência não muito satisfatória ao ler Morte Súbita, seu primeiro romance fora do universo Harry Potter, principalmente porque o livro se mostrou algo completamente diferente do que eu estava esperando. Acostumada com a magia e aventura de Hogwarts, seus diálogos limpos e personagens carismáticos, foi um balde de água fria encarar a poluída e degradante trama de Morte Súbita. Além disso, fiquei com a impressão de que Rowling derrapou ao tentar criar uma voz narrativa “completamente adulta”. Sinto que ela, assim como Gaiman e outros autores, é daquele tipo de escritor que precisa de uma dose de abstração e fantasia para fazer com que seus questionamentos ganhem vida e cresçam na mente do leitor. A narrativa seca de Morte Súbita tornou várias partes massantes.

Não deixa de ser um bom livro, um descortinar nu e cru da realidade, mas está longe de ser marcante. Não me arrependi de tê-lo lido, mas continuei na mesma crise de abstinência pós Harry Potter.

O Chamado do Cuco veio então para ficar no meio termo. Seu enredo é bem mais mundano e maduro do que o de Harry Potter, mas ele traz consigo aquela aura de mistério e magia da qual Morte Súbita tanto carece. É verdadeiramente Rowling para adultos, mesmo que mascarada num pseudônimo.

E quando falo em magia, não estou me referindo àquele tipo de mágica feito por uma varinha, que disso a vida de Cormoran Strike passa bem longe. Falo daquele tipo de atmosfera, que nos prende através de pequenos elementos e nuances, que nos dá aquela sensação de estar ouvindo uma história instigante antes de dormir. A magia, em O Chamado do Cuco, está nos personagens pitorescos (verossímeis graças ao universo das celebridades), nas pistas do crime, nas descrições de violência, no passado nebuloso do detetive.

Fonte: setedosesliterarias.blogspot.com - Reprodução

Fonte: setedosesliterarias.blogspot.com – Reprodução

Foi um daqueles livros que não consegui largar até entender o que estava acontecendo. Rowling sabe guardar momentos de clímax e mistérios muito bem, e aplica isso com maestria no enredo de sua nova obra.

Um bom exemplo disso é o grande número de suspeitos. O livro apresenta tanta gente com motivação e capacidade de cometer um crime, tanta gente com muito a ganhar ou pouco a perder, que fica difícil apontar de cara o que realmente aconteceu com Lula. Mesmo quando temos um palpite, não existem provas suficientes que refutem as outras opções.

O que foi outra coisa que me agradou bastante no livro. O método de investigação de Cormoran é bem realista e não incorpora aquelas deduções chamativas sherlockianas, que embora sejam empolgantes, nos passam aquela ideia de que somente gênios com QI estratosférico seriam capazes de resolver um crime. Cormoran é apenas um cara normal com uma carga apurada de cuidado analítico e organização, fruto em grande parte de seu treinamento no exército. Então, pode esquecer a coleta de fios de cabelo e pegadas de cavalo: com Cormoran, o leitor também se sente parte da investigação, centrada basicamente na coleta e confronto de relatos. Cada frase, cada declaração, pode ser rastreada pelo leitor. Ficamos com aquela sensação de que “hey, um detetive particular poderia realmente descobrir tudo isso”.

(Lembro que quando o livro saiu nas livrarias, e até então ninguém sabia a identidade de Galbraith, muitos atribuíram essa dinâmica realista ao fato do autor ser um ex-policial. O que significa que Rowling fez seu dever de casa direitinho…)

Fonte: The Guardian - Reprodução

Fonte: The Guardian – Reprodução

E ao mesmo tempo, e aí dou todo o crédito à autora, lá pela terceira parte do livro, apesar de acompanharmos Cormoran como expectadores, o texto nos distancia de seus pensamentos. Estamos em sua cabeça no início, aprendendo sobre sua vida e sobre seus métodos, mas depois o detetive apenas sugere ter entendido o que houve no apartamento de Lula e aponta em que momentos as informações foram encontradas. Essa abertura de espaço é essencial para que o mistério do livro se mantenha e para que o leitor seja convidado a vestir a camisa de detetive. É a partir deste ponto que comecei a desenvolver diversas teorias, voltar capítulos e procurar conspirações. E me diverti muito.     

Gostei também do desfecho da trama. Simpatizo com histórias em que o crime vai se formando aos poucos, aqueles que nos deixam com a ideia de que, caso alguém tivesse parado e analisado friamente a coisa, poderiam ser evitados. A motivação sempre esteve ali, sorrateira, escondida apenas pelas correrias e desatenções cotidianas de uma família há muito desequilibrada. De certa forma, mesmo após descobrir o culpado, senti que todos os personagens foram um pouco responsáveis pela morte de Lula, seja por seus atos relapsos ou por sua sede em participar de seu mundo de fama e dinheiro.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

E por falar nele, o universo das celebridades é o ponto de conexão entre O Chamado do Cuco e Morte Súbita.

Assim como em Morte Súbita, Rowling se mostra uma pessoa muito observadora e mordaz quanto aos trejeitos e joguetes das pessoas. Ela descreve a fama como uma experiência agridoce, sempre a colocando como uma antagonista, algo capaz de destruir relacionamentos, amizades e até mesmo vidas. As celebridades de Rowling são desequilibradas, perdidas, muitas vezes interesseiras e amorais.

Antes de se tornar famosa, Rowling experimentou a falência, passou por um divórcio complicado e lutou contra uma depressão, então fico imaginando o quão surreal para ela deve ser a selva do glamour e dos holofotes (a autora é conhecida por ser uma pessoa que detesta ser entrevistada e prefere a calmaria de sua casa). O mundo de Lula aparece como algo corrosivo, até repulsivo em certos momentos. Ela desnuda tão bem a beleza frágil e plástica de um mundo de aparências que parte da graça do livro é simplesmente escutá-la narrar olhares enviezados, balanços de cabeça e cruzadas de perna. Sou uma grande fã de pessoas que conseguem captar a intensão humana através de pequenos detalhes. Ao mesmo tempo, Rowling adiciona tons de cinza aos personagens, fazendo com que o objetivo da obra não seja uma mera divisão entre o bem e o mal, mas sim a reflexão sobre o quanto a fama, o dinheiro e o poder em excesso podem deixar cicatrizes.

E finalmente, as duas cerejinhas do bolo: Cormoran Strike e Robin Ellacott.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Cormoran é um personagem bem complexo, com diversos níveis dramáticos e uma carga emocional extensa. Filho ilegítimo de um astro da música, mãe drogada falecida, irmã sufocante. Como se não bastasse, perdeu parte da perna enquanto servia ao exército, foi à falência e rompeu o relacionamento conturbado com a estonteante porém desequilibrada, Charlote. Ufa… e isso são só as coisas básicas.

Rowling conduz Cormoran muito bem, permitindo que criemos empatia com seus sofrimentos, mas sem nunca deixar que o detetive faça papel de coitadinho. Em momento algum o vemos como incapaz ou falido, mesmo em suas cenas mais vulneráveis. Esperamos e torcemos apenas para vê-lo levantar da cama e dar a volta por cima. Strike é o tipo de pessoa que sabe se virar.

Engraçado que na cena em que Strike descola uma improvável noite com Ciara Porter, supermodelo e amiga próxima de Lula Landry, fiquei com a sensação de que Rowling queria mais do que simplesmente massagear o ego ferido do detetive. A relação com Ciara, embora empodere Cormoran, é também um momento degradante, uma quebra de sua capacidade afetiva (que já andava por um fio desde Charlote). Considerando a imagem que a autora nos passa sobre o mundo das celebridades e o fato de Ciara estar bêbada naquela noite, acho que a cena tem uma profundidade muito maior do que apenas uma “volta por cima” para Strike.

Robin, por sua vez, vai desabrochando ao longo do livro. Nos primeiros capítulos, a secretária temporária vive em função do noivo, Matthew, e anula-se quase que completamente, absorta nos preparativos do grande dia.

Robin no começo do livro. Fonte: Tumlr - Reprodução

Robin no começo do livro. Fonte: Tumlr – Reprodução

Matthew é o tipo de cara “inofensivo”, porém controlador e capaz de destruir a auto-estima da noiva como ninguém (desconfio que isso vá se intensificar ao longo dos próximos livros). Ele cobra que Robin arranje um “emprego de verdade”, faz pouco caso da investigação e detesta a consideração com que a futura esposa trata o chefe.

E talvez justamente por causa da relação com Cormoran, que a desafia e a ensina a ser autossuficiente (mesmo que ele não perceba isso), Robin começa a ser capaz de desafiar Matthew e batalhar por seus desejos. Nos últimos capítulos temos uma Robin já bem diferente: ousada, questionadora. Inclusive, as primeiras impressões que Rowling nos passa da personagem são bem superficiais, falando sobre sua beleza, roupa e aliança de noivado. Aos poucos, porém, essas descrições vão sendo substituídas por palavras mais densas, incluindo as muitas vezes em que Strike elogia a secretária por sua inteligência.

Acho bacana a forma como a amizade de Robin e Cormoran se desenvolve. Como costuma acontecer no início de boa parte das amizades entre sexos opostos, temos aquele clima de tensão, simplesmente porque não queremos que o outro pense que estamos cruzando a linha tênue entre a amizade e o flerte. Gosto do cuidado com que os dois transformam sua relação profissional em cumplicidade amiga, meio desajeitados, meio envergonhados, mas muito respeitosos (é a ética de Robin, inclusive, que a torna uma secretária inestimável na visão do detetive).

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Não li o segundo livro da série, O Bicho-da-Seda, mas espero sinceramente que a relação dos dois não evolua para um romance. Seria muito mais legal ter uma dupla de amigos do sexo oposto que simplesmente funciona bem. Reconheço que em alguns momentos Rowling insinua uma tensão sexual, como quando Robin experimenta o famigerado vestido verde. Mas gostaria, de verdade, que a coisa não passasse disso. Pelo que vejo nas fanarts por aí, acho que sou a única…

Por fim, é impressionante a familiaridade e aconchego com que Rowling trata cada recanto da cidade de Londres, um apego carinhoso que transborda por cada página da história. O Chamado do Cuco é capaz de transportar o leitor, guiando-o pelas ruelas escuras, pegando o metrô e ainda te oferecendo um cafezinho.

O Chamado do Cuco não é um livro com a pretensão do sucesso de Harry Potter. Mas é um ótimo romance policial, com personagens fortes o suficiente para segurarem o leitor ao longo de uma série de livros. Que venha o próximo mistério!  

(Vale lembrar que o terceiro livro da série, Career of Evil, já foi lançado desde outubro de 2015 e está em processo de tradução. A previsão para as livrarias brasileiras gira em torno do dia 2 de abril.)

Fonte: Capas da série - Reprodução

Fonte: Capas da série – Reprodução

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