Vamos escrever terror?

Eu sou um zero à esquerda na hora de escrever terror. Aliás, não só na hora de escrever, mas também na hora de ler ou assistir qualquer coisa do gênero. Sou o tipo de pessoa que vai dormir de luz acesa e com o cobertor puxado até a testa. Sair da cama pra pegar um copo dágua e ter de atravessar o corredor no escuro? Nem pensar, dá pra esperar até de manhã.

Mas é outubro, né… então até que vale a pena levar um sustinho saudável.

Fonte: WallpaperUP - Reprodução

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Mergulhando de cabeça no clima de Halloween, resolvi dar uma pesquisada sobre o tema. Afinal, o que faz uma boa história de terror? Como é que a gente provoca medo em alguém usando apenas palavras?

O livro de terror, no final das contas, precisa fazer um verdadeiro milagre: transportar o leitor de tal modo para o interior de suas páginas que o ambiente ao redor não faça a menor diferença. Ou seja, precisa arrepiar os cabelinhos da nuca, quer você esteja lendo sozinho em casa de madrugada ou à beira da praia com os amigos num lindo dia de verão. Terror é bastante sobre imersão.

Mas como a gente faz isso? É só sair jogando um monte de cenas assustadoras?

Como você já deve imaginar, fazer terror vai muito além disso: é uma verdadeira alquimia. Depende de um monte de fatores, de uma boa dose de sensibilidade do autor e, claro, de uma premissa realmente capaz de assustar a audiência.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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Para desvendar um pouco desse mistério, acabei elaborando a seguinte lista, com 4 reflexões que todo escritor deveria fazer antes de abraçar o Zé do Caixão que existe dentro de si:

O terror, o horror e a repulsa

Parece ser a mesma coisa, mas não é. E não sou eu que digo isso não, é alguém infinitamente mais qualificado que eu no assunto: Stephen King.

“I’ll try to terrify you first, and if that doesn’t work, I’ll horrify you, and if I can’t make it there, I’ll try to gross you out. I’m not proud.

Eu vou tentar aterrorizar você, e se isso não funcionar, vou horrorizar você, e se eu não conseguir chegar lá, eu vou tentar enojar você. Não me orgulho disso” – Stephen King

O terror é um estado sentimental. É o medo supremo.

Ou seja, quando o psicopata vestido de palhaço sai correndo na sua direção com um machado, ou quando você descobre que sua única chance de viver é serrar a própria perna, isso é terror. É o medo sobre a cena que está se desenrolando, uma reação que quase sempre evoca o instinto primal da sobrevivência.

Fonte: Giphy - Reprodução

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Já o horror é a antecipação do que está por vir, o estado de suspense que nos faz temer ir ao banheiro depois de um filme de fantasma. Confesse: não teve coragem de se olhar no espelho pra não arriscar a possibilidade de ver um espírito parado bem ao seu lado? O horror é exatamente isso: a coisa nem está lá de verdade, mas você já está impressionado o suficiente para temer o futuro.

Engraçado que aqui no Brasil temos o costume de classificar o gênero como terror, quando na verdade a maioria das histórias é, na verdade, horror. Apenas utilizamos cenas/artifícios de terror como ferramentas para assustar ainda mais nossos leitores. E pessoalmente, acho bem mais interessante conseguir tirar alguém do sério apenas com a sugestão do que está por vir. O medo de virar a página vale muito mais do que qualquer monstro.

E por fim, temos a repulsa.

Sabe aquele asco que chega faz subir um arrepio pela coluna? Ele não tem nada a ver com o medo, mas te deixa tão desconfortável quanto. E é sempre muito útil para as histórias de terror, basta ver a quantidade de cenas nojentas que encontramos por aí: corpos apodrecidos, gosmas fedorentas, peles escamosas. Não é a toa que o terror também faz uso de tantos animais considerados asquerosos pelo senso comum: são morcegos, ratos, insetos e teias de aranha que ajudam a criar o clima de repulsa.

E já reparou que a maioria desses animais são seres noturnos? O que nos leva para o próximo tópico…

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O que te assusta?

Há quem diga que temos medo de monstros, fantasmas e alienígenas. Mas será mesmo?

Muitas das coisas que nos assustavam antes não funcionam mais. Os vampiros de antigamente viraram ícones da cultura pop (e brilham ao sol). Lobisomens são um dos motes mais utilizados para romances eróticos. Quando pensamos em bruxas, visualizamos o castelo de Hogwarts. Até mesmo vilões pensados para aterrorizar, como Jason e o serial killer mascarado de Pânico, viraram piadas queridas.

O que é assustador está sempre mudando, sempre se reinventando. A única coisa que permanece é o núcleo: o porque aquilo te assusta.

Retomando o uso gigantesco de animais noturnos em livros de terror, acabamos descobrindo que não é o bicho em si que causa medo, mas sim sua representação, seu arquétipo. Tememos a noite, tememos a escuridão. É algo que está em nossos genes ancestrais, em nossa natureza. Predadores que se escondem nas sombras, que rastejam, que envenenam. Tudo isso tem raízes profundas em nosso imaginário coletivo, servindo para criar um clima propício ao susto e à aversão.

Então, a melhor dica na hora de escolher um tema para a sua história é não pensar no monstro ou ser sobrenatural em si, mas sim nas características por trás do que os torna tão perigosos/assustadores. Pense no que te assusta, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Espaços apertados, cadáveres ou talvez solidão? Procure entender o que nos atrai a parar o carro para ver um acidente de perto, ou apertar o play naquele vídeo que, você tem certeza, vai te deixar sem dormir direito por uma semana.

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Existe um filme de 1993 chamado O Anjo Malvado, com Elijah Wood e Macaulay Culkin em versão mirim. O longa nem mesmo é de terror, mas apresenta algumas cenas tão perturbadoras que me marcou para sempre. De vez em quando me pego pensando no final daquele filme e ainda sinto os arrepios (e olha que eu era criança quando assisti). É esse tipo de perturbação que você vai desejar explorar.

Outro exemplo interessante é porque tantas pessoas tem medo de palhaços (eu inclusa). Como algo supostamente inventado para fazer rir pode causar tantos sentimentos ruins? A resposta, que você lê aqui, também é uma ótima pista para criar um terror de qualidade.

No final das contas, o terror precisa funcionar sobretudo para quem o escreve.

Bom Halloween, folks! Fonte: Tumblr - Reprodução

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O terror das pequenas coisas

Lembra quando falei lá em cima sobre a necessidade da imersão? Pois bem, sem ela, o terror não funciona.

Não adianta criar uma cena fantástica, cheia de perigos e sustos, se você não parou para ajeitar o cenário e o clima primeiro. A coisa simplesmente não funciona. Se você insere, digamos, um alienígena assim do nada, o sentimento do leitor não é de medo, mas sim uma enorme interrogação: WTF?

Por isso, gosto de chamar esse processo imersivo de “o terror das pequenas coisas”, algo que eu havia comentado anteriormente num post sobre O Oceano no Fim do Caminho. Nesse livro, Gaiman nos deixa em extrema agonia ao narrar uma cena que não tem absolutamente nada de mais. Porém, a escolha do autor pelas palavras certas faz a diferença. Narrando como um menino retira um verme do pé, Gaiman nos coloca no cenário de um banheiro úmido, fracamente iluminado, frio. Descreve lentamente o processo de retirada do verme, que se contorce, que se agarra à pele, que se parte. Continue puxando esse tipo de sensação em seu leitor e até o Ursinho Pooh pode se tornar um serial killer renomado…

Outra abordagem amplamente utilizada é a de estragar coisas boas. Como as bonecas fofinhas que na verdade eram objetos encapetados, ou o vestido de noiva da vovó que se torna algo agourento. Torne maléfico uma situação bonita, divertida ou comum, e já estará dando um nó na cabeça da sua audiência.

Recapitulando: seja com torneiras que pingam, luzes que piscam ou ventos que assoviam, tente preparar terreno para melhor receber as principais cenas de terror. A ambientação é sua melhor amiga.

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Personagens, trama e clichês

O terror é um dos gêneros mais ricos em matéria de clichês e perfis de personagens. Alguns já são velhos conhecidos e até motivo de piadas, como “a mocinha estudante” e o “o cara que todo mundo achou que estava morto mas não estava”.

É possível fugir de todos os clichês? Dificilmente. Por mais que você tente evitar,  vai acabar escorregando num deles. Porém, sempre dá para abordá-los de maneira diferente, tratando seus personagens com seriedade. O que uma pessoa de carne e osso faria naquela situação?

Uma dica legal que li num artigo diz que é sempre legal deixar que seus personagens cometam erros e sintam medo. Muitos dos problemas devem ser consequência de suas próprias ações, mostrando que cada decisão possui um preço. E quando deixamos o medo do personagem tornar-se palpável (e realista) o suficiente, acabamos passando muito deste sentimento para o leitor.

Noutras vezes a trama também exigirá o uso de “personagens descartáveis”, aquela pessoa que está lá apenas para ser morta e mostrar ao público que a ameaça é pra valer. Afinal, para que exista um serial killer a combater, primeiro precisamos de vítimas.

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O grande trunfo aqui é não deixar suas escolhas tão óbvias. Não despreze o desenvolvimento psicológico de um personagem só porque sua jornada será curta: deixe o leitor na dúvida sobre quem é e quem não é indispensável, e depois faça-o lamentar pela perda. Novamente, pode vir a calhar a estratégia de comprometer personagens através dos próprios erros.

E cuidado para não focar nos sustos e esquecer do principal: a trama. Um livro de terror ainda é um livro, ainda precisa prender a atenção, cativar e nos fazer desejar conhecer o final. É imprescindível deixar todas as pontas amarradas e não delegar ao acaso os principais acontecimentos.

Até porque, o terror anda de mãos dadas com a tragédia, naquela visão de que coisas ruins também acontecem com boas pessoas. Tente justificar os fatos e mostrar uma luta real entre o mal e alguém que ainda tem esperanças de sobreviver. Alguém que ainda acredita (mesmo que no impossível).

Por fim, chegamos à conclusão de que uma boa ambientação, uma trama amarrada e personagens com motivações e defeitos bem delimitados são os alicerces de uma boa história de terror. O resto cabe à sua imaginação, ao longo processo de desencavar, nas profundezas de sua mente, aqueles elementos primordiais capazes de te fazer prender a respiração.

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