Venho notando que tenho diminuído o número de posts técnicos aqui no blog, aqueles que falam sobre escrita. Não aqueles sobre mercado, análise de autores ou linguagem, mas textos que abordem verdadeiramente o ato de escrever.

Abro uma aba no navegador para reler uma postagem antiga intitulada “A teoria BuUUBA na criação de narrativas” e ela me parece ingênua e incompleta. Tudo bem, penso, éramos todos pessoas diferentes há três anos atrás. Achar falhas em meus textos antigos só pode ser um sinal de que em alguma coisa nessa vida eu estou evoluindo, certo?

Fonte: Wonderbook – Reprodução

Mas talvez o real motivo pelo qual tenho evitado este tipo de post é porque quanto mais me aprofundo no mundo da escrita, menos tenho foco nas técnicas.

Mas calma lá. Técnicas são importantes, tá bem? Você precisa conhecê-las, você precisa estudar bastante. Agradeço a todos os artigos que li e oficinas que assisti. Porém, assim como aprender a dirigir, chega um ponto em que você deixa de se preocupar com as marchas e o retrovisor, porque já internalizou aquilo tudo, e começa a pensar em quais ruas são melhores para andar no horário de pico e que ritmo de aceleração vai permitir economizar mais combustível. Antigamente, meu pai ficava horrorizado porque eu não conseguia ouvir o “motor pedindo pra subir de marcha” em nossas aulas de direção. Hoje em dia, eu naturalmente sinto quando os pneus estão baixos e sei identificar quando um barulhinho novo surge.

Ao longo do caminho, você vai aprender as regras, e aí começará a notar pequenas particularidades que não havia percebido antes. É preciso conhecer as técnicas para também saber como quebrá-las, para saber os pros e os contras e o que se adapta ao seu processo de escrita. Tendo um arsenal de ferramentas numa caixa, você saberá qual delas será útil num determinado momento e quais serão tão irrelevantes quanto um serrote para apertar um parafuso.

E não é como se eu tivesse virado uma assumidade na escrita – oh meu deus, vamos dar um prêmio de redação pra ela. Não. Apenas cheguei num ponto onde meu interesse está mais voltado para a narrativa do que para a escrita. Talvez mais tarde apareça a necessidade de revisitar as técnicas, não sei. Uma das coisas mais bonitas e assustadoras sobre autores é que eles nunca sabem quando estão prontos. Provavelmente morrerão achando que não estão (o que é uma verdade e um mito ao mesmo tempo). Mas meu interesse atual é, sobretudo, descobrir o que separa uma história bem escrita de uma história bem escrita que muda sua vida, que te provoca emoções, que transmuta a forma como você encara a realidade. Em certo ponto, estou desvinculando do produto livro e explorando mais a fundo a arte da história, de exercer a criatividade.

O Wonderbook, livro do Jeff VanderMeer, caiu na minha vida como um daqueles presentes do acaso, emprestado por um amigo que repetia “olha, você precisa ler isso”.  Ficou encostado na minha prateleira por dois meses, apesar de lindo e de eu dar umas espiadelas de vez em quando. É que 2017 foi um ano…você sabe, né? Não tive tempo de me dedicar a estudos imersivos sobre escrita.

Jeff VanderMeer. Fonte: Jon Glatfelter – Reprodução

Mais eis que 2018 surge e com ele a promessa de maratonar o Wonderbook e fazer uma série de posts, um por capítulo (então, se você não tá sabendo, isso aqui vai ser uma série). Pego o livro pra ler e BAM!… VanderMeer está justamente falando sobre como boa parte da construção de uma história é trabalho braçal, paciência e técnica, tudo bem, mas que existe aquela centelha artística que não pode ser ignorada e que é sobre ela que vamos falar. Acho que me apaixonei por este livro ainda na introdução.

Não por acaso, nosso primeiro capítulo é sobre inspiração e o ciclo criativo.

Jeff começa explicando que a palavra inspiração costuma ser interpretada como uma única centelha, uma eureka que dá forma a uma ideia e depois desaparece. Mas, na verdade, a inspiração é um processo contínuo que ocorre no desenvolvimento de uma peça ficcional, uma sucessão de revelações e resoluções que a sua mente vai colocando em ordem a fim de amarrar os elementos de uma história.

“Para alguns autores, esses momentos adicionais de eureka podem nunca se equiparar ao impacto inicial de onde a história surgiu para eles – mesmo que a centelha possa virar um tipo de reação em cadeia. […] Você não pode estar inspirado todo dia, assim como não pode estar loucamente, profundamente, insanamente apaixonado todo dia. Mas a forma como esses momentos se manifestam enquanto você se move através do mundo e o mundo se move através de você definem o âmago da sua criatividade.” 

Fonte: Wonderbook – Reprodução

O livro também ressalta a importância de desenvolver a imaginação desde a infância, pois a imaginação promove a criatividade e, por sua vez, a inspiração. Aliás, acho que o maior trunfo deste capítulo é martelar na cabeça do leitor que não existe tal coisa como uma pessoa eternamente criativa. O que existem são pessoas cujas imaginações foram exercitadas, tal qual um músculo.

Crianças são naturalmente imaginativas, mas necessitam de um ambiente favorável para que continuem a desenvolver esta faceta ao longo do tempo. Vou deixar aqui um ensaio da saudosíssima Ursula Le Guin, que explica com palavras muito melhores que as minhas porque o modelo de vida adulta que temos hoje inibe o pensamento criativo. Ou, nas palavras de VanderMerr, porque o exercício da imaginação costuma ser encarado com um viés negativo, como algo frívolo e sem retorno.

Acompanho o Neil Gaiman e a Amanda Palmer no Instagram. Vendo o dia a dia do filho deles, é possível compreender como a criatividade é exercitada. O pequeno Ash é visto em casas abandonadas, em cemitérios, shows, passeatas e florestas repletas de cogumelos. E isto não significa gastar um montão de dinheiro viajando e provendo as experiências mais exóticas daquele site de turismo, mas sim permitir que a criança visualize o mundo em seus diferentes aspectos.

Um dos exercícios propostos por VanderMeer, e que eu reconheço nas brincadeiras que tive com minha mãe, é, ao ouvir uma criança dizer que “uma família de ursos se mudou para a casa ao lado”, preferir respostas como “e como eles vão ao supermercado?” ou “porque se mudaram?” ao invés do insípido e infértil “famílias de ursos não moram em casas”. Porque as crianças sabem disso. Pode confiar em mim, elas sabem.

Fonte: @sunflower-moon at DeviantArt – Reprodução

A fantasia não é o oposto da realidade. Uma criança (ou adulto) que fantasia não é alguém distante do mundo real, ou ignorante quanto a ele, mas sim alguém capaz de interpretá-lo e representá-lo de outras formas.  Nas palavras de Haruki Murakami:

“Não é que eu tente inserir coisas surreais na história. Eu apenas tento representar coisas que são reais para mim, um pouco mais realisticamente. Contudo, quanto mais eu tento representar realisticamente coisas reais, mais as coisas que aparecem no meu trabalho tendem a se tornar irreais. Em outras palavras, ao olhar através de lentes irreais, o mundo parece mais real.”

Ao que VanderMeer complementa:

“Até o problema do que é ou não fantástico pode ser incompreendido, especialmente por aqueles que estão amarrados ao tribalismo de gênero. Realmente importa se o impulso imaginativo resulta no fantástico, no senso de conter um evento explicitamente fantástico? Não. Na verdade, a escrita imaginativa ocorre através de todos os gêneros e subgêneros possíveis […] Muitas vezes é isso que queremos dizer com relação à ‘voz’ do escritor. Ursos falantes se mudaram para a casa ao lado. A realidade realmente importa mais que a qualidade da metáfora?”

Dito isso, o autor separa uma lista de “outputs” e “inputs” imaginativos.

Os outputs são atributos chave que definem e dão suporte à sua imaginação. Eles promovem o habitat ideal para que sua imaginação seja exercitada e dê frutos. São eles:

  • Curiosidade: ter uma natureza inquisitiva é essencial para um escritor. E aqui, não estamos falando sobre pesquisas acadêmicas ou sobre descobrir que presente está embrulhado debaixo da árvore de natal. Estamos falando da primitiva necessidade do saber por saber, sem que exista um fim específico. Por exemplo, quando você se pega pesquisando sobre o ritual de acasalamento do salmão até alta madrugada (true story), ou sobre pombos correio que foram mortos durante a Primeira Guerra Mundial (outra true story). Não há um objetivo definido, não estamos pesquisando para uma história sobre peixes e pombos. É apenas um deslumbramento pelo mundo, uma coceirinha para conhecer coisas novas. E cada pedacinho desconexo de informação servirá como combustível para a sua criatividade, ainda que nos momentos mais inesperados.
  • Receptividade: nas palavras do autor, “abertura e empatia florescem ao sermos receptivos com o mundo e as pessoas que estão nele, não apenas por sermos curiosos sobre essas coisas”. Receptividade é eliminar barreiras e ser curioso não só com relação às informações, mas também com emoções, sensações e tragédias. Se a curiosidade proverá combustível para suas histórias, é a receptividade que proverá o tempero, a capacidade de dar formas empáticas a uma narrativa.
  • Paixão: não adianta nada ter curiosidade e receptividade se você não realmente se apaixonar pelo que está fazendo. Porque sim, infelizmente, haverão muitas partes chatas. Sem paixão, é impossível manter a centelha criativa respirando. A paixão é “o sangue que preenche as veias do seu eu criativo”.
  • Urgência: acredito que esta não tenha sido a melhor tradução para o termo, mas urgência neste contexto representa a capacidade de se ater ao momento presente. Vivenciar verdadeiramente as experiências da vida, perceber seus cheiros, sabores e o cenário ao seu redor é a melhor forma de abrir espaço para sua criatividade e receptividade. Um escritor cuja criatividade é bem exercitada sabe que bons estímulos podem surgir a qualquer momento.

Fonte: Wonderbook – Reprodução

A figura acima é mais completa e facilita o entendimento de como essas coisas agem em conjunto. Note que, embora os quatro pontos levantados circundem toda a vida criativa, estes elementos estão apoiados em outros conceitos, responsáveis por fazer você sair do mundo das ideias e concretizar sua obra. São eles: disciplina, prática, distância e persistência. Enquanto a disciplina, a prática e a persistência permitirão que você atinja resultados mais fluidos, consistentes e “acabados” (e não aquela pilha de projetos em aberto na última gaveta), a distância permitirá que você tenha perspectiva em relação ao que está sendo feito, e consiga emergir para analisar seu próprio trabalho.

Ah, e viu aquele último pedacinho da imagem rotulado como “scar or splinter”? Jeff VanderMeer acredita que, muitas vezes, a inspiração surge a partir de uma angústia, de uma ânsia, de uma “coceirinha”. O que o autor explicita é algo muito próximo da escrita terapêutica, um conceito que eu já conhecia mas que só fui ter realmente contato a partir dos posts dO Caminho Interior. De que muitas vezes uma história nasce não para ser comercializada, ou sequer compartilhada, mas sim para materializar algo que nosso subconsciente não consegue lidar no campo sentimental.

Aliás, este foi um dos maiores tapas que levei do livro. Como minha rotina costuma ser bem corrida, muitas vezes suprimo a escrita de textos que não tenham um propósito. São posts, newsletters ou contos cujo destino eu já conheço. Acabo escrevendo apenas por demanda, e esse não é o melhor dos caminhos se o seu objetivo for exercitar a criatividade e encontrar o cerne da sua escrita. Até porque, e isso nos leva aos inputs imaginativos, muitas vezes precisamos deixar o lado feio e assustador da nossa imaginação aparecer…

Fonte: Wonderbook – Reprodução

Inputs para a inspiração são canais pelos quais informações são absorvidas e se transformam em ideias. Estes inputs variam de autor para autor, e também podem depender do tipo de ficção que você está produzindo. Você pode buscar inspiração em filmes, livros, peças de teatro, músicas, conversas de estranhos no metrô, fotografias antigas e praticamente qualquer outro meio. Mas é importante conhecer seu perfil de escrita e saber identificar que tipo de coisa faz seu coraçãozinho disparar. Jeff usa como argumento uma lista com cinco exemplos de conjuntos de inputs:

  • Escrever sobre o que te interessa: se a gente for retomar o conceito de paixão ali em cima, dá pra entender como esse estilo funciona. Escrever sobre algo que te desperta interesse é uma das formas mais fáceis de gerar engajamento. Até porque, como explica VanderMeer, é possível simular expertise num assunto (através de pesquisas ou entrevistas), mas é impossível simular entusiasmo.
  • Escrever sobre o que é pessoal: para outros autores, a inspiração vem da tentativa de “ficcionalizar” eventos reais, sejam eles pessoais ou atrelados a pessoas próximas do escritor. Essa abordagem é um tanto diferente de simplesmente escrever sobre o que você sabe, porque aqui você estará fornecendo não só os fatos, mas seu posicionamento e sua percepção sobre eles. É importante destacar, contudo, que o tiro pode sair pela culatra: para escrever de modo satisfatório sobre um evento traumático, um autor pode por vezes necessitar de tempo e afastamento. Isso não significa que não haverá inspiração ali, mas que ela precisará ser gestada com mais cuidado.
  • Escrever sobre o que é desconfortável: de vez em quando, é preciso dar vazão ao lado sombrio da nossa imaginação. Nem sempre ela será feita de unicórnios rosados e gordinhos, às vezes também temos monstros esqueléticos debaixo da cama. A melhor coisa a mentalizar nestes momentos é que não existe obrigação alguma de trazer um texto à público (a não ser que você seja obrigado por contrato…mas você me entendeu). Colocar para fora coisas desconfortáveis, cenas duvidosas, medos e anseios é uma forma não só de lidar com o seu próprio subconsciente como uma oportunidade de experimentação. Você não faz ideia do tipo de coisa que pode sair daí. Aniquilação, do Jeff VanderMeer, é um exemplo disso.
  • Escrever randomicidades: outros autores são abençoados com o dom de encontrar inspiração em meio ao caos. Basta um estalo de surpresa diante de uma situação inesperada para colocar as engrenagens criativas pra girar. E aí, a partir do momento em que elas já estão girando, você pode mesclar seu processo com outro input – ou vários – desta lista.
  • Escrever a partir de demandas: alguns autores só conseguem dar início ao processo criativo a partir de um prompt, de um tema ou demanda. Por exemplo, alguns escritores dão preferência a antologias de temática definida, enquanto outros tremem só de pensar em ter de direcionar sua inspiração para um tópico fixo.

Fonte: Wonderbook – Reprodução

Por fim, Jeff fecha seu capítulo com uma recomendação: é preciso ser um feroz protetor da sua imaginação. Pois, ainda que existam alguns limites (algumas mentes são mais capazes de ativar a inspiração que outras, até por questões de estímulos durante a infância), a imaginação é uma força infinita. Citando o próprio autor:

“Tudo o que vemos ao nosso redor, seja funcional ou decorativo, já esteve na imaginação de alguém. Cada prédio, textura, cadeira, mesa, vaso, estrada e cada tostadeira. Na verdade, o mundo em que vivemos é uma manifestação de muitas imaginações coletivas e individuais.”

Tem mais um montão de coisas que eu gostaria de comentar sobre este mero capítulo de 40 páginas. Se eu não estivesse me segurando, provavelmente acabaria transcrevendo todo o texto na íntegra aqui pro blog (não estou muito certa, mas tenho uma leeeve impressão de que isso me renderia um processo…). Além do mais, uma transcrição não daria conta do recado: Wonderbook é uma obra visual, tátil, olfativa. Seu cheiro plastificado de enciclopédia me traz lembranças de infância, suas imagens e desafios de escrita são, por si só, estímulos criativos. E puxa, Jeff VanderMeer poderia ficar falando comigo por umas boas centenas de páginas antes que eu me sentisse remotamente cansada.

Infelizmente ainda não existe uma tradução para o português, mas se você desenrola no inglês, recomendo muitíssimo a leitura do livro! A versão que está comigo é a tradicional, mas já é possível adquirir uma edição revisada e ampliada (com lançamento previsto para julho de 2018). Basta clicar nos links acima. Lembrando que, ao utilizar estes links para realizar suas compras ou ao compartilhar e interagir com essa postagem nas redes sociais, você me ajuda a tocar esse bonde e escreve com letras garrafais na minha testa que “hey, seus artigos até que são legais”. ;)

Minha cara de monstro comedor de feedbacks. Fonte: Tumblr – Reprodução

Sem mais delongas, nos vemos no capítulo 2, moçada!

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