Eu hesitei muito sobre escrever ou não essa resenha. VBSA, embora um sucesso de vendas e um queridinho no coração de 9 a cada 10 leitores, não é um livro pra mim. Mas decidi que eu poderia falar sobre outra coisa, sobre outro aspecto no qual fiquei pensando: a tradução e sua importância para a conexão com o público.
Primeiro, uma rápida defesa tanto do livro quanto dos motivos que me levaram a não gostar gostaaar mesmo dele.
Depois de resenhar livros e escrever minhas próprias histórias, fazer parte da equipe da Faísca me trouxe um novo interesse: futucar o texto alheio. Eu já desempenhava esse papel na área acadêmica, revisando teses e dissertações como freelancer, mas eu nunca havia tido uma vivência extensa trabalhando em cima de textos de ficção.
Posso dizer que é tão divertido quanto escrever, mas com duas vezes mais responsabilidades. E, de tanto editar e revisar textos que não eram meus, fui pegando gosto pela coisa e achei por bem me profissionalizar. Além de me tornar uma escritora melhor, era um jeito de arrumar trabalhinhos que me permitissem ficar perto dos livros, das histórias e do mercado editorial.
Dentre as coisas que li do Felipe Castilho, com certeza Serpentário tornou-se a minha favorita. Ele é um livro… doido. Sem regras. Uma experiência de leitura em que o projeto gráfico se une com a prosa, com a forma, com cada tipografia e piadinha cretina colocada no momento certo.
Comprei meu exemplar lá em Porto Alegre, durante a Odisseia de Literatura Fantástica, pelas mãos do próprio Felipe (eleito por unanimidade miss simpatia de qualquer evento literário). No meio do burburinho de amigas e amigos empolgados com a obra, foi um desafio começar a leitura sem captar nada do contexto. Mas eu consegui. Não li nem as orelhas do livro. Apenas coloquei o bichinho no colo, virei a primeira página e fui.
Cá estou, cumprindo minhas promessas de ano novo de dois anos atrás (ah vá, antes tarde do que nunca). Eu sei, eu sei que o universo da literatura fantástica é saturado de referências culturais europeias, e que as lendas arturianas já foram exaustivamente debatidas e analisadas, mas eu queria… sei lá, ver com os meus próprios olhos?
Além disso, observando minha estante certo dia, resolvi subir ainda mais as apostas do desafio: e se, além das famosas Brumas de Avalon, eu lesse também a trilogia das Crônicas de Artur, do Bernard Cornwell? E se eu intercalasse os livros, para ter uma visão das histórias correndo em paralelo, aventura masculina vs feminismo em abordagem intimista? O quanto essas nuances se tornariam óbvias? Onde essas narrativas iriam divergir? Com quais personagens eu iria simpatizar em um livro e detestar no outro? A ideia foi tentadora demais para não colocar em prática…