Descrevendo personagens: bom senso e raras certezas

Nos primórdios da TV Globinho e similares, passava um desenho animado chamado Mickey e Donald em que por acaso também apareciam aventuras do Pateta (muitas coisas não faziam sentido naquela época…). Nesses episódios, Pateta tentava aprender alguma atividade nova através das instruções de um narrador, numa espécie de tutorial. E o Pateta sempre se embananava todo enquanto era soterrado por uma quantidade cada vez mais rápida de palavras técnicas e fórmulas que ele não fazia ideia de como equilibrar e que culminavam num resultado desastroso.

Sempre que vou criar um artigo técnico aqui no TBS, essa cena aparece na minha cabeça. Escrever é uma arte conceitualmente simples e também infinitamente complicada. Basta colocar uma palavra após a outra no papel, mas são mil e uma variáveis a considerar, listas de boas práticas, conselhos de ouro e, pior de tudo, um universo de regras que deverão ser quebradas em algum momento. Mas que momento? E como equilibrar construção de mundo, ritmo, premissas, profundidade dos personagens, estilo, gênero, ponto de vista e tudo mais?

Fonte: YAlicious – Reprodução

É inevitável estudar sobre escrita e não se sentir o Pateta de vez em quando.

Leia Mais


Só os Animais Salvam: a incapacidade de definir o que é ser humano

Dia desses, li o texto de um professor astrofísico da Universidade de Princeton, afirmando que o Universo é vasto demais para a criatividade da ficção científica. O que ele quis dizer é que, além de não conhecermos a totalidade do cosmos que nos cerca, somos igualmente limitados por nossa própria humanidade.

Fonte: DarkSide – Reprodução

Qualquer raça alienígena que imaginemos, qualquer sociedade ou sistema de governo ainda terá raízes em nossa própria experiência, em nosso paradigma sobre o que é, para começo de conversa, uma raça. Nossos aliens podem até ter duas cabeças ou cinquenta olhos, mas quando tratamos de seu interior, de seus desejos, temores e aspirações, temos personagens basicamente humanos. A ficção em geral trata sobre empatia, sobre como gerar compreensão entre personagens e leitores, sobre como criar essa ponte e então aproximá-los. Ainda que estejamos lendo sobre um filhote de cisne que pensa que é um pato, a vergonha do cisne por sua feiura é algo inerentemente humano. Por mais que nos esforçássemos para descrever sua percepção de cisne, ainda assim haveria um viés, pois nossa percepção é humana. Seria como pedir aos animais das cavernas, cegos após anos de evolução, para que nos explicássemos como são as cores do arco-íris.

Leia Mais


A Casa do Lago: reparação, famílias complicadas e uma boa dose de mistério

Eu vou tentar, pela fé, escrever uma resenha sem spoilers. Não que eu me importe em colocá-los no texto (desde que devidamente sinalizados), mas sim porque estou vindo de uma longa sequência de livros onde saber 1% a mais que o necessário sobre a trama pode arruinar a sua experiência de leitura. Então vou tentar manter você no escuro, está bem? Vem comigo:

Fonte: saletadeleitura – Reprodução

Quando recebi a newsletter com os lançamentos do mês da Arqueiro, não precisei pensar muito sobre qual livro requisitar. Meu sexto sentido apitava como louco para A Casa do Lago, e eu sabia que havia elementos ali capazes de me conquistar. O que é engraçado considerando que o TBS é um blog voltado ao gênero da fantasia. Em minha vida, raramente li romances policiais (posso contá-los nos dedos). No máximo os mistérios infanto-juvenis da série Vaga-Lume e um ou outro da Agatha Christie/Conan Doyle. Então porque diabos tomei essa decisão com tanta certeza?

Bem, a primeira coisa que me chamou atenção foi Alice Edevane, personagem central da história. Na década de 30, Alice acalentava o sonho de ser uma escritora. Aos 16 anos, porém, seus devaneios infantis nem sempre correspondiam com a realidade (vale lembrar que, naquela época, ter 16 anos ainda significava ser bastante protegida e conhecer pouco do mundo). Não que a jovem Alice soubesse disso…para ela, a vida encaixava-se perfeitamente em suas histórias, em suas tramas de romance e mistério. Até aquela noite. A fatídica noite que mudaria o destino dos Edevane para sempre.

Leia Mais


Eu finalmente li Jonathan Strange & Mr. Norrell

Jonathan Strange & Mr. Norrell (Susanna Clarke), um calhamaço de mais de 800 páginas revestido numa linda e intrigante capa azul, estava encostado na minha estante desde a Black Friday de 2015. E mesmo nesta época, já fazia bastante tempo que o Coruja em Teto de Zinco Quente indicava não só o dito cujo como também a minissérie homônima produzida pela BBC.

Mas eis que junho de 2017 chega e traz com ele um (pasme) inverno frio para Recife. Não sei se por magia ou aquecimento global, mas me vi na inédita situação de tomar chá e usar casaco dentro de casa. O dia em que saí de manhã cedo e havia neblina NO MANGUEZAL foi decisivo: estamos londrinos demais para eu não aproveitar e ler Jonathan Strange & Mr. Norrel.

Fonte: BBC – Reprodução

Leia Mais